Realismo clássico e neorrealismo: Morgenthau e Waltz, o que os une e o que os separa
O que é
Realismo é a corrente das Relações Internacionais (RI), o campo que estuda a política entre países, para a qual os Estados são os atores centrais e disputam poder e segurança sem uma autoridade mundial acima deles 1. O realismo clássico e o neorrealismo são duas versões dessa mesma lente. Elas concordam sobre o cenário (um sistema sem governo comum, chamado de anarquia internacional) e discordam sobre o que explica o comportamento dos Estados 12.
O realismo clássico, de Hans Morgenthau, busca a explicação na natureza humana e no desejo de poder. O neorrealismo, ou realismo estrutural, de Kenneth Waltz, busca a explicação na estrutura do sistema, isto é, na anarquia e na forma como o poder se distribui entre os Estados 1.
O historiador de RI Fred Halliday, citado por Bittencourt, considera os dois autores realistas, porque ambos partem da busca de poder dos Estados, da centralidade da força militar e da permanência do conflito num mundo de várias soberanias 2. Waltz, porém, rejeitava a ideia de que seu trabalho fosse apenas o "velho realismo tornado novo" 2.
De onde vêm as duas versões
A raiz do realismo é antiga. Tucídides, ao narrar a guerra entre Atenas e Esparta, apontou como causa de fundo o crescimento do poder ateniense e o alarme que isso causou entre os espartanos 3. O artigo Realismo nas Relações Internacionais: o que é, de onde vem e como explica a disputa entre países conta essa genealogia inteira.
Hans Morgenthau nasceu em 1904 na Alemanha e emigrou para os Estados Unidos em 1937 2. Seu livro principal, Politics Among Nations, saiu em 1948. Na segunda edição, de 1954, ele organizou seis princípios do realismo político 1. Morgenthau é visto como o grande nome do realismo clássico nos Estados Unidos depois da Segunda Guerra Mundial 2.
Kenneth Waltz nasceu em 1924, nos Estados Unidos 2. Em Man, the State, and War (1959), analisou as causas da guerra e as agrupou em três "imagens": a natureza humana, a organização interna dos Estados e a anarquia do sistema internacional 25. Em 1979, publicou Theory of International Politics, que inaugurou o neorrealismo e, segundo Bittencourt, deu início ao chamado terceiro debate da disciplina 2. Cerca de trinta anos separam os dois livros principais 2.
O argumento de Morgenthau: poder, interesse e prudência
Morgenthau parte de seis princípios, que a Stanford Encyclopedia e Bittencourt resumem 12. Em palavras simples:
- A política tem leis objetivas, com raízes na natureza humana 12.
- Os governantes pensam e agem em termos de interesse definido como poder. Para Morgenthau, poder é tudo o que estabelece e mantém o controle de pessoas sobre pessoas, da força física aos laços psicológicos 12.
- O interesse-poder vale em toda parte, mas seu conteúdo muda com o contexto político e cultural 2.
- Princípios morais universais não se aplicam direto aos Estados: precisam passar pelo filtro das circunstâncias, e sem prudência não há moral política 12.
- Um Estado não deve confundir suas aspirações com a moral do universo 2.
- A política é um campo autônomo, com termos próprios, mas a ética ainda importa: um ser só "político" seria uma fera, e um só "moral", um tolo 1.
Morgenthau também descreve nove elementos do poder nacional: geografia, recursos naturais, capacidade industrial, poderio militar, população, caráter nacional, moral nacional, qualidade da diplomacia e qualidade do governo 2. E aponta limites ao poder de um Estado: a balança de poder, o direito internacional e a opinião pública e a moralidade internacionais 2. Para ele, a balança de poder é uma política que os Estados buscam de propósito, para impedir que um rival se torne forte demais 2.
Atenção: "interesse definido como poder" não significa "vale tudo". Segundo Bittencourt, Morgenthau dá peso também aos limites da moral e do direito internacional 2.
O argumento de Waltz: a estrutura explica
Waltz afirma que há dois tipos de teoria: as reducionistas, que explicam o resultado pelo comportamento das partes, e as sistêmicas, que o explicam pela influência do sistema sobre as partes 2. Ele quer uma teoria sistêmica e usa a economia como modelo: o sistema internacional se parece com um mercado, e os Estados com firmas 12.
A estrutura do sistema tem três elementos 12:
- Princípio ordenador: no sistema internacional, a anarquia (ninguém manda em todos); dentro de um país, a hierarquia (há um governo). Cada Estado depende dos próprios meios, o que se chama de autoajuda 2.
- Caráter das unidades: os Estados são tratados como funcionalmente iguais, todos com a mesma tarefa de se manterem soberanos e vivos, e diferem só no quanto conseguem fazê-la 2.
- Distribuição de capacidades: quanto poder cada Estado tem em relação aos outros. É ela que define se o sistema é unipolar (um polo de poder), bipolar (dois) ou multipolar (vários) 2.
O resultado é que Estados diferentes, em situação parecida, tendem a decidir de modo parecido. A estrutura não determina a ação, mas impõe limites severos 2. Waltz trata a sobrevivência como uma suposição que permite montar a teoria, e não como descrição de tudo o que move um Estado 2. Para a análise, ele deixa de lado tradições, ideologias e formas de governo: a estrutura é definida só pelas capacidades 2.
A balança de poder, nessa versão, não é uma política escolhida: aparece como resultado não intencional da anarquia somada a Estados que querem sobreviver 2. Waltz também espera que os Estados equilibrem forças, e não que se aliem ao mais forte 2.
Morgenthau e Waltz lado a lado
| Ponto | Morgenthau (realismo clássico) | Waltz (neorrealismo) |
|---|---|---|
| Causa principal | Busca de poder, enraizada na natureza humana 12 | Estrutura anárquica do sistema 12 |
| Objetivo do Estado | Interesse definido como poder 2 | Sobrevivência; o poder é um meio 2 |
| Anarquia | Ponto de partida, um dado 2 | Centro da teoria; condiciona o comportamento 2 |
| Balança de poder | Política adotada de propósito 2 | Resultado não intencional do sistema 2 |
| Política externa | Faz parte do interesse da teoria 24 | Fica fora: a teoria trata da política internacional 4 |
| Método | Racional, mas crítico de imitar as ciências naturais 2 | Teoria sistêmica, inspirada na economia 12 |
Waltz chama o realismo clássico de "behaviorista", no sentido de que conclui só a partir do comportamento dos Estados e vê o sistema como mero subproduto dele 2. Bittencourt conclui que os dois se complementam em temas: a política externa está no horizonte de Morgenthau e não no de Waltz 2.
Exemplos na história
Atenas, Esparta e Melos (século V a.C.). Tucídides escreve que o crescimento do poder de Atenas e o alarme que isso causou em Esparta tornaram a guerra inevitável (Livro I, 23; tradução nossa do inglês de Crawley) 3. No Diálogo de Melos, os atenienses dizem que "the strong do what they can and the weak suffer what they must" (os fortes fazem o que podem e os fracos sofrem o que devem) 3. A cena mostra um argumento dos personagens, não a posição de Tucídides, e a literatura lê a obra com mais nuances 1.
A Guerra Fria e a previsão de Waltz. Em 1979, Waltz sustentou que um sistema bipolar, como o das duas superpotências, tendia a ser estável e duradouro. O fim da União Soviética contrariou essa expectativa, e esse é um dos principais pontos de crítica ao neorrealismo 1.
Morgenthau e a guerra do Vietnã (1965). Segundo coluna do Harvard Crimson, Morgenthau escreveu em abril de 1965 que os Estados Unidos deveriam agir com um cálculo racional de interesses e de poder, e em julho criticou o "globalismo" da política americana 6. Na leitura dele, a política em curso se apoiava em mitos sobre o Vietnã e em equívocos sobre a natureza do interesse nacional, do poder e do prestígio 6. É um caso de uso do realismo clássico como crítica de uma política, exposta aqui como a análise de Morgenthau na época, sem juízo próprio. Segundo a coluna, a concepção de interesse nacional de Morgenthau incluía os valores internos da nação 6.
Críticas e limites
As duas versões são lentes, não a única explicação possível. Veja as principais críticas, e também a defesa de Waltz 1:
- Ao realismo clássico. A tese de que a natureza humana é movida pelo desejo de dominar não seria comprovável empiricamente. Raymond Aron observou que "poder" é ambíguo, pois pode ser meio ou fim 1.
- Ao neorrealismo. Não explica bem as mudanças: a previsão sobre a bipolaridade falhou 1. Robert Keohane (1989) aceitou a abordagem sistêmica, mas mostrou que instituições e cooperação econômica ampliam o que os Estados entendem como interesse 1. Para teóricos críticos como Robert Cox, a teoria trata como natural uma estrutura histórica e favorece o status quo 1.
- Construtivismo. Alexander Wendt sustenta que a autoajuda não decorre logicamente da anarquia: "a anarquia é o que os Estados fazem dela" 1.
- Escola Inglesa. Defende que a sociedade internacional pode evoluir para formas mais cooperativas 1.
- Do lado dos defensores. Waltz sustentava que explicar a guerra pela natureza humana não leva a uma ciência da política internacional, e que causas sistêmicas valem por si 2.
Há ainda um limite prático. Waltz considerava praticamente impossível construir teorias de política externa e disse que a sua não pretendia explicar políticas externas individuais 4. Para suprir essa lacuna, surgiu nos anos 1990 o realismo neoclássico (autores como Schweller, Wohlforth e Zakaria): mantém o poder relativo como causa principal, mas reintroduz fatores internos, como recursos, capacidade de mobilização e coesão das elites 4.
O Brasil neste tabuleiro
Nenhum dos dois autores escreveu sobre o Brasil, e este artigo não afirma que a lente explica sozinha a política externa brasileira. O que há é uso acadêmico das duas ferramentas. Segundo Salomón e Pinheiro, Vágner Camilo Alves usou a teoria de Waltz (2002) para explicar o comportamento do Brasil na Segunda Guerra Mundial e, em 2007, aplicou o realismo neoclássico para comparar as posições brasileiras na Segunda Guerra e na Guerra da Coreia, defendendo que variáveis internas ajudam a explicar os dois casos 4.
Isso ilustra o limite da teoria de Waltz: a estrutura do sistema indica pressões, mas não diz como cada governo reage a elas. Ambos os livros têm edição em português: O Homem, o Estado e a Guerra, de Waltz, saiu pela Martins Fontes em 2004 5, e a obra de Morgenthau circula na tradução brasileira A Política entre as Nações 2.
Perguntas frequentes
Morgenthau e Waltz pertencem à mesma escola?
Em geral sim, porque ambos partem do Estado, do poder e da anarquia 2. Mas Waltz recusava a ideia de um único "paradigma realista" que o incluísse junto com Morgenthau 2. Por isso alguns autores preferem falar de dois autores, e não de uma escola só 2.
O neorrealismo diz que a natureza humana não importa?
Waltz não baseia sua teoria em nenhuma ideia sobre a natureza humana, que ele classifica como explicação reducionista 12. Isso não prova que ela seja irrelevante em todos os níveis, e esse é um ponto de debate.
O que é balança de poder?
É a situação em que dois ou mais polos de poder aproximado se contêm. Para Morgenthau, é uma política escolhida; para Waltz, uma consequência da anarquia 2.
Waltz previu o fim da Guerra Fria?
Não. Em 1979 ele previu que a bipolaridade seria estável e duradoura, e o fim da União Soviética contrariou essa previsão 1.
O que é realismo neoclássico?
É uma corrente dos anos 1990 que tenta unir a lógica sistêmica de Waltz a fatores internos de cada país, para explicar políticas externas específicas 4.
Para fechar
Morgenthau pergunta o que move os governantes e os limita; Waltz pergunta o que o sistema impõe a todos eles. As duas respostas se completam em parte, mas partem de métodos diferentes, e cada uma é criticada por escolas rivais. Como lente, o realismo ajuda a ler fatos; não diz o que um país deve fazer. Para a ideia de base, veja Anarquia internacional e autoajuda: o que são, de onde vêm e o que explicam.
Fontes
- Stanford Encyclopedia of Philosophy: Realism in International Relations (seções 1.3, 2.2, 3 e 3.2) · consultado em 24/10/2026
- Paulo Victor Zaneratto Bittencourt, "Política internacional, do pensamento realista à teoria neorrealista: o pensamento teórico de Hans Morgenthau e Kenneth Waltz em perspectiva comparada", Intratextos (UERJ), v. 8, n. 1, 2017, p. 1-22 · consultado em 24/10/2026
- Tucídides, The History of the Peloponnesian War (trad. Richard Crawley), Livro I, cap. 23, e Livro V, cap. 89, Project Gutenberg nº 7142 · consultado em 24/10/2026
- Mónica Salomón e Letícia Pinheiro, "Análise de Política Externa e Política Externa Brasileira: trajetória, desafios e possibilidades de um campo de estudos", Revista Brasileira de Política Internacional, v. 56, n. 1, 2013 (SciELO) · consultado em 24/10/2026
- Carlos Augusto Rollemberg de Resende, resenha de "O Homem, o Estado e a Guerra: uma análise teórica" (Kenneth Waltz, Martins Fontes, 2004), Revista Brasileira de Política Internacional, v. 47, n. 1, 2004 (SciELO) · consultado em 24/10/2026
- Rand K. Rosenblatt, coluna "Brass Tacks" sobre a palestra de Hans Morgenthau, The Harvard Crimson, 1965 · consultado em 24/10/2026
Para ler mais
- Hans Morgenthau, Politics Among Nations: The Struggle for Power and Peace (1948). Em português: A Política entre as Nações. Expõe o realismo clássico: a política internacional como disputa por poder, limitada pela balança de poder, pelo direito e pela moral.
- Kenneth N. Waltz, Man, the State, and War: A Theoretical Analysis (1959). Em português: O Homem, o Estado e a Guerra: uma análise teórica. Examina três explicações para a guerra (a natureza humana, a organização dos Estados e a anarquia do sistema) e prepara a teoria de 1979.
- Kenneth N. Waltz, Theory of International Politics (1979). Formula o neorrealismo: a estrutura do sistema, e não a natureza humana, explica o comportamento semelhante dos Estados.
- Robert O. Keohane (org.), Neorealism and Its Critics (1986). Reúne críticas à teoria de Waltz e a resposta dele, o que mostra os pontos de discórdia dentro e fora do realismo.
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Escrito em 24/10/2026 · checado em 24/10/2026 · versão 3