Anarquia internacional e autoajuda: o que são, de onde vêm e o que explicam
O que é
Anarquia internacional é a situação de um sistema em que nenhuma autoridade está acima dos Estados. Não existe um governo mundial com polícia, tribunal de adesão obrigatória e poder de cobrar o cumprimento de regras. Cada Estado é soberano: decide por conta própria sobre o seu território e a sua população.
A palavra engana. Aqui, "anarquia" não quer dizer desordem. Quer dizer ausência de comando central. Há tratados, organizações e costumes; falta quem possa obrigar os Estados a cumpri-los. A Carta das Nações Unidas, por exemplo, afirma que a organização se baseia na "igualdade soberana" de todos os seus membros 3.
Autoajuda é o nome dado à consequência desse arranjo. Não tem relação com os livros de desenvolvimento pessoal. É a tradução de self-help: se ninguém tem a obrigação de proteger um Estado, ele precisa cuidar da própria sobrevivência. Segundo a Stanford Encyclopedia of Philosophy, na ausência de autoridade comum o cenário internacional funciona como um sistema de autoajuda, em que cada Estado assegura a si mesmo a continuidade e o poder pesa nos resultados 1.
De onde vem
A ideia é antiga. A enciclopédia de Stanford a rastreia até Tucídides, historiador da Grécia antiga, que narrou a guerra entre Atenas e Esparta. Ela lê na obra dele a ideia de que os Estados buscam segurança por meio do poder, e lembra que há debate sobre quanto Tucídides era "realista" no sentido moderno, já que ele trata a política de poder também como questão moral 1.
Thomas Hobbes, filósofo inglês, deu a imagem mais citada. No Leviathan (1651), ele descreve o estado de natureza, a vida sem um poder comum. Diz que, enquanto os homens vivem sem um poder comum que os mantenha em respeito, estão numa condição que ele chama de guerra 2. Sobre os soberanos, compara a situação deles à de gladiadores, de armas apontadas uns para os outros (paráfrase nossa do capítulo XIII) 2. A Stanford observa que Hobbes não propõe um Estado mundial e destaca o caráter defensivo da política externa que ele descreve 1.
O passo seguinte é do século XX. Hans Morgenthau, em meados do século, fez do poder o centro da disciplina, apoiado numa visão sobre a natureza humana 1. Em 1979, Kenneth Waltz publicou Theory of International Politics e mudou o ponto de apoio: deixou a natureza humana de lado e passou a explicar o comportamento dos Estados pela estrutura do sistema. Para ele, a estrutura se define pela anarquia e pela distribuição de capacidades entre os Estados 1.
Como funciona o argumento
O raciocínio de Waltz, como o resume a Stanford, tem poucos passos 1:
- Não há autoridade acima dos Estados. Esse é o princípio ordenador do sistema.
- Os Estados cumprem funções parecidas. Todos precisam defender território e população. Por isso se distinguem pelo que podem fazer (as capacidades), não pelo que fazem.
- A sobrevivência vem antes dos outros fins. Waltz compara os Estados a empresas numa economia, que querem continuar existindo.
- Ninguém sabe ao certo as intenções dos outros. Um Estado teme que a cooperação beneficie mais o vizinho do que a ele.
- O resultado é a autoajuda. Cada um se arma, firma alianças ou tenta equilibrar quem cresce demais.
Desse quarto passo costuma-se derivar o que a literatura chama de dilema de segurança: o que um Estado faz para se proteger (armar-se, por exemplo) pode soar como ameaça para o outro, que reage do mesmo modo. Ninguém precisa querer a guerra para que a tensão suba. Um estudo brasileiro de 2020 lembra que o dilema não se restringe à corrida armamentista e tecnológica, e envolve também mudanças políticas, econômicas e sociais 7.
Importante: a teoria de Waltz explica padrões que se repetem entre Estados. Segundo a Stanford, ela não pretende orientar a política externa de nenhum país 1.
Exemplos na história
Atenas e Esparta (Guerra do Peloponeso). A Stanford relata a leitura segundo a qual a causa da Guerra do Peloponeso foi o crescimento do poder de Atenas, que fez Esparta temer pela própria segurança. No Diálogo de Melos, os enviados atenienses igualam o direito à força; a mesma enciclopédia argumenta que Tucídides rejeita tanto a ingenuidade dos melianos quanto o cinismo dos atenienses 1. O episódio é usado nos dois lados do debate.
Guerra Fria. Waltz sustentava que um mundo com duas grandes potências (bipolar) tendia a durar. A Stanford registra que o colapso da União Soviética contrariou essa previsão 1. O caso mostra um limite: a teoria descreve o sistema, mas não antecipa bem quando ele muda.
Nações Unidas (1945). A Carta da ONU manda os membros evitarem a ameaça ou o uso da força nas relações internacionais 3. Para os realistas, a regra existe, mas o cumprimento depende dos Estados, pois não há instância acima deles. Para liberais e para a Escola Inglesa, o texto mostra que os Estados reconhecem interesses e normas comuns 1.
Críticas e limites
O realismo é uma lente, não a única explicação. As escolas rivais aceitam a anarquia, mas tiram outras conclusões 1:
- Liberalismo institucional (Robert Keohane). Aceita a abordagem sistêmica de Waltz, mas diz que instituições e interdependência econômica ampliam a ideia que os Estados fazem do próprio interesse e facilitam a cooperação.
- Construtivismo (Alexander Wendt). Afirma que a autoajuda não decorre logicamente da anarquia: é construída socialmente. A anarquia pode tomar formas diferentes, conforme as identidades dos Estados.
- Teoria crítica (Robert Cox). Diz que o neorrealismo trata como universal uma estrutura histórica específica, a de Estados, e não explica como ela muda.
- Escola Inglesa. Lembra que os Estados podem reconhecer interesses e normas comuns e formar uma sociedade internacional, que vai além do estado de natureza de Hobbes.
Dentro do próprio realismo também há divergência. Mearsheimer, classificado pela Stanford como realista ofensivo, defende que as grandes potências buscam maximizar poder e dominação 1. Já Waltz trata os Estados como atores que buscam, antes de tudo, sobreviver 1.
A Stanford aponta ainda, quanto a Morgenthau, que a ideia de um impulso universal pelo poder é questionável 1. Os críticos, em resumo, dizem que a lente enxerga bem a rivalidade e enxerga mal a cooperação, a mudança e o papel das ideias.
O Brasil neste tabuleiro
O Brasil também vive sob anarquia, e o seu sistema de defesa reflete isso. A Lei Complementar 97/1999 manda o governo enviar ao Congresso, a cada quatro anos, a Política Nacional de Defesa (PND), a Estratégia Nacional de Defesa (END) e o Livro Branco de Defesa Nacional 5. A versão mais recente chegou ao Congresso pela Mensagem CN 2/2024, recebida em 1º de agosto de 2024 6, e o Senado aprovou o projeto em segundo turno em 11 de junho de 2025 5. Entre os destaques da END, a reportagem cita a capacidade de acesso ao espaço e a conclusão da estrutura de defesa cibernética 5.
No entorno marítimo, um estudo da UFRJ analisa a política externa e de defesa do Brasil para o Atlântico Sul entre 2003 e 2022. A autora conclui que as ações para a região foram mais intensas nos governos Lula e Dilma do que nos seguintes 4. Ou seja, a atenção do Estado a essa área variou conforme o governo.
Cada escola lê esse quadro à sua maneira. O realista vê a defesa como resposta à autoajuda. O liberal e o construtivista destacam as instituições regionais e a cooperação como parte da mesma realidade.
Perguntas frequentes
Anarquia internacional quer dizer que não há leis entre países?
Não. Há tratados, costumes e organizações como a ONU. O que falta é uma autoridade acima dos Estados com poder de impor o cumprimento 13.
Autoajuda é o mesmo que isolamento?
Não. Para os realistas, buscar aliados faz parte da autoajuda. O Estado escolhe parceiros por conta própria, sem garantia de que o apoio venha 1.
Quem criou a teoria da anarquia internacional?
Não foi uma pessoa só. A ideia aparece em Tucídides e em Hobbes 12. A versão sistêmica, que trata a anarquia como estrutura, é de Kenneth Waltz, de 1979 1.
Todo especialista em relações internacionais concorda com isso?
Não. Liberais, construtivistas, teóricos críticos e a Escola Inglesa aceitam a anarquia, mas discordam de que ela leve necessariamente à autoajuda 1.
O que é dilema de segurança?
É a situação em que as medidas de defesa de um Estado parecem ameaça a outro, que responde do mesmo modo. Nasce da incerteza sobre as intenções alheias, e não se limita à corrida armamentista 7.
Para fechar
Anarquia internacional e autoajuda formam o ponto de partida do realismo: sem governo mundial, cada Estado zela pela própria sobrevivência. A ideia explica bem a rivalidade e a corrida por segurança, mas explica pior a cooperação e as mudanças de sistema, e as escolas rivais existem justamente para preencher essa lacuna. Vale ler este tema junto com Realismo nas Relações Internacionais: o que é, de onde vem e como explica a disputa entre países e Equilíbrio de poder: o que é, de onde vem e o que explica.
Fontes
- Stanford Encyclopedia of Philosophy: Realism in International Relations · consultado em 24/10/2026
- Thomas Hobbes, Leviathan (1651), cap. XIII, Project Gutenberg, ebook 3207 · consultado em 24/10/2026
- Carta das Nações Unidas, Capítulo I (Propósitos e Princípios), em inglês · consultado em 24/10/2026
- Alana Camoça Gonçalves de Oliveira, Nexos e reversos da política externa brasileira e de defesa para o Atlântico Sul, Conjuntura Austral, v. 14, n. 66, 2023, p. 103-120 · consultado em 24/10/2026
- Senado Notícias: Aprovada atualização da Política e da Estratégia Nacional de Defesa (11/06/2025) · consultado em 24/10/2026
- Congresso Nacional: Mensagem (CN) nº 2, de 2024 (PND, END e Livro Branco de Defesa Nacional) · consultado em 24/10/2026
- Flávio Pedroso Mendes e Lucas P. Rezende, O dilema da segurança como realidade fundamental da política internacional: debate teórico e implicações para a América do Sul, Revista Brasileira de Estudos de Defesa, v. 7, n. 1, 2020 (resumo) · consultado em 24/10/2026
Para ler mais
- Kenneth N. Waltz, Theory of International Politics (1979). Expõe a teoria que faz da anarquia e da autoajuda o ponto de partida para explicar o comportamento dos Estados.
- John J. Mearsheimer, The Tragedy of Great Power Politics (2001). Defende que, na anarquia, as grandes potências buscam o máximo de poder; é a versão ofensiva do realismo.
- Alexander Wendt, Social Theory of International Politics (1999). Sustenta que a autoajuda não decorre da anarquia por si só, e sim das ideias e identidades que os Estados constroem.
- Thomas Hobbes, Leviathan (1651). Em português: Leviatã ou Matéria, forma e poder de uma república eclesiástica e civil. Descreve a vida sem um poder comum acima de todos, imagem que os realistas aplicam aos Estados.
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Escrito em 24/10/2026 · checado em 24/10/2026 · versão 2