O dólar como poder e as sanções: como uma moeda vira instrumento de política entre países
O que é
Poder monetário é a capacidade de um Estado de usar o lugar da sua moeda no sistema financeiro mundial para influenciar outros Estados. O dólar é o caso mais estudado. Em abril de 2025, ele estava em um dos lados de 89% das operações de câmbio do mundo, e o euro, em 28,9% 2. A soma passa de 100% porque cada operação envolve duas moedas.
Sanção financeira é uma medida que restringe o acesso de pessoas, empresas, bancos ou governos a contas, pagamentos ou ativos. Pode bloquear bens, proibir transações ou cortar o acesso a uma rede de pagamentos. É diferente de uma sanção militar ou de uma tarifa de importação, embora os Estados costumem combinar as três.
O assunto liga moeda e política de poder. Para a lente chamada de realismo, explicada em Realismo nas Relações Internacionais: o que é, de onde vem e como explica a disputa entre países, os Estados disputam poder num mundo sem governo acima deles, e uma moeda que todos usam é um recurso a mais nessa disputa. É uma lente, não a única maneira de ler o fato.
De onde vem o dólar como moeda central
Em julho de 1944, delegados de 44 países se reuniram em Bretton Woods, nos Estados Unidos. O acordo ancorou o sistema no dólar, que podia ser trocado por ouro a US$ 35 por onça, e os países passaram a acertar saldos entre si em dólares 3. Em 1971, o presidente Richard Nixon acabou com a conversão do dólar em ouro 3.
O lastro em ouro acabou, mas o uso do dólar continuou. O resultado de 2026 é visível nos números do FMI: no segundo trimestre, as reservas cambiais do mundo somavam US$ 13,22 trilhões, e o dólar respondia por 56,70% delas 1.
Como o dólar vira instrumento de pressão
O argumento tem quatro passos.
- Todos precisam do dólar. Países guardam reservas em dólar, empresas cobram e pagam em dólar, e a moeda aparece em quase todas as operações de câmbio 12.
- Pagamentos em dólar passam por instituições sob jurisdição americana. Pelo comunicado do Tesouro, a lei americana alcança pessoas dos EUA e quem faz transações dentro do território americano ou que passam por ele 5.
- O governo americano pode listar quem fica de fora. A OFAC (Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros, do Tesouro dos EUA) mantém uma lista de pessoas e empresas bloqueadas. A regra dos 50% estende o bloqueio a entidades que pertençam, de forma direta ou indireta, em 50% ou mais a pessoas bloqueadas 6.
- O custo recai sobre quem tem de negociar com quem foi listado. Quem lida com bens bloqueados pode sofrer penalidades civis ou criminais 5. Por isso bancos de outros países costumam evitar clientes listados, mesmo sem ordem direta de seus governos. Esse passo é uma leitura do mecanismo, e não uma regra com número.
Dois pesquisadores, Henry Farrell e Abraham Newman, deram nome a essa lógica em 2019: interdependência armada. A tese é que as redes econômicas globais criam pontos centrais, e o Estado que controla um deles pode coletar informação sobre o que passa pela rede ou impedir o acesso de adversários 4.
Três casos datados
1944 a 1971: o sistema de Bretton Woods. O dólar virou a base do sistema porque os Estados Unidos se comprometeram a trocá-lo por ouro, e o fim dessa troca, em 1971, não tirou a moeda do centro 3. O caso mostra que a posição de uma moeda pode durar além da regra que a criou.
Março de 2022: a Rússia. Em 2 de março de 2022, o Conselho da União Europeia decidiu retirar sete bancos russos do SWIFT, o sistema de mensagens que padroniza instruções de pagamento entre bancos. O pacote também atingiu o banco central da Rússia 9. Em outubro de 2023, o G7 estimou cerca de US$ 280 bilhões em ativos soberanos russos imobilizados em suas jurisdições e declarou que eles ficariam bloqueados até que a Rússia pagasse pelos danos causados à Ucrânia 8. Este artigo descreve a medida e não avalia a legalidade dela.
Julho a dezembro de 2025: o Brasil. Em 30 de julho de 2025, o Tesouro dos EUA sancionou o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, com base na Ordem Executiva 13.818, que aplica a lei Magnitsky Global. Na posição do governo americano, o comunicado diz que ele usou o cargo para autorizar prisões preventivas arbitrárias e suprimir a liberdade de expressão 5. Em 12 de dezembro de 2025, a OFAC o retirou da lista, junto com Viviane Barci de Moraes e o Lex Instituto, que também constam da página de exclusões 7. A página oficial da retirada não traz justificativa. A acusação é a posição do governo americano; este artigo não a julga.
Na prática: a escala dos números
O quadro abaixo é uma conta de ordem de grandeza, não uma previsão.
- Reservas do mundo em junho de 2026: US$ 13,22 trilhões, com 56,70% em dólar 1.
- Dólar no 1º trimestre: 57,18%. A queda foi de 57,18 − 56,70 = 0,48 ponto percentual 1.
- Euro: 20,60 − 20,04 = 0,56 ponto percentual a mais 1.
- Dólar, euro, iene e renminbi somam 56,70 + 20,60 + 4,96 + 2,11 = 84,37%. As demais moedas ficam com os 15,63% restantes 1.
- Os US$ 280 bilhões russos de 2023 8 equivalem a cerca de 77% dos US$ 364,96 bilhões de reservas do Brasil em 22 de outubro de 2026 (280 ÷ 364,96) 11. As datas e os donos são diferentes; a comparação serve só para dar escala.
O que o exemplo mostra: o dólar perdeu meio ponto em um trimestre, e o renminbi tem pouco mais de 2%. Isso é ilustração dos números, não projeção do rumo da moeda.
Críticas e limites
A leitura do dólar como arma é contestada em pontos diferentes. Cada um tem peso.
- O uso de sanções pode estimular alternativas. Se um Estado teme o bloqueio, tem razão para reduzir a dependência. No segundo trimestre de 2026, a fatia do dólar nas reservas ficou 0,48 ponto percentual abaixo da do primeiro 1. O Banco Central do Brasil diz que ampliou a diversificação em 2025 por incertezas econômicas e geopolíticas e por segurança e liquidez 10. Nenhuma das duas fontes liga esses movimentos a sanções, e a mudança no trimestre é pequena 1.
- Ainda não há alternativa de mesmo porte. O renminbi tinha 2,11% das reservas mundiais em junho de 2026 1. Sistemas paralelos de pagamento existem, mas as fontes oficiais consultadas não medem o uso deles, e por isso o texto não os trata.
- Sanção nem sempre muda o comportamento. O poder de bloquear não garante que o alvo faça o que o sancionador quer. Os fatos acima mostram a medida, não o resultado político, e as fontes citadas não medem o efeito.
- Visão liberal. Para quem enfatiza regras e cooperação, uma moeda comum reduz custos para todos, e o uso político das redes é exceção que o próprio sistema tenta limitar. A leitura realista responde que a exceção é justamente o que mostra onde está o poder. Ambas partem dos mesmos fatos.
- Custos para quem sanciona. O bloqueio de ativos soberanos levanta dúvida em outros países sobre guardar reservas em jurisdições que podem bloqueá-las. É um argumento citado no debate, não um fato medido aqui.
O Brasil neste tabuleiro
O Banco Central do Brasil guarda reservas internacionais. Em 22 de outubro de 2026, a série diária registrava US$ 364,96 bilhões 11. Em dezembro de 2025, a carteira administrada internamente, no conceito caixa, estava distribuída assim: 72,00% em dólar, 7,19% em ouro, 6,60% em euro, 5,94% em renminbi, 2,80% em libra, 2,24% em iene, 1,73% em dólar canadense, 1,27% em dólar australiano e 0,23% em won sul-coreano 10.
O Banco Central explica a escolha: busca reduzir a exposição ao risco cambial e cobrir 100% da dívida externa bruta. Em 2025, "atento ao aumento de incertezas econômicas e geopolíticas", ampliou a diversificação, com mais ouro, euro e renminbi e a inclusão do won 10. O mesmo relatório diz que o ouro é comprado no exterior 10. Os números do relatório vêm do próprio Banco Central; a série diária e a carteira usam conceitos diferentes e não são idênticas.
O caso Moraes mostra que a sanção financeira pode alcançar uma autoridade brasileira. O que isso significa para a política externa do país é debatido, e as posições variam conforme o partido e a visão de mundo; as fontes primárias citadas descrevem a ação americana e a retirada, não o debate 57.
Perguntas frequentes
O dólar ainda é a principal moeda de reserva do mundo?
Sim, nos dados do FMI do segundo trimestre de 2026: 56,70% das reservas cambiais, contra 20,60% do euro 1.
O que é o SWIFT e ele guarda dinheiro?
O SWIFT é um sistema de mensagens que padroniza instruções de pagamento entre bancos 9. Mensagem não é dinheiro: o SWIFT leva a ordem, e o dinheiro passa pelas contas dos bancos. Foi dessa rede que os bancos russos citados saíram em 2022 9.
Quem pode sancionar com o dólar?
A autoridade de listar alvos é do governo americano, por meio da OFAC 56. Outros países e blocos, como a União Europeia, têm seus próprios instrumentos de sanção 9.
O que é a regra dos 50% da OFAC?
É a regra pela qual entidades de propriedade de pessoas bloqueadas, em 50% ou mais no total, também ficam bloqueadas. Ela olha a propriedade, não o controle 6.
A sanção contra Alexandre de Moraes ainda vale?
Não. A OFAC o retirou da lista em 12 de dezembro de 2025 7. Confirme o estado atual no site da OFAC, porque as listas mudam.
Para fechar
O dólar dá aos Estados Unidos um lugar no meio das redes de pagamento e de reservas, e as sanções financeiras são a forma mais visível de usar esse lugar. Os casos da Rússia e do Brasil mostram o mecanismo, não o resultado. A leitura realista enxerga poder nesse arranjo; a liberal enxerga cooperação com exceções; e os dados do FMI indicam um dólar ainda dominante e uma mudança lenta. Sobre a ordem do sistema internacional, veja Realismo nas Relações Internacionais: o que é, de onde vem e como explica a disputa entre países. Os números e as listas mudam, por isso o texto traz as datas.
Verbetes do glossário: Câmbio (dólar) Reservas internacionais Fed (Federal Reserve)
Fontes
- FMI: COFER, resumo de dados do segundo trimestre de 2026 (30/09/2026) · consultado em 24/10/2026
- BIS (Banco de Compensações Internacionais): pesquisa trienal de 2025, comunicado de 30/09/2025 · consultado em 24/10/2026
- Federal Reserve History: Bretton Woods e a criação do FMI e do Banco Mundial · consultado em 24/10/2026
- Henry Farrell e Abraham Newman, Weaponized Interdependence, International Security, v. 44, n. 1, 2019, p. 42-79 (página do Belfer Center, Harvard) · consultado em 24/10/2026
- Departamento do Tesouro dos EUA: comunicado sobre a sanção a Alexandre de Moraes (30/07/2025) · consultado em 24/10/2026
- OFAC: perguntas frequentes sobre a regra dos 50% (FAQs 398, 399 e 401) · consultado em 24/10/2026
- OFAC: ações recentes de 12/12/2025 (retiradas da lista SDN) · consultado em 24/10/2026
- G7: declaração dos ministros das Finanças e presidentes de bancos centrais, Marrakech (13/10/2023), na página do Serviço Europeu de Ação Externa · consultado em 24/10/2026
- Parlamento Europeu (EPRS): Russia's war on Ukraine: cutting certain Russian banks off from SWIFT (04/03/2022) · consultado em 24/10/2026
- Banco Central do Brasil: Relatório de Gestão das Reservas Internacionais, março de 2026, seção 2.1 (p. 17) · consultado em 24/10/2026
- Banco Central do Brasil: Sistema Gerenciador de Séries Temporais, série 13621 (reservas internacionais, diária, US$ milhões) · consultado em 24/10/2026
Para ler mais
- Barry Eichengreen, Exorbitant Privilege: The Rise and Fall of the Dollar and the Future of the International Monetary System (2011). Em português: Privilégio Exorbitante: a ascensão e queda do dólar e o futuro do sistema monetário internacional. Conta como o dólar chegou ao topo do sistema monetário e discute o que poderia mudar esse lugar.
- Henry Farrell e Abraham Newman, Underground Empire: How America Weaponized the World Economy (2023). Mostra como os Estados Unidos passaram a usar as redes financeiras e de informação como instrumento de pressão.
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Escrito em 24/10/2026 · checado em 24/10/2026 · versão 3