Contrato futuro de DI: o que é, como funciona e o que ele revela sobre os juros
O que é
O contrato futuro de DI é um acordo padronizado, negociado na B3 (a bolsa brasileira), cujo resultado depende da Taxa DI acumulada entre a data da negociação e o vencimento 112. Na bolsa, ele aparece com o código DI1 12.
A Taxa DI é a taxa média das operações entre bancos feitas com certificados de depósito interfinanceiro, liquidadas em até um dia útil 4. Em linguagem comum: é o juro cobrado quando um banco empresta dinheiro a outro por um dia. Muita gente a conhece pelo nome de CDI, que é a sigla do certificado em si 4.
Não confunda a Taxa DI com a Selic. A Selic é a taxa básica definida pelo Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) 4. Segundo o noticiário, em setembro de 2026 o Copom reduziu a Selic para 13,75% ao ano 7. A Taxa DI costuma andar próxima da Selic, mas é outra taxa, calculada a partir de outras operações.
O contrato pode servir a dois fins. Quem tem dívida ou aplicação atrelada ao DI pode usá-lo para travar o custo ou o retorno, o que se chama proteção (hedge). Quem quer posicionar-se na direção dos juros pode usá-lo para isso, o que se chama especulação. A B3 descreve o DI1 como instrumento de proteção e gestão de risco de taxa de juro 1.
Como funciona
1. O preço é uma taxa. O contrato é cotado pela taxa de juro efetiva anual, base 252 dias úteis, com três casas decimais 12. Dizer que o DI1 de um vencimento "está a 13,50%" significa que a negociação fechou a essa taxa para o período até aquele vencimento. Desde 18 de agosto de 2025, a variação mínima é de 0,001 ponto de taxa para vencimentos de até 3 meses e de 0,005 ponto acima disso 12.
2. A taxa vira um preço. O contrato vale 100.000 pontos no vencimento, e cada ponto é R$ 1,00 12. O preço unitário (PU) na negociação é esse valor descontado pela taxa negociada 18. Quanto maior a taxa, menor o PU.
3. Há vencimentos todos os meses. A data de vencimento é a primeira sessão de negociação do mês, e o último dia de negociação é a sessão anterior 12. O código do vencimento junta o DI1, uma letra que indica o mês e o ano de vencimento. Por exemplo, F é janeiro e J é abril 2.
4. O acerto é diário. As posições em aberto no fim de cada sessão são ajustadas pelo preço de ajuste do dia, com pagamento dos débitos e recebimento dos ganhos na sessão seguinte 8. Quem segura o contrato até o vencimento recebe ou paga ajustes que, somados, equivalem à diferença entre a taxa contratada e a realizada 1. O preço de ajuste é apurado diariamente pela B3, conforme regras divulgadas por ela 8; a página do produto descreve o uso do preço médio ponderado por volume (VWAP) calculado entre 16h10 e 16h20 12.
5. A liquidação é financeira. No vencimento não há entrega de nada: só dinheiro muda de mãos 1.
6. A B3 fica no meio. A B3 opera uma estrutura de compensação com contraparte central, e o mercado tem margens e limites de posição 5. Margem de garantia é um valor depositado na corretora para cobrir possíveis prejuízos e que fica bloqueado enquanto a posição existir 14.
A conta: do preço à taxa
O Ofício Circular 055/2024-PRE da B3 traz a fórmula do preço da operação (PO), isto é, o PU no momento do negócio 8. Em outubro de 2026, a versão mais recente do contrato que encontrei é a republicada pelo Ofício Circular 034/2025-VPC, que alterou a variação mínima de preço 12. Em texto simples:
PU = 100.000 / (1 + i/100) ^ (n / 252)
- i é a taxa negociada, ao ano, em percentual (13% entra como 13);
- n é o número de dias úteis entre a data da operação (inclusive) e o vencimento (exclusive) 8;
- 252 é o número de dias úteis do ano na convenção do contrato 8.
No dia seguinte, o PU que veio do dia anterior é corrigido pela Taxa DI antes de ser comparado ao novo preço de ajuste. O fator de correção diário é (1 + DI/100) elevado a 1/252, em que DI é a Taxa DI do dia de negociação anterior 8. O ajuste do dia, em reais, é a diferença entre o preço de ajuste e o PU corrigido, vezes o valor em reais de cada ponto e o número de contratos 8.
Na prática: o que acontece com o PU quando a taxa muda
Atenção: os números abaixo são hipotéticos, escolhidos para facilitar a conta. Não são cotações do mercado.
Em outubro de 2026, a Selic estava em 13,75% ao ano, após a decisão do Copom de setembro 7. Imagine um contrato com exatamente 252 dias úteis até o vencimento, negociado a 13,00% ao ano.
- PU = 100.000 / 1,13 = R$ 88.495,58.
Suponha que a taxa do mesmo vencimento suba para 13,50%.
- PU = 100.000 / 1,135 = R$ 88.105,73.
- Diferença: R$ 88.105,73 − R$ 88.495,58 = −R$ 389,85 por contrato.
Quem está posicionado para ganhar quando os juros caem perde esse valor, e o outro lado ganha. Se a taxa caísse para 12,50%, o PU seria R$ 88.888,89, e o resultado se inverteria. Essa relação vem da própria fórmula: taxa sobe, PU cai.
Na vida real, o prazo (n) encurta a cada pregão e o PU anterior é corrigido pela Taxa DI antes de ser comparado ao novo 8. Este exemplo é uma ilustração do mecanismo, não uma projeção de juros nem um caso a seguir.
Como o DI1 forma a curva de juros
Cada vencimento tem a sua taxa. Se você colocar as taxas dos vencimentos num gráfico, do mais curto ao mais longo, obtém uma curva de juros: ela mostra que juro o mercado está embutindo em cada prazo Curva de juros. Como há contratos com vencimento todos os meses 12, a curva tem muitos pontos.
Essa curva reflete, entre outros fatores, o que os participantes esperam para a Selic nas próximas reuniões do Copom. Mas ela é um preço de mercado, não uma previsão: muda todo dia, conforme as negociações.
Tipos e termos parecidos
| Termo | O que é | Em que se diferencia do DI1 |
|---|---|---|
| Taxa DI (ou CDI) | Taxa média dos depósitos interfinanceiros de um dia 4 | É a taxa em si; o DI1 é o contrato sobre ela |
| Selic meta | Taxa fixada pelo Copom 4 | É decidida pelo Copom; não é negociada em contrato |
| Tesouro Prefixado | Título público com retorno definido na compra; paga o preço do título na compra e R$ 1.000 por título no vencimento 11 | No DI1 não se paga o preço do contrato, mas há exigência de garantia e ajuste diário em dinheiro 18 |
A tabela compara o que cada coisa é e não diz qual usar.
Vantagens e usos
- Padronização. O contrato tem tamanho, vencimentos e regras de acerto definidos pela B3 112.
- Proteção contra variação de juros. Pode ser usado para compensar o efeito de uma mudança nos juros sobre uma dívida ou aplicação atrelada ao DI 1.
- Preço de ajuste com regra pública. O preço de ajuste é apurado diariamente pela B3 conforme regras divulgadas 8.
- Contraparte central. A B3 atua como contraparte central da compensação 5.
- Margem menor que a de balcão. A B3 informa que a margem exigida é menor que a de derivativos negociados fora da bolsa 1.
Riscos e limitações
- Risco de perda de capital. Os débitos do ajuste são pagos em dinheiro na sessão seguinte 8. Com alavancagem, as perdas são proporcionais ao tamanho da posição, e não ao valor da margem depositada 14. Se o prejuízo passa da margem disponível, a posição pode ser encerrada 14, e a B3 pode exigir margem adicional 5.
- Alavancagem. A margem exigida é menor que a de derivativos de balcão 1: a posição fica grande em relação ao dinheiro depositado, e isso amplia ganhos e perdas.
- Margem adicional e limites. Há limites de posição que podem levar ao aumento da margem adicional, à redução obrigatória da posição ou a multa 5.
- Complexidade. O cálculo do ajuste exige tratar dias úteis, correção diária e convenções de mercado 38.
- Limite de oscilação. Há faixas de preço dentro das quais as ordens são aceitas; a B3 informa, por exemplo, uma rejeição acima de ±17 pontos-base para os contratos mais líquidos 5.
- A curva não é previsão. A taxa do DI1 muda com o noticiário, e quem tira conclusões sobre o futuro só a partir dela corre o risco de errar.
Regras e quem fiscaliza no Brasil
O DI1 é negociado e compensado na B3. O índice do programa de treinamento da B3 descreve a estrutura reguladora do mercado brasileiro: Conselho Monetário Nacional (CMN), Banco Central, CVM, BSM (a área de supervisão de mercados da B3) e a própria B3 6. As regras do contrato (tamanho, vencimento, ajuste, fórmulas) constam nas especificações da B3 e em ofícios circulares publicados por ela 1812.
Imposto de renda. A Lei 11.033/2004, art. 2º, trata dos ganhos líquidos em bolsas de valores, de mercadorias e de futuros e prevê alíquotas de 20% no day trade (compra e venda concluídas no mesmo dia) e de 15% nas demais hipóteses 13. A página da Receita Federal sobre bolsa de valores informa os mesmos 15% e 20% 9. Para operações que não são day trade, a lei prevê retenção na fonte de 0,005% sobre a soma positiva dos ajustes diários no mercado futuro 13. No day trade, a Receita informa retenção de 1% sobre o resultado líquido, que pode ser deduzida do imposto apurado no mês 10. A página da Receita foi atualizada em 4 de junho de 2024 e não detalha o tratamento dos ajustes diários 9. Não consegui confirmar, na consulta de 24 de outubro de 2026, se normas editadas depois alteraram esses dispositivos: regra em vigor segundo as fontes citadas; consulte a versão consolidada da lei, a Receita Federal e um profissional habilitado para o caso concreto.
Perguntas frequentes
O DI1 é a mesma coisa que a Selic?
Não. A Selic é a taxa básica definida pelo Copom 4. O DI1 é um contrato cujo resultado depende da Taxa DI acumulada até o vencimento 1. As duas costumam ser próximas, mas são taxas diferentes.
O que quer dizer a letra no código do DI1?
É o mês de vencimento. O código junta DI1, a letra do mês (F é janeiro, G é fevereiro, H é março, J é abril, e assim por diante) e o ano 2. O vencimento cai na primeira sessão de negociação do mês 12.
Quanto vale um contrato de DI?
No vencimento, 100.000 pontos, com cada ponto valendo R$ 1,00 12. Antes do vencimento, o valor é o PU, que depende da taxa e do prazo até o vencimento 8.
O DI1 tem entrega física?
Não. A liquidação é financeira: só há pagamento ou recebimento de dinheiro 1.
A garantia limita a perda no DI1?
Pelo que as fontes da B3 descrevem, não como um teto. O ajuste diário transfere o resultado em dinheiro na sessão seguinte 8, as perdas acompanham o tamanho da posição 14 e a B3 pode exigir margem adicional 5. Para saber a responsabilidade de quem opera, vale conferir os termos da corretora e do contrato.
Para fechar
O contrato futuro de DI é um instrumento técnico da B3, em que o preço é uma taxa de juros e o resultado é acertado em dinheiro todo dia. As taxas de seus vencimentos formam uma das curvas de juros mais acompanhadas do país. O principal limite é o risco: o contrato é alavancado e as perdas acompanham o tamanho da posição, não o da garantia. Para conceitos vizinhos, veja Curva de juros e Selic.
Verbetes do glossário: Curva de juros Selic Copom
Fontes
- B3: Futuro de Taxa Média de Depósitos Interfinanceiros de Um Dia (DI1) · consultado em 24/10/2026
- B3: Programa de treinamento DI, 04 Especificações do Contrato · consultado em 24/10/2026
- B3: Programa de treinamento DI, 05 Especificações Técnicas · consultado em 24/10/2026
- B3: Programa de treinamento DI, 02 Taxas de Juros · consultado em 24/10/2026
- B3: Programa de treinamento DI, 07 Negociação e Risco · consultado em 24/10/2026
- B3: Programa de treinamento DI (índice e estrutura do mercado) · consultado em 24/10/2026
- O Povo: Copom reduz a Selic para 13,75% (17/09/2026) · consultado em 24/10/2026
- B3: Ofício Circular 055/2024-PRE, Anexo I (contrato DI1: especificações, ajuste diário e fórmulas) · consultado em 24/10/2026
- Receita Federal: Bolsa de Valores (renda variável), atualizada em 04/06/2024 · consultado em 24/10/2026
- Receita Federal: Retenções na renda variável (bolsa de valores) · consultado em 24/10/2026
- Tesouro Direto: Tesouro Prefixado · consultado em 24/10/2026
- B3: Ofício Circular 034/2025-VPC, de 17/07/2025 (republica o contrato DI1; versão mais recente encontrada) · consultado em 24/10/2026
- Lei 11.033/2004, art. 2º (texto atualizado, Câmara dos Deputados) · consultado em 24/10/2026
- B3 Bora Investir: O que é margem de garantia e por que ela é importante no day trade · consultado em 24/10/2026
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Escrito em 24/10/2026 · checado em 24/10/2026 · versão 3