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Geopolítica clássica: Mackinder, Mahan e Spykman, o que cada um defendia e o que sobrou da teoria

O que é

Geopolítica clássica é o nome dado ao conjunto de teorias, escritas entre o fim do século XIX e a Segunda Guerra Mundial, que explicam o poder dos Estados pela geografia. Para elas, a posição no mapa, o acesso ao mar, o relevo e as distâncias moldam o que um país consegue fazer.

Três nomes resumem a tradição. O almirante americano Alfred Mahan argumentou que a força de uma nação vem do mar. O geógrafo britânico Halford Mackinder olhou para o interior da Eurásia, o grande bloco de terra que une Europa e Ásia. O professor holandês-americano Nicholas Spykman olhou para as bordas costeiras desse bloco.

Este artigo lê os três pela lente do realismo, linha que vê os Estados disputando poder num sistema sem autoridade acima deles 8. É uma lente entre outras, e a seção de críticas mostra os limites dela.

De onde vem: três autores, três momentos

Mahan, 1890. Em The Influence of Sea Power upon History, 1660-1783, Mahan examinou as guerras navais entre ingleses, franceses, holandeses e espanhóis 1. Para ele, "poder marítimo" inclui a marinha militar e também o comércio e a navegação pacífica, que sustentam a frota 1.

Mackinder, 1904 e 1919. O texto "The Geographical Pivot of History" foi publicado na Geographical Journal em abril de 1904 (volume 23, número 4, páginas 421 a 437) 2. Em 1919, Mackinder publicou o livro Democratic Ideals and Reality, em Nova York, onde a ideia aparece de forma mais desenvolvida, com a máxima sobre a Europa Oriental 3.

Spykman, 1942 e 1944. Spykman nasceu em 1893 em Amsterdã, foi professor em Yale, nos Estados Unidos, e morreu em 26 de junho de 1943 5. Publicou America's Strategy in World Politics em 1942 5. The Geography of the Peace saiu em 1944, depois da morte dele 45.

Como funciona o argumento de cada um

Mahan: o mar como estrada e como base

Mahan listou seis condições que afetam o poder marítimo de um país: posição geográfica, conformação física (costas, portos, clima), extensão do território, tamanho da população, caráter do povo e caráter do governo 1. A lógica é simples: o mar é a via mais barata para o comércio, e a frota e as bases protegem essa via.

Ele dá um exemplo da posição. Uma nação que não precisa se defender por terra nem se expandir por terra concentra seus esforços no mar, o que, segundo ele, favoreceu a Inglaterra sobre a França e a Holanda 1. A França, na avaliação de Mahan, desviava recursos para exércitos e projetos continentais 1.

Mackinder: o interior inacessível ao mar

Segundo Francis Sempa, autor de estudos sobre geopolítica, em 1904 Mackinder chamou de "região pivô" da política mundial o núcleo centro-norte da Eurásia, sem hidrovias que levassem ao oceano 9. A ideia é que essa posição central, fora do alcance dos navios, daria a quem a controlasse uma vantagem na política mundial.

Mackinder também descreveu dois arcos em torno da região pivô. No "crescente interno" ficavam as terras vizinhas a ela; no "crescente externo", países insulares, como Grã-Bretanha, Estados Unidos e Japão 9. Ainda segundo Sempa, ele advertiu que o controle de recursos continentais permitiria construir frotas, e que uma aliança russo-alemã poderia disputar o domínio mundial 9.

Em 1919, ele chamou Europa, Ásia e África juntas de "Ilha Mundial" 3. E resumiu o raciocínio em três linhas, hoje famosas (tradução nossa): quem governa a Europa Oriental comanda o heartland; quem governa o heartland comanda a Ilha Mundial; quem governa a Ilha Mundial comanda o mundo 3.

Spykman: a borda como prêmio

Spykman partiu de Mackinder e o corrigiu. Segundo uma resenha acadêmica de 2026, ele revisou a teoria do heartland, acrescentou uma zona costeira, o "rimland", e incluiu o poder aéreo entre os fatores centrais 4. O rimland é análogo ao "crescente interno" de Mackinder, que Spykman reconcebeu como zona intermediária 5. Segundo a mesma resenha, a teoria de Mackinder foi superada pelo início da guerra 4.

A máxima atribuída a ele inverte a de Mackinder: quem controla o rimland governa a Eurásia, e quem governa a Eurásia controla os destinos do mundo. A frase aparece na ficha do Internet Archive 6 e na Wikipédia 5. Segundo a ficha do Internet Archive, ele via no rimland, e não no interior, a maior parte da população e dos recursos industriais do mundo 6.

Exemplos na história

Inglaterra e França, séculos XVII e XVIII. O caso de Mahan: a Inglaterra, ilha com frota e comércio, contra uma França dividida entre o mar e as guerras terrestres 1.

Trafalgar, 1805. Mahan discute a batalha de Trafalgar para tratar do papel da frota na guerra contra Napoleão (na introdução e em capítulos posteriores da obra) 1.

Segunda Guerra Mundial, 1942 a 1944. Spykman publicou America's Strategy in World Politics em 1942 e, postumamente, The Geography of the Peace em 1944 5. Segundo a ficha do Internet Archive, o livro chama de ilusão perigosa confiar apenas nos oceanos Atlântico e Pacífico para a segurança dos Estados Unidos 6. A resenha de 2026 menciona o ceticismo dele diante do "insularismo" dos Estados Unidos e de potências europeias 4.

Críticas e limites

A resenha que apresenta a tese de Spykman diz que o livro tem falhas metodológicas e conceituais e levanta dúvida sobre a veracidade das informações apresentadas 4.

Outras objeções são de ordem geral:

  • Determinismo. Explicar o poder só pela geografia deixa de fora as escolhas de governos. O próprio Mahan pesa as condições naturais mais do que a ação dos governos, mas admite que a ação, sábia ou não, de indivíduos teve influência modificadora em certos períodos 1.
  • Tecnologia. A resenha de 2026 registra que Spykman acrescentou o poder aéreo aos fatores centrais 4, o que mostra uma teoria sendo ajustada à técnica de seu tempo.
  • Liberais. Os liberais acentuam a cooperação e a interdependência econômica, e Robert Keohane argumenta que instituições internacionais podem ampliar a compreensão que os Estados têm do próprio interesse 8.
  • Construtivistas. Para Alexander Wendt, a lógica de cada um por si não decorre da falta de autoridade acima dos Estados, mas é construída socialmente: poder e interesses são moldados por ideias e normas 8. Para essas escolas, a geografia não fala sozinha.

O Brasil neste tabuleiro

O Brasil não é peça central em nenhum dos três autores, mas se encaixa em cada lente.

Pela lente de Mahan, o país tem uma costa longa e uma "Amazônia Azul", termo político-estratégico criado pela Marinha no fim da década de 1980 7. Ela reúne o mar territorial, a zona contígua, a Zona Econômica Exclusiva e a plataforma continental 7. Em setembro de 2026, o governo falava em cerca de 5,7 milhões de km², contando a plataforma estendida que o Brasil reivindica na ONU, e em cerca de 3,6 milhões de km² só de Zona Econômica Exclusiva 7. A ressalva importa: o número maior inclui a plataforma continental estendida, reivindicada pelo Brasil junto à ONU 7.

Na definição de Mackinder em 1919, a Ilha Mundial é Europa, Ásia e África 3; o Brasil fica fora dela. Isso pode ser lido como distância de segurança ou como posição periférica nas disputas entre grandes potências. Qual leitura vale é questão de interpretação, e não de fato.

Perguntas frequentes

O que é heartland?

É a região do interior da Eurásia que Mackinder via como o centro do mundo político. Em 1904, ele a tratou como "região pivô", núcleo da Eurásia sem hidrovias para o oceano 9. Em 1919, usou o termo em inglês, "heartland", e o ligou à Europa Oriental 3.

O que é rimland?

É a faixa costeira da Eurásia entre o interior e o mar. O termo é de Spykman, cuja ideia é análoga ao "crescente interno" de Mackinder 5.

Mackinder escreveu que quem controla a Europa Oriental controla o mundo?

Escreveu uma cadeia de três passos sobre Europa Oriental, heartland e Ilha Mundial, em Democratic Ideals and Reality, de 1919, página 186 da edição consultada 3.

Mahan, Mackinder e Spykman discordam entre si?

Em parte. Mahan valoriza o mar; Mackinder, o interior continental; Spykman, as bordas 195. Spykman revisa Mackinder, segundo a resenha de 2026 4.

As teorias ainda valem hoje?

Há debate. Uma resenha de 2026 ainda discute o livro de Spykman, e ao mesmo tempo aponta falhas metodológicas e conceituais nele 4. Liberais e construtivistas contestam a ênfase na geografia e no poder 8. O artigo não toma partido.

Para fechar

Mahan, Mackinder e Spykman deram três respostas à mesma pergunta: o que a posição no mapa permite a um Estado. Cada resposta foi escrita em um momento histórico diferente (1890, 1904 e 1919, 1944), e nenhuma explica tudo. Servem como lente para ler disputas, e a lente é mais útil quando se lembra do que ela deixa fora.

Fontes

  1. Alfred T. Mahan, The Influence of Sea Power upon History, 1660-1783 (1890), Project Gutenberg, obra integral (as seis condições estão no cap. I; Trafalgar aparece na introdução e em capítulos posteriores) · consultado em 24/10/2026
  2. Halford J. Mackinder, The Geographical Pivot of History, The Geographical Journal, v. 23, n. 4, abr. 1904, p. 421-437 (JSTOR, dados bibliográficos) · consultado em 24/10/2026
  3. Halford J. Mackinder, Democratic Ideals and Reality: A Study in the Politics of Reconstruction (Henry Holt, 1919), Internet Archive · consultado em 24/10/2026
  4. Juan Miguel Palero, A Book Review of The Geography of the Peace, Interdisciplinary Journal of Humanities Studies, v. 2, n. 2, 2026, p. 14-20 (resumo) · consultado em 24/10/2026
  5. Wikipédia: Nicholas J. Spykman (contexto biográfico) · consultado em 24/10/2026
  6. Internet Archive: ficha de The Geography of the Peace (1944), de Nicholas John Spykman · consultado em 24/10/2026
  7. Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação: Você sabe o que é a Amazônia Azul? (27/08/2026, atualizado em 17/09/2026) · consultado em 24/10/2026
  8. W. Julian Korab-Karpowicz, Political Realism in International Relations, Stanford Encyclopedia of Philosophy (publicado em 2010, revisão substantiva de 29/07/2026) · consultado em 24/10/2026
  9. Francis P. Sempa, Mackinder's World, American Diplomacy (UNC-Chapel Hill), fevereiro de 2000 · consultado em 24/10/2026

Para ler mais

  • Alfred Thayer Mahan, The Influence of Sea Power upon History, 1660-1783 (1890). Mostra, com a história naval de ingleses, franceses e holandeses, como comércio, marinha e bases se sustentam.
  • Halford J. Mackinder, Democratic Ideals and Reality (1919). Desenvolve a ideia de heartland e de "ilha mundial" e traz a máxima sobre a Europa Oriental.
  • Nicholas J. Spykman, The Geography of the Peace (1944). Propõe o rimland como região-chave da Eurásia e discute a posição dos Estados Unidos no mundo do pós-guerra.
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Escrito em 24/10/2026 · checado em 24/10/2026 · versão 8