O realismo pensado no Brasil: de Travassos a Fiori, o país lido pelo poder
O que é
O realismo pensado no Brasil não é uma escola com carteirinha. É um conjunto de autores brasileiros que, em épocas diferentes, olharam para o país como um Estado que disputa poder, território e margem de manobra. Alguns se diziam geopolíticos, outros diplomatas, outros cientistas sociais.
O ponto de partida é o realismo das Relações Internacionais: os Estados são os atores centrais, não há governo comum acima deles e cada um busca segurança e poder 1. Os autores brasileiros aplicaram essa ideia a um país grande, pouco integrado e periférico na economia mundial.
Há um aviso necessário. Pesquisadores classificam alguns deles como realistas (Golbery, por exemplo 3) e descrevem a tese de outros como baseada em análise realista das condições de poder (Araújo Castro 4). Pinheiro Guimarães vem da tradição crítica e estruturalista latino-americana 10. Fiori rejeita leituras economicistas ou evolucionistas do capitalismo e dá peso a decisões políticas e a hierarquias estruturais 11. Este artigo os junta por um traço comum: perguntar quem tem poder e o que o Brasil pode fazer diante disso.
De onde vem: oito nomes em quase um século
Uma revisão acadêmica organiza a geopolítica brasileira em períodos: Mário Travassos nas décadas de 1920 e 1930; Golbery do Couto e Silva e Carlos de Meira Mattos na Guerra Fria; Therezinha de Castro e Bertha Becker depois dela 8.
Mário Travassos. Militar, nasceu no Rio de Janeiro em 1891 2. Escreveu sua obra principal em 1930, com o título original Aspectos geográficos sul-americanos; ela ficou conhecida como Projeção continental do Brasil e teve quarta edição em 1947 2.
Golbery do Couto e Silva (1911-1987). Oficial do Exército, transferido em 1952 para a Escola Superior de Guerra (ESG), criada em 1948 3. Publicou Planejamento Estratégico (1955) e Geopolítica do Brasil (1967) 3.
Carlos de Meira Mattos (1913-2007) e Therezinha de Castro (1930-2000). Segundo a resenha, Travassos, Golbery e Meira Mattos deram peso à Amazônia e a "círculos" de prioridade para um Brasil que quisesse ser potência; Therezinha de Castro, que trabalhou 27 anos no Conselho Nacional do IBGE antes de entrar na ESG, tratou da Antártida e das ilhas do Atlântico Sul 7.
Araújo Castro. Diplomata, formulador da Política Externa Independente (1961-1964) e ministro das Relações Exteriores de julho de 1963 a março de 1964 4.
Hélio Jaguaribe, Samuel Pinheiro Guimarães e José Luís Fiori. O primeiro integrou o debate nacionalista dos anos 1950, com O nacionalismo na atualidade brasileira (1958) 3. Pinheiro Guimarães (1939-2024), diplomata, publicou Quinhentos anos de periferia em 1999 12. Fiori publicou em 2024 Uma teoria do poder global 11.
Como funciona o argumento
A lógica varia por autor, mas dá para ver quatro movimentos.
- Território e comunicações são poder. Para Travassos, o estudo da geopolítica identifica o que favorece ou impede a influência de um Estado num território. Estados tenderiam a buscar várias saídas para o mar, o controle de bacias hidrográficas e a extensão do domínio até onde chega o tráfego 2.
- A rivalidade regional organiza a estratégia. Travassos via dois "antagonismos" naturais na América do Sul: Atlântico contra Pacífico, e bacia do Prata contra bacia amazônica, com a Bolívia no centro 2. Sua preocupação imediata era a Argentina, que ampliava influência por ferrovias; a futura, os Estados Unidos 2.
- Alianças servem ao interesse nacional. Em Golbery, o mundo é um espaço de Estados soberanos sem autoridade superior, e o poder nacional importa 3. Ele defendeu uma aliança bilateral com os Estados Unidos, mas apenas se permitisse ao Brasil avançar seus interesses, que não seriam necessariamente idênticos aos americanos 3.
- Autonomia é o objetivo e tem condições. Numa leitura de Jaguaribe, um país periférico precisa de três pré-requisitos para ser autônomo: viabilidade nacional, permissibilidade internacional e autonomia técnico-empresarial 9. Pinheiro Guimarães acrescenta o conceito de "estruturas hegemônicas de poder": instituições e normas criadas e mantidas por potências dominantes 10.
Exemplos na história
A disputa com a Argentina pela Bolívia (anos 1930). Travassos descreveu o triângulo boliviano de Cochabamba, Sucre e Santa Cruz de la Sierra como o centro da disputa. A Argentina investia na direção de Cochabamba e Sucre; ele propunha ligações ferroviárias e fluviais para levar a influência brasileira a Santa Cruz 2. O artigo de Saboya trata isso como hipótese de influência sobre a política externa dos anos seguintes, não como fato comprovado 2.
A proposta de aliança com os Estados Unidos (1952). Em texto de 1952, Golbery argumentou que o Brasil tinha "trunfos" para negociar: minerais como o manganês, as areias monazíticas do Nordeste e a foz do Amazonas 3. A leitura de Carvalho é que o autor via a aliança como troca, não como alinhamento sem condições 3.
O "congelamento do poder mundial" (1971). Num discurso de 1971 a estagiários do Curso Superior de Guerra, Araújo Castro criticou o Tratado de Não Proliferação Nuclear (aberto à assinatura em 1º de julho de 1968 14) e o poder de veto no Conselho de Segurança da ONU como formas de fixar a desigualdade entre os Estados 4. Antes, em setembro de 1963, na Assembleia Geral da ONU, tinha defendido a agenda dos "três Ds": descolonização, desarmamento e desenvolvimento 4.
A política de defesa atual. A Política Nacional de Defesa (PND) cita as "assimetrias de poder" que geram tensões no cenário internacional (item 2.3.3) e fala em "competição pela supremacia global" (item 2.3.1) 5. O vocabulário lembra o debate anterior, mas é um documento oficial de governo, e não uma obra de autor.
Críticas e limites
O realismo é uma lente, não a única explicação. Liberais apontam que instituições e comércio mudam a percepção de interesse; construtivistas dizem que a autoajuda não decorre logicamente da anarquia; teóricos críticos dizem que o realismo trata como universal uma estrutura que é histórica 1.
A literatura brasileira acrescenta críticas próprias:
- Contradições internas. Carvalho nota que Golbery tinha um conceito abstrato de "Ocidente" que nem sempre coincidia com os interesses dos Estados Unidos, tensão que o general não resolveu 3. O mesmo autor considera incompleto o raciocínio sobre por que os americanos aceitariam a aliança 3.
- Vínculo com o período militar. Carvalho lembra que Golbery fundou o Serviço Nacional de Informações (SNI) depois de 1964 e que a literatura o interpretou como preparador da legitimação intelectual dos governos militares, o que, segundo ele, politizou a recepção de sua obra 3. Saboya parte da hipótese de que Travassos refletiu o pensamento militar de sua época 2.
- Pouca atenção à política interna. Segundo a resenha do artigo de Vidigal, o próprio Vidigal reconhece que a teoria de Pinheiro Guimarães dá pouca atenção aos condicionantes domésticos da política externa 10.
- Desenvolvimento ou poder? Saboya aponta que muitas leituras do pós-guerra explicam a política externa pelo desenvolvimentismo e ignoram o papel da geopolítica e da busca de poder 2. Carvalho, por sua vez, avisa que debater "alinhamento" ou "independência" em abstrato diz pouco; o que importa é como se define o interesse nacional 3.
Fiori, por fim, se afasta da leitura centrada em equilíbrio: segundo a resenha de seu livro, as relações de poder seguem a lógica de conflito permanente 11. É uma posição contestada por quem vê espaço para cooperação e instituições 1.
O Brasil neste tabuleiro
Dawood e Silva argumentam que Golbery, Therezinha de Castro e Meira Mattos ampliaram a área de interesse geopolítico do Brasil e a ligaram à ambição de grande potência, e que a ESG serve de ponte entre esse imaginário e os documentos oficiais de defesa 6. Essa é uma tese acadêmica, não uma descrição neutra dos documentos.
Os textos oficiais dão alguns pontos de comparação. Segundo a PND (arquivo de 2020), o Brasil tem cerca de 8,5 milhões de km² de território, uma Amazônia Azul de 5,7 milhões de km², cerca de 7.500 km de litoral e mais de 17.000 km de fronteira terrestre (item 2.3.8) 5. O texto fala da "incontestável importância estratégica do Atlântico Sul" (item 2.2.14) e da "efetiva presença do Estado" na Amazônia (item 2.2.11) 5.
A mesma política põe a manutenção do Atlântico Sul como zona de paz e cooperação entre os pressupostos de defesa (item 3.IV) e defende a exploração da Antártida somente para pesquisa científica (item 3.XII) 5. Um dos objetivos nacionais de defesa é incrementar a projeção do Brasil no concerto das nações (objetivo VIII) 5. A palavra "projeção" é a mesma de Travassos, mas o contexto é outro.
Em 11 de junho de 2025, o Senado aprovou em segundo turno as versões atualizadas da PND e da END 13. Este artigo cita o texto de 2020 e não analisa a atualização.
Perguntas frequentes
Golbery e Travassos eram realistas?
Carvalho não tem dificuldade em classificar Golbery entre os realistas, por tratar o cenário internacional como anárquico e centrado em Estados e poder 3. Travassos era geopolítico militar; Saboya descreve sua obra como reflexo do pensamento militar e geopolítico de sua época 2. O rótulo "realista" é da literatura, não necessariamente dos autores.
O que é "projeção continental"?
É o título da obra de Travassos e a ideia de que o Brasil deveria converter sua extensão territorial em influência sobre a América do Sul, por meio de comunicações (ferrovias, rios, rodovias, aviação) 2.
O que Araújo Castro quis dizer com "congelamento do poder mundial"?
Segundo Souza, ele criticou estruturas rígidas de poder militar, econômico, científico e tecnológico, e usou como exemplos o Tratado de Não Proliferação Nuclear e o veto no Conselho de Segurança 4. A autora mostra que governos Lula e Dilma retomaram a expressão ao falar de "descongelamento" 4.
O pensamento brasileiro sobre poder foi só militar?
Não. Além dos militares, há diplomatas (Araújo Castro, Pinheiro Guimarães) e acadêmicos (Jaguaribe, Fiori) 491011. Também não houve consenso sobre alianças: Golbery propunha aliança com os Estados Unidos; Araújo Castro via nos foros multilaterais o palco para questionar as assimetrias do sistema 34.
Para fechar
Os autores citados concordam em pouca coisa além da pergunta: quem manda, o que o Brasil pode fazer e a que custo. Respondem de formas diferentes, com alianças, integração do território, autonomia ou crítica às estruturas de poder. O limite da lente é deixar de fora a política interna e as ideias, justamente o que liberais e construtivistas destacam 1. Para a base teórica, veja Realismo nas Relações Internacionais: o que é, de onde vem e como explica a disputa entre países; para a ideia de equilíbrio entre potências, Equilíbrio de poder: o que é, de onde vem e o que explica.
Fontes
- Stanford Encyclopedia of Philosophy: Realism in International Relations · consultado em 24/10/2026
- André Nassim de Saboya, "O pensamento de Mario Travassos e a política externa brasileira", Revista de Geopolítica, v. 9, n. 2, jul./dez. 2018, p. 29-50 · consultado em 24/10/2026
- Thiago Bonfada de Carvalho, Geopolítica brasileira e relações internacionais nos anos 50: o pensamento do general Golbery do Couto e Silva, Brasília: FUNAG, 2010 (ficha catalográfica: 2009; dissertação do Instituto Rio Branco, 2005) · consultado em 24/10/2026
- Ismara Izepe de Souza, "O resgate da discussão sobre o 'congelamento do poder mundial' nos governos Lula e Dilma", Conjuntura Austral, v. 5, n. 26, out.-nov. 2014, p. 67-80 · consultado em 24/10/2026
- Ministério da Defesa, Política Nacional de Defesa e Estratégia Nacional de Defesa (arquivo publicado no site do Ministério, metadados de julho de 2020) · consultado em 24/10/2026
- Layla Dawood e Antonio Ruy de Almeida Silva, "O conceito de entorno estratégico brasileiro: um diálogo entre as geopolíticas prática e formal", Revista Brasileira de Estudos de Defesa, v. 10, n. 1, 2023 (publ. 09/01/2024), resumo · consultado em 24/10/2026
- Resenha de Mauricio Aparecido França, Para melhor conhecer a geopolítica brasileira (Appris, 2020), Confins, n. 46, 2020 · consultado em 24/10/2026
- Raphael Padula e Fernanda Brozoski, "A Amazônia no pensamento geopolítico brasileiro", Revista Tempo do Mundo, n. 27, 2021, p. 45-70 (página do artigo, resumo) · consultado em 24/10/2026
- Ana Paula Gonçalves Calçado, A autonomia sob a perspectiva de Hélio Jaguaribe: uma adaptação para o estudo dos dois primeiros governos de Lula (2003-2010), TCC, Universidade Federal de Uberlândia, 2023 (página do repositório, resumo) · consultado em 24/10/2026
- Igor Birer Bonilha de Souza, resenha do artigo "Samuel Pinheiro Guimarães e a teoria dos grandes Estados hegemônicos", de Carlos Eduardo Vidigal (Oikos, v. 23, n. 1, 2024, p. 20-33), Espaço Alexandria/UFRJ, 20/10/2025 · consultado em 24/10/2026
- Mateus Webber e Yuri Bravo Coutinho, resenha de Uma teoria do poder global (J. L. Fiori, Vozes, 2024), Conjuntura Austral, v. 16, n. 76, 2026, p. 80-84 · consultado em 24/10/2026
- AUSTRAL: Brazilian Journal of Strategy & International Relations, v. 12, n. 24: nota do editor e homenagem a Samuel Guimarães (publicada em 16/03/2024) · consultado em 24/10/2026
- Decreto 2.864, de 7 de dezembro de 1998, que promulga o Tratado sobre a Não-Proliferação de Armas Nucleares, assinado em Londres, Moscou e Washington em 1º de julho de 1968 (resultado de busca; a página do Planalto não abriu na leitura direta) · consultado em 24/10/2026
- Agência Senado: Senado aprova atualização da Política e da Estratégia Nacional de Defesa (11/06/2025) · consultado em 24/10/2026
Para ler mais
- Mário Travassos, Projeção Continental do Brasil (1935). Analisa a América do Sul pela geografia, pelas bacias e pelas comunicações, e discute como o Brasil poderia projetar influência no continente.
- Golbery do Couto e Silva, Geopolítica do Brasil (1967). Reúne textos de curso da Escola Superior de Guerra sobre poder nacional, segurança e a posição do Brasil no mundo da Guerra Fria.
- Samuel Pinheiro Guimarães, Quinhentos anos de periferia: uma contribuição ao estudo da política internacional (1999). Examina a posição periférica do Brasil e as estruturas de poder internacionais, numa leitura crítica da ordem mundial.
- José Luís Fiori, Uma teoria do poder global: do sistema interestatal eurasiano à explosão do capitalismo (2024). Reúne quatro décadas de textos do autor sobre poder, guerra e sistema interestatal, vistos como conflito permanente.
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Escrito em 24/10/2026 · checado em 24/10/2026 · versão 3