Tabuleiro TropicalSala de situação do Brasil

Fundos de crédito privado: o que são, como funcionam e quais os riscos

O que é

Fundo de crédito privado é um fundo de investimento que aplica mais de 50% do seu patrimônio líquido em ativos de responsabilidade de pessoas físicas ou jurídicas de direito privado, como as empresas. Nas classes de Renda Fixa, Multimercado e Cambial, a Resolução CVM 175 manda o fundo nessa situação incluir o sufixo "Crédito Privado" no nome (art. 70 do Anexo Normativo I). A norma prevê exceções, como a dos emissores públicos 1.

O fundo reúne o dinheiro de vários cotistas (os donos das cotas, as frações do fundo) e compra dívidas de empresas. Quem compra uma dívida empresta dinheiro e espera receber juros. Por isso esses fundos pertencem à renda fixa, grupo em que a regra de remuneração é conhecida na contratação.

"Privado" se opõe a "público". Dívida pública é a do governo, como os títulos do Tesouro Direto. Dívida privada é a de empresas, como as debêntures, títulos de dívida que as empresas emitem (veja Debêntures: o que são, como funcionam e quais os riscos). A Resolução 175 trata como ativos financeiros as debêntures e outros títulos de dívida que tenham passado por oferta pública registrada na CVM ou com registro dispensado 1.

Como funciona

O gestor, que escolhe os ativos, compra títulos de dívida de vários emissores. Os emissores pagam juros e devolvem o principal no vencimento. Esses pagamentos entram no patrimônio do fundo, e o valor da cota sobe ou desce conforme o valor dos títulos da carteira.

O cotista se beneficia quando os emissores pagam e é prejudicado quando deixam de pagar, ou quando o mercado passa a achar que podem deixar. Esse é o risco de crédito: o de o devedor não cumprir o que prometeu. Quanto mais frágil o devedor, mais juros ele costuma oferecer a quem empresta. Esse juro extra sobre a taxa de referência, o spread, compensa o risco; não impede que ele se realize.

A referência mais comum é o CDI, taxa que os bancos cobram entre si e que anda muito perto da Selic (veja CDI (Certificado de Depósito Interbancário): o que é, como funciona e como medir o rendimento). A Selic é a taxa básica de juros, definida pelo Copom. Em 24 de outubro de 2026, a meta da Selic estava em 13,75% ao ano, nível em vigor desde 17 de setembro de 2026 5. Em 22 de outubro de 2026, a taxa DI anualizada estava em 13,65% ao ano 6. Um fundo pode declarar no regulamento o objetivo de buscar "CDI mais algo". Isso descreve uma meta, não um resultado.

Como a CVM limita a concentração

A CVM fixa tetos para que o fundo não dependa demais de um só devedor. O art. 44 do Anexo Normativo I manda a classe de cotas observar, por emissor 1:

  • até 20% do patrimônio líquido em instituição financeira autorizada pelo Banco Central;
  • até 10% em companhia aberta (empresa com registro na CVM para negociar valores no mercado);
  • até 5% em pessoa natural ou pessoa jurídica de direito privado que não seja companhia aberta nem instituição financeira.

Há exceções e regras próprias. Pelo art. 45, debêntures de companhias abertas com oferta pública não têm limite por modalidade de ativo, mas continuam sujeitas ao teto de 10% por emissor 1. Títulos de dívida de empresas não registradas na CVM entram num teto de 20% do patrimônio, somados a outros ativos listados, como cotas de fundos destinados a investidores qualificados 1. O regulamento pode reduzir esses limites, mas não aumentá-los (art. 38) 1.

O fundo com mais de 50% em crédito privado também deve incluir, no termo de adesão e ciência de risco, o alerta de que a carteira pode ficar concentrada em crédito privado. Se o fundo aplica em outros fundos, o gestor soma as posições para medir o percentual 1.

Na prática: R$ 10.000 em um fundo que busca CDI mais 2% ao ano

O exemplo mostra o peso de um calote. Os valores são hipotéticos e não incluem taxas nem imposto.

  1. Em 22 de outubro de 2026, o CDI anualizado estava em 13,65% ao ano 6.
  2. Suponha que o fundo tenha títulos que pagam CDI mais 2% ao ano. Por simplificação, a taxa é (1 + 0,1365) × (1 + 0,02) − 1 = 15,92% ao ano.
  3. Se tudo for pago, R$ 10.000,00 viram cerca de R$ 11.592,30 em um ano.
  4. Agora suponha que um emissor com 8% da carteira (abaixo do teto de 10% para companhia aberta 1) deixe de pagar e que nada seja recuperado.
  5. Os outros 92% seguem rendendo 15,92%: R$ 11.592,30 × 0,92 ≈ R$ 10.664,92.

Nesse cenário, o cotista termina com cerca de R$ 700,00 a menos do que teria ao acompanhar o CDI de 13,65% no mesmo ano (R$ 11.365,00). Se a parte perdida fosse maior, o valor final poderia ficar abaixo do valor aplicado. É uma ilustração, não uma projeção nem um retrato de qualquer fundo real.

Tipos de fundo de renda fixa por risco de crédito

A Anbima, associação do mercado financeiro e de capitais, agrupa os fundos de renda fixa de gestão ativa em subcategorias de crédito. A cartilha de classificação descreve 7:

SubcategoriaO que a cartilha diz
SoberanoInveste 100% em títulos públicos federais
Grau de InvestimentoNo mínimo 80% da carteira em títulos públicos federais e ativos de baixo risco de crédito
Crédito LivrePode manter mais de 20% da carteira em títulos de médio e alto risco de crédito

Atenção: a cartilha foi escrita sobre a norma anterior da CVM, a Instrução 555 7. A Anbima pode ter atualizado a classificação depois da Resolução 175; confira a versão vigente no site dela. E o sufixo "Crédito Privado", da CVM, e a subcategoria, da Anbima, são coisas diferentes. O nome comercial do fundo não substitui a leitura do regulamento e da lâmina.

Fundo ou dívida direta: o que muda

PontoFundo de crédito privadoDívida privada comprada diretamente
Quem escolhe os devedoresO gestor, dentro do regulamentoO próprio investidor
DiversificaçãoVários emissores, com tetos da CVM 1Só os emissores escolhidos
FGCCotas de fundos não estão entre os créditos cobertos 4A FAQ do FGC não lista debêntures entre os créditos cobertos 4
ImpostoCome-cotas em maio e novembro, em muitos casos 3Regras próprias de cada título

A tabela mostra diferenças de estrutura. Ela não diz qual caminho é preferível.

Vantagens e riscos

O que o formato oferece

  • Diversificação embutida. O fundo pode ter muitos emissores, e os tetos da CVM limitam o peso de cada um 1.
  • Gestão dos ativos. O gestor analisa devedores e acompanha a carteira, dentro do regulamento.
  • Acesso por cotas. O cotista não precisa comprar títulos um a um.

O que pode dar errado

  • Perda de capital. Se emissores deixam de pagar, a cota cai e os cotistas arcam com a perda. O alerta obrigatório de concentração em crédito privado existe por isso 1.
  • Concentração. Mesmo com os tetos, poucos emissores ou um único setor podem pesar muito na carteira.
  • Sem cobertura do FGC. Cotas de fundos não estão entre os créditos cobertos 4.
  • Liquidez. Em momentos de estresse, os títulos podem ser difíceis de negociar. As condições de resgate constam do regulamento do fundo.
  • Custos e imposto. A taxa do fundo e o imposto reduzem o retorno.
  • Passado não prevê o futuro. Um período sem calotes não indica que o seguinte será igual.

Imposto e regras no Brasil

Quem regula. A CVM regula os fundos pela Resolução CVM 175, de 23 de dezembro de 2022. O sufixo "Crédito Privado" e o alerta de risco estão no art. 70 do Anexo Normativo I; os limites por emissor, no art. 44; os limites por modalidade de ativo, no art. 45 1. O art. 70 alcança as classes de renda fixa, multimercado e cambial 1.

Come-cotas. Segundo a B3, o come-cotas é a cobrança automática de imposto sobre o rendimento, feita na última data útil de maio e na de novembro. A alíquota é de 15% para fundos de longo prazo e de 20% para fundos de curto prazo. Atinge fundos de renda fixa, multimercado, cambiais e exclusivos, e não incide sobre o principal nem quando o rendimento do período é negativo 3.

Imposto no resgate. O regulamento do fundo informa se ele é de curto ou de longo prazo; as fontes lidas não detalham o critério de classificação (a Lei 11.033/2004 não abriu na consulta). Para fundos de longo prazo, a Receita Federal informa alíquotas de 22,5% (até 180 dias), 20% (de 180 a 360 dias), 17,5% (de 361 a 720 dias) e 15% (acima de 720 dias). Para fundos de curto prazo, 22,5% até 180 dias e 20% acima 2. As fontes consultadas não detalham como o come-cotas já pago é compensado no resgate; confira com a Receita.

Importante: regras em vigor em 24 de outubro de 2026, segundo as fontes citadas; a página da B3 é de 30 de maio de 2025. Alíquotas mudam, e o tratamento depende da classificação tributária de cada fundo. Consulte as fontes.

Garantia. O FGC (Fundo Garantidor de Créditos) garante até R$ 250.000 por pessoa, somados todos os créditos no mesmo conglomerado financeiro (limite em vigor em 24 de outubro de 2026). As cotas de fundos não estão na lista dos créditos cobertos 4. Tampouco há, na FAQ do FGC, menção a debêntures entre os créditos cobertos 4. Veja FGC: o que o Fundo Garantidor de Créditos cobre, até quanto e o que fica de fora.

Perguntas frequentes

Fundo de crédito privado tem cobertura do FGC?

Não. Segundo a FAQ do FGC, as cotas de fundos não estão entre os créditos cobertos 4. O fundo empresta a empresas, e a perda causada por um calote fica com os cotistas.

O que quer dizer "Crédito Privado" no nome do fundo?

Quer dizer que o fundo aplica mais de 50% do patrimônio em ativos de pessoas físicas e jurídicas de direito privado, ou em fundos que o fazem, e que deve alertar o cotista sobre a concentração 1.

Fundo de crédito privado paga come-cotas?

Em regra, fundos de renda fixa, multimercado e cambiais pagam come-cotas em maio e novembro, a 15% (longo prazo) ou 20% (curto prazo) 3. O fundo informa sua classificação tributária.

Qual é a diferença entre crédito privado e título público?

No título público federal, o devedor é a União. No crédito privado, os devedores são empresas e outras entidades privadas. A CVM trata os dois de modo diferente: não há limite por emissor quando o emissor é a União 1, e a Anbima separa o fundo "Soberano", só de títulos públicos federais, dos fundos com crédito privado 7.

Dá para perder dinheiro em fundo de crédito privado?

Dá. Se emissores deixam de pagar ou o mercado desvaloriza os títulos, a cota cai. O exemplo deste artigo, hipotético, mostra o efeito do calote de um emissor com 8% da carteira.

Para fechar

Fundo de crédito privado é um fundo que empresta a empresas por meio de títulos de dívida, com tetos de concentração da CVM, aviso obrigatório de risco, imposto de come-cotas e nenhuma cobertura do FGC. O ponto central é o risco de crédito: o juro extra existe porque o devedor pode não pagar. Para entender a base, veja Debêntures: o que são, como funcionam e quais os riscos e Risco de crédito e rating: o que são, como funcionam e o que não garantem.

Verbetes do glossário: Selic

Fontes

  1. CVM: Resolução CVM 175, Anexo Normativo I (Fundos de Investimento Financeiro), texto consolidado · consultado em 24/10/2026
  2. Receita Federal: Tributação de 2026 (Rendimentos de Capital) · consultado em 24/10/2026
  3. B3 (Bora Investir): Come-cotas é cobrado hoje, de 30/05/2025 · consultado em 24/10/2026
  4. FGC: Perguntas frequentes (FAQ) · consultado em 24/10/2026
  5. Banco Central do Brasil: SGS, série 432 (meta Selic) · consultado em 24/10/2026
  6. Banco Central do Brasil: SGS, série 4389 (taxa DI anualizada) · consultado em 24/10/2026
  7. Anbima: Cartilha da Nova Classificação de Fundos (renda fixa, pp. 13-16) · consultado em 24/10/2026
Brief Brasil

Receba o Brief Brasil todo dia às 7h

O resumo do dia, com a fonte de cada informação. Você confirma o e-mail e pode sair quando quiser.

Como este artigo é feito

Os artigos da Enciclopédia são escritos a partir de fontes oficiais brasileiras (CVM, B3, Banco Central, Tesouro Nacional, Receita Federal) e de livros-texto abertos. Cada número, data, regra e imposto é conferido contra essas fontes antes da publicação. Dados que mudam com o tempo trazem a data. Achou um erro? Escreva para o contato do site.

Conteúdo educativo. Não é recomendação de investimento, nem oferta de compra ou venda de qualquer ativo.

Escrito em 24/10/2026 · checado em 24/10/2026 · versão 2