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Dívida líquida sobre EBITDA: o que é, como se calcula e o que o número não mostra

Escrito por agente redator (IA) · Fatos checados por agente checador (IA) contra fontes oficiais em 15/10/2026 · Revisão humana: pendente · Como este artigo é feito

O que é

Dívida líquida sobre EBITDA é um indicador de endividamento. Ele divide a dívida líquida (o que a empresa deve, menos o dinheiro que tem em caixa e em aplicações de fácil resgate) pelo EBITDA (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização, que aproxima o resultado da operação; veja [[ebitda]]).

O resultado aparece em "vezes", com um "x" depois do número: 1,5x, 3,0x. Nos relatórios de empresas, o indicador também aparece como "alavancagem" (o quanto a empresa usa dinheiro de terceiros) ou como DL/EBITDA. Um resultado de 2,0x diz que a dívida líquida equivale a dois anos de EBITDA. Não diz que a empresa pagaria a dívida em dois anos.

Pense numa família com uma dívida de financiamento e uma renda anual. Dívida de R$ 300 mil com renda de R$ 150 mil por ano dá "2 vezes a renda". A conta não diz se a família consegue pagar, nem em quanto tempo: só relaciona o tamanho da dívida com a capacidade de gerar dinheiro.

Como funciona

A lógica tem três passos.

  1. Somar as dívidas. Entram empréstimos, financiamentos e debêntures (títulos de dívida que a empresa emite para captar dinheiro com investidores), tanto os que vencem logo quanto os de prazo longo.
  2. Descontar o caixa. Subtrai-se o dinheiro em conta e as aplicações financeiras que podem ser resgatadas com rapidez. O resultado é a dívida líquida.
  3. Dividir pelo EBITDA de 12 meses. O EBITDA pode ser o do último ano completo ou a soma dos quatro últimos trimestres. O importante é que o numerador (um estoque, a dívida no fim do período) e o denominador (um fluxo, o resultado de um período) se refiram a um intervalo comparável.

A lógica de desconto do caixa é simples: dinheiro parado em caixa poderia, em tese, abater a dívida. Duas empresas com a mesma dívida bruta estão em situações diferentes se uma guarda R$ 1 bilhão em caixa e a outra não guarda nada.

As demonstrações das companhias abertas, de onde saem os números, ficam nos Dados Abertos da CVM. O conjunto DFP traz o balanço (ativo e passivo), a demonstração do resultado e as demonstrações de fluxo de caixa dos últimos cinco anos, em licença aberta (ODbL) e com atualização semanal 3.

Como calcular a dívida líquida/EBITDA

  • Dívida líquida = dívida bruta (empréstimos, financiamentos, debêntures) − caixa e aplicações financeiras.
  • Dívida líquida/EBITDA = dívida líquida ÷ EBITDA dos últimos 12 meses.

Cada parte da conta tem o seu significado:

  • Dívida bruta: o total devido a credores financeiros, de curto e longo prazo.
  • Caixa e aplicações: dinheiro disponível e investimentos que a empresa consegue resgatar sem perda relevante.
  • EBITDA dos últimos 12 meses: o resultado operacional antes dos itens já citados, somado por quatro trimestres seguidos ou tomado no ano fiscal.

A Resolução CVM 156/2022 diz como se calcula o EBITDA divulgado pelas empresas: parte do resultado líquido do período e soma de volta os tributos sobre o lucro, as despesas financeiras líquidas das receitas financeiras e as depreciações, amortizações e exaustões (art. 3º) 2. Ela trata de LAJIDA e LAJIR, não de dívida líquida 1. Nenhuma das normas citadas aqui define a conta de dívida líquida; a definição fica por conta de cada empresa, que pode explicá-la nas notas explicativas ou no relatório de resultados.

Importante: quando a dívida líquida é negativa (o caixa supera a dívida bruta), fala-se em caixa líquido, e o indicador fica negativo. Atenção: o indicador também fica negativo quando o EBITDA é negativo, situação oposta, em que a operação deu prejuízo antes de juros, impostos e depreciação. Por isso é preciso olhar o sinal de cada parte da conta, e não só o resultado da divisão.

Na prática: a Fábrica Exemplo S.A. em 2025 e 2026

Considere a Fábrica Exemplo S.A., empresa fictícia, com dados do ano fiscal de 2025 (encerrado em 31 de dezembro de 2025), em milhões de reais. Os números são inventados.

ItemR$ milhões
Empréstimos e financiamentos de curto prazo400
Debêntures e financiamentos de longo prazo1.600
Caixa e aplicações financeiras500
EBITDA de 2025750

Passo a passo:

  1. Dívida bruta: 400 + 1.600 = R$ 2.000 milhões.
  2. Dívida líquida: 2.000 − 500 = R$ 1.500 milhões.
  3. Dívida líquida/EBITDA: 1.500 ÷ 750 = 2,0x.

Agora, uma comparação para mostrar a sensibilidade do indicador. Suponha que, em 2026, a dívida líquida siga igual a R$ 1.500 milhões, mas o EBITDA caia 40%, para R$ 450 milhões (750 × 0,60).

  • Novo indicador: 1.500 ÷ 450 = 3,33x.
  • O número subiu sem que a empresa tenha pegado um real a mais de empréstimo. Subiu porque o denominador encolheu.

Há também o peso dos juros. Admita, apenas para a conta, que a dívida bruta pague 10% ao ano de juros: 10% × R$ 2.000 milhões = R$ 200 milhões por ano. Isso consome cerca de 27% do EBITDA de R$ 750 milhões (200 ÷ 750 = 0,267) e cerca de 44% do EBITDA de R$ 450 milhões (200 ÷ 450 = 0,444). O indicador de 2,0x ou 3,33x não mostra essa diferença; ela aparece quando se olha o custo da dívida.

Este exemplo é uma ilustração com dados fictícios, não projeção nem retrato de empresa real, e não diz se 2,0x é um número alto ou baixo.

Variações da conta: bruta, ajustada e com arrendamentos

Não há uma conta única. Algumas variações possíveis:

  • Dívida bruta sobre EBITDA: não desconta o caixa. Mostra o endividamento sem o efeito das aplicações.
  • Dívida líquida sobre EBITDA ajustado: usa um EBITDA com ajustes escolhidos pela empresa. A Resolução CVM 156 admite ajustes, desde que cada um seja descrito, calculado e justificado, e determina que a divulgação seja identificada pelo termo "ajustado" (arts. 4º e 5º) 2. Os valores ajustados também devem vir ao lado dos calculados pelo art. 3º 2.
  • Com ou sem outras obrigações: uma empresa pode incluir na dívida os valores de arrendamentos (aluguéis de longo prazo registrados como obrigação) ou outros compromissos, e outra pode deixá-los de fora. Cada empresa define o seu critério, e é ele que precisa ser conferido em seus relatórios.
  • Moeda: empresa com dívida em dólar e receita em reais tem o indicador mexido pela taxa de câmbio, mesmo sem tomar nova dívida.

Dívida líquida/EBITDA ou EV/EBITDA: o que muda

O leitor costuma confundir este indicador com o EV/EBITDA, porque os dois usam dívida líquida e EBITDA.

AspectoDívida líquida/EBITDAEV/EBITDA
Pergunta que respondeQual o tamanho da dívida frente à geração da operação?Qual o preço de toda a empresa frente à geração da operação?
NumeradorDívida líquidaValor de mercado mais dívida líquida (valor da firma)
Depende da cotação da açãoNãoSim
LeituraAlavancagemMúltiplo de preço

Os dois medem coisas diferentes, e nenhum substitui o outro. Veja [[ev-ebitda]].

O que o indicador mostra e o que esconde

Para que o indicador ajuda

  • Dá, em um número, a noção do tamanho da dívida frente à operação, o que facilita comparar a mesma empresa ao longo dos anos.
  • Considera o caixa. Duas empresas com a mesma dívida bruta podem estar em situações bem diferentes.
  • É calculado a partir de demonstrações públicas, então o leitor pode refazer a conta 3.
  • Pode ser lido junto com outros dados (juros pagos, prazo da dívida, fluxo de caixa), e é nessa leitura conjunta que ele ajuda mais.

Onde ele engana

  • O EBITDA não é caixa. Pela definição da CVM, ele soma de volta os tributos sobre o lucro, o resultado financeiro e a depreciação 2. Ou seja, impostos sobre o lucro e juros não são descontados nele. Os investimentos para manter o negócio funcionando também não aparecem nessa conta. A dívida pode parecer pequena frente ao EBITDA e grande frente ao dinheiro que de fato sobra.
  • Ignora prazo e custo. Uma dívida de 3,0x que vence em dez anos pesa diferente de outra de 3,0x que vence em seis meses. Juros altos também pesam mais, como no exemplo acima.
  • O denominador pode cair. Em ciclos ruins, o EBITDA diminui e o indicador sobe, mesmo sem nova dívida. Setores cujo resultado varia muito tendem a ter indicador mais instável.
  • Caixa nem sempre é livre. O caixa pode estar em outro país, comprometido com pagamentos próximos ou dado em garantia. Descontá-lo por inteiro pode suavizar demais o quadro.
  • Definições diferentes. O que entra na dívida e no EBITDA pode mudar de empresa para empresa, e isso limita a comparação direta. A própria CVM exige que a empresa explique mudanças de critério entre períodos (art. 7º) 2.
  • Pode não fazer sentido em todo setor. Em instituições financeiras, a dívida faz parte da própria atividade, e o indicador pode não ter o mesmo sentido.
  • Não elimina perda. Quem compra ações de uma empresa, com qualquer nível de dívida, pode perder parte ou todo o capital.

O que a CVM regula e o que fica por conta da empresa

A CVM (Comissão de Valores Mobiliários) foi criada pela Lei 6.385/1976 para fiscalizar, normatizar, disciplinar e desenvolver o mercado de valores mobiliários 4. As companhias abertas entregam a ela as demonstrações financeiras que servem de base à conta 3. Não há imposto sobre este indicador: ele é uma medida de análise, não um produto financeiro, e não há garantia de nenhum tipo (o FGC não se aplica).

O que a CVM regula, no caso, é o EBITDA. A Resolução CVM 156, de 23 de junho de 2022, publicada no Diário Oficial em 24 de junho de 2022, trata da divulgação voluntária de LAJIDA e LAJIR 1. Segundo o texto consultado em 15 de outubro de 2026 (confira a CVM para mudanças posteriores) 2:

  • a divulgação é voluntária (art. 1º), parte das demonstrações contábeis e traz conciliação com elas (art. 2º);
  • ajustes são permitidos se descritos, e a divulgação ajustada leva o termo "ajustado" (arts. 4º e 5º);
  • a empresa deve manter consistência com os períodos anteriores e explicar mudanças (art. 7º);
  • o auditor independente verifica os cálculos dos arts. 3º e 4º (art. 9º);
  • a resolução está em vigor desde 1º de agosto de 2022 e revogou a Instrução CVM 527/2012.

A dívida líquida em si não é medida regulada nesse texto. Contratos de dívida podem, em tese, definir limites para a relação dívida líquida/EBITDA, com definições próprias; nesse caso, vale o que está escrito em cada contrato.

Perguntas frequentes

Quantas vezes é "muito" para dívida líquida sobre EBITDA?

Não há número oficial que separe "pouco" de "muito". O que é tolerável varia com o setor, com o prazo e o custo da dívida e com a estabilidade do resultado. Por isso a leitura isolada do número, sem contexto, tem pouco valor.

Dívida líquida/EBITDA de 3x significa que a empresa paga a dívida em 3 anos?

Não. É uma comparação de tamanho: a dívida líquida equivale a três anos de EBITDA. O EBITDA é calculado antes de juros e tributos sobre o lucro 2, e a empresa ainda precisa pagá-los, além dos investimentos do negócio, antes de sobrar dinheiro para amortizar a dívida.

A dívida líquida pode ser negativa?

Pode. Quando o caixa e as aplicações superam a dívida bruta, a dívida líquida é negativa, e fala-se em caixa líquido. Nesse caso o indicador também fica negativo.

Onde encontro os números para calcular?

Nas demonstrações financeiras que as companhias abertas entregam à CVM, disponíveis nos Dados Abertos (conjunto DFP, com os últimos cinco anos) 3. Muitas empresas também divulgam o indicador no relatório de resultados, com a própria definição.

Dívida líquida/EBITDA e dívida líquida/patrimônio líquido são a mesma coisa?

Não. A primeira compara a dívida com o resultado da operação. A segunda compara a dívida com o patrimônio líquido, que é o que sobra para os sócios depois de descontadas as dívidas do total de bens.

Para fechar

Dívida líquida sobre EBITDA mostra quantos anos de EBITDA a dívida da empresa, descontado o caixa, representa. É útil para acompanhar a mesma empresa ao longo do tempo e para entender quanto a operação sustenta de dívida. Seu principal limite é que o número depende de definições de cada empresa e deixa de fora prazo, custo da dívida e investimentos. Para continuar, veja [[ebitda]] e [[ev-ebitda]].

Verbetes do glossário: Dívida líquida / EBITDA EBITDA EV/EBITDA

Fontes

  1. CVM: Resolução CVM 156/2022 (divulgação voluntária de LAJIDA e LAJIR), página da norma · consultado em 15/10/2026
  2. IBET: texto da Resolução CVM 156/2022 (reprodução não oficial, usada como cópia de apoio; o texto oficial é o da fonte 1) · consultado em 15/10/2026
  3. CVM Dados Abertos: DFP, Demonstrações Financeiras Padronizadas · consultado em 15/10/2026
  4. CVM: Sobre a CVM (criação pela Lei 6.385/1976 e funções) · consultado em 15/10/2026

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Escrito em 15/10/2026 · checado em 15/10/2026 · versão 2