Kissinger: Realpolitik, equilíbrio e ordem mundial, o que ele defendia e o que se critica
O que é
Realpolitik é a política externa guiada pelos interesses do Estado e pela distribuição real de poder, e não por ideais morais ou ideológicos. A palavra é alemã e foi usada pela primeira vez no título do livro Grundsätze der Realpolitik (1853), do publicista Ludwig von Rochau, escrito depois do fracasso das revoluções de 1848-1849 9. Rochau era liberal e dizia que Realpolitik não significava busca desenfreada de poder; o sentido atual, mais duro, veio depois 9.
Henry Kissinger é o nome que a maioria associa à palavra. Nascido na Alemanha em 1923 e morto em 2023, foi conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos de 20 de janeiro de 1969 a 3 de novembro de 1975, e secretário de Estado de setembro de 1973 a 20 de janeiro de 1977, nos governos de Richard Nixon e Gerald Ford 1. Antes disso, foi acadêmico: sua tese de doutorado, publicada em livro em 1957, tratou do equilíbrio europeu depois das guerras napoleônicas 67.
Por isso, "Kissinger" designa duas coisas: um pensador que defendia que a ordem entre países se sustenta em equilíbrio de poder e em regras aceitas por todos, e um governante que tentou aplicar essa ideia durante a Guerra Fria. Este artigo descreve as duas e mostra onde os historiadores discordam.
De onde vem a ideia
A primeira fonte é a obra acadêmica. A World Restored (1957) estuda Castlereagh, ministro britânico, e Metternich, ministro austríaco, e a construção da paz depois de 1815 6. A ideia de que uma ordem estável nasce de um acordo entre potências sobre o que é aceitável acompanhou Kissinger até o fim da vida.
A segunda é a Paz de Vestfália, de 1648, que encerrou a Guerra dos Trinta Anos. Em World Order (2014), segundo a resenha de Pedro Rodríguez, Kissinger toma esse arranjo como modelo: um sistema de Estados independentes, sem interferência nos assuntos internos uns dos outros, que contêm suas ambições por meio de um equilíbrio geral de poder 7. A mesma resenha registra que ele reconhece que esse sistema foi criticado como manipulação cínica de poder 7.
A terceira é a tradição realista das Relações Internacionais. A Stanford Encyclopedia of Philosophy descreve o realismo como a corrente que trata os Estados como atores centrais e busca em poder e segurança a explicação de seu comportamento; ela também registra, entre as ideias da corrente, o uso do equilíbrio de poder para dissuadir potenciais agressores 10. Os artigos Realismo nas Relações Internacionais: o que é, de onde vem e como explica a disputa entre países e Brzezinski e o grande tabuleiro de xadrez: o que é, de onde vem e quais são seus limites mostram o pano de fundo e um autor vizinho.
Como funciona o argumento
A lógica de Kissinger pode ser lida em quatro passos, a partir das resenhas de World Order 78.
- Ordem não é natural. O mundo não tem uma ordem dada. Segundo Rodríguez, Kissinger afirma que todos procuram, às vezes desesperadamente, um conceito de ordem mundial, sobretudo quando o caos ameaça 7.
- Equilíbrio evita hegemonia. O principal mecanismo é o equilíbrio de poder, que impede que algum ator fique forte a ponto de ameaçar os demais 7. Ele o descreve como acomodação prática à realidade, e não como um ideal moral 7.
- Legitimidade sustenta a ordem. Segundo Ali Wyne, Kissinger distingue há muito tempo legitimidade (aceitação ampla das regras do sistema) de justiça, e em World Order dá mais peso à ideia de que uma ordem durável precisa ser vista como justa 8.
- Sem acordo, esferas de influência. Wyne registra o temor de Kissinger de que, sem uma ordem compartilhada, o mundo derive para esferas de influência com modelos de governo diferentes 8.
Há aqui uma diferença de estilo. O idealismo, em sua versão americana, tende a defender princípios universais. Kissinger sustentava que a política externa precisava de uma dose de realismo de estilo europeu, num país que, segundo Del Pero, vinha de uma década de "cruzadas modernizadoras" e guerra impopular 6.
Exemplos na história
A abertura para a China (1971-1972). Kissinger foi duas vezes a Pequim em 1971; a primeira viagem foi feita em grande segredo, e a segunda, em outubro, coincidiu com a votação na ONU sobre a representação chinesa 2. Nixon visitou a China de 21 a 28 de fevereiro de 1972 e se encontrou com Mao Zedong e Zhou Enlai 2. O Comunicado de Xangai registrou a posição de cada lado sobre Taiwan 2. O Office of the Historian aponta que a tensão entre China e União Soviética motivou os chineses e que, para Washington, a aproximação também aumentava a margem de manobra diante de Moscou 2. É o exemplo mais citado do argumento: dois países de ideologias opostas se aproximam por interesse 2.
O SALT I e o Tratado ABM (1972). Em 26 de maio de 1972, Nixon e Leonid Brejnev assinaram em Moscou o Tratado ABM (sobre defesas antimísseis) e um acordo provisório SALT, a primeira vez na Guerra Fria em que os dois países aceitaram limitar o número de mísseis nucleares 3. O tratado fixou o limite de 200 interceptores por lado, com dois locais de defesa por país 3. O Office of the Historian lembra que o SALT I é frequentemente considerado a maior conquista da estratégia de distensão (détente) de Nixon e Kissinger 3.
O Vietnã e os Acordos de Paris (1973). Entre 4 de agosto de 1969 e 20 de dezembro de 1973, Kissinger e Le Duc Tho, negociador norte-vietnamita, tiveram 68 reuniões em 27 rodadas 4. Os Acordos de Paris foram rubricados em 23 de janeiro de 1973 e assinados em 27 de janeiro por EUA, Vietnã do Sul, Vietnã do Norte e Governo Revolucionário Provisório 4. O mesmo prefácio oficial registra que os acordos não produziram um cessar-fogo estável nem uma solução política, e que os combates continuaram quase sem trégua 4. Esse resultado fica nas críticas abaixo.
Críticas e limites
O realismo é uma lente, e a de Kissinger tem críticos de vários lados. Eis os principais, com peso parecido.
- "Ele foi realista de fato?" Mario Del Pero argumenta que o realismo de Kissinger foi mais convencional e popular no clima de 1968 do que inovador, que ele cuidava muito da imagem e do efeito interno de suas políticas, e que a distensão tentava preservar a bipolaridade num mundo que já se tornava multipolar 6. Brogi, outro resenhista, discorda em parte: diz que Kissinger não era "maniacamente bipolar" e que sua abordagem pode ter sido impositiva e talvez equivocada, mas não irrealista 6.
- Custo moral e humano. Jespersen, resenhista da mesma mesa-redonda, vê o realismo de Kissinger como mais brutal e destrutivo do que "excêntrico", citando o Vietnã e o Chile 6. Quanto ao Chile, o Office of the Historian relata que os EUA usaram verbas secretas na eleição de 1970 para evitar a vitória de Salvador Allende e que, desde o golpe de 11 de setembro de 1973, o debate continua sobre se houve apoio direto ao golpe; um comitê do Senado americano concluiu, em 1975, que havia pouca evidência de ligação do governo dos EUA com apoio secreto ao golpe de Pinochet 5.
- Moral e valores. Wyne nota que a meta de Kissinger de conter "os cães da guerra" é menos ambiciosa do que a de uma ordem justa e questiona o que o próximo estágio da ordem proposta realmente alcançaria 8. Ele também lembra que "ordem mundial" costuma ser usada como sinônimo de ordem liberal, o que esconde premissas discutíveis 8.
- Escolas rivais. Liberais, como Keohane e Nye, destacam a cooperação e as instituições; construtivistas, como Wendt, dizem que a anarquia é o que os Estados fazem dela 10. Teóricos críticos acusam o realismo de legitimar o status quo entre os Estados 10.
Há ainda um limite factual. O equilíbrio funciona entre quem aceita jogar; quando um dos lados não o aceita, como no Vietnã, o arranjo não se sustenta 4.
O Brasil neste tabuleiro
Kissinger via o Brasil como uma das poucas potências regionais "chave" que poderiam ajudar os EUA a manter a posição de superpotência depois do Vietnã, segundo Joshua Goodman, resenhista de Kissinger e o Brasil, de Matias Spektor 12. Segundo a mesma resenha, Spektor argumenta que a delegação de autoridade a essas potências era uma forma de reafirmar o poder americano, e não de abrir mão do controle 12.
Em fevereiro de 1976, Kissinger foi a Brasília assinar um acordo de consultas regulares sobre política externa, ponto alto da aproximação 12. Do lado brasileiro, o chanceler Antonio Azeredo da Silveira (ministro das Relações Exteriores entre 1974 e 1979) teve forte sintonia pessoal com Kissinger, mas Spektor avalia que relações pessoais não sustentam relações entre Estados 11. A aliança perdeu fôlego cerca de um ano depois, quando o governo de Jimmy Carter criticou violações de direitos humanos na ditadura militar brasileira 12. Este artigo não analisa o conteúdo do acordo de 1976 nem as relações entre os dois países em outros períodos.
Perguntas frequentes
O que significa Realpolitik?
É a política baseada em interesses e na força real dos Estados, e não em ideais. O termo surgiu em 1853, no livro de Ludwig von Rochau, com um sentido que o próprio autor distinguia da busca sem freios por poder 9.
Kissinger era um teórico ou um político?
Foi os dois. Escreveu obras acadêmicas, como A World Restored (1957) e World Order (2014), e governou como conselheiro e secretário de Estado 167. Del Pero e outros historiadores discutem se a prática combinava com o discurso 6.
Kissinger defendia a guerra?
O argumento dele, segundo as resenhas, é que o equilíbrio de poder e a aceitação de regras comuns são o que evita guerras entre grandes potências 78. Críticos, porém, apontam o custo humano de decisões tomadas sob essa lógica, como no Vietnã e no Chile 56.
Qual a diferença entre o equilíbrio de Kissinger e o de Morgenthau ou Waltz?
Morgenthau e Waltz são teóricos acadêmicos; Kissinger foi também governante. O artigo Realismo nas Relações Internacionais: o que é, de onde vem e como explica a disputa entre países explica as correntes teóricas. Este texto não faz a comparação detalhada entre os autores.
O que Kissinger pensava da China?
Segundo o Office of the Historian, ele conduziu a abertura de 1971-1972 2. Para a leitura dele sobre a China atual, o livro On China (2011) é a fonte direta; este artigo não o usou como fonte.
Para fechar
Kissinger ligou a Realpolitik ao equilíbrio de poder e à ideia de que uma ordem estável depende de regras aceitas por todas as potências. A abertura para a China e o SALT I mostram o argumento em ação; o Vietnã e o Chile mostram o custo e as dúvidas sobre ele. A lente dele é útil para perguntar quem tem poder, quem teme quem e o que cada lado aceita, mas liberais, construtivistas e historiadores lembram que ela deixa de fora instituições, valores e política interna. Para o contexto das ideias, veja Realismo nas Relações Internacionais: o que é, de onde vem e como explica a disputa entre países.
Fontes
- Office of the Historian (Departamento de Estado dos EUA): Henry A. Kissinger, página biográfica · consultado em 24/10/2026
- Office of the Historian: Rapprochement with China, 1972 · consultado em 24/10/2026
- Office of the Historian: Strategic Arms Limitation Talks (SALT I and II) · consultado em 24/10/2026
- Office of the Historian: Foreign Relations of the United States, 1969-1976, vol. XLII, Vietnam: The Kissinger-Le Duc Tho Negotiations (prefácio) · consultado em 24/10/2026
- Office of the Historian: The Allende Years and the Pinochet Coup, 1969-1973 · consultado em 24/10/2026
- H-Diplo Roundtable Review, vol. XII, n. 29 (20/07/2011), sobre Mario Del Pero, The Eccentric Realist (Cornell University Press, 2010); introdução de Thomas A. Schwartz e resenhas de Brogi, Jespersen, Roberts e Ryan · consultado em 24/10/2026
- Pedro Rodríguez, resenha de Henry Kissinger, World Order (Penguin Press, 2014), Comillas Journal of International Relations, n. 10, 2017, p. 91-92 · consultado em 24/10/2026
- Ali Wyne, resenha de World Order, Lawfare, 30/01/2015 · consultado em 24/10/2026
- Deutsche Biographie: Rochau, August Ludwig von (Neue Deutsche Biographie, vol. 21, 2003, p. 685-686, Christian Jansen) · consultado em 24/10/2026
- Stanford Encyclopedia of Philosophy: Realism in International Relations · consultado em 24/10/2026
- Carlos Haag, "Eternamente a discutir a relação", Revista Pesquisa FAPESP, ed. 164, outubro de 2009 (resenha de Kissinger e o Brasil) · consultado em 24/10/2026
- Joshua Goodman, resenha de Kissinger e o Brasil, Americas Quarterly, 12/02/2010 · consultado em 24/10/2026
- Companhia das Letras (selo Objetiva): Ordem mundial, de Henry Kissinger, tradução de Cláudio Figueiredo · consultado em 24/10/2026
Para ler mais
- Henry Kissinger, A World Restored: Metternich, Castlereagh and the Problems of Peace, 1812-22 (1957). Estuda como as potências europeias montaram um equilíbrio depois das guerras napoleônicas; foi a tese de doutorado do autor.
- Henry Kissinger, World Order: Reflections on the Character of Nations and the Course of History (2014). Em português: Ordem mundial. Reúne as reflexões tardias do autor sobre o que sustenta uma ordem internacional, da Paz de Vestfália ao século XXI.
- Mario Del Pero, The Eccentric Realist: Henry Kissinger and the Shaping of American Foreign Policy (2010). Questiona a imagem de Kissinger como realista puro e discute o peso da política interna americana em suas decisões.
- Matias Spektor, Kissinger e o Brasil (2009). Analisa a relação entre Kissinger e a diplomacia brasileira nos anos 1970, a partir de pesquisa em arquivos.
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Escrito em 24/10/2026 · checado em 24/10/2026 · versão 2