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O pleito por um assento permanente no Conselho de Segurança

O que é

O pleito por um assento permanente é a reivindicação, feita pelo Brasil há décadas, de ocupar uma cadeira fixa no Conselho de Segurança das Nações Unidas. O Conselho é o órgão da ONU que os Estados-membros encarregaram da "responsabilidade primordial" de manter a paz e a segurança internacionais, e que age em nome deles 1.

Ele tem 15 membros. Cinco são permanentes (China, França, Rússia, Reino Unido e Estados Unidos; a Carta cita ainda hoje a União Soviética e a República da China, que foram substituídas). Dez são eleitos pela Assembleia Geral para mandatos de dois anos, sem reeleição imediata 1. Decisões de fundo precisam de nove votos, incluindo os votos dos cinco permanentes 1. Na prática, a discordância de um deles bloqueia a decisão. É o que se chama de veto, palavra que a Carta não usa.

O Brasil já esteve no Conselho como membro rotativo: o mandato de 2022 e 2023 foi o 11º do país, segundo a ONU News 12. Mas a cadeira rotativa acaba em dois anos. O pleito é por uma cadeira que não precise ser disputada de novo.

De onde vem: 1944, 1945 e a primeira janela

A ideia não nasceu no Brasil. Segundo o diplomata e historiador Eugênio Vargas Garcia, a entrada da França e do Brasil como membros permanentes do futuro Conselho foi discutida em reunião na Casa Branca em 24 de agosto de 1944, com orientações do presidente americano Franklin Roosevelt à delegação dos Estados Unidos 4. Na conferência de Dumbarton Oaks, os Estados Unidos chegaram a levantar o nome do Brasil, sem consultá-lo 4.

A proposta durou poucos dias. A delegação americana recomendou não apoiá-la em 31 de agosto, e em 3 de setembro de 1944 os Estados Unidos a retiraram 4. Em 18 de dezembro, Washington avisou o Rio de Janeiro que só apoiaria uma cadeira não permanente 4.

Em São Francisco, em 1945, o Brasil tentou uma saída lateral: propôs uma cadeira permanente para a América Latina, em vez de pedir uma para si. Retirou a proposta em 14 de maio de 1945 4. Garcia conclui que a janela estava fechada desde aquele ano 4.

Como funciona o argumento

O argumento brasileiro tem três passos, que aparecem de forma parecida nos textos acadêmicos que o resumem.

  1. Representatividade. O Conselho reflete o mundo de 1945. Segundo Corrêa e coautores, ele foi reformado de modo substancial apenas em três ocasiões: o aumento do número de rotativos nos anos 1960, a troca da China nos anos 1970 e a troca da União Soviética pela Rússia 5. A emenda de 1963 elevou o Conselho de 11 para 15 membros, em vigor desde 31 de agosto de 1965 3.
  2. Legitimidade e eficácia. Para os autores, um Conselho que inclui países em desenvolvimento e potências econômicas excluídas pelo resultado da Segunda Guerra, como Alemanha e Japão, teria mais legitimidade 5.
  3. Mérito do candidato. Os argumentos oficiais descrevem o Brasil como país pacífico, respeitador do direito internacional, equilibrador regional e de gasto militar modesto, segundo a resenha de Barbosa sobre o livro de Vargas 9.

Uma leitura realista, que é uma lente nossa e não a tese de um autor, acrescenta um quarto passo: um assento fixo daria ao país voz permanente na mesa onde se decide o uso da força, o que ampliaria sua margem de manobra diante das grandes potências. Baccarini e Gonçalves tratam a reforma do Conselho como parte da busca brasileira por autonomia, entendida como liberdade de agir segundo os próprios interesses, e não como isolamento 7.

Segundo as autoras de 2025, o Brasil defende a posição "específica" de candidatura a membro permanente sem direito de veto 7.

Exemplos na história

O fracasso de 1945

Foi a primeira tentativa, e já mostra um padrão. Garcia aponta que o governo britânico e a União Soviética rejeitaram o sexto assento permanente, que os Estados Unidos não insistiram sem eles e que Roosevelt morreu em 12 de abril de 1945 4. Dentro do Brasil, parte dos diplomatas era cética, em parte pela experiência de 1926 na Liga das Nações 4.

A proposta Razali, 1997

Em 1997, o presidente da Assembleia Geral, o malaio Ismail Razali, apresentou um plano com cinco novos assentos permanentes (um para a África, um para a América Latina e Caribe, um para a Ásia e dois para países desenvolvidos) e quatro rotativos. Segundo Corrêa e coautores, a proposta nem foi votada, por falta de apoio 5. A Assembleia aprovou então a resolução 53/30, que exige dois terços dos membros para decisões sobre a ampliação do Conselho 5.

O G4 e o projeto de 2005

O G4 é o grupo formado por Brasil, Alemanha, Índia e Japão para pedir a ampliação do Conselho nas duas categorias, a permanente e a rotativa 5. Segundo Vargas, na leitura do resenhista, a ofensiva de 2004 fracassou porque os países contrários se organizaram 9. Em 11 de julho de 2005, o embaixador brasileiro Sardenberg apresentou à Assembleia o projeto A/59/L.64. O texto previa ampliar o Conselho com dez cadeiras novas (seis permanentes e quatro rotativas, o que levaria o total de 15 a 25 membros) 56, deixar a questão do veto para exame futuro e rever a composição 15 anos depois 6. Sardenberg disse que os patrocinadores não queriam impor uma votação antes de a discussão amadurecer 6. O G4 tentou ampliar o Conselho nesse ano, sem sucesso, segundo o Poder360 13.

Críticas e limites

A regra de mudança. Alterar a Carta exige dois terços da Assembleia Geral e ratificação por dois terços dos Estados, incluindo todos os cinco permanentes 2. Quem já tem a cadeira pode bloquear qualquer mudança. Fernandez, Pagliari e Pizzolatti, em um modelo de teoria dos jogos, concluem que, se o pleito do G4 fosse a voto, seria muito provável a rejeição, porque quem detém poder tende a preservar o status quo quando ele o favorece 8.

Os rivais. O G4 não é o único grupo. O "Unidos pelo Consenso" (Argentina, México, Paquistão e outros) e o consenso africano de Ezulwini têm propostas próprias; segundo Baccarini e Gonçalves, a Turquia se opõe à proposta do G4 7. Os mesmos autores citam trabalhos segundo os quais a Rússia, parceira do Brasil no Brics, defende na prática o status quo e a China apoia a ampliação do Conselho sem favorecer uma mudança efetiva; eles lembram também o agradecimento de Lula a Putin, em 2004, pelo apoio russo à busca brasileira por um assento permanente 7.

O ganho real. O resenhista Tulio Barbosa sustenta que ampliar o Conselho não mudaria muito o equilíbrio de poder, porque poucas potências militares e econômicas continuariam a dominar as decisões. Ele também questiona o argumento do gasto militar baixo, num mundo cada vez mais armado 9.

A constância. Baccarini e Gonçalves mostram que o empenho foi mais forte no governo Lula (2003-2010) e teve menos prioridade nos governos seguintes 7. Por outro lado, segundo a resenha de Barbosa, Vargas acompanha a campanha como uma política de longa duração, cujo discurso remonta ao governo Sarney 9.

O Brasil neste tabuleiro

Na discussão de hoje, o tema corre na Assembleia Geral, nas chamadas negociações intergovernamentais. Elas giram em torno de cinco blocos: tamanho de um Conselho ampliado, categorias de membros, representação regional, extensão do veto e métodos de trabalho 10. Em 19 de maio de 2026, um grupo de países nórdicos ainda tratava de um modelo consolidado como passo para negociar texto, o que indica que o texto formal de acordo ainda não existia 11.

Em 22 de setembro de 2026, segundo o Poder360, o presidente Lula voltou a pedir, na abertura da 81ª Assembleia Geral, mudança na composição do Conselho e mudanças nas regras do veto 13. O jornal observa que o pedido de reforma é repetido desde o discurso de 2003. O pedido, portanto, atravessa governos há mais de duas décadas sem ter produzido mudança na composição do Conselho.

Para um observador de linha realista, o dado central é que o Conselho distribui poder de acordo com a força de 1945, e quem tem poder raramente o reparte. Para um observador de linha liberal, o pleito é uma tentativa de tornar a instituição mais legítima e, por isso, mais eficaz. As duas leituras descrevem o mesmo fato: o país quer entrar numa mesa cujas regras só os atuais ocupantes podem mudar.

Perguntas frequentes

O Brasil já foi membro do Conselho de Segurança?

Sim, como membro rotativo. O mandato de 2022 e 2023 foi o 11º, segundo a ONU News 12. O Brasil nunca teve cadeira permanente.

O Brasil quer o direito de veto?

Segundo a análise de Baccarini e Gonçalves, a posição brasileira específica é a de membro permanente sem veto 7. Em 2026, segundo o Poder360, o presidente também pediu mudanças nas regras do veto 13.

Quem são os países do G4?

Brasil, Alemanha, Índia e Japão. Eles atuam juntos pela ampliação do Conselho em assentos permanentes e rotativos 5. A ofensiva do grupo é de 2004 9.

Por que a reforma não sai do papel?

Porque mudar a composição exige emenda à Carta, e a emenda só vale se os cinco membros permanentes a ratificarem 2. Além disso, há propostas rivais sem acordo entre os países 7.

O Conselho já foi ampliado antes?

Por emenda à Carta, uma vez. A emenda de 17 de dezembro de 1963, em vigor desde 31 de agosto de 1965, aumentou o Conselho de 11 para 15 membros, sem criar novas cadeiras permanentes 3.

Para fechar

O pleito por um assento permanente reúne uma ideia de 1944, um argumento de representatividade e uma regra que dá a quem já tem a cadeira o poder de decidir se ela será dividida. A ideia surgiu em 1944-1945, ficou fechada depois disso, e o Brasil a defende em campanha aberta desde os anos 2000 4713. Artigos relacionados: A tradição do Itamaraty: pragmatismo e não alinhamento e A inserção do Brasil no mundo: trunfos e limites.

Verbetes do glossário: ONU Conselho de Segurança da ONU

Fontes

  1. Carta das Nações Unidas, Capítulo V (arts. 23, 24 e 27), ONU · consultado em 24/10/2026
  2. Carta das Nações Unidas, Capítulo XVIII (arts. 108 e 109), ONU · consultado em 24/10/2026
  3. ONU, Amendments to Articles 23, 27, 61, 109 (datas de adoção e vigência das emendas) · consultado em 24/10/2026
  4. Eugênio V. Garcia, "De como o Brasil quase se tornou membro permanente do Conselho de Segurança da ONU em 1945", Revista Brasileira de Política Internacional, v. 54, n. 1, 2011 (SciELO) · consultado em 24/10/2026
  5. Amanda Rui Corrêa e outros, "O Brasil e o Conselho de Segurança das Nações Unidas", XIII Congresso Acadêmico de Defesa Nacional (CADN), Ministério da Defesa, p. 2-5 · consultado em 24/10/2026
  6. Assembleia Geral da ONU, registro literal da 111ª sessão plenária do 59º período, 11/07/2005 (A/59/PV.111), debate do projeto A/59/L.64 do G4 · consultado em 24/10/2026
  7. Mariana P. O. Baccarini e Pascoal T. C. Gonçalves, "Brazilian autonomy in the quest for United Nations Security Council reform", Revista Brasileira de Política Internacional, v. 68, n. 1, 2025 (SciELO) · consultado em 24/10/2026
  8. Brena P. M. Fernandez, Graciela Pagliari e Rodrigo R. Pizzolatti, "A entrada do Brasil como membro permanente no Conselho de Segurança da ONU: uma análise segundo a teoria dos jogos", Conjuntura Austral, v. 15, n. 70, 2024 · consultado em 24/10/2026
  9. Tulio Barbosa, resenha de "Campanha permanente: o Brasil e a reforma do Conselho de Segurança da ONU" (João Augusto Costa Vargas, FGV, 2011), Sociedade & Natureza, v. 25, n. 1, 2013 (SciELO) · consultado em 24/10/2026
  10. Presidência da 79ª Assembleia Geral da ONU, aviso à imprensa (publicado em 11/04/2025) do briefing de 17/04/2025 sobre as negociações intergovernamentais de reforma do Conselho · consultado em 24/10/2026
  11. Missão da Noruega na ONU, declaração em nome dos países nórdicos nas negociações sobre a reforma do Conselho, 19/05/2026 · consultado em 24/10/2026
  12. ONU News (UNRIC), "Brasil assume assento rotativo no Conselho de Segurança das Nações Unidas" · consultado em 24/10/2026
  13. Poder360, "Lula repete há 23 anos pedido de mudança no Conselho da ONU" (notícia sobre o discurso de 22/09/2026) · consultado em 24/10/2026

Para ler mais

  • Eugênio Vargas Garcia, O Sexto Membro Permanente: o Brasil e a criação da ONU (2011). Reconstrói, com documentos de arquivo, como a ideia de uma cadeira permanente brasileira surgiu e morreu entre 1944 e 1945.
  • João Augusto Costa Vargas, Campanha permanente: o Brasil e a reforma do Conselho de Segurança da ONU (2011). Percorre a história do Conselho e das tentativas brasileiras de reformá-lo, incluindo o período posterior à Guerra Fria.
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Escrito em 24/10/2026 · checado em 24/10/2026 · versão 4