Brasil e China: o maior parceiro comercial
O que é
"Maior parceiro comercial" é o país com quem o Brasil mais troca mercadorias, somando o que vende (exportações) e o que compra (importações). Desde 2009 esse país é a China 3.
Parceiro comercial não é o mesmo que aliado político nem que investidor. O termo mede fluxo de mercadorias. A relação tem outras partes (investimento, diplomacia, ciência), mas o comércio é a mais visível e a mais fácil de medir. Os dados oficiais ficam no Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), que publica estatísticas de comércio exterior e as bases do Comex Stat 4.
De onde vem: como a China virou o maior parceiro
Segundo o pesquisador Henrique Altemani de Oliveira, a aproximação tem etapas. A parceria política começou em 1974 [3, p. 144]. Em 1993, a China passou a usar o termo "parceria estratégica" com o Brasil, e foi a primeira vez que o fez com outro país [3, p. 145]. Em dezembro de 2001, a China entrou na Organização Mundial do Comércio (OMC), marco que o autor usa como ponto de partida da fase atual [3, p. 145].
Em 2009, a China passou os Estados Unidos como principal parceiro, somando exportações e importações. Os americanos mantinham essa posição havia cerca de oitenta anos [3, p. 145]. Nesse ano, as vendas brasileiras à China foram de US$ 20,2 bilhões, ou 13,2% do total exportado [3, p. 150].
A participação chinesa nas exportações brasileiras tinha dobrado entre 2002 (4,2%) e 2008 (8,4%) e chegou a 19,0% em 2013 [3, p. 146, 150].
Um caso na história: a crise de 2008-2009
A crise financeira de 2008-2009 reduziu as compras dos países ricos. A China manteve a demanda, e o Brasil seguiu com saldo positivo na balança em 2009 [3, p. 149, 152, 157]. Segundo Oliveira, a demanda de China, Hong Kong, Índia e países do Sudeste Asiático sustentou o saldo de 2009 a 2013 [3, p. 149].
O caso mostra o que a lente do realismo (os Estados buscam poder e segurança num sistema sem autoridade superior) costuma destacar: a economia também é terreno de disputa entre grandes potências, e quem compra tem influência sobre quem vende. Aqui isso é uma leitura possível, não uma conclusão dos dados.
Os números mais recentes
Em 2024, segundo a Secex (Secretaria de Comércio Exterior do MDIC), citada pelo Banco Central, a China comprou US$ 94 bilhões do Brasil, 28% das exportações totais. Vendeu ao Brasil US$ 64 bilhões, 24% das importações 1.
A diferença, o superávit (saldo positivo) do Brasil com a China, foi de US$ 31 bilhões em 2024. Isso equivale a 1,4% do Produto Interno Bruto (PIB) e a 41% do saldo comercial total do país naquele ano 1. As cifras da tabela do Banco Central são arredondadas; por isso 94 menos 64 dá 30, e não 31.
Em 2025, as vendas à China chegaram a US$ 100 bilhões, alta de 6% sobre o ano anterior, segundo o BNDES 2.
Importante: os dados de 2025 e de 2026 continuam sujeitos a revisão pelo MDIC. Para valores atuais, consulte o Comex Stat 4.
Na prática: quanto pesa a China nas vendas externas
Um exemplo com dados de 2024 1:
- O Brasil exportou US$ 337 bilhões no total.
- Desse valor, US$ 94 bilhões foram para a China.
- A conta é 94 ÷ 337 = 0,279, ou cerca de 28%.
- Os cinco produtos principais responderam por cerca de 90% dos US$ 94 bilhões: 0,90 × 94 ≈ US$ 85 bilhões.
Ou seja, mais de um quarto de tudo o que o Brasil vendeu ao mundo em 2024 foi para um único país, e quase todo esse valor veio de cinco produtos. É uma ilustração com dados de um ano, não uma projeção.
O que o Brasil vende e o que compra
Vendas à China. Em 2024, os cinco produtos de maior valor foram soja, petróleo, minério de ferro, carnes e celulose 1. Em 2025, petróleo bruto, minério de ferro e soja juntos somaram cerca de 74% das exportações à China 2. São Commodities: produtos básicos de preço definido no mercado mundial.
Em soja, o Brasil vendeu cerca de US$ 31 bilhões à China em 2024; os Estados Unidos, cerca de US$ 13 bilhões 1.
Compras da China. A pauta é mais variada. Em 2024, veículos elétricos, equipamentos de telecomunicações, produtos químicos e painéis solares somaram 22% do que o Brasil importou da China 1. Segundo o Banco Central, os preços de importação dos produtos chineses caíram 11% entre 2019 e 2024, enquanto os de outras origens subiram 24% 1.
Críticas e limites: dependência, dois lados
Estudiosos veem a relação de modos diferentes. Oliveira reúne o debate e mostra que ele não tem resposta única 3.
O argumento da oportunidade
A demanda chinesa sustenta o saldo comercial do Brasil. Em 2024, o superávit com a China foi 41% do saldo total do país 1. Em 2009, as compras chinesas ajudaram o Brasil a manter saldo positivo num ano de crise global [3, p. 149, 152]. Importações da China também trazem insumos mais baratos, que podem baixar custos de produção [3, p. 152].
O argumento do risco
O mesmo conjunto de dados mostra concentração. Os produtos básicos foram 84,7% das exportações brasileiras à China em 2013, contra 68,4% em 2005 [3, p. 150]. A participação dos manufaturados na pauta total caiu de 59,1% em 2000 para 34,4% em 2013 [3, p. 149].
Para alguns autores, a China contribui para a perda de competitividade da indústria brasileira. Outros, citados por Oliveira, afirmam que o problema vem de antes e é interno: o Brasil já perdia espaço industrial nos anos 1990 [3, p. 153-155]. Oliveira conclui que a China é "parte do problema e parte da solução" [3, p. 159].
O Banco Central acrescenta um dado: a entrada de produtos chineses a preços menores já afeta a economia brasileira 1.
O Brasil neste tabuleiro
Quanto o Brasil pesa para a China
A relação é desigual em tamanho. Oliveira registra que o Brasil era a 9ª principal origem das importações chinesas em 2010 e a 8ª em 2011 e 2013 [3, p. 148]. São dados antigos, que não descrevem o quadro de hoje. Mostram, porém, que a China tem muitos fornecedores, enquanto a pauta brasileira depende muito de um comprador.
A disputa com os Estados Unidos
Há ainda a concorrência entre Brasil e Estados Unidos pelo mercado chinês de soja, petróleo, carne bovina e algodão. Em 2024, esses itens somaram US$ 21 bilhões vindos dos Estados Unidos e US$ 59 bilhões do Brasil 1.
Investimento chinês
Comércio e investimento são coisas diferentes. Segundo Oliveira, o investimento chinês no Brasil ganhou peso a partir de 2010 [3, p. 144]. No acumulado de 2005 a 2013, o Brasil foi o quarto maior receptor de investimentos chineses no mundo, com US$ 32,1 bilhões, segundo levantamento da Heritage Foundation citado por Oliveira [3, p. 158].
No começo, o dinheiro foi para minério e petróleo. Depois, passou a ir mais para manufatura e serviços [3, p. 157]. Esses números cobrem 2005 a 2013 e não descrevem a situação atual.
Perguntas frequentes
Desde quando a China é o maior parceiro comercial do Brasil?
Desde 2009, quando passou os Estados Unidos na soma de exportações e importações [3, p. 145].
Qual é a participação da China nas exportações brasileiras?
Em 2024, foi de 28% (US$ 94 bilhões de US$ 337 bilhões) 1. Em 2025, as vendas chegaram a US$ 100 bilhões 2.
O que o Brasil mais vende para a China?
Soja, petróleo, minério de ferro, carnes e celulose, que somaram cerca de 90% das vendas em 2024 1.
O Brasil compra mais da China ou vende mais?
Vende mais. Em 2024, vendeu US$ 94 bilhões e comprou US$ 64 bilhões, o que deixou superávit de US$ 31 bilhões para o Brasil 1.
A China é a maior investidora no Brasil?
Os dados deste artigo não respondem a isso para os dias de hoje. O que a fonte mostra é que o Brasil foi o quarto maior receptor de investimento chinês no mundo no acumulado de 2005 a 2013, segundo levantamento da Heritage Foundation citado por Oliveira [3, p. 158].
Para fechar
A China é, desde 2009, o principal parceiro comercial do Brasil. Compra principalmente produtos básicos e vende uma pauta mais variada. O comércio ajuda a sustentar o saldo externo e, ao mesmo tempo, concentra as vendas em poucos produtos e em um comprador. Os estudiosos discordam sobre o peso de cada efeito, e o realismo é só uma das lentes para olhar o caso. Para entender a conta em dólar, veja também Câmbio (dólar) e Risco-país.
Verbetes do glossário: Balança comercial Commodities PIB
Fontes
- Banco Central do Brasil, Relatório de Política Monetária, junho de 2025, boxe "Comércio bilateral do Brasil com EUA e China" (dados da Secex/MDIC) · consultado em 24/10/2026
- BNDES, Blog do Desenvolvimento, Estudo especial 66: Impactos do tarifaço na balança comercial brasileira (10/03/2026) · consultado em 24/10/2026
- Henrique Altemani de Oliveira, "Brasil-China: uma parceria predatória ou cooperativa?", Revista Tempo do Mundo (Ipea), v. 2, n. 1, jan. 2016, p. 143-159 · consultado em 24/10/2026
- MDIC, Estatísticas de comércio exterior: base de dados bruta e Comex Stat (dados de 1997 a setembro de 2026) · consultado em 24/10/2026
Para ler mais
- Giovanni Arrighi, Adam Smith in Beijing: Lineages of the Twenty-First Century (2007). Em português: Adam Smith em Pequim: origens e fundamentos do século XXI. Lê a ascensão da China como parte de uma mudança histórica no centro da economia mundial, a partir do Leste Asiático.
- Henry Kissinger, On China (2011). Em português: Sobre a China. Conta a política externa chinesa e suas negociações com outras potências, pela experiência de um ex-secretário de Estado dos Estados Unidos.
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Escrito em 24/10/2026 · checado em 24/10/2026 · versão 2