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Brzezinski e o grande tabuleiro de xadrez: o que é, de onde vem e quais são seus limites

O que é

O "grande tabuleiro de xadrez" é uma imagem de Zbigniew Brzezinski (1928-2017) 7, autor de obras sobre a política externa dos Estados Unidos. Ele a usou no livro The Grand Chessboard, publicado em 1997 1. A ideia central é que a Eurásia, o bloco de terra que reúne Europa e Ásia, é o campo onde se decide a disputa por primazia mundial.

O livro tem um objetivo prático. Brzezinski o apresenta como uma estratégia para os Estados Unidos, com o propósito declarado de impedir que surja na Eurásia um desafiante capaz de dominá-la e, assim, também de desafiar os americanos (p. xiv) 1. Não é um estudo neutro sobre a Eurásia. É um texto de política externa, escrito de um lugar específico.

A imagem do xadrez serve para três coisas: mostra que há peças de pesos diferentes, que a posição de cada uma importa e que o jogo se joga com manobra, não só com força.

De onde vem

Brzezinski assinou a introdução em abril de 1997, poucos anos depois do colapso da União Soviética (p. xiv) 1. Para ele, a derrota soviética deixou os Estados Unidos como primeira potência verdadeiramente global e, ao mesmo tempo, a primeira de fora da Eurásia a funcionar como árbitro das relações de poder no continente (p. xiii) 1.

Esse é o contexto que dá sentido ao livro. Em 1997 os Estados Unidos eram a única superpotência, e a pergunta do autor era como manter essa posição. Ele chega a escrever que, por mais de uma geração, o status americano de primeira potência dificilmente seria contestado por um único rival (p. 195) 1. Lido hoje, o texto é um documento do pós-Guerra Fria, não uma descrição do mundo atual.

O argumento tem raízes mais antigas. Brzezinski lembra Halford Mackinder, geógrafo britânico que, no início do século XX, propôs que o controle do interior eurasiano seria trampolim para dominar o continente. A frase que o popularizou, em tradução nossa: quem governa a Europa Oriental comanda o Heartland ("coração do mundo"); quem governa o Heartland comanda a Ilha-Mundo; quem governa a Ilha-Mundo comanda o mundo (p. 38) 1. Mackinder publicou em 1919 o livro Democratic Ideals and Reality 3, mas Brzezinski não diz em que obra a frase aparece, e este artigo não a atribui a esse livro.

Brzezinski também lembra que a geopolítica foi usada por geógrafos alemães, como Karl Haushofer, para justificar a expansão alemã para o leste (p. 39) 1. Esse histórico pesa na leitura: o próprio autor reconhece que a mesma lente serviu a projetos de conquista.

O pano de fundo teórico é o realismo, escola das Relações Internacionais segundo a qual os Estados são os principais atores, buscam sua segurança e seu poder, e agem num sistema sem autoridade acima deles 2.

Como funciona o argumento

O raciocínio de Brzezinski pode ser lido em quatro passos.

1. A Eurásia concentra o poder. Por cerca de 500 anos, diz ele, a Eurásia foi o centro do poder mundial, e hoje conserva a Europa Ocidental e a Ásia em crescimento (pp. xiii-xiv) 1.

2. Os Estados Unidos não estão na Eurásia, mas atuam nas bordas. Ele descreve a presença americana em três "periferias" do continente, de onde Washington exerceria influência sobre os países do interior (p. 39) 1.

3. Dois passos de estratégia. Primeiro, identificar os Estados eurasianos dinâmicos, com poder para deslocar o equilíbrio, e os Estados cuja posição afeta os demais. Segundo, formular políticas para compensar, atrair ou controlar esses Estados, de modo a preservar os interesses americanos (pp. 39-40) 1.

4. Jogadores e pivôs. É a parte mais citada do livro:

  • Jogadores geoestratégicos são os Estados com capacidade e vontade nacional de exercer poder além das fronteiras e alterar o estado de coisas, em grau que afete os interesses americanos (p. 40) 1.
  • Pivôs geopolíticos são os Estados cuja importância vem da localização sensível e das consequências de sua eventual fragilidade para o comportamento dos jogadores, e não de sua força (p. 41) 1.

Brzezinski avisa que nem todo país importante é jogador. Na lista que apresenta em 1997, os jogadores principais são França, Alemanha, Rússia, China e Índia; Reino Unido, Japão e Indonésia ficam de fora, apesar do peso. Os pivôs são Ucrânia, Azerbaijão, Coreia do Sul, Turquia e Irã, e os dois últimos são também parcialmente jogadores (p. 41) 1. Ele diz que a lista não é permanente nem fixa (p. 48) 1.

Para os países do tabuleiro, o autor admite que a força militar direta ficou mais limitada, por causa das armas nucleares e da interdependência econômica. Por isso destaca manobra, diplomacia, formação de coalizões e uso calculado dos trunfos políticos (p. 36) 1.

As peças do tabuleiro, uma a uma

Na conclusão, o autor dá um papel a cada região. É um roteiro pensado para os interesses americanos, e é assim que deve ser lido 1.

  • Europa. Para Brzezinski, França e Alemanha seguem como os jogadores centrais do continente. O objetivo americano seria consolidar e ampliar a "ponte democrática" (democratic bridgehead) na borda ocidental da Eurásia (p. 195) 1. Ele próprio ressalva que o ímpeto da integração europeia poderia diminuir e que nacionalismos poderiam voltar (p. 196) 1.
  • Rússia. O livro a chama de "buraco negro" geopolítico, o espaço entre uma Europa maior e uma China em ascensão regional, pelo menos até que os russos resolvam sua disputa interna sobre a própria identidade pós-imperial (p. 195) 1. Ao mesmo tempo, ele a trata como jogadora relevante, cujas escolhas dependem de a Rússia se tornar uma democracia europeia ou voltar a ser um império eurasiano (p. 44) 1.
  • China. No Extremo Oriente, diz o autor, a China tende a ser cada vez mais central, e os Estados Unidos só teriam apoio político no continente asiático se cultivassem um consenso com ela (p. 195) 1. O título de uma seção do capítulo 6 resume a avaliação de 1997: "China: Not Global but Regional", ou seja, regional, e não global (índice, p. viii) 1. Na p. 44, ele descreve a China como uma potência regional já significativa, provavelmente com aspirações maiores 1.
  • Japão. É descrito como potência de peso mundial que não age como jogador regional, por escolher operar sob proteção americana (p. 45) 1. Para o autor, o Japão deveria ser parceiro global dos Estados Unidos, e não principalmente seu aliado militar numa aliança regional contra a preeminência chinesa (p. 193) 1.
  • Índia. Está se firmando como potência regional e se vê como possível jogadora global e rival da China. Na avaliação de 1997, suas ambições tocavam os interesses americanos na Eurásia só de forma periférica (p. 46) 1.
  • Turquia e Irã. Entram na lista como pivôs e, segundo o autor, também em parte como jogadores (p. 41) 1. Na conclusão, o autor alerta que a região ao sul da Rússia, os "Bálcãs eurasianos", ameaça virar um "caldeirão" de conflito étnico e rivalidade entre grandes potências (p. 195) 1. O artigo não detalha o papel de cada um dos dois países no livro.

A lógica do conjunto: um continente com várias potências, nenhuma delas dominante, e os Estados Unidos como árbitro de fora. Para o autor, isso importava porque, sem a participação americana, nenhuma grande questão eurasiana seria resolvida (p. 194) 1.

Exemplos na história

Eurásia como prêmio, em 1940. Brzezinski escreve que Hitler e Stalin concordaram, nas negociações secretas de novembro de 1940, que os Estados Unidos deviam ficar fora da Eurásia, pois a presença americana frustraria os planos de cada um (p. xiv) 1. É o exemplo que ele usa para mostrar que a ideia de dominar o continente vem de antes dele.

A Europa Oriental e a teoria de Mackinder. O livro cita a expansão alemã para o leste, defendida por Haushofer e adaptada de Mackinder, como uso da geopolítica para fins de poder (p. 39) 1. Serve de aviso: a mesma lente pode justificar projetos opostos.

O Reino Unido que "saiu do jogo". Brzezinski classifica o Reino Unido como jogador aposentado. Cita as memórias de Roy Denman sobre a conferência de Messina, em 1955, na qual o porta-voz britânico teria dito que o tratado em discussão não teria chance de ser aprovado (pp. 42-43) 1. Para o autor, a hesitação britânica diante da integração europeia reduziu seu peso nas escolhas sobre o futuro da Europa (p. 42) 1. Este e o caso da Ucrânia, adiante, são leituras do próprio livro, não fatos confirmados por fonte independente.

A hipótese ucraniana, formulada em 1997. Para Brzezinski, a Ucrânia é pivô porque sua existência como país independente ajuda a transformar a Rússia: sem a Ucrânia, a Rússia deixaria de ser um império eurasiano; se Moscou recuperasse o controle, voltaria a ter meios para ser um Estado imperial na Europa e na Ásia (p. 46) 1. É uma hipótese do autor em 1997, não um fato estabelecido, e eventos posteriores devem ser lidos em fontes próprias, com versões dos diversos lados.

Críticas e limites

O realismo é uma lente, não a única explicação. A Stanford Encyclopedia of Philosophy registra as respostas das escolas rivais 2:

  • Liberais (como Robert Keohane e Joseph Nye) destacam a interdependência e a cooperação; Keohane sustenta que instituições podem ampliar a noção de interesse próprio dos Estados 2.
  • Construtivistas (como Alexander Wendt) argumentam que o "cada um por si" não decorre necessariamente da falta de autoridade mundial, pois é socialmente construído 2.
  • Outras correntes (teoria crítica, pós-modernismo, feminismo) contestam o foco no Estado e a própria ideia de segurança do realismo 2.

A geografia política crítica faz outra objeção. Gearóid Ó Tuathail, em livro de 1996, trata a geopolítica como forma de escrita sobre o espaço, a partir de uma perspectiva pós-estruturalista 4. Nessa leitura, mapas e metáforas como "tabuleiro" não são descrições neutras: organizam o mundo de um modo que favorece certas decisões.

Há também limites internos ao livro. O primeiro é o ponto de vista. O texto é, por declaração do autor, uma estratégia para os Estados Unidos (p. xiv) 1: quando fala em "equilíbrio" ou "estabilidade", o referencial é o interesse americano, e o que parece estabilidade para um país pode parecer tutela para outro. Quem lê precisa levar isso em conta.

O segundo é a data. O autor trata a Eurásia como centro, mas diz que o poder também se mede por tecnologia, comunicação, comércio e finanças (pp. xiii-xiv) 1. E ele próprio afirma que o objetivo final da política americana deveria ser uma comunidade global cooperativa (p. xiv) 1, o que mostra que a tese tem dois lados, o de primazia e o de cooperação, que leitores pesam de modos diferentes.

O terceiro é a previsão sobre a China. Em 1997 ela aparece como potência regional, não global, e como "âncora" com a qual os Estados Unidos deveriam buscar entendimento 1. É uma avaliação de época. Comparar com a situação atual exige dados e fontes de hoje, e não cabe projetar o que o autor "teria dito".

Outro realista, John Mearsheimer, publicou em 2001 The Tragedy of Great Power Politics 5. A Stanford Encyclopedia of Philosophy o associa ao realismo ofensivo, segundo o qual Estados poderosos buscam maximizar seu poder e seu domínio sobre os demais 2. Ler os dois autores lado a lado ajuda a ver que "realismo" não é um bloco único.

O Brasil neste tabuleiro

Na lista de jogadores e pivôs do livro (p. 41) 1, o Brasil não aparece. O tabuleiro de Brzezinski é eurasiano, e o Brasil está fora dele. Isso não significa que o país esteja fora do jogo: significa que o livro não o trata como peça.

Os laços econômicos mostram a ligação indireta. Segundo a Secretaria de Comércio Exterior (Secex), do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, divulgados em 6 de janeiro de 2026, o Brasil exportou US$ 348,7 bilhões em 2025, dos quais US$ 100,02 bilhões para a China, alta de 6,0% sobre o ano anterior. Na outra direção, as importações vindas da China somaram US$ 70,93 bilhões 6. Dividindo 100,02 por 348,7, chega-se a cerca de 28,7% das exportações brasileiras em 2025 (conta feita a partir dos dados da fonte). Esses números descrevem um fato econômico, não uma tomada de posição.

Cabe dizer que a China é, na lista do livro, jogadora 1, e que a Rússia também. Quando a relação entre as grandes potências eurasianas muda, o Brasil, como parceiro comercial de várias delas, sente os efeitos por canais como comércio e preços de mercadorias. A Política Nacional de Defesa e o "entorno estratégico" brasileiro não são tratados neste artigo.

Perguntas frequentes

O que Brzezinski quis dizer com "tabuleiro de xadrez"?

Que a Eurásia é o principal campo da disputa por primazia mundial e que nela há peças de pesos diferentes. A imagem aparece no título do livro e na introdução 1.

Quem são os jogadores geoestratégicos do livro?

Na lista de 1997: França, Alemanha, Rússia, China e Índia. Reino Unido, Japão e Indonésia são tratados como países importantes que não se qualificam como jogadores (p. 41) 1.

O que é um pivô geopolítico?

É um Estado importante pela localização e pela vulnerabilidade, e não pela força. No livro, são pivôs Ucrânia, Azerbaijão, Coreia do Sul, Turquia e Irã (p. 41) 1.

Brzezinski via a China como potência global em 1997?

Não. O livro a trata como potência regional já significativa, com probabilidade de ambições maiores, e propõe um entendimento entre Estados Unidos e China no Extremo Oriente (pp. 44, 194) 1. É a visão do autor em 1997, não um resultado.

Brzezinski previu o que aconteceu depois de 1997?

O livro formula hipóteses e cenários, não previsões. O próprio autor diz que a lista de jogadores e pivôs pode mudar (p. 48) 1. Avaliar o que se confirmou exige fontes sobre cada fato e opiniões de vários lados.

O realismo é a única teoria sobre isso?

Não. Liberais, construtivistas e outras escolas oferecem explicações diferentes para o comportamento dos Estados 2.

Para fechar

O tabuleiro de Brzezinski é uma forma de pensar o poder entre Estados, nascida de uma tradição geopolítica que vem de Mackinder e foi escrita do ponto de vista dos Estados Unidos em 1997. Ele ajuda a nomear peças e posições, mas sua lista é de um momento e suas premissas são discutidas por outras escolas. Para o Brasil, que não é peça do tabuleiro eurasiano, a leitura mostra mais o ambiente em que o país negocia do que um roteiro.

Fontes

  1. Zbigniew Brzezinski, The Grand Chessboard: American Primacy and Its Geostrategic Imperatives. Nova York: Basic Books, 1997 (texto integral em cópia digital hospedada em cia.gov, acervo de documentos divulgados; páginas citadas conforme a numeração da cópia: introdução, pp. xiii-xiv; cap. 2, pp. 36-48; cap. 6, pp. 151-193; cap. 7, pp. 193-195) · consultado em 24/10/2026
  2. W. Julian Korab-Karpowicz, Political Realism in International Relations, Stanford Encyclopedia of Philosophy (revisão substantiva de 29/07/2026) · consultado em 24/10/2026
  3. H. J. Mackinder, Democratic Ideals and Reality. Londres: Constable, 1919 (registro da cópia digitalizada no Internet Archive) · consultado em 24/10/2026
  4. Gearóid Ó Tuathail, Critical Geopolitics (1996), registro de catálogo da Labyrinth Books · consultado em 24/10/2026
  5. John J. Mearsheimer, The Tragedy of Great Power Politics. Nova York: Norton, 2001, registro de catálogo da biblioteca da African Union · consultado em 24/10/2026
  6. Poder360: Balança comercial atinge superávit de US$ 68,3 bi em 2025 (reportagem sobre dados da Secex/MDIC divulgados em 06/01/2026) · consultado em 24/10/2026
  7. Hachette Book Group: The Grand Chessboard, Zbigniew Brzezinski (1928-2017), Basic Books · consultado em 24/10/2026

Para ler mais

  • Zbigniew Brzezinski, The Grand Chessboard: American Primacy and Its Geostrategic Imperatives (1997). Apresenta a tese da Eurásia como tabuleiro, a lista de jogadores e pivôs e a estratégia que o autor propunha aos Estados Unidos.
  • Halford J. Mackinder, Democratic Ideals and Reality (1919). Livro do geógrafo britânico a quem Brzezinski atribui a ideia do "coração do mundo" (Heartland), que ele retoma para pensar a Eurásia.
  • John J. Mearsheimer, The Tragedy of Great Power Politics (2001). Apresenta o realismo ofensivo, vertente da escola em que Estados poderosos buscam ampliar ao máximo seu poder.
  • Gearóid Ó Tuathail, Critical Geopolitics: The Politics of Writing Global Space (1996). Examina a geopolítica como forma de escrita sobre o espaço, numa perspectiva pós-estruturalista, e serve de contraponto aos manuais de estratégia.
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Escrito em 24/10/2026 · checado em 24/10/2026 · versão 4