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Energia, petróleo, gás e transição: como a energia vira poder entre os países

O que é

Geopolítica da energia é o estudo de como petróleo, gás, carvão, eletricidade e as outras fontes que movem uma economia entram na disputa de poder entre os Estados. A pergunta central é simples: quem produz, quem compra, por onde a energia passa e o que acontece quando alguém corta o fornecimento.

A leitura mais clássica vem do realismo, escola das Relações Internacionais. Segundo a Stanford Encyclopedia of Philosophy, os realistas veem os Estados como atores principais, que buscam segurança e poder num sistema sem governo comum acima deles, no qual cada um responde pela própria sobrevivência 5. A enciclopédia não trata de energia. Ligar a lógica ao petróleo é uma extensão feita aqui: se energia sustenta indústria e Forças Armadas, ela entra na conta de sobrevivência. É uma lente, não a única; há uma seção de críticas adiante.

Transição energética é a troca gradual de combustíveis fósseis (petróleo, gás, carvão) por fontes com menos emissões de gases do efeito estufa, como vento, sol, hidrelétricas e biocombustíveis. A geopolítica pergunta o que essa troca faz com a dependência entre países.

De onde vem: do carvão ao petróleo

A ideia de que a energia limita o poder militar é antiga. Em 1890, o oficial naval americano Alfred Mahan escreveu que a necessidade de renovar o carvão deixava o cruzador de sua época ainda mais dependente do porto do que antigamente (paráfrase nossa) 9. Daí em diante, a leitura é nossa: se o combustível limita o alcance dos navios, quem controla pontos de abastecimento ganha peso militar.

Com o petróleo, a lógica ganhou escala. A OPEP, Organização dos Países Exportadores de Petróleo, foi criada na conferência realizada em Bagdá de 10 a 14 de setembro de 1960; cinco países, Iraque, Irã, Kuwait, Arábia Saudita e Venezuela, tornaram-se membros fundadores 6. O momento que fixou o tema na cabeça do público foi o embargo de 1973-1974: membros árabes da OPEP cortaram o fornecimento de petróleo aos Estados Unidos e a outros países que apoiavam Israel, em retaliação ao reabastecimento militar de Israel pelos americanos na guerra árabe-israelense de 1973 1. Segundo o Departamento de Estado dos EUA, o preço do barril primeiro dobrou e depois quadruplicou, com risco de recessão global, e o embargo foi suspenso em março de 1974 1.

O governo de Richard Nixon anunciou, em 7 de novembro de 1973, o Project Independence, programa para promover a independência energética dos Estados Unidos 1. Vieram depois medidas como a reserva estratégica de petróleo e o limite nacional de velocidade de 55 milhas por hora, e, no governo de Gerald Ford, padrões de economia de combustível 1. Segundo a mesma fonte, a Agência Internacional de Energia foi proposta pelo secretário de Estado Henry Kissinger 1. Para a leitura realista, o episódio mostra o fornecimento de energia usado como instrumento de pressão política.

Como funciona o argumento

O raciocínio tem quatro passos.

  1. Energia move indústria, transporte, agricultura e quartéis. Sem ela, nada disso funciona.
  2. Quem depende de um fornecedor fica exposto à decisão política dele.
  3. Quem tem excedente para vender ganha receita em moeda forte e peso nas negociações.
  4. Por isso, Estados tratam reservas, rotas e infraestrutura como assunto de segurança, e não só de mercado.

Petróleo e gás ainda dependem de rotas específicas. Em 2024, segundo a EIA, o Estreito de Ormuz, passagem estreita entre o Golfo Pérsico e o mar aberto, teve fluxo médio de 20 milhões de barris por dia, o equivalente a cerca de 20% do consumo mundial de líquidos de petróleo 2. A mesma página mostra que o fluxo de petróleo bruto e condensado ali caiu 1,6 milhão de barris por dia entre 2022 e 2024 2. Do que passou em 2024, a Ásia recebeu 84% do petróleo bruto e do condensado e 83% do gás natural liquefeito (GNL, gás resfriado para viajar em navios) 2. China, Índia, Japão e Coreia do Sul ficaram com 69% do bruto 2.

Número: em 2024, cerca de 20% do consumo mundial de líquidos de petróleo passou pelo Estreito de Ormuz 2.

Rotas alternativas existem, mas são limitadas. Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos têm oleodutos que contornam Ormuz, e a EIA estimou em cerca de 2,6 milhões de barris por dia a capacidade que poderia estar disponível numa interrupção; segundo a mesma página, a maior parte do restante do petróleo bruto não tem outra saída 2. Cerca de um quinto do comércio mundial de GNL passou pelo estreito em 2024, e a página não menciona alternativa por terra para ele 2.

Exemplos na história

Embargo de 1973-1974. Descrito acima: fornecimento cortado por motivo político, preço do barril multiplicado e resposta dos países consumidores com reservas, regras de eficiência e uma agência de coordenação 1.

Gás russo na Europa, 2021-2026. A Eurostat, órgão de estatística da União Europeia, mostra que a participação da Rússia nas importações de GNL do bloco passou de 21,2% no primeiro trimestre de 2021 para 17,3% no segundo trimestre de 2026, e que o gás em estado gasoso, categoria da fonte, respondia por 10,2% no segundo trimestre de 2026 7. Segundo a mesma página, as restrições levaram a uma queda significativa dessa participação, com declínios só pequenos entre o fim de 2022 e 2024 7. A página não informa se a base é valor ou volume, e os números aqui são os que o texto dela traz, não uma série completa. Como interpretar essa redução é uma pergunta aberta: pode-se ler como risco de depender de um fornecedor rival, ou como adaptação do mercado quando as regras mudam. Este artigo não atribui essas leituras a um autor específico.

Mahan e o carvão, 1890. O caso mais antigo: segundo Mahan, o carvão deixava o navio de guerra mais preso ao porto 9. A relação com a geografia das bases é interpretação nossa.

A transição muda o tabuleiro?

O argumento a favor de que muda é direto: fontes como vento e sol não vêm por navio nem por gasoduto, e quem as instala dentro de casa reduz a exposição a fornecedores externos. O argumento contrário também tem peso: a transição cria outras dependências, de equipamentos, minerais e tecnologia, e o petróleo continua a ter peso no transporte pesado e na petroquímica. Esta enciclopédia não projeta ritmo nem resultado; essa é uma discussão aberta entre especialistas.

Um dado brasileiro ajuda a ver a diferença entre setores. Segundo a EPE, em 2025 as renováveis responderam por 86,8% da matriz elétrica, mas a renovabilidade dos transportes foi de 26,1% e a da oferta interna total ficou próxima de 50% 4. Eletricidade e combustíveis têm ritmos de troca diferentes.

Críticas e limites

A Stanford Encyclopedia of Philosophy descreve as críticas gerais ao realismo, não as aplicadas à energia; levá-las ao petróleo e ao gás é, de novo, extensão nossa 5.

  • Liberalismo e institucionalismo: segundo a enciclopédia, Robert Keohane e Joseph Nye propuseram a ideia de interdependência complexa, e Keohane defende que cooperação econômica e instituições internacionais podem ampliar a percepção que os Estados têm do próprio interesse 5. Aplicada à energia, a pergunta é se contratos, mercados e regras estabilizam o fornecimento mais do que a força.
  • Construtivismo: ainda segundo a enciclopédia, Alexander Wendt sustenta que identidades e interesses dos Estados, e portanto o poder, são moldados por ideias e normas 5. Aplicada à energia, a pergunta é até que ponto o que conta como recurso estratégico depende de decisões políticas.
  • Preço fora do controle: quem produz muito não decide a cotação. O Brent é uma mistura de petróleo do Mar do Norte usada como referência para precificar outros petróleos 10. Seu preço se forma no mercado, e a receita de um exportador cai quando o preço cai.
  • Resposta dos realistas, como pergunta aberta: em crise, o que pesa mais, o contrato ou a capacidade de cada Estado de proteger o próprio suprimento? O embargo de 1973 é um caso que alimenta esse debate 1, mas a fonte histórica não responde à pergunta.
  • Incerteza da demanda: a transição pode reduzir o consumo de fósseis, mas o ritmo depende de tecnologia, custo e política de cada país, e as projeções divergem.

O Brasil neste tabuleiro

Em julho de 2026, segundo a ANP, o Brasil produziu 5,851 milhões de barris de óleo equivalente por dia (boe/d, medida que soma petróleo e gás convertido em barris), dos quais 4,498 milhões de barris por dia de petróleo e 214,97 milhões de metros cúbicos por dia de gás natural 3. O pré-sal respondeu por 82,4% do total, e a Petrobras operou, sozinha ou em consórcio, campos que somaram 87,27% da produção 3. O tema é aprofundado em Pré-sal e poder energético: o que é, como funciona e o que pesa no tabuleiro do Brasil.

No gás, a conta é diferente da do petróleo: dos 214,97 milhões de m³/d produzidos, 66,12 milhões foram disponibilizados ao mercado em julho de 2026 3. A nota da ANP citada aqui traz esses dois números, mas não detalha o destino da diferença, e este artigo não a explica.

Na eletricidade, o perfil é outro. Em 2025, as renováveis responderam por 86,8% da matriz elétrica, e vento mais sol fotovoltaica chegaram a 26,4% da geração total 4. A geração a gás natural para eletricidade cresceu 22,7% no ano 4. As emissões da matriz energética somaram 440,2 milhões de toneladas de CO2 equivalente, sendo 220,8 milhões nos transportes 4.

O planejamento do governo está no Plano Decenal de Expansão de Energia 2035, que cobre de 2026 a 2035 e foi aprovado pela Portaria MME nº 923, de 30 de junho de 2026 8. Este artigo não cita as projeções de produção do plano. Pela lente realista, o que interessa é a capacidade do país de sustentar a própria energia e decidir sobre ela; para as outras escolas, pesa também a participação do Brasil em regras climáticas e comerciais. Este texto descreve as posições sem tomar partido.

Perguntas frequentes

Por que o Estreito de Ormuz aparece tanto nas notícias?

Porque, em 2024, por ele passaram em média 20 milhões de barris por dia, cerca de 20% do consumo mundial de líquidos de petróleo 2. Uma interrupção ali afeta compradores de vários continentes.

O Brasil é independente em energia?

O país produz bastante petróleo e tem eletricidade majoritariamente renovável, mas isso não elimina o efeito do preço mundial nem a necessidade de investimento contínuo. Em 2025, a renovabilidade da oferta interna de energia ficou próxima de 50% 4.

O que é a OPEP e o que ela faz?

É uma organização de países exportadores de petróleo criada em 1960, numa conferência em Bagdá, por cinco países fundadores 6. O verbete do glossário (OPEP e OPEP+) traz a situação atual dos membros.

Transição energética significa abandonar o petróleo?

Não por definição. Significa reduzir o peso dos combustíveis fósseis na matriz ao longo do tempo. No Brasil, em 2025, a renovabilidade dos transportes foi de 26,1% e a da eletricidade de 86,8%, o que mostra ritmos distintos 4.

Qual a diferença entre matriz energética e matriz elétrica?

A matriz energética reúne todas as fontes que movem a economia; a matriz elétrica, só as que geram eletricidade. Os percentuais não são comparáveis entre si 4.

Para fechar

Energia é poder porque sustenta economia e Forças Armadas, e porque rotas e fornecedores podem ser usados como pressão, como mostrou o embargo de 1973-1974 1. O Brasil junta petróleo em escala e eletricidade quase toda renovável 34, mas produzir não é decidir o preço, e a demanda do futuro depende de escolhas que ninguém controla sozinho. Para o vocabulário, veja Commodities, Petróleo Brent e OPEP e OPEP+ no glossário.

Verbetes do glossário: Commodities Petróleo Brent OPEP e OPEP+

Fontes

  1. Office of the Historian (Departamento de Estado dos EUA): Oil Embargo, 1973-1974 · consultado em 24/10/2026
  2. EIA (Energy Information Administration, EUA): Today in Energy, Strait of Hormuz (id 65504) · consultado em 24/10/2026
  3. ANP: ANP divulga dados consolidados da produção de petróleo e gás em julho de 2026 · consultado em 24/10/2026
  4. EPE: Relatório Síntese do Balanço Energético Nacional 2026 (ano-base 2025), nota de 03/06/2026 · consultado em 24/10/2026
  5. Stanford Encyclopedia of Philosophy: Realism in International Relations (seções 3 e 3.2: críticas liberais e construtivistas) · consultado em 24/10/2026
  6. Office of the Historian (Departamento de Estado dos EUA): Foreign Relations of the United States, 1958-1960, vol. IV, documento 314 (memorando de 21/11/1960 sobre a OPEP) · consultado em 24/10/2026
  7. Eurostat (Statistics Explained): EU imports of energy products, latest developments · consultado em 24/10/2026
  8. EPE: Plano Decenal de Expansão de Energia 2035 (página da publicação) · consultado em 24/10/2026
  9. Mahan, Alfred Thayer. The Influence of Sea Power Upon History, 1660-1783 (1890), cap. I, seção I, Project Gutenberg, ebook 13529 (domínio público) · consultado em 24/10/2026
  10. EIA: Definições de preços spot de petróleo (Brent) · consultado em 24/10/2026
  11. Revista Sociedade e Território (UFRN): resenha de The New Map: Energy, Climate, and the Clash of Nations, de Daniel Yergin (Penguin Press, Nova York, 2020); edição em português: O Novo Mapa, Bookman, 2023 · consultado em 24/10/2026
  12. Harvard Kennedy School: publicação Windfall, de Meghan O'Sullivan (Simon & Schuster, 2017) · consultado em 24/10/2026

Para ler mais

  • Daniel Yergin, The New Map: Energy, Climate, and the Clash of Nations (2020). Em português: O Novo Mapa: Energia, Clima e o Conflito entre Nações. Examina a relação entre energia, clima e conflito entre as nações.
  • Meghan L. O'Sullivan, Windfall: How the New Energy Abundance Upends Global Politics and Strengthens America's Power (2017). Argumenta que a passagem da escassez para a abundância de energia muda os interesses e as estratégias dos governos.
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Escrito em 24/10/2026 · checado em 24/10/2026 · versão 4