Recompra de ações: o que é, como funciona e o que muda para quem fica
O que é
Recompra de ações é a compra, pela própria empresa de capital aberto, de ações que ela mesma emitiu. A companhia usa o seu caixa para adquirir papéis de outros acionistas, em geral pela bolsa 3.
A lei das sociedades anônimas, a Lei 6.404/1976, parte da regra contrária: a companhia não pode negociar com as próprias ações. A recompra é uma exceção prevista no próprio artigo 30, desde que feita com saldo de lucros ou reservas (menos a reserva legal) e sem reduzir o capital social 2.
Depois de comprar, a empresa só pode fazer duas coisas com as ações: mantê-las em tesouraria ou cancelá-las. Se as mantiver, pode vendê-las de novo mais tarde 1.
Como funciona
O caminho tem etapas bem definidas:
- Aprovação. Na maioria dos casos, o conselho de administração aprova o programa. A assembleia geral precisa aprovar quando, por exemplo, a compra é feita fora de mercado organizado e passa de 5% de uma classe de ações em circulação em menos de 18 meses, ou quando a operação, também fora de mercado organizado, é feita a preço mais de 10% acima (compra) ou abaixo (venda) da cotação, calculada pela média ponderada dos 10 últimos pregões 1. O estatuto pode proibir a recompra ou exigir assembleia em mais casos 1.
- Informação ao mercado. Ao aprovar, o conselho presta as informações que a norma de registro de emissores exige 1.
- Compra. A empresa envia ordens à bolsa como qualquer investidor 3. Ela não pode comprar a preço acima do de mercado quando o faz em mercado organizado, nem ações do acionista controlador 1.
- Destino das ações. Cancelamento, que elimina as ações, ou tesouraria, que as mantém guardadas 1.
Ações em tesouraria não têm direito a voto nem a proventos em dinheiro de qualquer natureza 12. Podem, porém, receber bonificação em ações e passar por grupamentos e desdobramentos 1. Também ficam fora do cálculo dos quóruns das assembleias 1.
Cancelar tira as ações do total. Guardar em tesouraria as tira do grupo que vota e recebe dividendos, e pode devolvê-las ao mercado depois, o que não ocorre com ações canceladas.
Por que as empresas recompram
O estudo da CVM de 2017 reúne motivos citados na literatura, sem afirmar que valham para cada caso no Brasil 3:
- Devolver caixa ao acionista com mais flexibilidade que o dividendo, pois o anúncio de recompra não cria compromisso de executá-la 3.
- Ajustar a estrutura de capital, trocando capital próprio por dívida 3.
- Evitar caixa parado, quando os gestores não veem uso interno melhor 3.
- Sinalizar que a administração considera as ações baratas ou que não há projetos melhores. A literatura trata esse efeito como ambíguo 3.
Esses motivos são hipóteses de estudo, não garantias. Uma recompra pode também ser mal feita, como mostra a seção de riscos.
A conta: lucro por ação depois da recompra
Para ver o efeito mecânico, compare o lucro por ação (LPA) antes e depois:
LPA = lucro líquido ÷ número de ações
Se o lucro fica igual e o número de ações cai, o LPA sobe. O preço sobre lucro (P/L), que é o preço da ação dividido pelo LPA, muda na direção contrária se o preço não se mexer.
Na prática: a Épsilon S.A. em outubro de 2026
Importante: a Épsilon S.A. é fictícia, e todos os números foram inventados para mostrar a conta. Não retratam nenhuma empresa real.
Suponha que, em 16 de outubro de 2026, a Épsilon tenha 100 milhões de ações de uma só classe, cotadas a R$ 10,00, e lucro líquido de R$ 100 milhões nos últimos 12 meses. O controlador detém 60 milhões de ações.
Antes.
- Valor de mercado: 100 milhões × R$ 10,00 = R$ 1,0 bilhão.
- LPA: R$ 100 milhões ÷ 100 milhões = R$ 1,00.
- P/L: R$ 10,00 ÷ R$ 1,00 = 10.
O teto da tesouraria. Ações em circulação são as que sobram sem as do controlador, de pessoas ligadas a ele e de administradores 1. Aqui, 100 − 60 = 40 milhões. O limite de 10% é 4 milhões de ações em tesouraria 1.
A recompra. A empresa compra 3 milhões de ações a R$ 10,00, gastando R$ 30 milhões, e as cancela.
Depois (mantendo tudo o mais constante).
- Ações: 100 − 3 = 97 milhões.
- LPA: R$ 100 milhões ÷ 97 milhões ≈ R$ 1,03.
- Valor de mercado a R$ 10,00: 97 milhões × R$ 10,00 = R$ 970 milhões.
O LPA subiu cerca de 3%, mas o exemplo ignora que a empresa gastou R$ 30 milhões de caixa. Se esse caixa rendia juros ou serviria a um projeto, o lucro futuro pode ser menor que R$ 100 milhões. O preço da ação também pode não ficar em R$ 10,00. Isto é uma ilustração, não uma projeção.
Quem vende e quem fica. O acionista que vendeu os papéis recebeu R$ 30,00 a cada 3 ações, pelo preço de mercado do dia. O que ficou passa a ter uma fatia um pouco maior da empresa, mas de uma empresa com menos caixa.
Recompra ou dividendo: o que muda
| Recompra | Dividendo e JCP | |
|---|---|---|
| Como o caixa chega ao acionista | Só a quem vende ações à empresa | A todos os acionistas na data de corte |
| Decisão | A empresa compra; cada acionista decide se vende | A empresa decide; o acionista recebe |
| Número de ações | Cai, se forem canceladas | Não muda |
| Compromisso | O anúncio não obriga a executar 3 | Há dividendo obrigatório previsto em lei (Lei 6.404/1976, arts. 201 a 205, segundo o estudo da CVM) 3 |
| Imposto para o acionista | Venda de ações, com regras próprias de ganho de capital | Regras próprias de dividendos e de JCP |
Em um mundo sem impostos nem custos, a teoria convencional trata as duas formas como equivalentes 3. No Brasil, os impostos de cada uma são tratados em Dividendos: o que são, como funcionam e como são tributados, Juros sobre capital próprio (JCP): o que é, como funciona e como é tributado e Imposto de Renda sobre ações e a isenção de R$ 20 mil por mês: o que é, como funciona e como calcular, com alíquotas que mudaram nos últimos anos.
Vantagens, riscos e limitações
O que pode haver de positivo
- Reduz o número de ações, e o lucro por ação tende a subir, mantido o lucro total.
- Dá flexibilidade: não cria compromisso recorrente como o dividendo 3.
- Pode devolver caixa que não teria uso melhor dentro da empresa, segundo uma das hipóteses da literatura 3.
Os riscos e limites
- Caixa gasto. O dinheiro deixa a empresa. Se ela está endividada, a recompra pode piorar a situação. A norma exige que a empresa tenha condição de pagar credores e dividendos obrigatórios após a compra 1.
- Preço ruim. A empresa pode recomprar caro. Nada garante que as ações estejam baratas quando ela compra.
- Menos liquidez. O estudo da CVM encontrou evidências de que recompras acima de 10% das ações em circulação reduziram a liquidez de longo prazo, ou seja, ficou mais difícil negociar o papel 3.
- Informação privilegiada. A literatura cita o risco de administradores usarem o que sabem do programa em benefício próprio 3.
- Efeito não garantido. Recompra não assegura alta da cotação, nem lucro. Ações podem gerar perda de capital.
Atenção: o anúncio de um programa mostra o que a empresa pode comprar, não o que comprou. É preciso conferir os comunicados e as demonstrações para saber a quantidade executada.
Regras da CVM e da Lei das S.A.
A CVM fiscaliza a recompra por companhias abertas. A base é o art. 30 da Lei 6.404/1976 e a Resolução CVM 77/2022, alterada pela Resolução CVM 216/2024 124. Regras em vigor em 16 de outubro de 2026:
- Prazo. O programa deve ser liquidado em até 18 meses, contados da aprovação (art. 7º) 1.
- Limite. A tesouraria não pode passar de 10% das ações em circulação de cada espécie ou classe (art. 9º). Entram no cálculo ações detidas por coligadas e controladas e a exposição de derivativos 1.
- Recursos disponíveis. A compra não pode exigir mais que os recursos disponíveis, que são as reservas de lucros ou de capital (menos legal, de lucros a realizar, especial de dividendo obrigatório e de incentivos fiscais) e o resultado do exercício em curso (art. 8º) 1.
- Excesso. Se o saldo de recursos for excedido, a empresa vende ou cancela ações, e a venda deve ocorrer em até 6 meses (art. 10) 1.
- Vedações. Não pode comprar ações do controlador, nem a preço acima do de mercado em bolsa. A compra também é vedada durante uma oferta pública de aquisição de ações da empresa, com exceção da oferta feita por ela mesma 1.
- Nulidade. A Lei das S.A. prevê nulidade da compra de companhia aberta que não siga as normas da CVM (art. 30, § 2º) 2.
Uma mudança em discussão
Em 17 de setembro de 2025, a CVM abriu a Consulta Pública SDM 04/2025, com propostas de ajuste à Resolução 77 5. Segundo a CVM, a minuta eleva o teto de tesouraria para 12%, como compensação por uma nova definição de "ações em circulação". Também impede a compra que deixe menos de 15% do total de cada classe em circulação, e cria condições de preço, quantidade e horário para compras diárias 5.
Em 16 de outubro de 2026, a página da consulta mostrava a situação "em análise" 6, e a página da Resolução 77 listava só a Resolução CVM 216/2024 como alteração 4. Não achei texto novo da CVM, mas também não achei confirmação de que a reforma não tenha sido editada. Isso é uma proposta, não regra. Confira o texto vigente na página da norma antes de usar qualquer número deste artigo.
Perguntas frequentes
Recompra de ações faz o preço subir?
Não há garantia. A empresa passa a ser mais uma compradora, e o lucro por ação pode subir se as ações forem canceladas, mas o preço depende de muitos fatores. O estudo da CVM trata o efeito de sinalização como ambíguo 3.
O que é ação em tesouraria?
É a ação que a empresa comprou de volta e guardou, sem cancelar. Ela não vota nem recebe proventos em dinheiro enquanto estiver ali 12.
Qual o limite de ações que uma empresa pode recomprar?
No texto da Resolução CVM 77 lido em 16 de outubro de 2026, o programa dura até 18 meses, e a tesouraria não pode passar de 10% das ações em circulação de cada classe, desde que haja recursos disponíveis 1. A CVM tem em análise uma proposta que muda o teto 56; veja a seção sobre a mudança em discussão.
Recompra é o mesmo que dividendo?
Não. O dividendo vai a todos os acionistas. A recompra paga só quem vende ações à empresa e reduz o número de ações, se cancelada. Veja a tabela comparativa.
Quem fiscaliza as recompras?
A CVM, com base na Lei 6.404/1976 e na Resolução CVM 77/2022 12.
Para fechar
A recompra devolve caixa ao acionista por um caminho diferente do dividendo: a empresa compra ações próprias e, ao cancelá-las, divide o lucro por menos papéis. O limite é o caixa gasto, a liquidez que pode diminuir e o preço pago. Para entender os números que mudam, veja Lucro por ação (LPA): o que é, como se calcula e o que ele não mostra e Dividendos: o que são, como funcionam e como são tributados.
Verbetes do glossário: Valor de mercado P/L (preço sobre lucro) Dividend yield (DY) JCP (juros sobre capital próprio)
Fontes
- CVM: Resolução CVM 77/2022, texto consolidado com as alterações da Resolução CVM 216/2024 (arts. 1º a 11) · consultado em 16/10/2026
- CVM: Lei 6.404/1976 (Lei das S.A.), art. 30, consolidação para consulta · consultado em 16/10/2026
- CVM, Assessoria de Análise Econômica e Gestão de Riscos: Impactos da recompra de ações em bolsa na liquidez de longo prazo (capa do PDF: abril de 2017; título da página: maio de 2017) · consultado em 16/10/2026
- CVM: Resolução CVM 77/2022, página da norma (revoga as Instruções CVM 567 e 620; alterada pela Resolução CVM 216/2024) · consultado em 16/10/2026
- CVM: CVM inicia consulta pública sobre negociação de ações de própria emissão (notícia de 17/09/2025) · consultado em 16/10/2026
- CVM: Consulta Pública SDM 04/2025, ajustes na Resolução CVM 77 · consultado em 16/10/2026
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Escrito em 16/10/2026 · checado em 16/10/2026 · versão 2