Tabuleiro TropicalSala de situação do Brasil

Índia, a potência em ascensão: população, economia e autonomia estratégica

O que é

Potência em ascensão é um país cujo poder cresce mais rápido que o de seus vizinhos e rivais. Poder aqui tem várias faces: população, produção econômica, força militar e capacidade de influenciar decisões de outros Estados. A Índia reúne sinais de todas elas, e por isso é um dos casos mais estudados hoje.

A lente usada nesta área é a do realismo nas Relações Internacionais. Ela parte de três ideias: os principais atores são os Estados, não existe autoridade acima deles, e por isso cada um cuida da própria segurança e busca poder para se proteger 1. Quando um país cresce, os outros reagem: aproximam-se, equilibram ou desconfiam. É isso que se observa em torno da Índia.

Esta é uma lente, não a única explicação possível. A seção sobre críticas mostra o que as escolas rivais respondem.

De onde vem a Índia de hoje

A Índia tornou-se independente do Reino Unido em 1947, no mesmo processo que gerou o Paquistão 5. Seu primeiro-ministro, Jawaharlal Nehru, foi uma das lideranças do não alinhamento: a recusa de entrar em qualquer um dos blocos da Guerra Fria. Nehru participou da conferência de Bandung, em 1955, e da formação do Movimento dos Países Não Alinhados, formalizado em Belgrado, em 1961 6.

Em casa, o país seguiu um modelo de forte presença do Estado na economia. Segundo Fabio Luis Barbosa dos Santos, professor de Relações Internacionais da Unifesp, esse modelo e o não alinhamento foram pilares da Índia até os anos 1990 5. O ponto de virada foi a crise de balanço de pagamentos de 1991, quando o Estado chegou perto de não conseguir pagar compromissos externos. Veio então a New Economic Policy, de abertura comercial e financeira 5.

Santos lê essa mudança como uma inflexão também na política externa, com aproximação gradual dos Estados Unidos: em 1992 a Índia abriu embaixada em Israel, e em 1995 entrou na Organização Mundial do Comércio 5. É uma leitura de um autor; a interpretação da política externa indiana é debatida na literatura.

Os números da ascensão

Os números abaixo são de fontes oficiais e têm data. Valem como retrato, não como previsão.

IndicadorValorReferência
População (China: 1,41 bilhão 11)1,46 bilhão2025 2
PIB (US$ correntes)US$ 3,96 trilhões2025 2
Crescimento do PIB7,6%2025 2
PIB por habitanteUS$ 2.702,52025 2
Gasto militarUS$ 92,1 bilhões, 5º maior do mundo2025 4

Em julho de 2026, o FMI (Fundo Monetário Internacional) projetava crescimento de 6,4% para o PIB indiano em 2026 3. Projeção é estimativa de um órgão oficial, sujeita a revisão.

Uma conta simples: tamanho e renda

PIB total e PIB por pessoa contam histórias diferentes. Com US$ 3,96 trilhões divididos por cerca de 1,46 bilhão de habitantes, o resultado é perto de US$ 2.700 por pessoa 2, o valor que o Banco Mundial publica. Para comparar, o gasto militar de US$ 92,1 bilhões equivale a cerca de 3,2% do total mundial de US$ 2.887 bilhões 4 (conta do redator). O país tem peso grande no total, mas renda média por pessoa ainda baixa. Esse contraste é central para entender os limites da ascensão.

Como funciona o argumento da ascensão

O raciocínio realista segue quatro passos.

  1. Tamanho cria potencial. Uma população grande oferece mercado interno e mão de obra. A própria literatura brasileira aponta o mercado interno como um dos poucos trunfos indianos diante de uma região pouco integrada 5.
  2. Potencial vira poder quando há economia e força. O crescimento do PIB e o gasto militar crescente, de 8,9% em 2025 4, mostram essa conversão.
  3. O poder atrai pretendentes e rivais. Estados mais fortes disputam a aproximação de uma potência que cresce, porque a posição dela pesa no equilíbrio regional 1.
  4. A potência evita se prender. Com vários interessados, ganha margem para negociar com todos. É a lógica da autonomia estratégica.

Autonomia estratégica

Autonomia estratégica é a prática de decidir pelos próprios interesses, sem se alinhar de forma fixa a um bloco. Nasceu do não alinhamento, mas hoje é mais flexível: a Índia faz acordos de comércio com vários países ao mesmo tempo 5. Para Santos, a partir dos anos 1990 a orientação deixou o horizonte contra-hegemônico do não alinhamento e passou a uma racionalidade pragmática 5.

Na região, Santos descreve a mesma lógica em duas políticas: a neighbours first (vizinhos em primeiro lugar) e a Look East (olhar para o leste, para o Sudeste Asiático) 5.

Exemplos recentes

O conflito com o Paquistão, em maio de 2025

Índia e Paquistão nasceram da mesma partilha, em 1947 5, e têm uma rivalidade que atravessa as décadas. Segundo o SIPRI, o conflito entre os dois em maio de 2025 puxou o gasto militar dos dois lados: a Índia gastou 8,9% mais que em 2024, com aeronaves militares 50% acima do orçamento original, e o Paquistão, 11% mais 4. É um exemplo da lógica de dilema de segurança: o gasto de um alimenta o do outro.

Tarifas e petróleo russo, em 2026

A Índia compra petróleo russo e defende a prática com argumentos de interesse nacional e segurança de abastecimento 9. Os Estados Unidos tratam esse ponto como fonte de atrito. Segundo a agência Associated Press, Washington impôs tarifas de até 50% sobre a maior parte dos produtos indianos em agosto de 2025, um acordo-quadro de fevereiro de 2026 as reduziu a 18%, e a negociação travou depois 13. Em Mumbai, em 20 de outubro de 2026, o secretário de Estado Marco Rubio disse que os dois países estavam "very, very close" de um acordo, com poucos itens em aberto, e que a Índia diversificou suas fontes de energia mas ainda compra muito petróleo russo, difícil de cortar de uma vez 13. Uma reportagem indiana de 21 de outubro registra a mesma ideia ("incredibly close"), diz que as tarifas não visavam "punir" a Índia e afirma que o presidente Donald Trump suspendeu possíveis tarifas adicionais ligadas a essas compras 9. Essa suspensão aparece só nessa reportagem. Nenhum acordo final tinha sido anunciado 913. O caso mostra a autonomia na prática: a Índia negocia com Washington sem abrir mão da compra de energia de Moscou. Reportagens dizem que algo aconteceu; as regras tarifárias valem pelos textos oficiais de cada governo, que não foram localizados aqui.

BRICS e o ano indiano

Em 2026, a Índia exerce a presidência rotativa do BRICS, o grupo de países em desenvolvimento de que o Brasil também faz parte. É a quarta vez que o país a ocupa, depois de 2012, 2016 e 2021 10. A 18ª cúpula ocorreu em Nova Délhi, em 12 e 13 de setembro de 2026. No primeiro dia, os países-membros adotaram por unanimidade a Declaração de Nova Délhi, segundo a emissora pública indiana, que também registra propostas como um mecanismo para dar continuidade às iniciativas quando a presidência muda e um pedido de reforma do Conselho de Segurança da ONU com prazo definido 12. A fonte é indiana; o texto integral da declaração não foi consultado. Para uma potência que evita alianças fechadas, sediar um grupo que reúne países de blocos diferentes é coerente com a estratégia.

Críticas e limites

A ascensão indiana é contestada em vários pontos.

  • Economia. Santos (2018) aponta que, apesar do crescimento, os serviços respondiam por mais da metade do PIB mas menos de 30% do emprego, e cerca de 90% da força de trabalho permanecia fora do setor formal 5. Dados dessa época; vale conferir números atuais nas fontes oficiais.
  • Integração regional. O mesmo autor registra que o comércio entre os países do sul da Ásia era dos mais baixos do mundo, menos de 5% das trocas 5.
  • Renda. O PIB por habitante de US$ 2.702,5 em 2025 2 mostra que o tamanho total esconde uma renda média ainda modesta.
  • Dados de população. Fontes diferentes dão valores próximos, mas não idênticos: 1,46 bilhão pelo Banco Mundial 2 e 1,477 bilhão pelo FMI 3.

Do lado teórico, os críticos do realismo respondem de formas diferentes. Os liberais (como Keohane) dizem que instituições e interdependência mudam o comportamento dos Estados. Os construtivistas (como Wendt) dizem que a rivalidade não é automática: depende do que os Estados fazem com ela. Há também a crítica de que o realismo, centrado no conflito, pode virar ideologia que justifica a força 1.

O Brasil neste tabuleiro

Brasil e Índia estão no BRICS, e a Índia preside o grupo em 2026 10. Os números de comércio abaixo vêm de reportagem que reproduz a Agência Brasil; não foram confrontados com o Comex Stat, a base oficial do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. A relação comercial cresce e tem metas oficiais. Em 2025, a corrente de comércio foi de US$ 15,2 bilhões: cerca de US$ 6,9 bilhões de exportações brasileiras, o maior valor em duas décadas, e US$ 8,4 bilhões de importações 7. A Índia era o 10º destino das exportações brasileiras e o Brasil, o 26º fornecedor dos indianos 7. A meta oficial é chegar a US$ 20 bilhões em 2030 7.

O acordo de comércio preferencial entre Mercosul e Índia cobre cerca de 450 categorias de um universo de aproximadamente 10 mil, com cortes de tarifa de 10% a 20% 8. Em agosto de 2025, Lula disse, após telefonar a Modi, que a Índia concordou em ampliar a cobertura do acordo 8. A reportagem aponta como entrave as tarifas indianas altas e a presença quase nula de produtos do agronegócio na lista 8.

Para o Brasil, a Índia é um mercado em expansão, mas as tarifas indianas altas limitam a entrada dos produtos brasileiros 8.

Perguntas frequentes

A Índia é hoje a maior população do mundo?

Sim, segundo o Banco Mundial: a Índia tinha cerca de 1,46 bilhão de habitantes em 2025 2, contra 1,41 bilhão da China 11. O FMI registra 1,477 bilhão para a Índia, sem informar o ano do dado 3. As duas fontes divergem em cerca de 17 milhões de pessoas; o motivo da diferença não consta nelas.

O que significa autonomia estratégica?

É a prática de decidir pelo interesse próprio, sem se vincular de forma fixa a um bloco. Vem do não alinhamento de Nehru na Guerra Fria 56, mas hoje permite acordos comerciais simultâneos com países diferentes 5.

Quanto a Índia gasta com defesa?

O SIPRI estimou US$ 92,1 bilhões em 2025, alta de 8,9% sobre 2024, o 5º maior gasto do mundo 4. É um dado de 2025 e muda a cada ano.

A Índia é aliada dos Estados Unidos?

As fontes consultadas não descrevem uma aliança formal fechada. A relação inclui negociação comercial em curso, com atritos sobre o petróleo russo e vistos, segundo reportagem de 21 de outubro de 2026 9. Rubio chamou a Índia de aliada e parceira importante, em declaração de 20 de outubro 13. Situação pode mudar; consulte fontes oficiais atualizadas.

Qual a relação comercial entre Brasil e Índia?

Em 2025, o comércio somou US$ 15,2 bilhões, com déficit brasileiro de cerca de US$ 1,5 bilhão 7 (diferença calculada entre exportações e importações citadas).

Para fechar

A Índia reúne população, crescimento e gasto militar que a colocam entre as potências em ascensão, e sua autonomia estratégica a deixa negociar com vários polos ao mesmo tempo. A lente realista explica bem esse comportamento, mas deixa de fora instituições, história interna e as fraquezas do país: renda média baixa, emprego formal escasso e rivalidades de fronteira. Para o Brasil, a Índia é um parceiro comercial em crescimento, ainda de tamanho modesto frente a China e Estados Unidos. Leitura relacionada: Realismo nas Relações Internacionais: o que é, de onde vem e como explica a disputa entre países e O realismo pensado no Brasil: de Travassos a Fiori, o país lido pelo poder.

Verbetes do glossário: PIB BRICS Tarifa de importação

Fontes

  1. Stanford Encyclopedia of Philosophy: Realism in International Relations · consultado em 24/10/2026
  2. Banco Mundial: India (indicadores, dados de 2025) · consultado em 24/10/2026
  3. FMI: India (página do país; projeção do WEO Update de julho de 2026 e população) · consultado em 24/10/2026
  4. SIPRI Fact Sheet: Trends in World Military Expenditure, 2025 (abril de 2026) · consultado em 24/10/2026
  5. Fabio Luis Barbosa dos Santos, "Adeus, Nehru: política externa indiana sob a globalização", Austral: Revista Brasileira de Estratégia e Relações Internacionais, v. 7, n. 13, jan./jun. 2018, p. 234-263 · consultado em 24/10/2026
  6. Wikipédia: Movimento dos Países Não Alinhados (só contexto histórico) · consultado em 24/10/2026
  7. Diário do Comércio (reproduz Agência Brasil): Brasil amplia comércio com Índia e retoma diálogo sobre tarifaço (27/08/2026) · consultado em 24/10/2026
  8. CNN Brasil: Índia concordou em ampliar cobertura do acordo com Mercosul, diz Lula (07/08/2025) · consultado em 24/10/2026
  9. Outlook India: Marco Rubio says US tariffs are not meant to punish India (21/10/2026) · consultado em 24/10/2026
  10. News On AIR (Prasar Bharati, Índia): India to host 18th BRICS Summit on Sept 12-13 in New Delhi (27/08/2026) · consultado em 24/10/2026
  11. Banco Mundial: China (indicadores, população de 2025) · consultado em 24/10/2026
  12. News On AIR (Prasar Bharati, Índia): BRICS nations unanimously adopted New Delhi Declaration on 1st day of BRICS Summit 2026 (12/09/2026) · consultado em 24/10/2026
  13. Associated Press via News4JAX: Rubio and Jaishankar hold talks in Mumbai as US and India aim to finalize trade deal (20/10/2026) · consultado em 24/10/2026

Para ler mais

  • Sunil Khilnani, The Idea of India (1997). Conta como a Índia independente construiu um Estado democrático em uma sociedade enorme e diversa.
  • Ramachandra Guha, India After Gandhi: The History of the World's Largest Democracy (2007). Faz a história política da Índia desde a independência, em 1947, até o início do século XXI.
  • S. Jaishankar, The India Way: Strategies for an Uncertain World (2020). Expõe a visão do atual ministro das Relações Exteriores indiano sobre como o país deve atuar num mundo de várias potências.
Brief Brasil

Receba o Brief Brasil todo dia às 7h

O resumo do dia, com a fonte de cada informação. Você confirma o e-mail e pode sair quando quiser.

Como este artigo é feito

Os artigos da Enciclopédia são escritos a partir de fontes oficiais brasileiras (CVM, B3, Banco Central, Tesouro Nacional, Receita Federal) e de livros-texto abertos. Cada número, data, regra e imposto é conferido contra essas fontes antes da publicação. Dados que mudam com o tempo trazem a data. Achou um erro? Escreva para o contato do site.

Conteúdo educativo. Não é recomendação de investimento, nem oferta de compra ou venda de qualquer ativo.

Escrito em 24/10/2026 · checado em 24/10/2026 · versão 2