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Spread bancário: o que é, de que é feito e por que o crédito custa o que custa

O que é

Spread bancário é a diferença entre o preço que o banco cobra por emprestar dinheiro e o preço que ele paga para conseguir esse dinheiro. O preço de emprestar é a taxa de juros do empréstimo. O preço de conseguir o dinheiro é o custo de captação: o que o banco paga a quem deposita ou aplica nele, por exemplo em um CDB (Certificado de Depósito Bancário).

Se o banco capta a 10% ao ano e empresta a 30% ao ano, o spread é de 20 pontos percentuais (p.p.). "Ponto percentual" é a diferença simples entre duas taxas: de 10% para 30%, são 20 p.p.

O spread não é sinônimo de lucro. Ele é a faixa em que cabem os custos de emprestar e o resultado do banco. Quem estuda o assunto no Brasil, como o Banco Central, separa essa faixa em partes, que aparecem mais abaixo.

Como funciona

O banco funciona como intermediário. Ele capta recursos com quem tem sobra de dinheiro e os empresta a quem precisa. A taxa Selic é a taxa básica de juros, definida pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central 3. O Banco Central relaciona a Selic ao custo de captação: no relatório, o aumento da captação em 2025 é descrito como compatível com a trajetória mais restritiva da Selic 1.

Os dados de 2025 mostram o movimento: a Selic foi elevada ao longo do ano, de 13,25% ao ano em janeiro para 14,25% em março, 14,75% em maio e 15,00% em junho, e ficou nesse patamar até o fim de 2025. O custo de captação do crédito subiu junto, de 7,53 p.p. em 2024 para 8,32 p.p. em 2025 1.

O que o banco cobra do tomador é esse custo de captação mais o spread. O spread, por sua vez, cobre quatro coisas, segundo a metodologia do Banco Central 1:

  • Inadimplência: perdas com quem não paga, mais os juros não recebidos de operações atrasadas e os descontos concedidos em renegociações.
  • Despesas administrativas: pessoal, publicidade e outros gastos para operar o crédito.
  • Tributos e FGC: impostos que incidem sobre a operação, como o IOF (Imposto sobre Operações Financeiras), PIS, Cofins, Imposto de Renda e CSLL, e a contribuição ao FGC (Fundo Garantidor de Créditos).
  • Margem financeira: a parcela que remunera o capital dos acionistas, e também erros e omissões da estimativa.

A conta: como se calcula

A conta do Banco Central, no indicador que ele usa nesse estudo, é esta 1:

spread = custo médio do crédito (ICC) − custo de captação

ICC é o Indicador de Custo do Crédito. Ele mede o custo médio de todo o crédito do Sistema Financeiro Nacional (SFN), isto é, o conjunto das instituições financeiras do país 2. O custo de captação entra como a parte "do dinheiro", e o que sobra é o spread, que o Banco Central divide nos quatro componentes acima.

O Banco Central também divulga, todo mês, um "spread bancário" nas estatísticas de crédito 2. Esse indicador mensal é outro: tem o seu próprio método, que este artigo não define porque as fontes consultadas não o descrevem. O valor de 22,6 p.p. (abril de 2026) é desse indicador mensal 2. O de 12,62 p.p. é o spread do ICC em 2025, do Relatório de Estabilidade Financeira 1. Por serem indicadores diferentes, os dois números não devem ser comparados entre si.

Na prática: de que é feito o spread de 12,62 p.p. de 2025

O Banco Central estimou o spread do ICC em 12,62 p.p. em 2025, ante 12,31 p.p. em 2024 1. A decomposição de 2025 foi esta 1:

Componentep.p. em 2025Parte do spread
Inadimplência4,6236,61%
Despesas administrativas2,8922,90%
Tributos e FGC2,5920,52%
Margem financeira2,5219,97%
Spread do ICC12,62100%

Para ver o que isso quer dizer em reais, imagine uma média de R$ 1.000 emprestados por um ano. Os 12,62 p.p. equivalem a R$ 126,20 em um ano. Desses, R$ 46,20 cobrem a inadimplência, R$ 28,90 as despesas administrativas, R$ 25,90 os tributos e o FGC, e R$ 25,20 ficam como margem financeira (4,62 + 2,89 + 2,59 + 2,52 = 12,62).

O custo médio completo do crédito foi de 20,93% ao ano em 2025: 8,32 p.p. de custo de captação mais os componentes do spread 1. A soma dos arredondamentos dá 12,61 em vez de 12,62 em alguns quadros do relatório, uma diferença de centésimos.

Esse é um exemplo de ilustração, com a média do sistema, e não projeção de taxa nem retrato de um banco ou de um contrato específico.

O que as taxas mostram em 2026

Os dados de abril de 2026, divulgados em 28 de maio de 2026, mostram um quadro de juros mais altos 2:

  • Spread bancário de 22,6 p.p., com alta de 0,7 p.p. no mês e de 2,6 p.p. em doze meses.
  • Taxa média de juros das concessões de 33,8% ao ano.
  • Taxa média do crédito livre de 49,5% ao ano: 63,0% para pessoas físicas e 25,3% para pessoas jurídicas.
  • ICC de 24,3% ao ano.
  • Inadimplência de 4,4% da carteira do SFN: 5,4% para pessoas físicas, 2,8% para pessoas jurídicas e 5,8% no crédito livre.

O Banco Central separa o crédito em livre e direcionado, e no direcionado as taxas seguem regras próprias 1. A próxima seção mostra a diferença.

Esses valores são de abril de 2026. Depois deles, o Copom continuou cortando a Selic: reduziu-a para 13,75% ao ano na reunião de setembro de 2026 3. O spread e o ICC de meses mais recentes estão nas estatísticas de crédito do Banco Central.

Crédito livre e crédito direcionado: o que muda

O spread varia muito conforme o tipo de crédito. O relatório do Banco Central mostra a diferença em 2025 1:

Crédito livreCrédito direcionado
ICC em 202529,30% ao ano9,59% ao ano
Custo de captação10,04 p.p.5,98 p.p.
Inadimplência (componente)6,85 p.p.2,17 p.p.
Margem financeira3,89 p.p.0,27 p.p.

No direcionado, as taxas são limitadas por regras próprias, e o Banco Central observa que isso explica a margem próxima de zero nessas operações 1. O mesmo relatório diz que, sem essa carteira de rentabilidade baixa, a rentabilidade do crédito livre poderia ser menor 1. Trata-se de uma hipótese do relatório, não de um fato medido.

Spread ou lucro: o que muda

SpreadMargem financeira
O que éDiferença entre taxa cobrada e custo de captaçãoParte do spread que remunera o capital dos acionistas
Inclui calote?SimNão
Inclui tributos?SimNão
Em 2025 (ICC)12,62 p.p. 12,52 p.p. 1

Por isso, falar do spread como "lucro do banco" mistura coisas diferentes. O Banco Central também avisa que a margem financeira inclui erros e omissões da estimativa 1.

O que o spread mostra e o que ele não mostra

O que ele ajuda a entender:

  • Por que dois créditos com o mesmo custo de captação têm taxas tão diferentes: o risco de calote pesa de modo distinto.
  • Que a inadimplência é a maior fatia do spread do ICC, com 36,61% em 2025 1.
  • Que parte do preço do crédito é tributo e contribuição ao FGC, e não ganho do banco 1.

Limites e cuidados:

  • A decomposição é uma estimativa do Banco Central, calculada para o conjunto do sistema. Não vale para um banco, um produto ou uma pessoa específica.
  • O método mudou em 2025, com as novas regras contábeis da Resolução CMN 4.966/2021, em vigor desde janeiro de 2025 1. Comparar anos exige cuidado com isso.
  • Spread alto não prova nem descarta falta de concorrência. O Banco Central trata a concentração como um indicador à parte, e o relatório de maio de 2026 registra que ela diminuiu em 2025 1.
  • O spread médio não é a taxa que alguém pagará. A taxa do contrato depende do produto, do prazo, das garantias e do perfil de quem toma o crédito.

No Brasil: regras, números oficiais e quem acompanha

O Banco Central do Brasil publica as estatísticas de crédito, o ICC e a decomposição do spread. A decomposição do spread do ICC aparece no Relatório de Estabilidade Financeira de maio de 2026 1.

Os pontos de regra que influenciam o spread, conforme o relatório 1:

  • Contabilização de crédito: a Resolução CMN 4.966/2021 mudou desde janeiro de 2025 o tratamento de operações inadimplentes, de receitas associadas e de provisões para perdas.
  • Tributos: IOF, PIS, Cofins, IR e CSLL entram na conta do spread, bem como o IRRF sobre juros sobre capital próprio.
  • FGC: as instituições associadas contribuem com um percentual dos saldos das contas garantidas, e isso entra no custo.
  • Crédito direcionado: tem regras específicas de taxa, que levam a taxas mais baixas.

Alíquotas e regras mudam. Este artigo descreve o que o relatório de maio de 2026 registrou; consulte as fontes para mudanças posteriores.

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre spread e juros?

Juros são o preço total que o tomador paga. O spread é uma parte desse preço: a diferença entre o que o banco cobra e o que ele paga para captar. Em 2025, o custo de captação respondeu por 8,32 p.p. do ICC de 20,93% ao ano. O restante, 12,62 p.p. pelo cálculo do relatório, era spread 1.

O spread é o lucro do banco?

Não. No spread do ICC de 2025, a margem financeira, que remunera o capital dos acionistas, foi de 2,52 p.p. dos 12,62 p.p. totais. O restante cobriu inadimplência, despesas administrativas, tributos e FGC 1.

A Selic alta aumenta o spread?

A Selic influencia sobretudo o custo de captação. Em 2025, a Selic subiu e o custo de captação do ICC passou de 7,53 p.p. para 8,32 p.p. 1. O spread é outra parte da conta e também subiu naquele ano, de 12,31 p.p. para 12,62 p.p., principalmente por causa da inadimplência 1. Uma causa e outra não são a mesma coisa.

Quanto era o spread em 2026?

Em abril de 2026, o Banco Central informou spread bancário de 22,6 p.p. nas estatísticas mensais 2. Esse é o indicador mensal das estatísticas de crédito, diferente do spread do ICC de 2025 (12,62 p.p.), e muda a cada divulgação. Este artigo não define o método do indicador mensal.

Para fechar

O spread bancário é a diferença entre o que o banco cobra e o que ele paga para captar. No Brasil, a maior fatia dele é o risco de calote, seguida de despesas administrativas e tributos, com a margem financeira em último lugar na estimativa de 2025 do Banco Central. O limite do dado está no método: é uma média do sistema, estimada, que não diz o que um banco específico cobra nem o que um contrato custará. Sobre a taxa básica que influencia o custo de captação, veja o verbete de Selic no glossário.

Verbetes do glossário: Selic

Fontes

  1. Banco Central do Brasil: Relatório de Estabilidade Financeira, volume 25 (maio de 2026), seção 2.1 'Decomposição do Custo do Crédito e do Spread' e Apêndice Metodológico, p. 62 a 66 · consultado em 19/10/2026
  2. Banco Central do Brasil: Estatísticas Monetárias e de Crédito, Nota para a Imprensa de 28/5/2026 (dados de abril de 2026) · consultado em 19/10/2026
  3. Banco Central do Brasil: Relatório de Política Monetária, setembro de 2026, seção 2.4 'Condução da política monetária', p. 87 · consultado em 19/10/2026
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Escrito em 19/10/2026 · checado em 19/10/2026 · versão 3