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Liberalismo e construtivismo: as escolas rivais do realismo nas Relações Internacionais

O que é

Liberalismo e construtivismo são duas teorias das Relações Internacionais (RI), o campo que estuda a política entre países. Ambas nasceram, em boa parte, como resposta ao realismo, a lente segundo a qual os Estados disputam poder e segurança num sistema sem governo acima deles. O artigo Realismo nas Relações Internacionais: o que é, de onde vem e como explica a disputa entre países explica essa lente.

O liberalismo sustenta que os Estados podem cooperar em benefício mútuo. Para os liberais, contam o tipo de governo dentro de cada país, os laços econômicos e as instituições internacionais, e não só a distribuição de poder 12.

O construtivismo sustenta que a política internacional é feita de ideias, normas e identidades que os próprios atores constroem. Para Emanuel Adler, os fatos das relações internacionais são reais, mas existem por acordo humano 3.

Nenhuma das duas é "a verdade". São lentes. Cada uma ilumina coisas que as outras deixam na sombra.

De onde vêm

A raiz liberal mais citada é Immanuel Kant. Em seu texto sobre a paz perpétua, ele propõe três condições para uma paz duradoura: cada Estado com constituição republicana, uma união de Estados e um direito de hospitalidade universal 2. O raciocínio do primeiro ponto é simples: numa república, quem decide sobre a guerra é o povo que paga os custos dela, em dinheiro e em vidas 2. Michael Doyle, em 1983, retomou essa ideia ao apontar a ausência de guerras entre democracias liberais 2.

O liberalismo ganhou novo fôlego nos anos 1970, quando a distensão da Guerra Fria e o crescimento de organizações internacionais e empresas multinacionais chamaram a atenção para atores além dos Estados 1. Robert Keohane e Joseph Nye propuseram então a ideia de "interdependência complexa" e argumentaram que os Estados podem cooperar em benefício mútuo 1. Em 1989, Keohane usou a teoria dos jogos para mostrar que instituições e cooperação econômica podem ampliar o que os Estados entendem como interesse 1. Essa corrente é chamada de neoliberalismo (a Stanford Encyclopedia também usa o termo pluralismo) 1.

O construtivismo ganhou força com Alexander Wendt. Ele argumentou que a autoajuda, isto é, a necessidade de cada Estado cuidar sozinho de sua segurança, não decorre logicamente da anarquia: é uma instituição social, construída pelos próprios Estados 1.

Como funciona o argumento liberal

O argumento liberal tem três pilares, que aparecem em Kant e nos autores modernos 12:

  1. Governo interno. O regime político de cada Estado importa. Um governo que responde aos cidadãos tende a ser mais cauteloso com a guerra 2.
  2. Interdependência. Keohane e Nye chamaram de "interdependência complexa" a rede de laços entre países e outros atores, e argumentaram que os Estados podem cooperar em benefício mútuo 1.
  3. Instituições. Para Keohane (1989), a cooperação econômica e as instituições internacionais ampliam o que os Estados entendem como seu interesse 1.

Note que os liberais aceitam parte do ponto de partida realista. Keohane aceitou a ênfase de Waltz na teoria sistêmica e a premissa de Estados racionais que perseguem o próprio interesse. A diferença está na conclusão: para ele, a cooperação é possível e pode ampliar o que os Estados entendem como interesse 1.

Kant, aliás, não achava que a república bastasse. Segundo a Stanford Encyclopedia, ele via a paz mundial como impossível sem Estados republicanos e sem alguma união internacional entre eles 2.

Como funciona o argumento construtivista

O construtivismo não é uma teoria só da política externa, mas uma teoria social mais ampla, que olha para normas, identidades e interesses e para a forma como se espalham 4. Seus pontos principais, segundo Adler e a Stanford Encyclopedia 13:

  • Identidades e interesses são construídos. Para Adler, eles são socialmente construídos, e não dados de antemão 3.
  • Normas contam. Elas são estruturas que dão sentido ao que os atores fazem 3.
  • A autoajuda é construída. Ela não vem pronta da anarquia: resulta de como os Estados se tratam, e por isso pode mudar 1.
  • O mundo material existe. Adler lembra que os construtivistas aceitam que o mundo material oferece resistência; o que muda é que seu efeito depende de interpretações 3.

O construtivismo critica tanto o neorrealismo quanto o neoliberalismo. Adler escreve que o primeiro trata o poder material como único critério e não tem teoria de mudança institucional. Quanto ao segundo, ele aceita que ideias importam, mas as trata como crenças individuais e toma os interesses como dados de fora da interação 3.

Quadro comparativo

PontoRealismoLiberalismoConstrutivismo
O que explica o comportamento dos EstadosPoder e estrutura do sistema 1Governo interno, interdependência e instituições 12Identidades, normas e ideias 13
CooperaçãoLimitada pela insegurança e por ganhos desiguais 1Possível, em benefício mútuo 1A fonte consultada não trata a cooperação como ponto próprio; destaca que normas e identidades moldam o que os Estados querem 3
Interesses dos EstadosEstados autointeressados, premissa que Keohane também aceita 1Dados de fora da interação 3, mas podem se ampliar pela cooperação 1Construídos socialmente 13
MudançaExplicada com dificuldade 1Cooperação e instituições podem ampliar o que os Estados entendem como interesse 1Ponto forte declarado da teoria 1

O quadro descreve o que cada escola afirma, não qual está certa.

Exemplos na história

Carta da ONU (1945). A ONU começou oficialmente em 24 de outubro de 1945 8. A Carta traz propósitos que lembram a agenda liberal: manter a paz, resolver disputas por meios pacíficos, cooperar em temas econômicos, sociais e humanitários 7. Também proíbe a ameaça ou o uso da força contra a integridade territorial de qualquer Estado 7. Um realista dirá que o sistema depende do poder das grandes potências; um liberal, que a instituição criou regras e hábitos novos. A história sustenta leituras nos dois sentidos.

Fim da Guerra Fria (1989-1991). Waltz esperava que a bipolaridade fosse estável e duradoura, e o fim da União Soviética contrariou essa expectativa 1. Wendt sustenta que o neorrealismo explica mal a mudança, enquanto o construtivismo, baseado em normas, a explicaria melhor 1. A afirmação continua em debate, e este artigo não a dá como resolvida.

Brasil e Argentina (1979-1991). Os dois países passaram da rivalidade nuclear à cooperação. Bandarra cita o Acordo Tripartite de 1979, a redemocratização dos dois países, a Declaração de Iguaçu (1985) e a criação da ABACC, a agência de verificação mútua, em 1991 5. O autor não adota uma teoria de RI explícita e trabalha com conceitos como confiança e medidas de confiança 5. A leitura liberal pode enfatizar a democratização e as instituições; a construtivista, a mudança de identidade e de confiança entre os dois países. Essas leituras são nossas, e não conclusões do artigo.

Críticas e limites

Sobre o liberalismo:

  • A Stanford Encyclopedia registra a crítica de que a crença liberal na cooperação seria otimista demais, tanto sobre a cooperação quanto sobre a mudança que viria da interdependência 1.
  • Waltz respondeu que a anarquia limita a cooperação por dois motivos: a insegurança e o receio de que os ganhos beneficiem mais os outros 1.
  • A tese da paz entre democracias também recebe críticas de outro lado. Candido (2024) discute a leitura de Doyle e afirma que ela serviria de base para justificar intervenções em ex-colônias 6. Ele observa que Doyle apresenta a paz liberal como dilema, e não como lei empírica 6.

Sobre o construtivismo:

  • É uma teoria social ampla, e não uma teoria só da política externa 4.- Adler critica o neorrealismo e o neoliberalismo e defende que as ideias importam, mas isso não esgota o debate: a importância relativa de ideias e de poder material segue em discussão entre as escolas 3.

Em favor das duas escolas, a Stanford Encyclopedia reconhece como normas positivas o multilateralismo, o direito internacional e a sociedade internacional defendidos por liberais e outros 1.

O Brasil neste tabuleiro

Salomón e Pinheiro mostram que as duas escolas aparecem nos estudos da política externa brasileira 4. Entre os trabalhos liberais citados estão análises do contencioso do açúcar entre Brasil e Argentina no Mercosul (Oliveira, 2003), da posição brasileira na OMC em Seattle (Carvalho, 2003) e do papel do Congresso (Alexandre, 2006) 4. Entre os construtivistas, estudos sobre redes de advocacia na disputa dos medicamentos contra a Aids (Mello e Souza, 2007) e trabalhos de Saraiva e Briceño Ruiz (2009), que a fonte diz se inserirem no construtivismo 4.

O caso Brasil-Argentina, descrito acima, é para Bandarra um exemplo notável de ex-rivais que evoluíram para a cooperação, e ele trata a ABACC como tema pouco estudado 5. Este artigo não afirma que uma escola explique sozinha a política externa brasileira.

Perguntas frequentes

Liberalismo em RI é o mesmo que liberalismo econômico?

Não necessariamente. Em RI, o termo descreve uma teoria sobre cooperação, instituições e governo interno 12. A defesa do livre comércio pode aparecer nela, mas não é o centro.

O construtivismo nega que o poder material exista?

Não. Adler escreve que os construtivistas aceitam a resistência do mundo material; o que sustentam é que seu efeito passa por interpretações 3.

O que é paz democrática?

É a tese de que democracias liberais não guerreiam entre si. Parte de Kant e foi retomada por Doyle em 1983 2. Há críticas à tese e à forma como é usada 6.

Liberais e realistas discordam em tudo?

Não. Keohane aceitou a abordagem sistêmica de Waltz e a ideia de Estados racionais e autointeressados 1. Discordam sobre o quanto a cooperação é possível.

Qual escola é a certa?

Os textos consultados não indicam vencedora. Cada escola é criticada pelas rivais, e a escolha da lente depende da pergunta que se quer responder 13.

Para fechar

Liberais olham para o governo interno, as trocas e as instituições; construtivistas, para as ideias e as identidades que dão sentido ao que os Estados querem. As duas contestam o realismo e são contestadas por ele, e cada uma explica melhor certos casos que outros. O que a leitura combinada deixa é um conjunto de perguntas, não uma resposta. Para a base, veja Realismo clássico e neorrealismo: Morgenthau e Waltz, o que os une e o que os separa.

Fontes

  1. Stanford Encyclopedia of Philosophy: Realism in International Relations (seções 3, 3.1, 3.2 e 4) · consultado em 24/10/2026
  2. Stanford Encyclopedia of Philosophy: Kant's Social and Political Philosophy (seção sobre a paz perpétua) · consultado em 24/10/2026
  3. Emanuel Adler, "O construtivismo no estudo das relações internacionais", Lua Nova, n. 47, ago. 1999 (SciELO) · consultado em 24/10/2026
  4. Mónica Salomón e Letícia Pinheiro, "Análise de Política Externa e Política Externa Brasileira: trajetória, desafios e possibilidades de um campo de estudos", Revista Brasileira de Política Internacional, v. 56, n. 1, 2013 (SciELO) · consultado em 24/10/2026
  5. Leonardo Bandarra, "A verification cotton between crystals: the Discussions about Regional Nuclear Verification Mechanisms in South America and the Creation of the Brazilian-Argentine Agency for Accounting and Control of Nuclear Materials (ABACC) (1967-1992)", Revista Brasileira de Política Internacional, v. 68, n. 1, 2025 (SciELO) · consultado em 24/10/2026
  6. Nycolas Candido, "Doyle e os dilemas: sobre o retorno ao colonialismo em uma paz de via-média", Monções (UFGD), v. 12, n. 24, 2024 (publicado em 19/08/2024), p. 50-80, DOI 10.30612/rmufgd.v12i24.16750 (resumo) · consultado em 24/10/2026
  7. Organização das Nações Unidas: Carta da ONU, Capítulo I (Propósitos e Princípios), artigos 1 e 2 · consultado em 24/10/2026
  8. Organização das Nações Unidas: História da ONU · consultado em 24/10/2026

Para ler mais

  • Robert O. Keohane e Joseph S. Nye, Power and Interdependence (1977). Propõe a ideia de interdependência complexa para explicar como a cooperação e a troca entre países limitam o papel da força na política mundial.
  • Robert O. Keohane, After Hegemony: Cooperation and Discord in the World Political Economy (1984). Discute o papel de regimes e instituições internacionais na cooperação entre Estados na economia política mundial.
  • Alexander Wendt, Social Theory of International Politics (1999). Desenvolve o construtivismo: identidades e ideias compartilhadas dão forma à estrutura do sistema internacional.
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Escrito em 24/10/2026 · checado em 24/10/2026 · versão 4