Realismo nas Relações Internacionais: o que é, de onde vem e como explica a disputa entre países
O que é
Realismo é a corrente das Relações Internacionais que enxerga a política entre países como um campo de competição e conflito. Para os realistas, os atores principais são os Estados, preocupados com a própria segurança, com o poder e com o interesse nacional 1.
A corrente costuma ser contrastada com o liberalismo (ou idealismo), que dá mais peso à cooperação 1. Isso não quer dizer que o realista negue acordos ou tratados. Ele os lê como resultado de interesses e de força, e não como prova de que a competição acabou.
Entre as premissas que a Stanford Encyclopedia of Philosophy lista estão: os Estados são os atores centrais; não há governo acima deles (a chamada anarquia internacional); e poder e segurança vêm antes de outras metas 1. A lista da fonte é mais longa e inclui o egoísmo dos Estados e o ceticismo quanto à ética na esfera internacional 1. Anarquia, aqui, não significa caos. Significa ausência de uma autoridade que mande em todos os países.
De onde vem o realismo
A raiz é antiga. Tucídides escreveu a história da guerra entre Atenas e Esparta e pode ser lido como pensador realista, com ressalvas sobre o quanto essa leitura simplifica a obra 1. No Livro I, ele aponta a causa de fundo do conflito: o crescimento do poder de Atenas e o alarme que isso causou em Esparta tornaram a guerra inevitável 2.
Maquiavel, em O Príncipe, diz buscar a verdade efetiva das coisas, e não a imaginada, o que a literatura associa à separação entre política e moral 14. Thomas Hobbes, no Leviatã (1651), descreve um estado de natureza sem autoridade comum; a visão de anarquia que sai daí é um dos alicerces do realismo 13.
No século XX a tradição virou teoria acadêmica:
- E. H. Carr, em The Twenty Years' Crisis (1939), criticou o "utopismo" do período entre as guerras e sustentou que a moral depende dos interesses 1.
- Hans Morgenthau, em Politics among Nations (1948), definiu a política internacional como luta por poder; sua teoria parte do "interesse definido em termos de poder" e dá lugar à prudência 1. Segundo Berringer, o conceito de Estado em Morgenthau sofre influência de Weber, Maquiavel e Hobbes 7.
- Kenneth Waltz, em Theory of International Politics (1979), criou o neorrealismo: uma teoria do sistema, inspirada na microeconomia, em que a anarquia ordena as relações e a distribuição de capacidades entre os Estados define o cenário 1.
- John Mearsheimer, em The Tragedy of Great Power Politics (2001), defendeu o realismo ofensivo, para o qual grandes potências buscam maximizar poder 1.
Como funciona o argumento
A lógica pode ser montada em quatro passos.
- Não há árbitro final. Nenhum governo mundial protege um país contra outro. Cada Estado depende, em última instância, de si mesmo e de aliados. Essa condição leva o nome de autoajuda 1.
- A sobrevivência vem primeiro. Waltz parte da ideia de que os Estados preferem sobreviver a outros fins que poderiam obter no curto prazo 1.
- Poder é o meio. Para dissuadir agressores, os Estados buscam poder, seja militar, econômico ou por meio de alianças. A busca por equilíbrio de poder é parte da leitura realista 1.
- A cooperação tem limite. Na versão de Waltz, os Estados temem que um acordo beneficie mais o outro do que a si mesmos. Esse receio de ganhos desiguais, somado à insegurança, restringe a cooperação 1.
Há ainda uma consequência conhecida, o dilema de segurança. Quando um Estado reforça sua defesa, os vizinhos não sabem se a intenção é só defensiva, sentem-se ameaçados e reforçam a deles; o resultado é mais desconfiança para todos 11. Mendes e Rezende citam John Herz (1950) como uma das formulações modernas, ao lado de Butterfield (1951) e Jervis (1978) 11. O artigo Anarquia internacional e autoajuda: o que são, de onde vêm e o que explicam aprofunda esse ponto.
Realismo defensivo e realismo ofensivo
Os realistas concordam que o sistema é anárquico. Divergem sobre quanto poder um Estado quer. Mendes e Rezende descrevem a cisão como uma das principais da teoria das Relações Internacionais nas últimas décadas 11.
- Realismo defensivo, ligado à leitura de Waltz. Segundo os autores, o poder é um meio útil, e Estados racionais buscam uma quantidade apropriada dele, não o máximo; poder demais pode levar outros a se unirem contra o Estado dominante. Em momentos decisivos, a preocupação central é com a segurança 11. Como parte da competição seria fruto de incerteza e não de intenção hostil, os defensivos veem espaço para amenizar o dilema 11.
- Realismo ofensivo, de Mearsheimer (2001). Conclui que o caminho para garantir a sobrevivência é maximizar poder de forma gradual e calculada. As grandes potências veem umas às outras como possíveis rivais e esperam o pior; o dilema de segurança é visto como inescapável 11.
Também é comum diferenciar as duas correntes pela ênfase: possibilidade ou probabilidade de conflito. Para os ofensivos, basta ser possível; para os defensivos, a probabilidade depende de contextos concretos, como o equilíbrio entre ataque e defesa. Quem se apoia no lado defensivo vê mais chance de cooperação; quem se apoia no ofensivo vê rivalidade estrutural 11.
Exemplos na história
Atenas, Melos e a guerra do Peloponeso. A explicação de Tucídides liga o crescimento de uma potência ao medo de outra 2. No Diálogo de Melos (Livro V, 89, na tradução de Crawley), os atenienses dizem uma frase que virou símbolo da lente realista: "the strong do what they can and the weak suffer what they must" (os fortes fazem o que podem e os fracos sofrem o que devem) 2. A cena mostra o argumento, não uma aprovação dele, e a literatura lê Tucídides com mais nuances do que o resumo sugere 1.
O entreguerras (1919-1939). Carr escreveu The Twenty Years' Crisis em 1939 e atacou a ideia de que os interesses dos países se harmonizam por si mesmos 1. A lente realista nasce, aqui, como reação a um momento de tensão.
A ONU e o Conselho de Segurança (1945). A Carta fundamenta a organização na igualdade soberana de todos os membros 5. Ao mesmo tempo, o Conselho de Segurança tem cinco membros permanentes, nomeados no texto, e decisões de fundo exigem nove votos, incluindo os concordantes dos permanentes 6. Realistas leem isso como reconhecimento de que as grandes potências pesam mais; liberais, como tentativa de pôr o poder dentro de regras. Os textos trazem só o desenho institucional.
Estados Unidos e China: duas leituras de um mesmo caso. É o caso atual mais discutido pela teoria. As leituras realista e liberal chegam a conclusões diferentes.
A leitura realista ofensiva. No artigo "Bound to Fail" (2019), Mearsheimer sustenta que a ordem liberal criada pelos Estados Unidos depois da Guerra Fria estava fadada ao fracasso. Segundo ele, a hiperglobalização ajudou outros países além do polo dominante a ficar mais fortes, e isso, com a ascensão da China e o renascimento do poder russo, encerrou a era unipolar 13. Ele assume que o mundo se tornou multipolar por volta de 2016 e prevê uma nova ordem de base realista, em que Estados Unidos e China liderariam ordens separadas, cada uma restrita a um conjunto de países, competindo nos campos econômico e militar 13. Sobre a política americana, afirma que ela seguiu uma lógica liberal: o engajamento com a China, defendido pelas elites ocidentais depois da Guerra Fria, partia da ideia de que a participação em instituições a integraria à ordem econômica e a tornaria uma democracia 13. Para ele, uma política guiada pelo realismo teria preferido conter a China, não engajá-la 13. A China é membro do FMI e do Banco Mundial desde 1980 e entrou na Organização Mundial do Comércio (OMC) em 2001 13.
A resposta liberal. Ikenberry, numa conferência na Chatham House em 7 de maio de 2014, descreve os argumentos realistas sobre a China, incluindo o de Mearsheimer sobre a disputa pela supremacia na Ásia, e responde a eles 14. Para ele, a ordem atual é mais fácil de entrar e mais difícil de derrubar do que as anteriores, pela capacidade de integrar Estados, pelas lideranças compartilhadas e pela repartição dos ganhos do comércio e da tecnologia 14. Ele diz que a China e outros emergentes crescem dentro das instituições existentes (ONU, FMI, Banco Mundial, OMC) e que a disputa de fundo seria sobre quem decide, não sobre valores opostos 14. Reconhece que a transição de poder é "complexa e cheia de perigos" (tradução nossa), sobretudo na Ásia Oriental, e defende que Estados Unidos e Europa fortaleçam e reformem a ordem liberal e dividam autoridade 14.
O que muda de uma leitura para outra. Mearsheimer vê a estrutura do sistema empurrando as potências à rivalidade e o engajamento como erro de teoria 13. Ikenberry vê espaço para acomodação dentro de regras comuns e diz não saber se a China será rival ou amiga daqui a 20 anos 14. Os textos são de 2014 e 2019 e anteriores aos acontecimentos recentes; este artigo não avalia qual dos dois acertou.
Críticas e limites
O realismo é uma lente, não a única explicação possível.
- Liberalismo. Keohane e Nye propuseram a "interdependência complexa". Keohane, em International Institutions and State Power (1989), argumenta que a cooperação econômica e as instituições podem mudar a percepção do que é interesse próprio 1. A resposta de Ikenberry é um exemplo recente dessa linha 14.
- Construtivismo. Alexander Wendt, em "Anarchy is what states make of it" (1992), sustenta que a autoajuda não decorre logicamente da anarquia 112. (A Stanford Encyclopedia traz outro ano; o registro da revista, International Organization, v. 46, n. 2, indica 1992 12.) Construtivistas apontam também o peso de ideias e identidade 1.
- Teoria crítica e pós-modernismo. Questionam o foco no Estado; segundo a Stanford Encyclopedia, o neorrealismo é visto como legitimador do status quo 1.
- Mudança. Muitos críticos afirmam que o neorrealismo explica mal transformações, como o fim da ordem bipolar 1.
- Dentro do realismo. Defensivos e ofensivos discordam sobre quanto poder basta e sobre a inevitabilidade do dilema 11.
Há também um limite interno. Berringer observa que Morgenthau não definiu com clareza o conceito de Estado-nação e recorreu a concepções da ciência política que divergem entre si 7. A lente deixa de fora, em geral, o que acontece dentro dos países.
O Brasil neste tabuleiro
Uma lente realista aplicada ao Brasil pergunta pela posição do país no sistema: que poder tem, de quem depende e o que protege. A Carta da ONU, por exemplo, não nomeia o Brasil entre os cinco permanentes do Conselho de Segurança 6.
Na literatura brasileira, um conceito central é o de autonomia: um projeto em que o país define seu interesse nacional e conduz a modernização interna dentro do sistema capitalista internacional. Segundo a tese de Eiras (UFSCar, 2023), o projeto foi elaborado por acadêmicos, políticos e diplomatas desde meados da década de 1950 8. Não é, portanto, um conceito importado do realismo, embora dialogue com temas realistas, como soberania e inserção internacional.
Na conferência de 2014, Ikenberry citou o Brasil como emergente que não age como bloco com a China: segundo ele, o país se preocupava com o câmbio, com a perda de empregos industriais e com a dependência de recursos, e mantinha com os Estados Unidos uma relação de "amor e ódio" 14. É a leitura de um autor americano, de 2014; dados atuais de comércio vêm de fontes oficiais (Comex Stat, do MDIC) e não são tratados aqui.
Na defesa, o Senado aprovou em segundo turno, em 11 de junho de 2025, o PDL 725/2024, com a atualização da Política e da Estratégia Nacional de Defesa 9. Segundo a matéria, o senador Esperidião Amin afirmou que os documentos vão orientar as políticas públicas de defesa; ela cita entre os temas o acesso ao espaço e o Sistema Militar de Defesa Cibernética 9. Este artigo não analisa o conteúdo dos documentos.
Perguntas frequentes
Realismo significa defender a guerra?
Não. Realismo é uma forma de descrever e explicar como os Estados se comportam, não um programa político. Os realistas costumam considerar a esfera internacional uma área em que padrões éticos têm pouca força, mas nem todos sustentam essa posição 1.
Qual a diferença entre realismo clássico e neorrealismo?
O realismo clássico, de Carr e Morgenthau, parte da busca por poder como traço da política 1. O neorrealismo, de Waltz, explica o comportamento dos Estados pela estrutura do sistema: a anarquia e a distribuição de capacidades 1.
O realismo explica tudo o que acontece entre países?
Não. Liberais apontam o papel das instituições e do comércio, e construtivistas apontam o papel das ideias e da identidade 1. Cada escola ilumina parte dos fatos.
Quem foram os primeiros pensadores realistas?
Tucídides, Maquiavel e Hobbes são os nomes mais citados como raízes da tradição 1234. O termo "realismo" como teoria acadêmica é do século XX 1.
Para fechar
O realismo ajuda a perguntar quem tem poder, quem teme quem e o que cada Estado quer proteger. Seu limite é deixar em segundo plano instituições, ideias e política interna, justamente os pontos que liberais e construtivistas destacam. O debate sobre a China mostra que os mesmos fatos podem sustentar previsões diferentes. Como lente, o realismo serve para ler os fatos, não para dizer o que fazer. Para a ideia de base, veja Anarquia internacional e autoajuda: o que são, de onde vêm e o que explicam.
Fontes
- Stanford Encyclopedia of Philosophy: Realism in International Relations · consultado em 24/10/2026
- Tucídides, The History of the Peloponnesian War (trad. Richard Crawley), Project Gutenberg nº 7142 · consultado em 24/10/2026
- Thomas Hobbes, Leviathan, Project Gutenberg nº 3207 · consultado em 24/10/2026
- Niccolò Machiavelli, The Prince (trad. W. K. Marriott), Project Gutenberg nº 1232 · consultado em 24/10/2026
- Carta das Nações Unidas (versão em inglês no site da ONU), Capítulo I: Propósitos e Princípios · consultado em 24/10/2026
- Carta das Nações Unidas (versão em inglês no site da ONU), Capítulo V: O Conselho de Segurança · consultado em 24/10/2026
- Tatiana Berringer, "O conceito de Estado para os estudos realistas das relações internacionais: uma análise sobre a obra A política entre as nações de Hans Morgenthau", Plural (USP), v. 24, n. 2, 2017, p. 16-37 · consultado em 24/10/2026
- André Luis Silva Eiras, Dinâmica da política externa brasileira: uma análise do conceito de autonomia (tese de doutorado, UFSCar, 2023) · consultado em 24/10/2026
- Agência Senado: Senado aprova atualização da Política e da Estratégia Nacional de Defesa (11/06/2025) · consultado em 24/10/2026
- Global Thucydides (Ca' Foscari): registro da tradução brasileira de Mário da Gama Kury (Editora UnB, 1982) · consultado em 24/10/2026
- Flávio Pedroso Mendes e Lucas P. Rezende, "O dilema da segurança como realidade fundamental da política internacional: debate teórico e implicações para a América do Sul", Revista Brasileira de Estudos de Defesa, v. 7, n. 1, 2020, p. 13-42 · consultado em 24/10/2026
- Alexander Wendt, "Anarchy is what states make of it: the social construction of power politics", International Organization, v. 46, n. 2, 1992, p. 391-425 (registro IDEAS/RePEc) · consultado em 24/10/2026
- John J. Mearsheimer, "Bound to Fail: The Rise and Fall of the Liberal International Order", International Security, v. 43, n. 4, 2019, p. 7-50 (cópia do Belfer Center, Harvard) · consultado em 24/10/2026
- G. John Ikenberry, "The Rise of China and the Future of Liberal World Order", Dillon Lecture, Chatham House, 7 de maio de 2014 (transcrição) · consultado em 24/10/2026
Para ler mais
- Tucídides, História da Guerra do Peloponeso (c. 400 a.C.). Em português: História da Guerra do Peloponeso (tradução de Mário da Gama Kury, Editora Universidade de Brasília, 1982). Narra o conflito entre Atenas e Esparta e traz o Diálogo de Melos, texto muito lido por quem estuda poder entre Estados.
- E. H. Carr, The Twenty Years' Crisis, 1919-1939 (1939). Em português: Vinte anos de crise, 1919-1939. Critica a confiança excessiva na harmonia de interesses entre países no período entre as duas guerras mundiais.
- Hans Morgenthau, Politics Among Nations (1948). Em português: A Política entre as Nações. Apresenta o realismo clássico, em que a política internacional é uma luta por poder.
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Escrito em 24/10/2026 · checado em 24/10/2026 · versão 6