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Drawdown e perda máxima: o que é, como calcular e o que não mostra

O que é

Drawdown é a queda do valor de um investimento medida a partir do seu ponto mais alto anterior (o pico) até o ponto mais baixo que veio depois (o vale). É o nome que as finanças deram à queda do pico ao vale.

O drawdown máximo (em inglês, maximum drawdown) é a maior dessas quedas dentro de um período analisado. A literatura acadêmica o descreve como a maior perda acumulada do pico ao vale 1. Por isso muita gente o chama de "perda máxima": é o pior tombo que a série de preços registrou naquele intervalo.

O drawdown aparece em fundos, ações, índices e carteiras. É uma perda "no papel": ela existe enquanto o ativo está abaixo do pico e só se torna perda concreta se o investidor vender ali. Mesmo assim, ela mostra o tamanho do susto que um investimento já deu.

Como funciona

O drawdown acompanha o investimento dia a dia (ou mês a mês) e faz uma pergunta simples: em relação ao maior valor que já foi atingido, onde estamos agora?

  1. Marque o pico: o maior valor já alcançado até aquele ponto.
  2. Enquanto o valor ficar abaixo do pico, há um drawdown em andamento. Ele cresce a cada novo ponto mais baixo.
  3. O ponto mais baixo antes de uma nova alta é o vale.
  4. Quando o valor volta a superar o pico, o drawdown acaba, e esse novo valor vira o pico a ser vigiado.
  5. O drawdown máximo é o maior de todos os drawdowns do período.

Dois tempos importam, além do tamanho: quanto durou a queda (do pico ao vale) e quanto durou a recuperação (do vale até superar o pico). O período inteiro abaixo do pico é, às vezes, chamado de tempo "submerso".

A conta do drawdown

drawdown = (pico − vale) ÷ pico

  • pico: o maior valor (de uma cota, de uma ação ou do patrimônio) antes da queda;
  • vale: o menor valor depois do pico e antes de uma nova alta;
  • o resultado, multiplicado por 100, dá a queda em porcentagem.

A divisão é sempre pelo pico, e não pelo vale. Um erro comum é dividir pelo vale, o que inflaria a queda.

Quanto é preciso subir para voltar ao pico

Como a perda é medida sobre um valor maior e a recuperação parte de um valor menor, a alta necessária é maior que a queda:

alta necessária = queda ÷ (1 − queda)

Queda do picoAlta necessária para voltar ao pico
10%11,1%
20%25,0%
25%33,3%
30%42,9%
50%100,0%

Exemplo da primeira linha: com queda de 10%, o valor fica em 0,90 do pico. Para chegar a 1,00, precisa multiplicar por 1 ÷ 0,90 ≈ 1,111, ou seja, subir 11,1%. É a mesma assimetria do exemplo de 20% e 25% mostrada no artigo Risco e retorno: o que são, como se medem e por que andam juntos.

Na prática: um fundo fictício ao longo de 11 meses

Este exemplo é hipotético. Os números foram inventados para mostrar a conta. Não são de nenhum fundo real nem de uma data de mercado.

Imagine R$ 10.000,00 aplicados num fundo fictício. O valor da aplicação no fim de cada mês foi:

MêsValor (R$)Observação
010.000,00início
111.000,00
212.000,00pico 1
310.800,00
49.000,00vale 1
59.600,00
610.500,00
712.600,00supera o pico 1; vira pico 2
811.340,00
910.080,00vale 2
1011.088,00
1112.000,00

Primeiro drawdown. Pico de R$ 12.000,00 no mês 2, vale de R$ 9.000,00 no mês 4. A conta: (12.000 − 9.000) ÷ 12.000 = 3.000 ÷ 12.000 = 25%. A queda levou 2 meses. A recuperação, do mês 4 ao mês 7, levou 3 meses. A alta necessária foi 12.000 ÷ 9.000 − 1 ≈ 33,3%, como na tabela acima.

Segundo drawdown. Pico de R$ 12.600,00 no mês 7, vale de R$ 10.080,00 no mês 9: (12.600 − 10.080) ÷ 12.600 = 2.520 ÷ 12.600 = 20%.

Drawdown máximo do período: 25%, o maior dos dois. Em reais, o investidor viu a aplicação R$ 3.000,00 abaixo do pico.

Situação no mês 11. O valor é R$ 12.000,00, e o pico mais recente é R$ 12.600,00. O drawdown em andamento é (12.600 − 12.000) ÷ 12.600 ≈ 4,8%.

Repare num detalhe: no fim dos 11 meses, o valor está 20% acima do inicial (12.000 ÷ 10.000 − 1). Quem olhasse só o resultado final não veria que, no meio do caminho, o fundo ficou 25% abaixo do pico. Isto é ilustração, não projeção: nada garante que um investimento real se comporte assim.

Drawdown ou volatilidade: o que muda

Os dois falam de oscilação, mas medem coisas diferentes.

VolatilidadeDrawdown
O que medeA intensidade das oscilações de preço, para cima e para baixo, num período 2A queda do pico ao vale 1
DireçãoConta altas e quedasConta só quedas
ResultadoUm percentual que resume a oscilaçãoUm percentual de perda e, se quiser, uma duração
ReferênciaO valor médio do ativo no período 2O pico anterior
LimitaçãoNão diz quanto o ativo chegou a cair de fatoNão diz com que frequência o ativo cai

A B3 lembra que a volatilidade costuma ser calculada sobre janelas passadas, como 30, 60 ou 90 dias de fechamentos diários, e que ela reflete oscilações "para cima ou para baixo" 2. Dois fundos podem ter a mesma volatilidade e drawdowns bem diferentes, por exemplo se um deles concentra suas perdas numa sequência única de quedas.

O que o drawdown mostra e o que não mostra

O que ele ajuda a enxergar

  • O pior momento do passado em reais ou em %. Dá noção concreta do tamanho de uma queda já ocorrida, algo que um único número de volatilidade esconde.
  • A assimetria da recuperação. Perdas grandes pedem altas proporcionalmente maiores para voltar ao pico.
  • A duração. Um ativo pode levar meses ou anos para recuperar o pico anterior.
  • Comparação pelo mesmo critério. Dois ativos observados no mesmo período podem ter seus drawdowns máximos comparados lado a lado, sem concluir qual é melhor.

Onde ele engana

  • Olha só o passado. O Portal do Investidor lembra que rentabilidade passada não é garantia de rentabilidade futura 34. O mesmo vale para a perda máxima: a pior queda já vista pode ser superada.
  • Depende da janela. O drawdown máximo cresce, ou fica igual, quanto mais longo o período. Um ativo com histórico curto pode mostrar uma perda máxima pequena só porque ainda não passou por uma crise.
  • Mede uma queda, não a frequência. Um ativo pode ter um único tombo em dez anos ou vários menores; o número do drawdown máximo é o mesmo.
  • Depende da frequência dos dados. Calculado com preços mensais, o drawdown pode parecer menor do que com preços diários, porque o vale intermediário some.
  • Não é um limite de perda. Ele descreve o que já aconteceu, não o máximo que pode acontecer. Em algumas classes de fundos, o investidor pode até ser chamado a cobrir patrimônio negativo, ou seja, perder mais do que aplicou 4.
  • Nem toda perda é de preço. O drawdown não captura, por si só, riscos como o de crédito do emissor ou o de liquidez 3.
  • Falta padronização. Há variações de cálculo (mensal ou diário, sobre cota ou sobre patrimônio). Para comparar, as séries precisam seguir o mesmo método.

Regras e fiscalização no Brasil

Regras em vigor em 24 de outubro de 2026; confira a fonte para mudanças. O modelo de lâmina do Suplemento B da Resolução CVM 175/2022 não tem item para o drawdown 5. Os instrumentos que a norma oferece ao investidor em fundos são outros:

  • O Portal do Investidor, da CVM, indica a leitura da lâmina de informações básicas e do regulamento antes de investir 4. Pelo Suplemento B, a lâmina traz público-alvo, objetivos, política de investimentos, condições de investimento, taxas, composição da carteira, histórico de rentabilidade e simulação de despesas 5.
  • Na lâmina, o gestor classifica o risco da classe de cotas numa escala de 1 a 5 (item 6), e o histórico mostra a rentabilidade dos últimos 5 anos (item 7) 5. Essas informações não substituem o cálculo do drawdown. A página do Portal 4 descreve a lâmina de modo um pouco diferente; para o conteúdo da lâmina, a referência é a norma 5.
  • Para o Portal, o valor das cotas pode subir ou cair conforme o desempenho dos ativos da carteira, e rentabilidade passada não garante a futura 4.
  • Fundos não têm garantia do FGC (Fundo Garantidor de Créditos) 4.
  • Em classes de responsabilidade limitada, o investidor pode perder o valor aplicado, sem ser chamado a aportar mais. Em classes de responsabilidade ilimitada, pode ser exigido que cubra o patrimônio negativo 4.

Como o drawdown é um cálculo e não um produto, não há alíquota ou prazo associado a ele. Sites e plataformas que o exibem calculam do seu jeito; vale conferir o período e a frequência usados.

Perguntas frequentes

Drawdown é a mesma coisa que perda?

Não necessariamente. O drawdown mede a queda em relação ao pico anterior, que pode ser maior ou menor que a perda sobre o valor que a pessoa aplicou. Se alguém entrou depois do pico, sua perda pessoal é diferente. Além disso, a perda só se concretiza na venda.

Como se calcula o drawdown máximo?

Percorre-se a série de valores guardando o maior valor já visto. Em cada ponto, calcula-se (pico − valor atual) ÷ pico. O maior resultado de toda a série é o drawdown máximo.

Por que uma queda de 50% exige alta de 100%?

Porque a alta incide sobre um valor menor. Se R$ 100,00 caem 50% e viram R$ 50,00, é preciso dobrar esse valor (alta de 100%) para voltar a R$ 100,00.

Drawdown pequeno significa investimento de baixo risco?

Não. Ele só descreve o passado no período medido. Um histórico curto, ou sem crises, pode mostrar quedas pequenas, e outros riscos (crédito, liquidez) ficam fora da medida 3.

Drawdown e volatilidade dão o mesmo resultado?

Não. A volatilidade mede a oscilação para cima e para baixo 2; o drawdown olha só a queda do pico ao vale 1. Podem contar histórias diferentes sobre o mesmo ativo.

Para fechar

O drawdown transforma a oscilação numa pergunta concreta: quanto o investimento já caiu em relação ao seu melhor ponto, e quanto tempo levou para voltar. A conta é simples, e a assimetria da recuperação mostra por que perdas grandes pesam tanto. Por olhar o passado e depender do período escolhido, ele descreve um histórico, não um limite, e deve ser lido junto com a volatilidade e com os demais riscos. Veja também Risco e retorno: o que são, como se medem e por que andam juntos e Diversificação: o que é, como funciona e o que ela não faz.

Verbetes do glossário: Volatilidade

Fontes

  1. Goldberg, L. R.; Mahmoud, O. Drawdown: From Practice to Theory and Back Again (arXiv:1404.7493, v5, 2016) · consultado em 24/10/2026
  2. B3 Bora Investir: glossário, Volatilidade · consultado em 24/10/2026
  3. Portal do Investidor (CVM): Risco e a relação risco x retorno · consultado em 24/10/2026
  4. Portal do Investidor (CVM): Risco (fundos de investimentos) · consultado em 24/10/2026
  5. CVM: Resolução CVM 175/2022, Suplemento B (lâmina de informações básicas de fundos de investimento financeiro), texto consolidado · consultado em 24/10/2026
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Escrito em 24/10/2026 · checado em 24/10/2026 · versão 2