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Oriente Médio: Israel, Irã e o Golfo, e por que o petróleo faz da região um tabuleiro

O que é

Oriente Médio é o nome dado à região que vai, grosso modo, do Mediterrâneo oriental ao Golfo Pérsico. Os limites mudam conforme o autor. Aqui o foco são três polos: Israel, o Irã e as monarquias árabes do Golfo (Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar, Kuwait, Bahrein e Omã), que ficam na margem oposta à iraniana.

A geopolítica estuda como os Estados disputam poder e território. Esta região interessa por três razões: concentra rivalidades armadas entre Estados, abriga grandes reservas e exportadores de energia e controla uma passagem marítima estreita, o Estreito de Ormuz, que liga o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e ao Mar da Arábia 2.

O artigo usa a lente do realismo, escola das Relações Internacionais que trata os Estados como os atores centrais, preocupados com poder e segurança 1. Descreve posições e interesses, sem tomar partido de nenhum país.

De onde vem

A região tem história longa, mas o tabuleiro atual se formou em poucos momentos. Em 1979, o xá do Irã deixou o país em 16 de janeiro, o aiatolá Khomeini voltou em 1º de fevereiro, e um referendo em 30 e 31 de março aprovou a criação da República Islâmica 14. No fim daquele ano, a União Soviética invadiu o Afeganistão 3. Em 23 de janeiro de 1980, o presidente americano Jimmy Carter declarou, em discurso ao Congresso, que uma tentativa de "qualquer força externa" de obter o controle do Golfo Pérsico seria tratada como ataque aos interesses vitais dos Estados Unidos (tradução nossa) 3. Ficou conhecida como Doutrina Carter.

De 22 de setembro de 1980 a 20 de agosto de 1988, Irã e Iraque travaram uma guerra que acabou por cessar-fogo mediado pela ONU 12. Depois vieram outros marcos: os Acordos de Abraão, de 2020, em que Emirados Árabes Unidos e Bahrein assinaram acordos de normalização com Israel, em 15 de setembro daquele ano 10, e o acordo de março de 2023, em que Arábia Saudita e Irã, rompidos desde janeiro de 2016, anunciaram a retomada de relações, com mediação da China 11.

Como funciona o argumento

A leitura realista parte de um ponto: acima dos Estados não há autoridade comum que os proteja. Cada um cuida da própria segurança e conta, antes de tudo, consigo mesmo 1. Daí vêm três movimentos que ajudam a organizar a região.

  1. Medo do vizinho mais forte (dilema de segurança). Quando um Estado reforça suas forças, os vizinhos podem ler o gesto como ameaça e se armar também, e o resultado é mais insegurança para todos. A disciplina chama isso de dilema de segurança, conceito formulado por John Herz no início dos anos 1950, quase ao mesmo tempo que Herbert Butterfield propunha ideia muito parecida 16. Herz achava que os adversários poderiam perceber que a hostilidade do outro é, em parte, resposta às suas próprias ações 16.
  2. Busca de equilíbrio. Estados fracos ou médios procuram aliados para conter quem consideram mais perigoso, o que a escola chama de equilíbrio de poder: acordos, bases militares, compras de armas 1.
  3. Potência de fora como peça. Em 1980, os Estados Unidos anunciaram reforço naval no Oceano Índico e arranjos para usar instalações navais e aéreas no Golfo Pérsico e no nordeste da África 3. Para o realismo, alianças assim duram enquanto servem aos interesses de cada lado. Essa é uma interpretação da escola, não um fato da fonte.

Nesta leitura, a ligação entre Israel e Estados árabes em 2020 e o aperto de mão entre Riad e Teerã em 2023 não são contraditórios. Ambos seriam ajustes de cálculo de segurança, não mudanças de natureza 1011. É uma interpretação, e a seção de críticas mostra o que outras escolas dizem.

O petróleo e o Estreito de Ormuz

Em 2024, cerca de 20 milhões de barris de petróleo por dia passaram por Ormuz, perto de 20% do consumo mundial de líquidos de petróleo, segundo a agência de energia do governo americano 2. Cerca de um quinto do comércio mundial de gás natural liquefeito (GNL) também passou por ali, sobretudo do Catar 2.

O destino é principalmente asiático: 84% do cru e 83% do GNL foram para a Ásia, e China, Índia, Japão e Coreia do Sul somaram 69% do cru e condensado 2. A Arábia Saudita respondeu por 38% do cru que cruzou o estreito, cerca de 5,5 milhões de barris por dia 2. Existem rotas alternativas por oleoduto, mas a mesma fonte estimava em junho de 2025 que apenas cerca de 2,6 milhões de barris por dia poderiam contorná-lo 2.

Para quem pensa em poder, isso explica por que uma passagem marítima estreita entra em cálculos de segurança de Estados distantes. Quem pode ameaçar a passagem influencia o preço e a oferta de energia de quem depende dela.

Exemplos na história

1980: a Doutrina Carter. Em 23 de janeiro de 1980, o presidente dos Estados Unidos associou a segurança do Golfo ao interesse vital do país, quase um mês depois da invasão soviética do Afeganistão 3. No mesmo discurso, disse que o país havia aumentado sua presença naval no Oceano Índico 3. O texto fala em "força externa" sem nomear ninguém 3.

1980 a 1988: a guerra Irã-Iraque. O Iraque invadiu o Irã em 22 de setembro de 1980, e a guerra durou quase oito anos, até o cessar-fogo de 20 de agosto de 1988 12. O episódio costuma ser lido, no realismo, como exemplo de Estados vizinhos e de fora tomando partido para impedir que um lado vencesse com folga, mas essa é uma leitura, não consenso.

2023: Pequim aproxima Riad e Teerã. Em 10 de março de 2023, Arábia Saudita e Irã anunciaram a retomada de relações, rompidas em 3 de janeiro de 2016 após a execução de um clérigo xiita e o ataque à embaixada saudita em Teerã 11. A China mediou, depois de conversas reservadas em Pequim 11. As embaixadas reabriram em junho e agosto de 2023 11.

2025 e 2026: de uma guerra de doze dias a outra, mais longa. Em 13 de junho de 2025, Israel atacou instalações militares e nucleares do Irã; em 22 de junho, os Estados Unidos bombardearam três sítios nucleares iranianos; em 24 de junho, Israel e Irã aceitaram um cessar-fogo 9. Em 28 de fevereiro de 2026, Estados Unidos e Israel iniciaram novos ataques contra o Irã, em meio a negociações 57. Segundo a Al Jazeera, o Irã fechou o Estreito de Ormuz em reação à guerra, sem data exata na reportagem, e um cessar-fogo de duas semanas, mediado pelo Paquistão, foi anunciado em 8 de abril 13. Em 8 de julho, na cúpula da Otan em Ancara, o presidente americano disse acreditar que o cessar-fogo havia acabado. Antes, os dois lados tinham trocado ataques: segundo a reportagem, os Estados Unidos atingiram cerca de 80 alvos e o Irã atacou três navios comerciais em Ormuz 15. Ele não descartou negociar, e a reportagem lembra que um memorando de entendimento interino fora assinado em meados de junho 15. A Wikipédia, usada aqui só como contexto, registra o colapso do cessar-fogo na mesma data 4.

Onde a disputa está em 24 de outubro de 2026

A situação muda a cada dia, e as fontes divergem. Em 24 de outubro de 2026:

  • O chefe do Estado-Maior iraniano disse que navios militares americanos não entrariam no Golfo "em nenhuma circunstância" (tradução nossa do inglês), e o embaixador americano na Turquia disse que Washington poderia atacar já naquele fim de semana 6.
  • A Guarda Revolucionária iraniana afirmou que dois superpetroleiros bateram em minas navais na sexta-feira, 23 de outubro. A informação vem do próprio órgão iraniano 6. Não há confirmação independente nas fontes consultadas.
  • O Pentágono confirmou 21 militares americanos mortos desde o início da guerra 5. Os números de mortos de outros países variam conforme a fonte, e este artigo não os adota.
  • Segundo a reportagem, Washington não comentou publicamente um memorando em que o diretor de inteligência nacional americano alerta para aumento de planos iranianos contra americanos; uma autoridade americana confirmou a autenticidade do documento ao jornal New York Times 5.
  • Autoridades de segurança iranianas disseram à agência Reuters que Teerã tem planos para atingir cabos submarinos de comunicação no Golfo se os ataques recomeçarem 56.
  • Houthis, grupo armado do Iêmen, atacaram infraestrutura saudita, e a coalizão liderada pela Arábia Saudita disse ter interceptado mísseis balísticos 56.

O presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, tinha viagem marcada a Moscou para 27 de outubro, segundo o jornal dos Emirados 6. Chanceleres de países árabes, da Turquia, do Paquistão e de potências europeias se reuniram em Istambul para discutir Irã e Iêmen 6. Os fatos desta seção valem para a data indicada e podem ter mudado quando você ler.

Críticas e limites

O realismo é uma lente, não a única explicação. Escolas rivais fazem objeções de peso parecido.

  • Identidade e religião. Construtivistas dizem que o que os Estados querem depende de ideias, história e identidade, e não só de poder. A divisão entre xiitas e sunitas, a ideologia da República Islâmica e o nacionalismo de cada país seriam parte da explicação, e o cálculo de força seria apenas parte dela.
  • Instituições e comércio. Liberais lembram que acordos, mediação e interdependência econômica reduzem conflitos. Citam, como exemplo, o acordo de 2023 mediado pela China e a normalização de 2020 1011.
  • Política interna. Outra crítica diz que decisões de guerra e paz dependem de eleições, de disputas dentro dos governos e de pressões sociais, algo que tratar o Estado como bloco único deixa de fora.
  • Dentro do próprio realismo. Os realistas não formam um bloco. Mearsheimer, conhecido pelo "realismo ofensivo", supõe que grandes potências buscam maximizar seu poder; os neorrealistas, como Waltz, tomam a segurança como o interesse fundamental de cada Estado 1. A mesma região pode ser lida de modos diferentes conforme a vertente.

Há ainda um limite deste artigo: a questão palestina e as guerras em Gaza, no Líbano e no Iêmen têm história e atores próprios e não são tratadas aqui. Cada país da região também descreve os fatos de modo diferente, e este texto procura atribuir cada afirmação a quem a faz.

O Brasil neste tabuleiro

O Brasil não é parte da disputa, mas sente seus efeitos. Em 28 de fevereiro de 2026, o Itamaraty divulgou a Nota à Imprensa nº 66, em que o governo brasileiro "condena e expressa grave preocupação" com os ataques de Estados Unidos e Israel, diz que eles ocorreram em meio a uma negociação, "único caminho viável para a paz", e pede a todas as partes que respeitem o direito internacional e exerçam máxima contenção 7. A nota também diz que as embaixadas acompanham a situação das comunidades brasileiras, e o embaixador em Teerã mantém contato com elas 7.

A posição segue uma tradição da diplomacia brasileira de defender a negociação e o direito internacional, como a própria nota lembra ao tratá-la como posição tradicionalmente defendida pelo Brasil na região 7. Outros governos e analistas discordam dela, e o artigo registra a posição sem avaliá-la.

No comércio, o efeito apareceu logo. Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), as exportações brasileiras aos 15 países da região caíram 26% em março de 2026, de US$ 1,2 bilhão para US$ 882 milhões na comparação com março de 2025. A carne suína recuou 59%, o frango, principal item vendido à região, cerca de 22%, e a soja, 25% 8. A fonte não separa quanto da queda vem da guerra. Dados de outros meses e o efeito do petróleo e dos fertilizantes sobre o Brasil não foram confirmados em fonte oficial aberta e ficam fora do artigo.

Perguntas frequentes

Por que o Estreito de Ormuz é tão citado?

Porque, em 2024, passavam por ele cerca de 20 milhões de barris de petróleo por dia, perto de 20% do consumo mundial, e cerca de um quinto do GNL negociado no mundo 2. Rotas por oleoduto contornam só uma parte 2.

Quando começou a guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã?

Os ataques de Estados Unidos e Israel ao Irã começaram em 28 de fevereiro de 2026 57. Antes disso, Israel e Irã tinham trocado ataques em junho de 2025, em uma guerra que durou de 13 a 24 de junho 9.

O Brasil tomou partido na guerra?

O Itamaraty condenou os ataques de Estados Unidos e Israel e pediu negociação e contenção de todas as partes 7. Outros governos têm posições diferentes. O documento oficial é a Nota nº 66, de 28 de fevereiro de 2026 7.

O que são os Acordos de Abraão?

São acordos de normalização de relações com Israel. Emirados Árabes Unidos e Bahrein assinaram os seus em 15 de setembro de 2020, em Washington; Marrocos e Sudão também aderiram depois 10.

Arábia Saudita e Irã são aliados ou rivais?

Depende da data. Romperam relações em janeiro de 2016 e anunciaram a retomada em 10 de março de 2023, com mediação chinesa 11. Em outubro de 2026, os Houthis atacavam a infraestrutura saudita, segundo as fontes citadas 56.

Para fechar

O Oriente Médio de Israel, Irã e Golfo mostra o raciocínio realista em ação: Estados que temem uns aos outros, alianças que mudam e uma passagem marítima que dá peso mundial à disputa. Mostra também os limites da lente, porque identidade, política interna e instituições entram na explicação e nenhuma escola prevê o fim da guerra em curso. Os fatos atuais valem para 24 de outubro de 2026 e partem de fontes que divergem entre si.

Fontes

  1. Stanford Encyclopedia of Philosophy: Realism in International Relations · consultado em 24/10/2026
  2. U.S. Energy Information Administration (EIA): Amid regional conflict, the Strait of Hormuz remains critical oil chokepoint (16/06/2025) · consultado em 24/10/2026
  3. Departamento de Estado dos EUA, Office of the Historian: FRUS 1977-80, vol. 19, nota editorial sobre o discurso de 23/01/1980 (Doutrina Carter) · consultado em 24/10/2026
  4. Wikipédia (inglês): 2026 Iran war (contexto e cronologia; leitura parcial da página) · consultado em 24/10/2026
  5. Al Jazeera: Is Iran planning attacks on Americans; why is the US on alert? (24/10/2026) · consultado em 24/10/2026
  6. Gulf News: US-Israel-Iran war, what UAE residents need to know today (24/10/2026) · consultado em 24/10/2026
  7. Itamaraty: Nota à Imprensa nº 66, Ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã (28/02/2026; cópia em PDF reproduzida pelo Poder360) · consultado em 24/10/2026
  8. Agência Brasil, na Folha de Pernambuco: Exportações para o Oriente Médio caem 26% desde início da guerra (07/04/2026; dados do MDIC) · consultado em 24/10/2026
  9. Wikipédia (inglês): Twelve-Day War (contexto: junho de 2025) · consultado em 24/10/2026
  10. Wikipédia (inglês): Abraham Accords (contexto: 2020) · consultado em 24/10/2026
  11. Wikipédia (inglês): Iran-Saudi Arabia relations (contexto: 2016 e 2023) · consultado em 24/10/2026
  12. Wikipédia (inglês): Iran-Iraq War (contexto: 1980-1988) · consultado em 24/10/2026
  13. Al Jazeera: US-Iran ceasefire deal: What are the terms, and what's next? (08/04/2026) · consultado em 24/10/2026
  14. Brookings Institution: The Iranian Revolution: A timeline of events (2019) · consultado em 24/10/2026
  15. NPR/APR: At NATO summit in Turkey, Trump says he believes ceasefire with Iran is over (08/07/2026) · consultado em 24/10/2026
  16. N. J. Wheeler: 'To put oneself into the other fellow's place': John Herz, the security dilemma and the nuclear age. International Relations, v. 22, n. 4, p. 493-509, 2008 (resumo, Universidade de Birmingham) · consultado em 24/10/2026

Para ler mais

  • Henry Kissinger, World Order (2014). Em português: Ordem Mundial. Compara como diferentes civilizações pensaram a ordem entre Estados, com capítulos sobre o Oriente Médio e o Irã.
  • Vali Nasr, The Shia Revival: How Conflicts within Islam Will Shape the Future (2006). Examina o peso da divisão entre xiitas e sunitas na política da região, uma explicação que o realismo puro deixa em segundo plano.
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Escrito em 24/10/2026 · checado em 24/10/2026 · versão 3