A tradição do Itamaraty: pragmatismo e não alinhamento
O que é
A tradição do Itamaraty é o conjunto de hábitos, princípios e métodos que orientam a política externa brasileira e passam de um governo a outro. "Itamaraty" é o nome do palácio e, por extensão, do Ministério das Relações Exteriores, onde trabalha a carreira diplomática.
Duas ideias a resumem. A primeira é o pragmatismo: decidir pelo interesse concreto do país, e não por afinidade ideológica. A segunda é o não alinhamento automático: o Brasil pode cooperar de perto com uma grande potência, mas sem se comprometer de antemão com tudo o que ela fizer.
"Tradição" é um termo da historiografia, não uma regra escrita. Autores diferentes datam o começo dela de formas diferentes e discutem o quanto ela é, de fato, contínua. Este artigo descreve a ideia e mostra onde estão as discordâncias.
De onde vem: Rio Branco e a Casa que ele deixou
José Maria da Silva Paranhos Júnior, o Barão do Rio Branco, comandou o Ministério das Relações Exteriores de 1902 a 1912, sob quatro presidentes. Segundo o historiador Clodoaldo Bueno, a política externa do período foi obra quase exclusiva dele 1.
A tarefa central era fixar as fronteiras. Antes de ser chanceler, Rio Branco defendeu o Brasil nas questões de Palmas (também chamada de Missões), contra a Argentina, em 1895, e do Amapá, contra a França, em 1900. Como ministro, assinou tratados de limites com a Bolívia (o do Acre, em 1903), o Equador, os Países Baixos, a Colômbia, o Peru e o Uruguai 1.
Para Bueno, a gestão deixou práticas que viraram tradição: realismo, defesa da soberania, busca de equilíbrio regional e uma política de prestígio, sem retórica agressiva nem liderança declarada 1. Segundo Manzur, o empenho do governo em regularizar as relações externas já se evidenciava na política de Rio Branco 2. Getúlio Vargas, em outro contexto, praticou entre 1935 e 1942 uma "equidistância pragmática", negociando ora com os Estados Unidos, ora com a Alemanha 2.
Como funciona o argumento
O raciocínio pode ser lido como o de um país sem grande poder militar ou econômico que busca margem de manobra num mundo dominado por potências maiores. Esta leitura é uma lente nossa, de inspiração realista, e não uma tese atribuída a um autor. Em passos:
- Interesse primeiro. O objetivo é concreto: fronteiras seguras no tempo de Rio Branco, desenvolvimento econômico em meados do século XX, mercados e parcerias depois.
- Aproximar-se de quem pode ajudar. Rio Branco se aproximou dos Estados Unidos, o que, segundo Bueno, era um alinhamento utilitário, apoiado em laços comerciais como o do café 1.
- Não se prender. Bueno nota que a aproximação era unilateral: os Estados Unidos não deram apoio equivalente às pretensões brasileiras, e Rio Branco se desencantou com essa diplomacia no fim da gestão 1.
- Diversificar. Ter vários parceiros reduz a dependência de qualquer um deles.
Os cientistas políticos Tullo Vigevani e Gabriel Cepaluni descrevem a busca de autonomia em três estratégias: "autonomia pela distância", "pela participação" e "pela diversificação" 4. É uma forma de classificar épocas, e não um dogma do Itamaraty.
Exemplos na história
Dutra e o alinhamento: o contraexemplo (1946-1951)
Nem toda fase foi de equilíbrio. Segundo Manzur, o governo do general Eurico Gaspar Dutra, a partir de 1946, adotou um alinhamento automático com os Estados Unidos e assinou em 1947 o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR). A autora registra que não se viu a contrapartida esperada, em investimentos e cooperação, o que alimentou o sentimento contrário a essa vinculação 2. O episódio mostra que a "tradição" convive com períodos de alinhamento.
A Política Externa Independente (1961-1964)
Em março de 1961, o presidente Jânio Quadros expôs ao Congresso as linhas de uma política externa que o ministro Afonso Arinos ajudou a estruturar e que San Tiago Dantas sistematizou depois, no governo de João Goulart 2. Seus pilares, segundo Manzur, eram independentismo, universalismo (relações comerciais e diplomáticas com todos os países, qualquer que fosse o bloco) e desenvolvimentismo 2.
A prova de fogo foi Cuba. Na reunião de consulta da Organização dos Estados Americanos (OEA) em Punta del Este, o Brasil recusou-se a apoiar a exclusão de Cuba e se absteve na votação. O argumento era jurídico: a Carta da OEA não previa a expulsão de um membro 2. Manzur lembra que a PEI não era neutralista, pois não rompia com a opção ocidental do país 2. Ela terminou com o golpe militar de 1964 2.
O Pragmatismo Responsável (1974-1979)
A expressão apareceu pela primeira vez, segundo a nota biográfica da FUNAG, na primeira reunião ministerial do presidente Ernesto Geisel, em 19 de março de 1974 3. O chanceler Antônio Francisco Azeredo da Silveira conduziu a política que levou o nome. Seus passos, de acordo com a mesma nota: o rompimento do Acordo Militar Brasil-Estados Unidos, a assinatura do acordo nuclear com a Alemanha, o reconhecimento da República Popular da China no lugar de Taiwan e o reconhecimento das independências de países africanos de língua portuguesa 3.
Em discurso de 1975, Azeredo da Silveira criticou o "raciocínio simplista" que dividia o mundo em blocos, e disse que "o Brasil se recusa a ver o mundo por essas óticas distorcidas" 3.
Críticas e limites
A leitura da "tradição" tem críticos e ressalvas, e elas têm peso parecido com o da tese.
- Continuidade ou escolha? A tradição pode ser menos uniforme do que parece. O alinhamento de Dutra e a abertura de Quadros e Goulart mostram orientações bem diferentes dentro do mesmo país 2.
- Independência viável? Manzur registra que, nos anos 1960, muitos consideravam que a independência entre os blocos não era viável nem possível, e que setores sociais e econômicos influentes viam mais razões para aderir ao bloco ocidental 2. A discussão é aberta.
- O que dizem as escolas rivais. O artigo usa uma lente de inspiração realista, para a qual a margem de um país sem grande poder é estreita. Segundo a Stanford Encyclopedia of Philosophy, o liberalismo institucional (Keohane, 1989) sustenta que a cooperação econômica e as instituições internacionais ampliam a noção de interesse próprio dos Estados. O construtivismo (Wendt) afirma que a disputa permanente entre Estados não decorre logicamente da anarquia, e sim de como eles entendem seus papéis: "a anarquia é o que os Estados fazem dela" 6. Para essas correntes, a margem de manobra depende também de instituições e de ideias, e não só do poder.
- Debate interno. Segundo Manzur, no período do segundo governo Vargas os nacionalistas desconfiavam do capital estrangeiro e da dependência dos Estados Unidos, e os chamados "entreguistas" defendiam a abertura ao capital externo 2. O não alinhamento sempre foi, portanto, também um tema de política interna.
- Alinhar não é errar. Mesmo Rio Branco aproximou-se de Washington 1. O que a tradição pede, em seus defensores, é que o alinhamento seja uma escolha, e não um reflexo.
O Brasil neste tabuleiro
A Constituição de 1988 transformou parte dessa herança em princípios. O artigo 4º manda o Brasil reger suas relações internacionais por independência nacional, prevalência dos direitos humanos, autodeterminação dos povos, não-intervenção, igualdade entre os Estados, defesa da paz, solução pacífica dos conflitos, repúdio ao terrorismo e ao racismo, cooperação entre os povos e concessão de asilo político. O parágrafo único determina a busca da integração dos povos da América Latina 5.
Na leitura de Vigevani e Cepaluni, a "autonomia pela diversificação" se aplica melhor ao primeiro governo Lula (2003 a 2006) 4. Para os autores, os dois primeiros níveis de mudança do modelo que usam (ajustes e mudança de programa) ocorreram, e o terceiro, o das metas, dependeria da consolidação deles 4. A discussão posterior sobre esse período é ampla e não cabe aqui. O ponto é que, para descrever a política externa do país, a academia continua usando a mesma ideia de margem de manobra.
Perguntas frequentes
O que significa "não alinhamento" na diplomacia brasileira?
Significa não se comprometer automaticamente com a posição de uma potência ou de um bloco. Não quer dizer neutralidade nem isolamento: a PEI, por exemplo, não rompeu com a opção ocidental do país 2.
Quem foi o Barão do Rio Branco?
Foi o chanceler brasileiro de 1902 a 1912, responsável por concluir a fixação dos limites do território nacional, segundo Bueno 1.
O que foi o Pragmatismo Responsável?
Foi a política externa dos anos Geisel (1974-1979), sob o chanceler Azeredo da Silveira, que incluiu o fim do acordo militar com os Estados Unidos e o acordo nuclear com a Alemanha 3.
A Constituição obriga o Brasil a ser não alinhado?
Não usa essa expressão. O artigo 4º lista princípios como independência nacional e autodeterminação dos povos 5.
Todos os governos seguiram a mesma linha?
Não. Dutra adotou um alinhamento automático com os Estados Unidos; Quadros e Goulart, uma política de universalismo 2.
Para fechar
A tradição do Itamaraty é a ideia de que o Brasil decide por interesse e guarda distância calculada das grandes potências, mas é também uma construção feita depois, com muitas exceções e muita disputa. Entender esse debate ajuda a ler as escolhas externas do país sem tratá-las como destino. Temas vizinhos da área tratam do realismo nas Relações Internacionais e do lugar do Brasil no mundo.
Fontes
- Clodoaldo Bueno, "O Barão do Rio Branco no Itamaraty (1902-1912)", Revista Brasileira de Política Internacional, v. 55, n. 2, 2012 (SciELO) · consultado em 24/10/2026
- Tânia Maria P. G. Manzur, "A Política Externa Independente (PEI): antecedentes, apogeu e declínio", Lua Nova, n. 93, 2014, p. 169-199 · consultado em 24/10/2026
- Vamireh Chacon (org.), Azeredo da Silveira, coleção O Livro na Rua, Fundação Alexandre de Gusmão/Thesaurus, 2008, nota biográfica, p. 3-6 · consultado em 24/10/2026
- Tullo Vigevani e Gabriel Cepaluni, "A política externa de Lula da Silva: a estratégia da autonomia pela diversificação", Contexto Internacional, v. 29, n. 2, 2007 (SciELO, resumo) · consultado em 24/10/2026
- Constituição da República Federativa do Brasil, texto original de 5 de outubro de 1988, art. 4º (Câmara dos Deputados) · consultado em 24/10/2026
- W. Julian Korab-Karpowicz, "Political Realism in International Relations", Stanford Encyclopedia of Philosophy, seções 3 e 3.2 (revisão substantiva de 29/07/2026) · consultado em 24/10/2026
Para ler mais
- Amado Luiz Cervo e Clodoaldo Bueno, História da Política Exterior do Brasil (1992). Percorre a política externa brasileira do período colonial à atualidade e é referência nos cursos de Relações Internacionais.
- Tullo Vigevani e Gabriel Cepaluni, Brazilian Foreign Policy in Changing Times: The Quest for Autonomy from Sarney to Lula (2009). Em português: A política externa brasileira: a busca da autonomia, de Sarney a Lula. Explica as três formas de autonomia (pela distância, pela participação e pela diversificação) que os autores usam para ler a política externa recente.
Receba o Brief Brasil todo dia às 7h
O resumo do dia, com a fonte de cada informação. Você confirma o e-mail e pode sair quando quiser.
Como este artigo é feito
Os artigos da Enciclopédia são escritos a partir de fontes oficiais brasileiras (CVM, B3, Banco Central, Tesouro Nacional, Receita Federal) e de livros-texto abertos. Cada número, data, regra e imposto é conferido contra essas fontes antes da publicação. Dados que mudam com o tempo trazem a data. Achou um erro? Escreva para o contato do site.
Conteúdo educativo. Não é recomendação de investimento, nem oferta de compra ou venda de qualquer ativo.
Escrito em 24/10/2026 · checado em 24/10/2026 · versão 3