Ouro e commodities: o que são, como têm o preço formado em dólar e quais os riscos
O que é
Commodities são produtos básicos, produzidos e negociados em grande escala, que mudam pouco de um vendedor para outro. Uma saca de soja ou um barril de petróleo de uma mesma especificação valem, em essência, o mesmo. Por isso existe um preço de referência mundial para cada um.
Há grupos conhecidos: energia (petróleo, gás), metais (minério de ferro, cobre, ouro), produtos agrícolas (soja, milho, café) e pecuária (boi gordo). Na B3, a bolsa brasileira, a página oficial de commodities lista sete produtos negociados: boi gordo, café arábica, café conilon, etanol hidratado, milho, ouro e soja 3.
O ouro é uma commodity com papel à parte. Além de ser matéria-prima de joias e de eletrônicos, muita gente o trata como reserva de valor, isto é, um bem que se guarda esperando preservar poder de compra. Isso é uma convenção histórica, não uma regra: o preço do ouro sobe e desce como o de qualquer outro bem negociado.
Como funciona: por que o preço é em dólar
Os preços de referência das commodities são, em geral, cotados em dólares americanos. O petróleo Brent, por exemplo, é negociado em contratos futuros na ICE Futures Europe, em dólares e centavos por barril, e cada contrato representa 1.000 barris 4. Contrato futuro é um acordo de compra e venda com data de entrega e preço definidos hoje. O ouro costuma ser cotado em dólares por onça troy, unidade de massa tradicional dos metais preciosos.
Isso gera um efeito duplo para o brasileiro. O preço em reais de uma commodity depende de dois fatores ao mesmo tempo:
- o preço dela em dólar no mercado internacional;
- a taxa de câmbio entre o real e o dólar (veja Câmbio (dólar) e Dólar PTAX: o que é, como é calculada e para que serve).
Se o dólar sobe frente ao real e a commodity fica igual em dólar, ela fica mais cara em reais. Se o dólar cai, acontece o contrário. A commodity pode até cair em dólar e subir em reais, se o câmbio andar mais.
A conta: do dólar ao real
Em texto simples:
Preço em reais = preço em dólares × taxa de câmbio (reais por dólar)
- Preço em dólares: a cotação internacional na unidade do produto (onça, barril, saca).
- Taxa de câmbio: quantos reais custa um dólar. Pode ser a cotação do momento ou uma referência, como a PTAX do Banco Central.
Na prática: uma onça de ouro, com preço fictício
O Banco Central divulgou, para 23 de outubro de 2026, PTAX de venda de R$ 5,0377 por dólar 6. Para ilustrar a conta, usamos um preço inventado de US$ 4.000 por onça troy. Ele não é cotação de mercado.
- Preço fictício: US$ 4.000 por onça.
- PTAX de venda em 23/10/2026: R$ 5,0377 6.
- Conta: 4.000 × 5,0377 = R$ 20.150,80 por onça.
Agora suponha que o preço em dólar não mude, mas o dólar caia 5%, para R$ 4,7858 (5,0377 × 0,95, arredondado):
- Nova conta: 4.000 × 4,7858 = R$ 19.143,20.
- A diferença é de R$ 1.007,60 por onça, só pelo câmbio.
Importante: os números do exemplo são ilustração do mecanismo. Não são cotação do ouro nem projeção de preço ou de câmbio.
Ouro e commodities em outras formas de exposição
Há mais de um jeito de ficar exposto ao preço de uma commodity. Cada um tem custos, regras e riscos próprios:
- Contratos futuros: acordos de compra e venda a preço e data definidos. Usados por produtores, indústrias e investidores. No mercado futuro, o investidor deposita uma margem de garantia e consegue controlar uma posição maior que essa margem. Essa alavancagem pode ampliar ganhos e também perdas, que podem ser significativas 7. A B3 lista o ouro entre as commodities negociadas 3.
- Fundos de índice (ETFs): fundos negociados em bolsa que acompanham um índice ou ativo (veja ETFs: o que são, como funcionam e como são tributados). Cada fundo tem política e regulamento próprios, que dizem o que ele realmente compra.
- Ações de empresas do setor: mineradoras, petroleiras e produtoras agrícolas. O resultado delas depende do preço da commodity, mas também de custos, dívida e gestão.
- Ouro físico e ouro ativo financeiro: a diferença legal está na seção sobre regras no Brasil.
Ouro ou petróleo: o que muda
| Característica | Ouro | Petróleo Brent |
|---|---|---|
| Uso principal | Joalheria, reserva de valor, tecnologia | Energia e derivados |
| Preço de referência | Dólar por onça troy | Dólar por barril 4 |
| Na lista de commodities da B3 | Ouro consta 3 | Não consta 3 |
| Na Lei 7.766/1989 | Trata do ouro destinado ao mercado financeiro como ativo financeiro 1 | Não é objeto dessa lei |
A tabela descreve diferenças, não ordena os dois.
Riscos e limitações
Pontos a favor, e seu contraponto
- Preço mundial transparente: referências públicas e contratos padronizados facilitam acompanhar o preço.
- Diversificação possível: commodities nem sempre andam junto com ações ou juros, o que pode reduzir a dependência de um só ativo (veja Diversificação: o que é, como funciona e o que ela não faz). Mas a correlação muda e pode desaparecer justamente nas crises.
- Ligação com a economia brasileira: o Brasil exporta commodities, e o Banco Central acompanha os preços internacionais delas, convertidos para reais, no Índice de Commodities – Brasil (IC-Br), cujos pesos buscam refletir a relevância de cada produto para a inflação doméstica 8. Como o índice usa reais, ele também capta o efeito do câmbio 8.
Riscos
- Perda de capital: preços de commodities caem, às vezes muito e por muito tempo. Quem compra pode vender por menos do que pagou.
- Risco cambial: o dólar influencia o resultado em reais, para cima e para baixo.
- Sem renda periódica: ouro e petróleo físico não pagam juros nem dividendos. Qualquer retorno vem só da variação de preço.
- Choques de oferta e demanda: clima, guerras, decisões de produtores e a economia chinesa mexem com os preços de forma imprevisível.
- Alavancagem em futuros: pode ampliar perdas, que podem ser significativas 7.
- Custos: custódia, corretagem, taxas de fundos e diferença entre preço de compra e venda reduzem o resultado.
No Brasil: regras, impostos e quem fiscaliza
Ouro ativo financeiro e ouro físico. A Lei 7.766/1989 diz que o ouro, em qualquer estado de pureza, destinado ao mercado financeiro ou à política cambial, por meio de instituições do Sistema Financeiro Nacional, é ativo financeiro ou instrumento cambial, "na forma e condições autorizadas pelo Banco Central" (art. 1º) 1. O que não tem esse destino, como o ouro de joalheria ou de uso industrial, fica fora desse enquadramento: a lei classifica como ativo financeiro apenas o ouro destinado ao mercado financeiro ou à política cambial 1. A lei exige nota fiscal ou documento identificador que comprove a destinação e as operações (art. 3º) 1.
IOF sobre o ouro ativo financeiro. O ouro ativo financeiro fica sujeito à incidência exclusiva do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras), com alíquota de 1%, em relação aos tributos sobre operações de crédito, câmbio, seguro e títulos ou valores mobiliários (art. 4º) 1. O fato gerador é a primeira aquisição do ouro por instituição autorizada do Sistema Financeiro Nacional (art. 8º), e o contribuinte é essa instituição (art. 10) 1. Ou seja, o IOF de 1% não é um imposto sobre o ganho do investidor. A alíquota foi conferida na redação original da lei; a versão consolidada do Planalto não abriu na consulta. Regra em vigor em 24 de outubro de 2026, conforme o texto consultado; consulte a fonte para mudanças.
Fim do ouro à vista na B3. A B3 informa que o ouro como produto financeiro foi negociado na bolsa até 16 de fevereiro de 2024 2. Quem tinha barras inteiras de 250 g (249,75 g de ouro puro) precisou pedir a retirada física, em processo descrito pela própria B3 2.
Imposto de renda do investidor. A página da Receita Federal sobre renda variável em bolsa, publicada em 7 de maio de 2024 e atualizada em 4 de junho de 2024, lista a venda de ouro, quando operado como ativo financeiro, entre as operações sujeitas a imposto 5. A mesma página traz alíquotas gerais de bolsa de 15% para operações comuns e 20% para day trade, sem detalhar o ouro 5. Esse é o conteúdo da página na data da consulta, 24 de outubro de 2026; a página é antiga e as regras de imposto mudam, então confira a versão mais recente antes de qualquer decisão.
Quem fiscaliza. O Banco Central do Brasil autoriza a forma e as condições das operações com ouro ativo financeiro (art. 1º da Lei 7.766/1989) 1. A Receita Federal é a fonte oficial sobre o imposto de renda 5. A CVM, criada pela Lei 6.385/1976, fiscaliza e normatiza o mercado de valores mobiliários 9. As commodities negociadas em bolsa, como os contratos futuros, ficam na B3, que publica os produtos e as regras de cada contrato 3.
Perguntas frequentes
O que são commodities?
São produtos básicos negociados em grande escala, com preço de referência mundial: petróleo, minério de ferro, soja, café, ouro, entre outros 3.
Por que o preço do ouro é em dólar?
Porque o mercado internacional usa o dólar como moeda de referência para a maior parte das commodities. O preço em reais resulta da conta entre o valor em dólar e o câmbio.
Ouro é considerado ativo financeiro no Brasil?
Quando destinado ao mercado financeiro ou à política cambial, por meio de instituições do sistema financeiro, sim, segundo a Lei 7.766/1989 1.
Ainda dá para negociar ouro na B3?
O ouro ativo financeiro deixou de ser negociado na B3 em 16 de fevereiro de 2024 2. A B3 continua listando o ouro entre as commodities de seu portfólio 3, mas confirme o produto e o contrato exatos no site da bolsa.
O que mexe no preço do Brent?
Oferta e demanda mundiais, decisões de países produtores, estoques e eventos geopolíticos. O contrato de referência é cotado em dólar por barril, com 1.000 barris por contrato 4.
Para fechar
Commodities têm preço mundial, em dólar, e chegam ao bolso do brasileiro filtradas pelo câmbio. O ouro tem regime próprio na lei, e o principal limite é que seu preço oscila e não paga renda: perder dinheiro é possível. Para entender o câmbio e a ideia de repartir riscos, veja Câmbio (dólar) e Diversificação: o que é, como funciona e o que ela não faz.
Verbetes do glossário: Ouro Commodities Petróleo Brent Câmbio (dólar) Mercado futuro (CBOT, CME, ICE)
Fontes
- Lei nº 7.766, de 11 de maio de 1989 (ouro, ativo financeiro): arts. 1º, 3º, 4º, 8º e 10 · consultado em 24/10/2026
- B3: Ouro à vista (fim da negociação do ouro ativo financeiro e retirada de barras) · consultado em 24/10/2026
- B3: Commodities (produtos negociados) · consultado em 24/10/2026
- ICE Futures Europe: Brent Crude Futures · consultado em 24/10/2026
- Receita Federal: Bolsa de Valores (renda variável); página publicada em 07/05/2024 e atualizada em 04/06/2024 · consultado em 24/10/2026
- Banco Central do Brasil: serviço PTAX (Olinda), cotação do dólar em 23/10/2026 · consultado em 24/10/2026
- B3 Bora Investir: glossário, Mercado futuro · consultado em 24/10/2026
- Banco Central do Brasil: Relatório de Inflação de dezembro de 2017, boxe 'Revisão Metodológica do Índice de Commodities – Brasil (IC-Br)', p. 34-37 · consultado em 24/10/2026
- CVM: Sobre a CVM (criação pela Lei 6.385/1976 e competência sobre o mercado de valores mobiliários) · consultado em 24/10/2026
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Como este artigo é feito
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Escrito em 24/10/2026 · checado em 24/10/2026 · versão 4