Lucro por ação (LPA): o que é, como se calcula e o que ele não mostra
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O que é
O lucro por ação (LPA) é o lucro líquido de uma empresa dividido pelo número de ações que ela tem, em média, durante o período. É uma forma de ver o lucro total em fatias, uma por ação.
Uma ação é uma fração do capital da empresa. Se a empresa lucra R$ 600 milhões e tem em média 100 milhões de ações, o LPA é de R$ 6,00. Isso não significa que o acionista recebe R$ 6,00. O lucro pode ficar na empresa, para investimento, ou ser distribuído em parte, como dividendos ([[dividendos]]).
O LPA é o denominador do P/L (preço sobre lucro), o múltiplo que divide o preço da ação pelo lucro por ação ([[preco-sobre-lucro-p-l]]). Entender o LPA é entender metade do P/L.
Como funciona
No Brasil, o cálculo e a apresentação seguem o Pronunciamento Técnico CPC 41, do Comitê de Pronunciamentos Contábeis. Ele é correlato ao IAS 33, norma internacional sobre o mesmo assunto 23. A CVM aprovou a consolidação do CPC 41 pela Resolução CVM 113, de 20 de maio de 2022 1.
O mecanismo básico tem três passos:
- Lucro do numerador. Pega-se o lucro ou prejuízo do período atribuído aos acionistas da empresa. Em um grupo com subsidiárias, conta só a parte que pertence aos donos da controladora 3.
- Ações do denominador. Usa-se a média ponderada das ações em circulação no período, e não só o número de ações no último dia 3[4, itens 10 e 19]. "Ponderada" quer dizer que cada ação conta pelo tempo que esteve em circulação [4, item 20]. As ações que a própria empresa recomprou e mantém em tesouraria ficam fora da conta [4, itens 10 e 19].
- Divisão. O lucro é dividido pela média de ações.
Emissões de ações, conversões, bonificações, desdobramentos e grupamentos mudam o denominador 3. Por isso o número de ações do início do ano raramente é o usado na conta.
A conta do LPA
Em texto simples:
LPA básico = lucro líquido atribuível aos acionistas ÷ média ponderada de ações em circulação
- Lucro líquido atribuível: o resultado depois de custos, despesas e impostos, na parte que cabe aos acionistas da controladora.
- Média ponderada de ações: soma do número de ações, cada qual multiplicada pela fração do período em que existiu.
O LPA diluído segue a mesma ideia, mas supõe que certos instrumentos virem ações. São opções, bônus de subscrição e debêntures conversíveis, que dão ao titular o direito de receber ações no futuro. O LPA diluído mostra o quanto o LPA cairia se esses instrumentos fossem convertidos ou exercidos 3.
Para isso, a norma manda ajustar o lucro do numerador, já descontados os tributos, pelos efeitos da conversão, como os juros que deixariam de ser pagos [4, item 33]. Em regra, a conversão é suposta no início do período, ou na data de emissão do instrumento, se ela for posterior [4, item 36].
A norma exige que o LPA básico e o diluído sejam mostrados na demonstração do resultado [4, item 66], e o IAS 33 pede que os dois tenham igual destaque 3.
Na prática: o LPA de uma empresa fictícia em 2026
Importante: a empresa abaixo é inventada, e os números são só para mostrar a conta. Não retratam nenhuma empresa real.
A Alfa S.A. (fictícia) fechou o exercício de 2026 com lucro líquido de R$ 600 milhões, todo atribuível aos acionistas. Em 1º de janeiro, ela tinha 100 milhões de ações e nenhuma em tesouraria. Em 1º de julho, emitiu mais 20 milhões de ações.
Passo 1: média ponderada.
- 100 milhões de ações ficaram o ano inteiro (12 meses de 12): 100 milhões.
- 20 milhões de ações ficaram 6 meses de 12: 20 × 6/12 = 10 milhões.
- Média ponderada: 100 + 10 = 110 milhões de ações.
A ponderação por meses é uma aproximação. A norma fala em ponderar pelo tempo em circulação, em geral por dias [4, item 20]; por dias, o resultado seria um pouco diferente, mas muito próximo.
Passo 2: LPA básico.
- R$ 600 milhões ÷ 110 milhões = R$ 5,45 por ação (5,4545, arredondado).
Se alguém dividisse pelas 120 milhões de ações do fim do ano, chegaria a R$ 5,00. A diferença existe porque as 20 milhões de ações novas só participaram de metade do ano.
Passo 3: LPA diluído. Suponha que a Alfa tenha, desde 1º de janeiro de 2026, debêntures conversíveis em 10 milhões de ações, e que os juros dessas debêntures, depois do imposto, somem R$ 20 milhões no ano. Se elas virassem ações, a empresa deixaria de pagar esses juros, e o lucro subiria R$ 20 milhões [4, item 33]. Como as debêntures existem desde o início do período, a conversão é suposta em 1º de janeiro [4, item 36].
- (R$ 600 milhões + R$ 20 milhões) ÷ (110 + 10 milhões de ações) = R$ 620 milhões ÷ 120 milhões = R$ 5,17 (5,1667).
O LPA diluído (R$ 5,17) ficou abaixo do básico (R$ 5,45). Essa é a razão de existir: mostrar o efeito possível sobre cada ação.
Passo 4: ligação com o P/L. Se a ação da Alfa valesse R$ 54,50 em outubro de 2026, o P/L seria R$ 54,50 ÷ R$ 5,45 = 10, isto é, o preço equivale a 10 vezes o lucro por ação do ano. O preço é inventado, como o resto.
Isto é uma ilustração, não uma projeção nem uma avaliação de empresa alguma.
Desdobramento, grupamento e bonificação: por que o LPA "muda" sem a empresa mudar
Desdobramento é quando a empresa divide cada ação em várias. Grupamento é o contrário: junta várias ações em uma. Bonificação é a distribuição de ações novas aos acionistas atuais. Os três mudam o número de ações 3. Veja mais em [[desdobramento-e-grupamento]].
Na Alfa fictícia, imagine um desdobramento de 1 ação em 2. O número de ações dobra. O lucro total, R$ 600 milhões, não muda. Com o dobro de ações, o LPA cai pela metade: de R$ 5,45 para R$ 2,73 (2,7273). O preço da ação, no mercado, costuma ajustar-se na mesma proporção: R$ 54,50 viraria R$ 27,25. O P/L continua 10.
Quem tinha 100 ações passa a ter 200. A parte da empresa que ele possui não mudou.
Nas demonstrações, a própria empresa refaz o LPA dos períodos comparativos como se o desdobramento já existisse [4, item 64]. Números antigos copiados de relatórios anteriores ou de sites de dados podem não estar ajustados. Por isso, ao comparar o LPA de anos diferentes, vale conferir se houve um desses eventos no meio do caminho.
LPA básico ou diluído: o que muda
| LPA básico | LPA diluído | |
|---|---|---|
| Ações no denominador | Média ponderada das ações em circulação 3 | Média ponderada mais as ações que viriam de conversões e exercícios 3 |
| Instrumentos considerados | Só ações existentes | Opções, bônus de subscrição, debêntures conversíveis 3 |
| Ajuste no lucro | Nenhum | Efeitos da conversão, após tributos, como juros que deixariam de ser pagos [4, item 33] |
| Resultado típico | Maior ou igual ao diluído | Menor ou igual ao básico |
| Divulgação | Na demonstração do resultado [4, item 66] | Na demonstração do resultado, com igual destaque 3[4, item 66] |
O que o LPA não mostra
O LPA é útil, mas tem limites de peso parecido com sua utilidade.
O que ele ajuda a ver
- Dá uma medida do lucro por unidade de propriedade, que permite comparar o lucro de dois períodos da mesma empresa mesmo quando o número de ações mudou.
- Tem cálculo padronizado: as companhias com ações negociadas em bolsa, ou em processo de registro, calculam e publicam o LPA pela mesma norma 3[4, item 2].
- É a base de outros indicadores, como o P/L.
O que ele não mostra
- Qualidade do lucro. Um lucro pode vir de uma venda de ativo ou de um ganho que não se repete. O LPA daquele ano subiria, mas não indica o que virá.
- Caixa. Lucro contábil não é dinheiro em caixa. Uma empresa pode ter LPA positivo e fluxo de caixa fraco.
- Distribuição. Não diz quanto será pago aos acionistas. A parcela distribuída segue o estatuto e a lei das sociedades por ações, e o artigo [[dividendos]] trata do dividendo obrigatório.
- Diferenças de tamanho e dívida. Duas empresas com o mesmo LPA podem ter estruturas de capital muito diferentes.
- Comparação entre empresas. Um LPA de R$ 5 e um de R$ 1 não dizem qual empresa é maior ou mais lucrativa, porque o número de ações é escolha da empresa. O que se compara é o LPA ao preço (o P/L) ou o lucro à receita (a margem).
- Prejuízo. Quando a empresa perde dinheiro, o resultado por ação fica negativo, e o P/L deixa de fazer sentido.
Atenção: o LPA resume o passado. Ele não é previsão de lucro futuro, nem de preço.
No Brasil: regras e quem fiscaliza
- Norma: o CPC 41 (Resultado por Ação) foi aprovado pelo Comitê de Pronunciamentos Contábeis em 8 de julho de 2010 e tem como correlato o IAS 33, do IASB 2.
- Quem torna a norma obrigatória: a CVM, que aprovou a consolidação do CPC 41 pela Resolução CVM 113, de 20 de maio de 2022 1.
- Alcance: o CPC 41 se aplica a entidades com ações ordinárias, ou ações ordinárias potenciais, negociadas em mercado ou em processo de registro na CVM [4, item 2]. O IAS 33 tem alcance parecido, para ações negociadas publicamente 3.
- Onde o leitor encontra o dado: nas demonstrações financeiras que as companhias abertas entregam à CVM, em especial a demonstração do resultado. O conjunto DFP dos Dados Abertos da CVM reúne esses documentos 5.
Regra em vigor em 15 de outubro de 2026; confira as fontes para mudanças. Os detalhes de como o cálculo trata cada classe de ação (ordinárias e preferenciais) estão no texto integral do CPC 41, que este artigo não reproduz.
Perguntas frequentes
LPA e dividendo por ação são a mesma coisa?
Não. O LPA mostra quanto lucro corresponde a cada ação. O dividendo por ação é a parte que a empresa efetivamente distribui. O restante do lucro pode ficar retido na empresa.
O que é LPA diluído?
É o LPA recalculado como se opções, debêntures conversíveis e instrumentos parecidos tivessem virado ações 3. Mostra quanto cada ação "perderia" de lucro se isso acontecesse.
Por que o LPA cai depois de um desdobramento?
Porque o número de ações aumenta e o lucro total fica igual. A conta é uma divisão: mais ações no denominador, LPA menor. O preço da ação costuma se ajustar na mesma proporção, e o valor da posição do acionista não muda por causa do desdobramento.
Onde acho o LPA de uma empresa brasileira?
Na demonstração do resultado das demonstrações financeiras que a empresa envia à CVM, onde o básico e o diluído aparecem [4, item 66]5. Sites de dados também calculam o LPA por conta própria, com métodos que podem diferir; vale conferir o critério.
LPA alto significa empresa melhor?
Não. O valor do LPA depende de quantas ações a empresa decidiu ter. O que dá sentido ao LPA é a comparação com o próprio histórico, com o preço da ação (o P/L) e com o caixa gerado.
Para fechar
O LPA transforma o lucro total em uma medida por ação e é a base do P/L. Ele depende do lucro contábil e da média de ações, por isso muda com emissões, recompras e desdobramentos mesmo quando a empresa continua a mesma. Convém lê-lo junto de outros dados, como o caixa e a dívida, e nunca como previsão. Para aprofundar o indicador vizinho, veja [[preco-sobre-lucro-p-l]].
Verbetes do glossário: P/L (preço sobre lucro)
Fontes
- CVM: Resolução CVM 113/2022 (consolidação do CPC 41, resultado por ação) · consultado em 15/10/2026
- CPC: Pronunciamento Técnico CPC 41 - Resultado por Ação (página do pronunciamento) · consultado em 15/10/2026
- IFRS Foundation: IAS 33 Earnings per Share · consultado em 15/10/2026
- CPC 41 (texto anexo à Deliberação CVM 636/2010, reprodução no Legisweb; itens citados no corpo) · consultado em 15/10/2026
- CVM Dados Abertos: Cias Abertas, Documentos: DFP · consultado em 15/10/2026
Como este artigo é feito
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Escrito em 15/10/2026 · checado em 15/10/2026 · versão 2