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Trigo: por que o Brasil importa e como tenta produzir mais

O que é

O trigo é um cereal de inverno cuja farinha serve de base para pães, massas, biscoitos e bolos. A planta foi domesticada no Crescente Fértil, no Oriente Médio, há cerca de 10 mil anos, segundo a Wikipédia 11. Chegou às Américas com os colonizadores europeus, e Brasil e Argentina registraram os primeiros cultivos na primeira metade do século XVI 1.

O Brasil é, ao mesmo tempo, produtor e grande comprador. Em 2026, a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento, órgão do governo federal que acompanha as safras) prevê colher 5,73 milhões de toneladas e consumir 12 milhões 2. O restante vem de fora. Trigo é uma commodity, produto com preço de referência mundial, o que liga a lavoura ao câmbio e à balança comercial das contas externas do país.

Este artigo conta como se chegou a isso e o que se faz para produzir mais. Quem compra o trigo, os preços e a indústria de farinha ficam em trigo mercado; a região de maior produção está em regiao sul agropecuaria.

Da colônia à ferrugem: os primeiros séculos

Segundo Brum, Heck e Lemes, a história do trigo no Brasil começou em 1534, quando as naus de Martim Afonso de Sousa trouxeram sementes para a Capitania de São Vicente. Os autores atribuem a informação à Abitrigo (associação da indústria) 1. Não confirmei a data em outra fonte aberta, e ela fica atribuída.

Segundo os mesmos autores, os primeiros açorianos fixados no Rio Grande do Sul, em 1737, passaram a plantar trigo 1. Não confirmei essa data em outra fonte aberta, e ela fica atribuída a eles. Em 1780, a capitania colheu 61.111 alqueires, cerca de 2 mil toneladas 1. Quanto ao país, os autores dizem que o Brasil exportava em 1805 (média anual até 1810) cerca de 500 mil alqueires, o equivalente a 13,5 mil toneladas por safra 1.

Em 1811 apareceu a ferrugem, doença causada por fungo. Segundo os autores, as safras caíram para menos de 50% do que eram, e muitos produtores migraram para a pecuária 1. Entre 1840 e 1850 havia trigo até em Pernambuco, Alagoas e Goiás 1. No começo do século XX, a ferrugem ainda dizimava os trigais, e as introduções de variedades não incluíam resistência a ela 1.

O Estado entra no trigo, de 1937 a 1990

O apoio oficial vinha desde o Império (um prêmio para quem plantasse trigo, por lei de 1857), mas ganhou escala no século XX 1. A pesquisa nasceu em 1919, com as estações experimentais de Ponta Grossa (Paraná) e Alfredo Chaves, hoje Veranópolis (RS) 1. As primeiras hibridações datam de 1924; o cruzamento que originou o trigo Frontana é citado como o primeiro grande resultado da pesquisa brasileira 1.

A Lei 470, de 9 de agosto de 1937, autorizou cinco estações experimentais e 40 postos de multiplicação de sementes. Em 1938, o Decreto-Lei 955 obrigou os moinhos a comprar trigo nacional, em cota de no mínimo 10% da moagem, e fixou pela primeira vez um preço mínimo 1.

O Decreto 29.299, de 26 de janeiro de 1951, tornou a compra obrigatória em cotas proporcionais à capacidade dos moinhos; em 1952, o Banco do Brasil virou o único comprador do trigo importado 1. O sistema gerou fraudes: o "trigo-papel", compra de trigo nacional que existia só no papel 1.

Em 1967, o Decreto-Lei 210 criou o monopólio estatal: o governo comprava o trigo nacional e importava o que faltasse 1. A produção foi de 255 mil toneladas para 1,146 milhão em 1969, e a área média de 1968/72 cresceu 338,72% sobre o quinquênio anterior 1. A Embrapa nasceu em 1973 1; o Centro Nacional de Pesquisa do Trigo (hoje Embrapa Trigo, em Passo Fundo, RS), em 1974 8.

Em 21 de novembro de 1990, a Lei 8.096 extinguiu o modelo, tirando os controles sobre comercialização e industrialização 1. Com o Mercosul, a partir de 1991, a produção recuou para algo entre 2 e 3 milhões de toneladas, depois de quase chegar à autossuficiência em 1987, com 6,2 milhões 1.

O que o IBGE registra

AnoProdução de trigo (t)Área colhida (ha)
19742.858.5302.471.150
19876.034.5863.455.897
19903.093.7912.680.989
20001.725.7921.138.687
20106.171.2502.181.567
20247.521.8512.916.018
20257.887.6092.509.516

Fonte: IBGE, Pesquisa Agrícola Municipal 35. O IBGE dá 6,03 milhões de toneladas em 1987; Brum e colegas falam em 6,2 milhões 13. A diferença é de fonte, não de ano.

A produtividade média foi de cerca de 1.746 kg/ha em 1987 e de cerca de 3.143 kg/ha em 2025 (cálculo próprio) 35. A produção de 2025 é maior que a de 1987, em área bem menor.

Como funciona

No Sul, o trigo tem ciclo de inverno. Segundo o quadro de clima da Conab para 2026, no Rio Grande do Sul a semeadura ocorre de maio a julho e a colheita vai de outubro a dezembro 2. Em setembro de 2026, ela estava só no início no estado gaúcho, com ritmo maior esperado a partir da segunda quinzena de outubro, enquanto no Paraná já alcançava 62% da área 2. O Sul concentra a produção: em 2024, Rio Grande do Sul (3,63 milhões de toneladas), Paraná (2,43 milhões) e Santa Catarina (0,42 milhão) somaram 6,48 milhões de 7,52 milhões, 86% do total (cálculo próprio) 34. São Paulo e Minas Gerais colheram cada um pouco mais de 400 mil toneladas 4.

O clima manda. Em setembro de 2026, segundo a Conab, a chuva excessiva trouxe dificuldades de maturação e de colheita no Sul e em São Paulo, e a umidade favoreceu doenças fúngicas, como a giberela e a brusone, que reduzem a qualidade dos grãos 2. No Rio Grande do Sul, tempestades e granizo causaram danos em lavouras da Campanha e das Missões 2.

Na prática: a conta do trigo em 2026

O balanço de oferta e demanda da Conab, de outubro de 2026, para o ano comercial de 2026 (tabela 17), em milhões de toneladas 2:

  1. Oferta: estoque inicial de 1,765 + produção de 5,735 + importação de 7,057 = 14,557.
  2. Demanda: consumo de 12,000 + exportação de 1,494 = 13,494.
  3. Sobra: 14,557 − 13,494 = 1,063 de estoque final, o que confere com a tabela da Conab 2.

A produção de 5,735 cobre cerca de 48% do consumo previsto (5.734,9 ÷ 12.000, cálculo próprio). A importação é cerca de 23% maior que a produção (7.056,6 ÷ 5.734,9, cálculo próprio). Em 2025, pela estimativa de outubro de 2026, a produção (7.873,4 mil toneladas) cobria cerca de 66% do consumo de 11.890,4 mil 2.

O Brasil, apesar disso, exporta: a Conab prevê 1,494 milhão de toneladas para 2026, e não detalha por que o país vende e compra ao mesmo tempo 2. Isto é uma ilustração com dados de um levantamento que muda a cada mês, não uma projeção própria.

O trigo tropical do Cerrado

A Embrapa Cerrados pesquisa o cultivo do trigo na região desde meados dos anos 1970 9. Em 2020, a área no Cerrado do Brasil Central, entre sequeiro (safrinha) e irrigado, era de cerca de 230 mil hectares. A produtividade era de cerca de 1,5 t/ha no sequeiro e 6 t/ha no irrigado, e a Embrapa estimava a área apta em cerca de 2,5 milhões de hectares 9.

A Revista Cultivar, em 23 de setembro de 2025, informou estimativa de cerca de 400 mil hectares de trigo na região, em reportagem que ouviu um agrônomo da Coopa-DF; a reportagem não diz quem fez a estimativa 10. É número de outro ano e de origem incerta, e não se compara com o de 2020. As cultivares da Embrapa para o irrigado, indicadas para altitudes acima de 500 metros, têm semeadura recomendada de 11 de abril a 31 de maio, de preferência na primeira quinzena de maio, para reduzir o risco de brusone 10. A BRS Savana, indicada para sequeiro e irrigado, tem maior tolerância à brusone; seu lançamento estava previsto para maio de 2026 108. Na safra de 2026, a Conab registrou, em Goiás, produtividade abaixo da média no irrigado, por causa da brusone, da suscetibilidade das cultivares e de chuvas fora de época; no sequeiro, o resultado surpreendeu pela falta de chuva e as cultivares tolerantes ao estresse hídrico foram melhores 2. A área apta (2,5 milhões de hectares) é potencial técnico, não meta nem previsão.

Trigo do Sul e trigo tropical: o que muda

PontoSul (RS, PR, SC)Cerrado (GO, DF, MG, BA e outros)
CicloInverno: semeadura de maio a julho e colheita de outubro a dezembro no RSIrrigado e sequeiro (safrinha)
Semeadura (2026)Maio a julho no RSAbril a maio, no irrigado (recomendação Embrapa)
Colheita (2026)Outubro a dezembro (RS)Concluída em setembro em Goiás e Mato Grosso do Sul
Produção (IBGE, 2024)6,48 milhões de tMG 403 mil, GO 134 mil, DF 19 mil, BA 29 mil, MS 43 mil
Doença citada em 2026Giberela e brusoneBrusone (GO); giberela e brusone (MS)

Fonte: Conab 2; IBGE 4; Embrapa/Cultivar 10. Minas Gerais inclui áreas fora do Cerrado, e o IBGE não separa por bioma.

O que ajuda e o que atrapalha produzir mais

O que ajuda

  • Produção por hectare: calculada a partir dos dados do IBGE, passou de 1,7 para 3,1 t/ha entre 1987 e 2025 (cálculo próprio) 35. As fontes lidas não explicam o que causou o ganho.
  • Pesquisa: a Embrapa Trigo, criada em 1974, e a Embrapa Cerrados têm cultivares específicas 89.
  • Área apta: a Embrapa estima 2,5 milhões de hectares no Cerrado 9.

O que atrapalha

  • Preço: segundo o Cepea, a queda forte dos preços em 2025 tornou a cultura menos atrativa, e não se esperava crescimento significativo da área no primeiro semestre de 2026 7.
  • Concorrência: o trigo importado compete com o nacional e pressiona os preços; a safra da Argentina em 2025/26 foi estimada em 27,8 milhões de toneladas, recorde, segundo a Bolsa de Cereales 7.
  • Clima e doenças: a produtividade de 2026 ficou 7,6% abaixo da de 2025, e as análises estaduais da Conab citam chuva, granizo, giberela e brusone entre os fatores que afetaram as lavouras 2.
  • Fim do apoio estatal: para Brum e colegas, a retirada quase total do Estado deixou os produtores sem um mecanismo que a substituísse, e eles perderam espaço 1.
  • Preço mínimo: em 2004, os mesmos autores descreviam o Prêmio para o Escoamento de Produto (PEP) como subvenção em leilão público, para garantir um preço de referência ao produtor 1. Não confirmei em fonte oficial se o mecanismo vale para o trigo em 2026, e por isso ele não entra na lista do que ajuda hoje.

O resultado de 2026 mostra os dois lados: a área caiu 21,1% e a produtividade 7,6%, e a produção, 27,2% 2.

Quem vende o trigo que falta

De janeiro a junho de 2026, o Brasil importou 2,772 milhões de toneladas, 22,3% menos que um ano antes 6. No mesmo Agromensal de junho de 2026, o Cepea cita a participação por origem (Argentina 70,4%, Rússia 15,1%, Paraguai 11,6% e Uruguai 2,8%) e o preço médio de US$ 236,97 por tonelada, sem dizer a que período se referem; a conversão do preço para reais usa o dólar médio de junho (R$ 5,132) 6. Já a Conab prevê 7,06 milhões de toneladas para o ano comercial de 2026 2. Brum e colegas lembram que a Argentina se firmou como grande fornecedora, e que a ligação se reforçou com o Mercosul 1.

Em junho de 2026, o preço médio do trigo era de R$ 1.370,85 por tonelada no Paraná e de R$ 1.325,29 no Rio Grande do Sul, segundo o Cepea 6.

Perguntas frequentes

O Brasil produz todo o trigo que consome?

Não. Em 2026, a Conab prevê produção de 5,73 milhões de toneladas para um consumo de 12 milhões, cobrindo cerca de 48% (cálculo próprio) 2. Brum e colegas dizem que o país nunca atingiu a autossuficiência, e que chegou perto em 1987 1.

Desde quando se planta trigo no Brasil?

Segundo Brum, Heck e Lemes, desde 1534, em São Vicente, informação que eles atribuem à Abitrigo 1. Para o Rio Grande do Sul, os mesmos autores citam 1737, com os primeiros açorianos; não confirmei essa data em outra fonte aberta 1.

Por que a safra de 2026 caiu?

Segundo a Conab, caíram a área (21,1%) e a produtividade (7,6%) 2. Em janeiro, o Cepea apontava que os preços baixos de 2025 desestimulavam o produtor e não esperava avanço de área 7; em outubro, a Conab registrou a queda de 21,1% 2. As fontes lidas não ligam as duas coisas de forma direta. A Conab aponta o excesso de chuva e as doenças como razões da produtividade 2.

Dá para plantar trigo no Cerrado?

Sim. A Embrapa estimava 230 mil hectares em 2020, com produtividade de 6 t/ha no irrigado e 1,5 t/ha no sequeiro 9. Em 2026, a Conab registrou perdas por brusone e por chuva fora de época em Goiás 2.

Conab e IBGE dão o mesmo número de produção?

Não exatamente. Para 2024, a Conab registrou 7.889,3 mil toneladas 2 e o IBGE, 7.521.851 toneladas 3. Em 2025, eram 7.873,4 mil 2 e 7.887.609 5. Os dois órgãos têm métodos próprios; as fontes abertas consultadas não detalham a diferença.

Para fechar

O trigo brasileiro tem quase cinco séculos, e sua história é a de uma lavoura que cresceu com apoio público e encolheu quando ele saiu. Em 2026, a produção deve cobrir menos da metade do consumo, e as importações, sobretudo da Argentina, completam a conta. O Cerrado é uma frente de pesquisa com potencial técnico e riscos próprios, e os números mudam a cada levantamento. Para o lado do mercado, veja trigo mercado; para a lavoura vizinha do inverno, Milho: da cultura indígena à segunda safra.

Verbetes do glossário: Commodities Balança comercial

Fontes

  1. Argemiro Luís Brum, Cláudia Regina Heck e Cristiano da Luz Lemes, As Políticas Brasileiras de Fomento à Cultura do Trigo: uma revisão histórica, Desenvolvimento em Questão (Unijuí), ano 2, n. 3, jan./jun. 2004, p. 95-117 · consultado em 30/10/2026
  2. Conab, Acompanhamento da safra brasileira de grãos, v. 14, safra 2026/27, 1º levantamento, outubro de 2026 (trigo: p. 81-87, tabelas 16 e 17) · consultado em 30/10/2026
  3. IBGE, Pesquisa Agrícola Municipal, SIDRA tabela 1612, trigo (em grão), Brasil, anos de 1974 a 2024 (consulta à API) · consultado em 30/10/2026
  4. IBGE, Pesquisa Agrícola Municipal, SIDRA tabela 1612, trigo (em grão), produção por unidade da federação, 2024 (consulta à API) · consultado em 30/10/2026
  5. IBGE, Pesquisa Agrícola Municipal, SIDRA tabela 1612, trigo (em grão), Brasil, 2025 (consulta à API) · consultado em 30/10/2026
  6. Cepea/Esalq-USP, Agromensal Trigo, junho de 2026 (análise com dados da Conab, da Secex e do USDA) · consultado em 30/10/2026
  7. Cepea/Esalq-USP, Perspec 2026: Queda de preço desestimula produtor brasileiro; importações são essenciais, 06/01/2026 · consultado em 30/10/2026
  8. Embrapa Trigo, página institucional (criação em 1974 e cultivar BRS Savana para o Cerrado) · consultado em 30/10/2026
  9. Júlio César Albrecht, Cultivar Trigo BRS 264: precocidade, qualidade industrial e altos rendimentos para o cerrado do Brasil Central, Embrapa Cerrados, Circular Técnica 49, 2021 (ficha do documento na Infoteca) · consultado em 30/10/2026
  10. Revista Cultivar, Embrapa apresenta genética de trigo tropical em Dia de Campo (Breno Lobato), 23/09/2025 · consultado em 30/10/2026
  11. Wikipédia, Trigo (usada só para a faixa de tempo da domesticação) · consultado em 30/10/2026
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Escrito em 30/10/2026 · checado em 30/10/2026 · versão 4