Atlântico Sul e a "Amazônia Azul": o que é, de onde vem e por que importa ao Brasil
O que é
A "Amazônia Azul" é o nome que a Marinha do Brasil deu ao espaço marítimo sobre o qual o país exerce soberania ou direitos soberanos. A comparação com a Amazônia verde vem da ideia de que esse mar tem uma extensão e uma riqueza em recursos naturais comparáveis às da floresta 1. O nome não existe no direito internacional. É uma expressão brasileira.
O Atlântico Sul, por sua vez, é o oceano onde o Brasil está. Os limites variam conforme o uso: para a Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (ZOPACAS), por exemplo, a área vai do paralelo 16° Norte até a Antártida 7. A Amazônia Azul é a parte dele que o Brasil considera sua. A Política Nacional de Defesa de 2018 a descreve como um ecossistema de área comparável à da Amazônia brasileira e de "vital relevância para o país", com grandes reservas de petróleo e gás 5.
Este artigo trata o assunto como geopolítica: quem tem direito a quê, quem protege, quem disputa. Aqui o "realismo" é a escola das Relações Internacionais que vê os Estados como atores que buscam poder e segurança num sistema sem governo acima deles. É uma lente, não a única explicação.
De onde vem: do mare liberum à Convenção do Mar
Durante séculos, o mar foi tema de disputa entre potências. Até meados de 1600, Estados reivindicavam direitos sobre águas além de suas costas, e o Tratado de Tordesilhas (1494) dividiu terras entre Portugal e Espanha 1. A ideia contrária, de que o mar deve ficar livre à navegação e ao comércio de todos, foi defendida por Hugo Grotius em 1609 1.
No fim do século XIX, o oficial naval americano Alfred Thayer Mahan escreveu que o mar é, do ponto de vista político e social, "uma grande estrada" ou "um vasto espaço comum" (tradução nossa) por onde as rotas comerciais seguem trajetos conhecidos 8. Para ele, o controle dessas rotas pesa na grandeza dos Estados. Esse é o ponto de partida do que se chama "poder marítimo".
No século XX, os Estados costeiros passaram a esticar suas fronteiras para o mar. O Brasil fixou em 1970, por decreto, um mar territorial de 200 milhas náuticas, medidas a partir da costa 1. A Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, assinada em 1982 e em vigor desde 1994, trocou esse modelo por um sistema de zonas 1.
Como funciona: as zonas do mar
A Convenção divide o espaço marítimo em camadas. Cada uma dá ao Estado costeiro um tipo diferente de poder.
| Zona | Até onde vai | O que o Estado costeiro tem |
|---|---|---|
| Mar territorial | Até 12 milhas náuticas das linhas de base 1 9 | Soberania, com direito de passagem inocente a navios de todos os Estados (arts. 2 e 17 a 19 da Convenção) 9 |
| Zona econômica exclusiva (ZEE) | Até 200 milhas náuticas das linhas de base 2 | Direitos soberanos para explorar, conservar e gerir recursos naturais vivos e não vivos 2 |
| Plataforma continental | Até 200 milhas e, se a margem continental se estender mais, além disso, nos limites do art. 76 da Convenção (em regra, até 350 milhas das linhas de base ou até 100 milhas além da isóbata de 2.500 metros, conforme o caso) 3 | Direitos soberanos sobre os recursos do fundo e do subsolo 3 |
Duas observações evitam erros comuns. Primeiro, "linha de base" é a linha na costa a partir da qual se medem as zonas. Segundo, direitos soberanos não são soberania plena: na ZEE, navios e aviões de outros países continuam livres para navegar e sobrevoar, e podem instalar cabos submarinos 1. A soberania plena vale no mar territorial.
No direito brasileiro, a Lei 8.617/1993 acomodou esses conceitos às regras da Convenção, com mar territorial de 12 milhas, ZEE e plataforma continental 1.
O que muda além das 200 milhas
Para a plataforma continental, o limite pode passar de 200 milhas quando a margem geológica se prolonga. O Estado costeiro precisa então enviar as informações à Comissão de Limites da Plataforma Continental (CLCS), órgão da ONU. A Comissão faz recomendações, e os limites fixados com base nelas são definitivos e obrigatórios 3.
O Brasil apresentou seu primeiro pedido em 2004, de cerca de 963 mil km² além das 200 milhas 1. A Comissão pediu mais informações. Em 10 de abril de 2015, o país enviou uma submissão revisada parcial para a Região Sul, e a CLCS adotou suas recomendações em 8 de março de 2019 4. O artigo acadêmico de 2020 dizia que a Comissão já havia reconhecido cerca de 771 mil km² da solicitação original 1. A área total hoje reconhecida e a que continua pendente dependem de documentos da ONU que não foram confirmados aqui; quem quiser o número exato deve consultar a página da CLCS.
Atenção: os números sobre o tamanho da Amazônia Azul variam conforme o que se inclui (mar territorial, ZEE, plataforma estendida, ilhas oceânicas) e a data. Este artigo só cita área quando a fonte abriu e a data é clara.
O que há no mar: petróleo, comércio e rotas
Petróleo e gás. O pré-sal é a camada de petróleo sob uma espessa camada de sal, no fundo do oceano. Segundo a ANP, o pré-sal respondeu por 79,6% da produção brasileira de petróleo e gás em novembro de 2025: 3,913 milhões de barris de óleo equivalente por dia (boe/d), de um total de 4,921 milhões de boe/d 6. Um artigo acadêmico de 2020 cita dados de 2016 segundo os quais cerca de 90% do petróleo nacional já vinha da plataforma continental 1.
Comércio. O mesmo artigo cita que cerca de 95% do comércio exterior brasileiro chegava ao país pelo mar, segundo dados de 2016 1. Santos, no litoral paulista, ocupava a 35ª posição mundial por volume no ranking do World Shipping Council citado pelas autoras, que é de 2014 1.
Recursos vivos e minerais. A plataforma abriga pesca e potencial mineral, e a Marinha e o Itamaraty tratam o projeto da plataforma estendida em quatro eixos: econômico, ambiental, científico e de soberania nacional 1.
Exemplos na história
1. Mahan e a lógica do poder marítimo (1890)
Em The Influence of Sea Power upon History, Mahan escreve que viajar e comerciar por água sempre foi mais fácil e barato do que por terra, e usa a Holanda e a Inglaterra como exemplos 8. Daí vem a ideia central da escola do poder marítimo: rotas comerciais e a capacidade de protegê-las ligam economia e força naval. A leitura brasileira recente dessa ideia está na preocupação com as "linhas de comunicação marítima" 1.
2. O Brasil de 200 milhas, em 1970
Depois de conversas entre o Itamaraty e o Ministério da Marinha, o governo Médici sancionou em 1970 o decreto-lei que fixou o mar territorial brasileiro em 200 milhas. Houve protestos e notas de países que não aceitaram a medida, e o Brasil agiu em conjunto com outros países latino-americanos que haviam tomado decisão semelhante 1. O caso mostra um Estado costeiro ampliando por conta própria o que considera seu, antes de existir uma norma comum. Em 1982, a Convenção substituiu essa solução por um sistema de zonas 1.
3. A ZOPACAS (1986)
Em 27 de outubro de 1986, a Assembleia Geral da ONU aprovou a Resolução 41/11, que criou a Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul, por iniciativa do Brasil e com apoio da Argentina 7. O contexto era a Guerra Fria, e um dos objetivos era reduzir a presença militar de potências de fora da região 1. Segundo o Ministério da Defesa, a ZOPACAS tem 24 Estados-membros, sul-americanos e da costa oeste da África; a IX Reunião Ministerial, em abril de 2026, no Rio de Janeiro, teve 21 Estados presentes 7.
4. Outros Estados também pedem mais mar (2001–2016)
O Brasil não está sozinho. A Rússia fez seu primeiro pedido à CLCS em 2001, e a Comissão o devolveu por dados científicos insuficientes. O Uruguai pediu em 2009 e obteve recomendação positiva em 2014. A Argentina pediu em 2009 e recebeu recomendação em março de 2016 1. Esses casos mostram que a disputa pelo fundo do mar corre por um procedimento formal, mas cada Estado trata de proteger o que pode ganhar.
Como funciona o argumento realista aplicado ao Atlântico Sul
O raciocínio tem quatro passos (síntese deste artigo, não citação de um autor). Primeiro, o mar tem valor: recursos, rotas e fundo. Segundo, não existe autoridade acima dos Estados que garanta esse valor a ninguém. Terceiro, o direito reconhece uma parte, mas quem o faz valer, no dia a dia, é quem tem meios de vigiar e, se preciso, de impedir o uso por outros. Quarto, portanto, direito sem capacidade naval é papel.
A Estratégia Nacional de Defesa de 2018 segue essa linha. Segundo a Agência Senado, ela determina que a Marinha tenha meios para detectar, identificar e neutralizar ameaças nas águas jurisdicionais, como tráfico de pessoas e drogas, contrabando, pesca ilegal e crimes ambientais, com atenção especial à faixa entre Santos (SP) e Vitória (ES) e à foz do Amazonas 5. O documento recomenda a instalação de uma nova base de submarinos em Itaguaí (RJ) 5.
Críticas e limites
- Visão liberal (síntese deste artigo). Na tradição liberal das Relações Internacionais, regras e instituições podem moldar o comportamento dos Estados. Um exemplo que essa leitura poderia usar: a Convenção do Mar criou uma Corte, uma Autoridade dos Fundos Marinhos e a CLCS 1. O pedido brasileiro segue um procedimento técnico dessa Comissão, e parte dele continua pendente. A ligação entre esses fatos e a leitura liberal é nossa, não de 1.
- Peso real da ZOPACAS. O mesmo artigo registra que críticos dizem que o fórum teve pouco papel em seus trinta anos de existência, e que ficou quase parado até o fim da Guerra Fria 1. Defensores dizem que ele serve de base para acordos de cooperação entre os dois lados do Atlântico 1.
- Vulnerabilidade a números e metas. Programas navais de longo prazo têm prazos que mudam. Segundo o artigo de 2020, o sistema de vigilância SisGAAz deveria estar pronto em 2024 1. Não há dado confirmado aqui sobre o estágio atual do SisGAAz nem dos submarinos.
- Escopo do realismo (síntese deste artigo). A leitura de poder deixa em segundo plano a pesquisa científica, a proteção ambiental e a cooperação. Os eixos ambiental e científico fazem parte do projeto da Marinha para a plataforma estendida 1, mas a crítica em si é nossa, não de 1.
O Brasil neste tabuleiro
O Brasil tem duas posições ao mesmo tempo. Por fora, é um Estado costeiro que defende ampliar sua plataforma continental e sustenta que o Atlântico Sul deve ser uma zona de paz, sem potências de fora 1 7. Por dentro, tem de vigiar uma área enorme, com um litoral que o artigo acadêmico de 2020 estima em cerca de 8.500 km, e a capacidade de fazê-lo depende de programas navais longos e caros 1.
Essas duas posições explicam os programas atuais. O Programa Nuclear da Marinha, o plano de submarinos convencionais e um de propulsão nuclear, e o SisGAAz (sistema de radares, satélites e posicionamento submarino) estão entre os programas de destaque descritos no artigo de 2020 1. Naquele texto, o SisGAAz deveria estar pronto em 2024 1. A empresa pública Amazul, criada em 2013, ficou com a tecnologia de defesa ligada a esses programas 1.
O contexto regional também pesa. O artigo cita que existem atores extrarregionais com territórios no Atlântico Sul, como Reino Unido, França e Noruega 1. O Brasil assinou acordos bilaterais com países africanos da região: em 2013, com Angola, para reestruturar a indústria de defesa angolana, e outro com a Namíbia, de apoio ao mapeamento da plataforma continental desse país, com treino de oficiais namibianos em Walvis Bay [1, p. 156-157]. Nenhum desses fatos é julgamento sobre a política de outro país: são descrições de posições e interesses.
Perguntas frequentes
Amazônia Azul é um termo do direito internacional?
Não. É uma expressão brasileira, criada pela Marinha. O direito internacional fala em mar territorial, zona econômica exclusiva e plataforma continental 1 2 3.
O Brasil tem soberania sobre toda a Amazônia Azul?
Não sobre toda ela. No mar territorial, de até 12 milhas, a soberania é plena. Na ZEE e na plataforma continental o Brasil tem direitos soberanos sobre os recursos, mas outros países mantêm a liberdade de navegação e de sobrevoo 1 2 3.
Quanto do petróleo brasileiro vem do mar?
A maior parte. Segundo dados de 2016 citados em artigo acadêmico, cerca de 90% do petróleo vinha da plataforma continental 1. Em novembro de 2025, o pré-sal respondia por 79,6% da produção nacional de petróleo e gás somados, segundo a ANP 6. As duas medidas são diferentes (petróleo da plataforma em 2016; petróleo e gás do pré-sal em 2025) e não se comparam: a segunda não mostra queda da primeira.
O que é a ZOPACAS?
É a Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul, criada em 1986 pela Resolução 41/11 da Assembleia Geral da ONU, por iniciativa do Brasil. Em 2026, tinha 24 Estados-membros sul-americanos e africanos 7.
A CLCS já aprovou tudo o que o Brasil pediu?
Não temos o total confirmado. A Comissão adotou em 8 de março de 2019 suas recomendações sobre a submissão revisada da Região Sul 4, e até 2020 havia reconhecido cerca de 771 mil km² da solicitação original de 2004 1. Para o quadro atual, consulte a página da CLCS na ONU.
Para fechar
A Amazônia Azul junta uma ideia jurídica, a de que o Estado costeiro tem direitos sobre o mar e o fundo, a uma ideia estratégica, a de que direitos precisam de meios para serem exercidos. O realismo enfatiza a segunda, os liberais a primeira, e a história recente do Atlântico Sul tem exemplos das duas. O principal limite é que o tamanho do espaço, o andamento dos programas navais e o resultado final na ONU mudam com o tempo, e as fontes divergem em alguns números. Para ver outros lados do tabuleiro brasileiro, veja também Amazônia: soberania e cobiça internacional.
Fontes
- Erica Simone Almeida Resende e Nayara Tavares Cardoso, "Amazônia Azul do Brasil: extensão da soberania, defesa e segurança no Atlântico Sul", Revista da Escola Superior de Guerra, v. 35, n. 74, p. 138-162, maio/set. 2020 · consultado em 24/10/2026
- Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (1982), Parte V: Zona Econômica Exclusiva, arts. 55 a 57 (texto em inglês, ONU) · consultado em 24/10/2026
- Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (1982), Parte VI: Plataforma Continental, arts. 76 e 77 (texto em inglês, ONU) · consultado em 24/10/2026
- ONU, Comissão de Limites da Plataforma Continental: submissão revisada parcial do Brasil (Região Sul) · consultado em 24/10/2026
- Agência Senado, "Novas diretrizes para a defesa nacional já estão em vigor" (20/12/2018), sobre o Decreto Legislativo 179/2018 (Política e Estratégia Nacional de Defesa) · consultado em 24/10/2026
- ANP, "ANP divulga dados consolidados da produção de petróleo e gás em novembro de 2025" (publicado em 05/01/2026) · consultado em 24/10/2026
- Ministério da Defesa, Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (ZOPACAS) · consultado em 24/10/2026
- Alfred Thayer Mahan, The Influence of Sea Power upon History, 1660–1783 (1890), cap. I (texto integral, Project Gutenberg, domínio público) · consultado em 24/10/2026
- Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (1982), Parte II: Mar Territorial, arts. 2, 3 e 17 a 19 (texto em inglês, ONU) · consultado em 24/10/2026
Para ler mais
- Alfred Thayer Mahan, The Influence of Sea Power upon History, 1660–1783 (1890). Argumenta, a partir da história naval europeia, que o controle das rotas marítimas e uma marinha forte pesam na grandeza dos Estados.
- Geoffrey Till, Seapower: A Guide for the Twenty-First Century (2004). Manual (1ª edição, Frank Cass, 2004, conforme os catálogos da Biblioteca Nacional da França e da British Academy; há edições posteriores pela Routledge) acadêmico que discute o que o poder marítimo significa hoje, do comércio e da ordem no mar à força naval.
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Escrito em 24/10/2026 · checado em 24/10/2026 · versão 7