Forças armadas e gasto militar: quanto os países gastam e o que isso significa para o poder
O que é
Gasto militar é o dinheiro que um Estado destina às suas forças armadas e às atividades ligadas a elas. Forças armadas são as instituições que o Estado mantém para o uso organizado da força: no Brasil, Marinha, Exército e Aeronáutica.
O gasto não se resume a comprar armas. O instituto de pesquisa sueco SIPRI, que mantém uma base de dados anual de gasto militar 7, conta salários e pensões de militares, operação e manutenção, aquisições, pesquisa e desenvolvimento militar e infraestrutura como bases 2. Também conta o Ministério da Defesa, forças de paz e, quando treinadas e equipadas para operações militares, forças paramilitares 2.
O tema interessa a quem quer entender o mundo porque o gasto é um dos poucos indicadores de poder que se mede em dinheiro. Mas medir o dinheiro não é medir o poder, e este artigo explica por quê.
De onde vem a ideia de que força importa
A discussão é tão antiga quanto a história escrita. Tucídides narra, no livro V da História da Guerra do Peloponeso (cap. 89 na numeração usual), o diálogo entre embaixadores de Atenas e os governantes da ilha de Melos. Os atenienses dizem que a justiça só vale entre iguais em poder, enquanto "the strong do what they can and the weak suffer what they must" ("os fortes fazem o que podem e os fracos sofrem o que devem"; tradução nossa) 4. A passagem é a favorita de quem estuda o realismo.
Realismo é a corrente das Relações Internacionais que vê o mundo como um sistema sem governo central, no qual cada Estado cuida da própria sobrevivência 5. Segundo a Stanford Encyclopedia of Philosophy, esse sistema de autoajuda dá ao poder um papel decisivo 5. A mesma obra lembra que, em Tucídides, o crescimento do poder ateniense fez Esparta temer por sua segurança, e isso a levou à guerra 5.
Como funciona o argumento
A lógica realista aplicada ao gasto militar segue estes passos:
- Ninguém garante a segurança de um Estado além dele mesmo. Não há autoridade acima dos Estados que faça cumprir regras 5.
- Capacidade militar é o seguro disponível. Segundo a lógica realista, ter forças armadas reduz o risco de ser atacado, porque encarece a agressão. Isso se chama dissuasão: convencer o outro de que atacar custa mais do que rende.
- O que um Estado faz pela segurança, o vizinho pode ler como ameaça. Num sistema em que ninguém sabe ao certo as intenções dos outros, o preparo de um lado leva o outro a se preparar também. Os estudiosos chamam esse círculo de dilema de segurança.
- Por isso, na leitura realista, o gasto acompanha o ambiente de ameaça. Quando um conflito se aproxima, a conta sobe; quando a ameaça parece menor, ela cai. É uma hipótese do argumento, não uma regra comprovada para todos os casos.
A Carta das Nações Unidas dá a base jurídica: o artigo 51 preserva o direito natural de legítima defesa, individual ou coletiva, contra um ataque armado, até que o Conselho de Segurança tome as medidas necessárias 6. A Carta, portanto, não condena ter forças armadas para se defender.
Como ler o número: três cuidados
O que entra na conta
Cada país contabiliza de um jeito. O próprio SIPRI diz que nem sempre consegue aplicar a sua definição a todos os países e que, muitas vezes, usa os dados nacionais disponíveis 2. Por isso, segundo o instituto, os dados servem melhor para comparar o mesmo país ao longo do tempo do que para comparar países entre si com precisão 2.
Dólares ou percentual do PIB
O valor em dólares mostra o tamanho absoluto. O percentual do PIB, que o SIPRI chama de carga militar, mostra o esforço em relação à economia do país 1. Os dois contam histórias diferentes, como mostra o exemplo a seguir. PIB é a soma do valor de tudo que a economia produz num período.
Gastar não é o mesmo que ter capacidade
Parte grande do gasto pode ser pessoal e pensões, que mantêm a instituição funcionando mas não compram equipamento novo. O gasto também não mede treinamento, doutrina, alianças ou tecnologia. Dois países com o mesmo orçamento podem ter capacidades muito diferentes.
Na prática: o mundo em 2025
Os números abaixo são do SIPRI, e as variações são em termos reais, isto é, descontada a inflação 1. A base do instituto usa dólares constantes, com 2024 como ano-base 7.
| País | Gasto em 2025 (US$ bi) | Variação em relação a 2024 | % do PIB |
|---|---|---|---|
| Estados Unidos | 954 | -7,5% | não consta na fonte consultada |
| China | 336 | +7,4% | 1,7% |
| Rússia | 190 | +5,9% | 7,5% |
| Alemanha | 114 | +24% | 2,3% |
| Índia | 92,1 | +8,9% | não consta na fonte consultada |
| Ucrânia | 84,1 | +20% | 40% |
| Brasil | 23,9 | +13% | não consta na fonte consultada |
Em 2025, o gasto mundial somou US$ 2.887 bilhões, alta real de 2,9%, o 11º ano seguido de crescimento 1. A carga militar mundial foi de 2,5% do PIB, contra 2,4% em 2024 1.
A conta mostra como os dois indicadores diferem:
- Tamanho absoluto. US$ 954 bilhões dos Estados Unidos divididos por US$ 336 bilhões da China dão cerca de 2,8: o gasto americano foi quase três vezes o chinês 1. Somados, Estados Unidos, China e Rússia chegam a US$ 1.480 bilhões, pouco mais da metade do total mundial (cálculo nosso a partir de 1).
- Peso na economia. A Ucrânia gastou US$ 84,1 bilhões, uma fração do valor americano, mas isso equivalia a cerca de 40% do PIB e a 63% do gasto do governo 1. A Rússia gastou 7,5% do PIB, e a China, 1,7% 1.
- O Brasil no total. US$ 23,9 bilhões divididos por US$ 2.887 bilhões dão cerca de 0,8% do gasto mundial (cálculo nosso a partir de 1).
É uma ilustração dos números de 2025, não uma projeção. O SIPRI atualiza a base todo ano 7.
Exemplos na história e no presente
Melos: a força como argumento
No diálogo de Melos, Atenas exigia que a pequena ilha se submetesse. Os embaixadores atenienses sustentam que, na prática, o que pesa entre Estados é a diferença de poder, e não a discussão sobre justiça 4. Tucídides é um relato de época, e cada leitor pode ver nele uma descrição ou uma crítica. Serve para mostrar de onde vem a tese realista.
Europa em 2025: a corrida por capacidade
Segundo o SIPRI, o gasto militar europeu subiu 14% em 2025, para US$ 864 bilhões, recorde da série do instituto 1. A Alemanha elevou o gasto em 24% e, pela primeira vez desde 1990, ficou acima de 2% do PIB, com meta de 3,5% até 2029 1. A OTAN, aliança militar de países da Europa e da América do Norte, somou US$ 1.581 bilhões, ou 55% do total mundial, e fixou a meta de 5,0% do PIB até 2035, dos quais 3,5% em gastos militares centrais 1. A leitura realista liga a alta à guerra na Ucrânia; outras leituras apontam a pressão política interna e a relação com os Estados Unidos. A fonte registra os números, não as causas.
Índia e Paquistão em maio de 2025
O SIPRI atribui a alta de 8,9% no gasto indiano ao conflito com o Paquistão em maio de 2025 1. É um exemplo de gasto reagindo a um episódio de ameaça concreta.
Críticas e limites
O realismo é uma lente, não a única explicação. As escolas rivais fazem objeções 5.
- Liberalismo. Robert Keohane e Joseph Nye defendem que a interdependência entre os Estados abre espaço para cooperação, o que reduziria o papel da força 5. Nessa visão, o gasto militar não é o único caminho para a segurança.
- Construtivismo. Para Alexander Wendt, a autoajuda não decorre necessariamente da anarquia: ela é socialmente construída, por ideias e normas 5. A ameaça, portanto, depende também de como os Estados se percebem.
- Custo de oportunidade. O dinheiro gasto em defesa não vai para outras áreas. O SIPRI calcula que o gasto militar equivale a 6,9% do gasto público mundial 1. Quanto isso pesa contra saúde, educação ou dívida é uma discussão política, e as fontes consultadas não a resolvem.
- Limite do indicador. O próprio SIPRI adverte que as comparações entre países têm precisão limitada 2. Quem usa o gasto como medida de poder precisa lembrar que ele ignora treinamento, tecnologia e alianças.
O Brasil neste tabuleiro
O Brasil gastou US$ 23,9 bilhões em 2025, 13% a mais que em 2024, segundo o SIPRI 1. É uma fração pequena do total mundial, como mostra a conta acima.
Em reais, a Consultoria da Câmara dos Deputados descreveu em agosto de 2025 um orçamento da Defesa de cerca de R$ 133 bilhões, aproximadamente 1% do PIB 3. Cerca de 90% desse valor é despesa obrigatória, e a maior parte se destina a pessoal 3. A mesma matéria diz que os investimentos ficaram em torno de R$ 8 bilhões por ano na última década, com pico de R$ 11 bilhões em 2015 3.
Isso ajuda a ler o número brasileiro. Um orçamento em que quase tudo é despesa obrigatória deixa pouca margem para equipamento novo, e a consequência é que programas de longo prazo, como o de submarinos, tendem a avançar devagar. O artigo Defesa: Forças Armadas, submarino nuclear e indústria de defesa trata desse caso. Se o tamanho é pouco ou suficiente depende de que ameaças o país enxerga e de que prioridades escolhe, e esse debate é político.
Dentro da América do Sul, o ambiente de ameaça de Estado contra Estado é diferente do europeu ou do asiático. Este artigo não afirma que seja menor ou maior: a comparação exigiria fontes que não foram consultadas.
Perguntas frequentes
Qual país gasta mais com defesa no mundo?
Em 2025, os Estados Unidos, com US$ 954 bilhões, segundo o SIPRI. A China veio em seguida, com US$ 336 bilhões, e a Rússia, com US$ 190 bilhões 1.
Quanto o Brasil gasta com as Forças Armadas?
O SIPRI estimou US$ 23,9 bilhões em 2025 1. A Consultoria da Câmara falava, em agosto de 2025, em cerca de R$ 133 bilhões no orçamento da Defesa, perto de 1% do PIB 3. Os dois números usam definições e moedas diferentes e não devem ser comparados diretamente.
O que é gasto militar como percentual do PIB?
É o gasto militar dividido pelo PIB do país. Mede o esforço relativo, não o tamanho. Em 2025, a média mundial foi de 2,5% 1.
Gastar mais com armas torna um país mais seguro?
Depende da escola de pensamento. Para a lógica realista, a capacidade militar dissuade a agressão. Para outras visões, o gasto de um país pode ser lido como ameaça por outros e gerar uma escalada, o chamado dilema de segurança. Os dois lados são argumentos, não resultados comprovados, e este artigo não decide entre eles.
Por que os dados do SIPRI são tão citados?
Porque o SIPRI usa só fontes abertas e atualiza a base todo ano 7, e busca consistência dentro de cada país ao longo do tempo 2. Os dados mais antigos, porém, vêm de fontes com definições diferentes e passam por revisões 2. Mesmo assim, o instituto avisa que as comparações precisas entre países têm limites 2.
Para fechar
O gasto militar é o indicador mais citado do esforço de defesa dos Estados e, em 2025, completou o 11º ano seguido de alta real 1. O realismo o explica como o custo de sobreviver num sistema sem autoridade central, e as escolas rivais mostram que o gasto também pode alimentar desconfiança. O número, porém, depende da definição, do tamanho da economia e do que o dinheiro compra. Para o caso brasileiro, ver Defesa: Forças Armadas, submarino nuclear e indústria de defesa e Realismo nas Relações Internacionais: o que é, de onde vem e como explica a disputa entre países.
Fontes
- SIPRI Fact Sheet: Trends in World Military Expenditure, 2025 (abril de 2026) · consultado em 24/10/2026
- SIPRI Military Expenditure Database: Sources and methods · consultado em 24/10/2026
- Câmara dos Deputados, Rádio Câmara: Economia Direta, série com a Consultoria, 15: Orçamento da Defesa (25/08/2025) · consultado em 24/10/2026
- Tucídides, História da Guerra do Peloponeso, livro V (diálogo de Melos), trad. inglesa de R. Crawley, domínio público (Project Gutenberg) · consultado em 24/10/2026
- W. Julian Korab-Karpowicz, Political Realism in International Relations, Stanford Encyclopedia of Philosophy · consultado em 24/10/2026
- Carta das Nações Unidas, Capítulo VII, artigo 51 · consultado em 24/10/2026
- SIPRI Military Expenditure Database (página da base de dados) · consultado em 24/10/2026
Para ler mais
- Thomas C. Schelling, Arms and Influence (1966). Analisa como a capacidade militar, real ou ameaçada, funciona como instrumento de negociação entre Estados.
- Kenneth N. Waltz, Theory of International Politics (1979). Explica o comportamento dos Estados pela distribuição de capacidades num sistema sem autoridade central.
- Alfred Thayer Mahan, The Influence of Sea Power Upon History, 1660-1783 (1890). Argumenta, com casos históricos, que o poder naval pesa nas guerras e no destino dos Estados.
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Escrito em 24/10/2026 · checado em 24/10/2026 · versão 2