SFH e uso do FGTS no financiamento: o que é, como funciona e quais são as regras
O que é
O Sistema Financeiro da Habitação (SFH) é o conjunto de instituições e regras criado pela Lei 4.380, de 1964, para facilitar e promover a construção e a compra da casa própria, "especialmente pelas classes de menor renda da população" 3. Na prática, "financiamento no SFH" quer dizer um financiamento imobiliário que cumpre as condições que o Conselho Monetário Nacional (CMN) fixou para esse sistema 1.
O FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) é regido pela Lei 8.036, de 1990. O saldo fica em conta vinculada ao trabalhador, que só pode movimentá-lo nas situações listadas no art. 20 5. Entre elas estão a compra da moradia própria (inciso VII), o pagamento de parte das prestações de financiamento no SFH (inciso V) e a liquidação ou amortização do saldo devedor (inciso VI) 5. O FGTS não é um financiamento: é um saldo que o trabalhador tem e que pode, sob condições, ser usado dentro do financiamento 6.
Os dois se encontram num ponto: as regras do FGTS para amortizar, quitar ou pagar prestações usam o SFH como referência 57.
Como funciona o SFH
A norma central é a Resolução CMN 4.676, de 31 de julho de 2018. São operações no âmbito do SFH os financiamentos habitacionais contratados por instituições autorizadas a funcionar pelo Banco Central que observem os critérios de concessão e as condições específicas do sistema 1.
Em outubro de 2026, o texto consolidado da resolução trazia estas condições específicas no art. 13 1:
- valor do imóvel: limite máximo de avaliação de R$ 2.250.000,00, fixado pela Resolução CMN 5.255, de 10 de outubro de 2025, em vigor desde a publicação; o limite anterior era de R$ 1.500.000,00 12;
- custo do crédito: custo efetivo máximo para o mutuário (quem toma o empréstimo) de 12% ao ano, compreendendo juros, comissões e outros encargos financeiros 1;
- o que fica fora desse teto de 12%: o custo do seguro de morte e invalidez permanente, de danos físicos ao imóvel e de responsabilidade civil do construtor, e o valor das tarifas dos arts. 8º-A e 14 1.
O art. 14 permite, nas operações do SFH, tarifas por serviços especiais a pessoas naturais: as previstas na regulamentação da cobertura securitária e uma tarifa mensal de administração do contrato, limitada a R$ 25,00 1. O art. 8º-A trata da tarifa de avaliação ou reavaliação do imóvel dado em garantia, que só pode cobrir custos efetivamente incorridos 1.
Fora do SFH existe o Sistema de Financiamento Imobiliário (SFI), criado pela Lei 9.514, de 1997, com a finalidade de promover o financiamento imobiliário em geral 4.
Cota de crédito e garantia
A "cota de crédito" é a parte do valor do imóvel que o banco empresta. Na aquisição de imóvel residencial por pessoa natural, a norma limita a cota a 80% do valor de avaliação e permite até 90% quando o sistema de amortização for o SAC (Sistema de Amortização Constante) ou o Sacre (Sistema de Amortização Crescente) 1. O SAC é explicado na seção da conta, mais adiante. O restante é a entrada, que o comprador paga com recursos próprios, o que pode incluir o FGTS 6.
O imóvel financiado costuma ficar em garantia do próprio empréstimo. Para financiamentos de aquisição, a norma admite a alienação fiduciária ou a hipoteca em primeiro grau do imóvel financiado ou de outro imóvel, entre outras garantias 1. Na alienação fiduciária, o devedor transfere ao credor a propriedade resolúvel do imóvel, só como garantia da dívida, e ela nasce com o registro do contrato no Registro de Imóveis 4. Veja Alienação fiduciária: o que é, como funciona e o que acontece se a parcela atrasa.
Como o saldo do FGTS entra no financiamento
O saldo pode ser usado nestas operações 6:
- Aquisição de imóvel residencial concluído, usado ou em construção;
- Amortização ou liquidação do saldo devedor, ou pagamento de parte das prestações, em financiamento no SFH e em outros casos que a regra do FGTS prevê 7;
- Caução de créditos futuros: o trabalhador autoriza, na assinatura do contrato de compra, que valores que ainda vão entrar na conta do FGTS fiquem retidos para amortizar, liquidar ou pagar parte das prestações. Segundo a página oficial, vale para renda familiar mensal de até R$ 2.640,00 e para financiamento concedido no SFH com recursos do FGTS 8.
Amortizar é pagar uma parte do principal da dívida antes do cronograma. Liquidar é pagar o saldo inteiro. Pagar parte das prestações é usar o FGTS para abater cada parcela mensal.
O que mudou no teto do FGTS fora do SFH
A página oficial do FGTS sobre amortização afirmava, em 28 de outubro de 2026, que o uso em financiamento fora do SFH valia para contratos a partir de 12 de junho de 2021 e para imóvel com avaliação de até R$ 1.500.000 7.
Em 26 de novembro de 2025, porém, o Conselho Curador do FGTS aprovou a mudança que acompanha o novo limite do CMN. Segundo o Ministério do Trabalho e Emprego, o FGTS passou a valer para imóveis de até R$ 2,25 milhões, inclusive para quem financiou entre 2021 e 2025, e para contratos fora do SFH a partir de 12 de junho de 2021, desde que o imóvel respeite o limite do CMN 9. Como a página de orientação ainda trazia o texto anterior, o limite aplicado ao seu contrato deve ser confirmado com o agente financeiro.
Quem pode usar: os requisitos
Para amortizar, liquidar ou pagar parte das prestações, a página oficial do FGTS pede que o trabalhador 7:
- seja o mutuário ou coobrigado do financiamento;
- tenha três anos de trabalho sob o regime do FGTS, somando períodos consecutivos ou não;
- não seja titular de financiamento ativo no SFH em qualquer parte do país;
- não seja proprietário, possuidor ou titular de direitos sobre outro imóvel residencial, concluído ou em construção, no município onde trabalha ou mora, nos municípios vizinhos ou na mesma região metropolitana.
A nota do ministério sobre a decisão de novembro de 2025 repete os requisitos de três anos de trabalho com FGTS, de não ter outro financiamento ativo no SFH e de usar o imóvel como moradia própria 9.
Limites e intervalos
Para pagar parte das prestações, o FGTS cobre até 80% de cada prestação, em até 12 prestações, e são aceitas até seis prestações vencidas 7. Para amortização ou liquidação, é preciso esperar ao menos dois anos entre um uso e outro 7. A lei fixa o mesmo desenho: três anos de FGTS para o uso na compra e nas prestações, e dois anos entre amortizações 5.
A conta: SAC e Price
O valor de cada prestação depende do sistema de amortização, a regra que define como a dívida é paga ao longo do tempo. Os dois mais citados são:
- SAC (Sistema de Amortização Constante): a parte do principal paga por mês é sempre igual. Os juros caem à medida que o saldo cai, então a prestação começa maior e diminui.
- Tabela Price: a prestação é fixa (sem contar reajustes). No início, a maior parte dela é juro; o principal é amortizado mais devagar.
As fórmulas, em texto simples, com P = valor financiado, n = número de meses e i = taxa mensal:
- SAC: amortização mensal = P ÷ n; juros do mês = saldo anterior × i; prestação = amortização + juros.
- Price: prestação = P × i ÷ (1 − (1 + i)^(−n)). É a fórmula do valor presente de uma série de pagamentos iguais, isolada para a prestação; nela, os juros do mês diminuem e a parte do principal aumenta a cada prestação 10.
Os contratos podem trazer ajustes (atualização do saldo, seguros, tarifas). O CET (custo efetivo total) é a medida que reúne juros e demais custos do contrato; veja CET (custo efetivo total): o que é, como é calculado e o que entra na conta.
Na prática: um financiamento hipotético de R$ 400.000
Atenção: os números abaixo são ilustração, não projeção nem oferta. A taxa de 10% ao ano foi escolhida só para o exemplo e fica abaixo do teto de 12% 1. O cálculo não inclui seguros nem tarifas.
Suponha, em 28 de outubro de 2026, um imóvel residencial com valor de avaliação de R$ 500.000,00. A cota de 80% permite financiar até R$ 400.000,00 1. A entrada é de R$ 100.000,00: por exemplo, R$ 60.000,00 de FGTS (se o trabalhador cumprir os requisitos 56) e R$ 40.000,00 de recursos próprios.
Prazo de 360 meses, taxa de 10% ao ano. A taxa mensal equivalente é 1,10^(1/12) − 1, ou cerca de 0,7974% ao mês.
SAC:
- Amortização mensal: R$ 400.000 ÷ 360 = R$ 1.111,11.
- Juros do 1º mês: R$ 400.000 × 0,7974% ≈ R$ 3.189,68.
- 1ª prestação: R$ 1.111,11 + R$ 3.189,68 ≈ R$ 4.300,79. A última fica perto de R$ 1.120.
- Total de juros no prazo: cerca de R$ 575.700.
Price:
- Prestação fixa: R$ 400.000 × 0,7974% ÷ (1 − 1,10^(−30)) ≈ R$ 3.383,56.
- Total pago: R$ 3.383,56 × 360 ≈ R$ 1.218.100.
- Total de juros no prazo: cerca de R$ 818.100.
No exemplo, o SAC tem a prestação inicial maior e paga menos juros no total; a Price tem a prestação inicial menor e paga mais juros.
Efeito do FGTS: se o trabalhador usasse R$ 30.000,00 do FGTS para amortizar o saldo no início, a dívida cairia de R$ 400.000,00 para R$ 370.000,00, e os juros do mês seguinte cairiam na mesma proporção, para perto de R$ 2.950. Isso é aritmética de saldo; o contrato define se a amortização reduz o prazo ou a prestação.
SFH ou SFI: o que muda
| Ponto | SFH | SFI |
|---|---|---|
| Base legal | Lei 4.380/1964 3 | Lei 9.514/1997 4 |
| Finalidade na Resolução 4.676 | Facilitar e promover a construção e a compra da casa própria ou moradia (art. 3º) 1 | Promover o financiamento imobiliário em geral (art. 4º) 1 |
| Limite de valor e custo efetivo do art. 13 | R$ 2.250.000,00 e 12% ao ano, para as operações no âmbito do SFH 12 | O art. 13 trata só das operações no âmbito do SFH 1 |
| Cota de crédito | Até 80% (até 90% com SAC ou Sacre) 1 | O art. 6º vale para o crédito imobiliário em geral 1 |
| FGTS | Regras de uso descritas acima 7 | Regras próprias para "financiamento fora do âmbito do SFH" 79; confirme com o agente financeiro |
A tabela compara o que é regra e não indica qual enquadramento serve a cada caso.
Vantagens e riscos
O que o arranjo oferece:
- Limite oficial de custo efetivo (12% ao ano) e de tarifa mensal de administração (R$ 25,00) nas operações do SFH 1.
- Possibilidade de reduzir a dívida ou a prestação com o saldo do FGTS 67.
- Regras públicas, descritas em norma do CMN, em lei e nas páginas do agente operador do FGTS 157.
O que exige atenção:
- O teto de 12% ao ano não inclui seguros e certas tarifas, então o custo total pode ser maior 1.
- O financiamento é um compromisso longo. Se a dívida vencer e não for paga, o credor pode pedir ao Registro de Imóveis a intimação do devedor; sem o pagamento no prazo, a propriedade do imóvel é consolidada em nome do credor 4.
- Usar o FGTS gasta um saldo do trabalhador que, de outro modo, ficaria na conta para as demais situações em que a lei permite a movimentação 5.
- Há intervalos mínimos entre usos (dois anos entre amortizações) e limite de 80% sobre cada prestação 7.
- A regra muda por resolução do CMN e do Conselho Curador do FGTS. O limite do SFH subiu de R$ 1.500.000,00 para R$ 2.250.000,00 em outubro de 2025 2, e o uso do FGTS foi ajustado em novembro de 2025 9.
Quem regula e quem fiscaliza
O CMN fixa as condições do crédito imobiliário e do SFH, e o Banco Central do Brasil divulga a norma; as instituições que concedem o crédito são as autorizadas a funcionar pelo Banco Central 1. O FGTS é regido pela Lei 8.036, de 1990. A Caixa Econômica Federal é o agente operador do fundo e o Conselho Curador define diretrizes e programas de aplicação dos recursos 5. Os bancos que concedem o crédito atuam como agentes financeiros na intermediação do uso do saldo 6.
Perguntas frequentes
Qual é o limite de valor do imóvel no SFH?
Segundo a Resolução CMN 5.255, de 10/10/2025, o valor de avaliação máximo é de R$ 2.250.000,00. O limite anterior era de R$ 1.500.000,00 12.
Quanto tempo de FGTS é preciso para usar o saldo na casa própria?
A página oficial exige três anos de trabalho sob o regime do FGTS, que podem ser somados em empregos diferentes e não precisam ser seguidos 7.
O FGTS pode pagar as prestações?
Em parte. Segundo a página oficial, o uso cobre até 80% de cada prestação, em até 12 prestações, com até seis vencidas 7.
O teto de 12% ao ano é o custo total do financiamento?
Não. Ele é o custo efetivo máximo no SFH para juros, comissões e outros encargos financeiros. O seguro de morte e invalidez, o de danos físicos ao imóvel e as tarifas dos arts. 8º-A e 14 não entram nessa conta 1.
O que mudou no FGTS em novembro de 2025?
O Conselho Curador do FGTS aprovou, em 26 de novembro de 2025, o uso do fundo em imóveis de até R$ 2,25 milhões, acompanhando o novo limite do CMN 9. A página de orientação do FGTS ainda trazia o limite anterior em outubro de 2026 7; o agente financeiro informa o que vale para o contrato.
Para fechar
O SFH é um conjunto de limites públicos (valor do imóvel e custo do crédito) e o FGTS é um saldo do trabalhador que, cumpridos os requisitos, pode entrar na compra, na amortização ou nas prestações. Os números mudam por resolução, e as regras do FGTS fora do SFH foram alteradas em novembro de 2025, então o contrato e o agente financeiro valem mais do que qualquer resumo. Para o custo completo de um crédito, veja CET (custo efetivo total): o que é, como é calculado e o que entra na conta; para a garantia do imóvel, veja Alienação fiduciária: o que é, como funciona e o que acontece se a parcela atrasa.
Fontes
- Banco Central do Brasil: Resolução CMN nº 4.676, de 31/07/2018, texto consolidado v17 (arts. 3º, 4º, 6º, 7º, 12, 13 e 14) · consultado em 28/10/2026
- Resolução CMN nº 5.255, de 10/10/2025 (nova redação do art. 13, I, da Resolução 4.676; vigência na data da publicação) · consultado em 28/10/2026
- Planalto: Lei nº 4.380, de 21 de agosto de 1964, art. 8º (SFH) · consultado em 28/10/2026
- Planalto: Lei nº 9.514, de 20 de novembro de 1997 (SFI; arts. 1º, 17, 22, 23 e 26) · consultado em 28/10/2026
- Planalto: Lei nº 8.036, de 11 de maio de 1990 (FGTS), texto compilado, arts. 4º, 5º e 20 (incisos V, VI e VII) · consultado em 28/10/2026
- FGTS: página "FGTS na Moradia Própria" (modalidades de uso) · consultado em 28/10/2026
- FGTS: página "Amortização, liquidação e pagamento de parcelas" · consultado em 28/10/2026
- FGTS: página "Outras modalidades" (caução de créditos futuros) · consultado em 24/10/2026
- Ministério do Trabalho e Emprego (gov.br): FGTS poderá ser usado em financiamentos imobiliários de até R$ 2,25 milhões (26/11/2025) · consultado em 28/10/2026
- OpenStax: Principles of Finance, cap. 8, seção 8.3 "Loan Amortization" (CC BY 4.0), usada como referência de explicação da prestação fixa e da fórmula de anuidade · consultado em 28/10/2026
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Escrito em 28/10/2026 · checado em 28/10/2026 · versão 5