Rotas marítimas e gargalos: Ormuz, Malaca, Suez e Panamá
O que é
Gargalo marítimo é um canal estreito, numa rota muito usada, por onde passa um volume grande de petróleo, gás e outras cargas. A agência de energia dos Estados Unidos (EIA, na sigla em inglês) o define assim: passagens que importam para a energia e a segurança do mundo pelo tamanho do volume que carregam 1. O termo inglês é chokepoint, literalmente "ponto de estrangulamento".
Os mais citados são o estreito de Ormuz, entre o Golfo Pérsico e o mar da Arábia; o estreito de Malaca, entre a Península Malaia e a ilha de Sumatra, que liga o oceano Índico ao Pacífico; o canal de Suez, que liga o Mediterrâneo ao mar Vermelho; o estreito de Bab el-Mandeb, na saída sul do mar Vermelho; e o canal do Panamá, que liga o Atlântico ao Pacífico 1.
Para o realismo, a lente das Relações Internacionais que trata os Estados como disputantes de poder num mundo sem autoridade acima deles (veja Realismo nas Relações Internacionais: o que é, de onde vem e como explica a disputa entre países), essas passagens são pontos onde o poder se mede em coisas concretas: quem tem navios, bases e aliados perto delas.
De onde vem a ideia
O raciocínio é antigo. Em 1890, o oficial naval americano Alfred Thayer Mahan publicou The Influence of Sea Power Upon History. No primeiro capítulo, ele sustenta que a história dos países voltados ao mar depende menos do talento dos governantes e mais de condições naturais, entre elas a posição geográfica 9.
Mahan explica por que as potências marítimas quiseram postos como Gibraltar, Malta e o Cabo da Boa Esperança: o valor deles era, sobretudo, estratégico, e não só comercial 9. Ele também escreveu que o Mediterrâneo teve, na história, um papel maior que qualquer outra extensão de água do mesmo tamanho. E previu que um canal na América Central transformaria o Caribe numa grande via de passagem 9.
Como funciona o argumento
A lógica tem quatro passos.
- O comércio segue o caminho mais curto. Uma passagem estreita concentra muitos navios, porque desviar custa dias de viagem, combustível e seguro.
- Quem influencia a passagem influencia o fluxo. Marinhas, bases e minas, ou apenas a ameaça de usá-las, afetam quanto passa e a que custo.
- Os outros Estados dependem do fluxo. Países importadores de energia e exportadores de mercadorias sentem o efeito no preço e no prazo.
- Cada Estado se prepara. Constrói alternativas (oleodutos, rotas, canais), procura aliados ou reforça a própria marinha.
Quanto passa por cada gargalo
A tabela usa dados da EIA sobre petróleo e derivados, em milhões de barris por dia. Os números de 2026 vêm de outra edição e ainda são revistos 13.
| Passagem | 2023 | 2024 | 1º semestre de 2025 |
|---|---|---|---|
| Estreito de Malaca | 24,0 | 22,5 | 23,2 |
| Estreito de Ormuz | 21,8 | 20,7 | 20,9 |
| Canal de Suez e oleoduto SUMED | 8,8 | 4,8 | 4,9 |
| Bab el-Mandeb | 9,3 | 4,1 | 4,2 |
| Canal do Panamá (ano fiscal) | 2,2 | 2,0 | 2,3 (ano fiscal de 2025) |
| Cabo da Boa Esperança (rota alternativa) | 6,2 | 9,3 | 9,1 |
Fonte: EIA, atualizada em 3 de março de 2026 1. Para o canal do Panamá, a EIA usa o ano fiscal em todas as colunas; o 2,3 da última coluna é o do ano fiscal de 2025 1. O Cabo da Boa Esperança não é um gargalo; a EIA o lista como grande rota alternativa 1.
Ormuz tem um peso à parte. Em 2024, ele respondia por cerca de 20% do consumo mundial de líquidos de petróleo, por mais de um quarto do petróleo levado por mar e por cerca de um quinto do comércio mundial de gás natural liquefeito (GNL) 2. A maior parte do volume não tem outra saída da região; os oleodutos da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos poderiam desviar cerca de 2,6 milhões de barris por dia 2. Em relação aos cerca de 20 milhões que passam por lá, isso é perto de 13%.
Quatro exemplos na história
Gibraltar e o Mediterrâneo
Mahan cita o estreito de Gibraltar como exemplo de posição que pesa na guerra naval. As esquadras francesas do Mediterrâneo e do Atlântico só podiam se unir passando por ele, e por vezes sofreram perdas na tentativa 9. Para ele, a posse de pontos assim era mais estratégica do que comercial 9.
Suez em 1956
O canal de Suez foi operado desde 1869 pela Companhia do Canal de Suez, de capital britânico e francês. Em 26 de julho de 1956, o presidente do Egito, Gamal Abdel Nasser, anunciou a nacionalização da companhia e ofereceu compensação integral 6. Em 29 de outubro, Israel atacou pelo Sinai; Poucos dias depois, Reino Unido e França desembarcaram tropas, sob o pretexto, nas palavras da fonte, de proteger o canal dos dois combatentes 6. Em 6 de novembro, os Estados Unidos pressionaram os dois aliados a aceitar um cessar-fogo da ONU 6. A crise contribuiu para a renúncia do primeiro-ministro britânico, Anthony Eden, em janeiro de 1957 6.
Panamá: construção, tratados e seca
Em 1903, os Estados Unidos fecharam o tratado Hay-Bunau-Varilla, que lhes deu direitos permanentes sobre a Zona do Canal. O canal abriu em 1914 7. Pelos tratados Torrijos-Carter, assinados em 7 de setembro de 1977, o canal passou ao Panamá em 31 de dezembro de 1999; o tratado de neutralidade permite aos EUA usar força militar para defendê-lo 7.
O gargalo também pode ser natural. O canal usa água do lago Gatún, que em 2023 teve o menor nível desde ao menos 1965. As reservas de passagem diárias caíram de 36 (normal) para 22 em dezembro de 2023. Para janeiro de 2024 estavam programadas 20, depois elevadas a 24, e fevereiro de 2024 estava programado em 18 8. A previsão, portanto, foi revista ao longo do caminho.
O frete de GLP (gás liquefeito de petróleo) dos Estados Unidos ao Japão chegou a um recorde de US$ 250 por tonelada na semana de 29 de setembro de 2023 e estava em US$ 222 no fim de dezembro. Em janeiro de 2024, com mais vagas abertas, caiu a US$ 86, o menor valor desde 2022 8.
Ormuz em 2026
Desde o fim de fevereiro de 2026, os sinais de rastreio dos navios em Ormuz se tornaram pouco confiáveis, segundo a EIA, que revê os números com frequência 3. Pelas estimativas dela, o fluxo de petróleo e derivados caiu de 21,6 milhões de barris por dia no quarto trimestre de 2025 para 14,9 no primeiro trimestre de 2026 e 4,9 no segundo 3. O de Malaca também baixou, de 21,3 para 16,6 milhões, enquanto o de Bab el-Mandeb subiu de 5,6 para 8,1 3.
Em 22 de outubro de 2026, a Lloyd's List Intelligence, empresa de dados de navegação, contou ao menos 104 travessias de embarcações sem ligação com o Irã entre 5 e 11 de outubro, contra 126 na semana anterior 4. A própria empresa chama esse tráfego de relativamente elevado, cerca de 31% acima da média semanal de agosto 4.
A Lloyd's registrou ao menos 28 ataques ou incidentes de segurança em outubro, o maior total mensal desde o início da guerra, e fala em intensificação de ataques iranianos; diz ainda que o número real pode ser maior, porque a maioria dos navios atacados não relata o ocorrido 4. O Comando Central dos EUA (CENTCOM) mantém um bloqueio a portos iranianos e diz ter redirecionado 138 navios mercantes 4. A Persian Gulf Strait Authority ampliou para 124 a lista de navios que chama de "não conformes" 4. A fonte não detalha as origens da guerra nem as justificativas de cada parte, e este artigo não as julga. A situação muda por semana; o leitor deve conferir as datas.
O que o direito do mar diz
A Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (UNCLOS) cria, para estreitos usados na navegação internacional, o "direito de passagem em trânsito", que "não será impedido" (art. 38, tradução nossa) 5. A passagem vale para travessia contínua e rápida 5. O artigo 44 diz que os Estados à margem do estreito não devem dificultá-la, e que "não haverá suspensão" da passagem em trânsito (tradução nossa) 5.
A própria Convenção reconhece que estreitos já regulados, no todo ou em parte, por convenções internacionais antigas e específicas mantêm esse regime (art. 35, alínea c) 5. Canais artificiais, como o do Panamá, seguem tratados próprios, como os Torrijos-Carter citados acima 7. Este artigo não trata do regime jurídico de Suez.
Há ainda um limite de alcance. Como todo tratado, a UNCLOS obriga os Estados que a aceitaram. O Brasil a ratificou em 22 de dezembro de 1988 e Omã, que divide o estreito de Ormuz com o Irã, em 17 de agosto de 1989 10. Não consegui confirmar em fonte oficial a situação do Irã e dos Estados Unidos, e por isso o artigo não afirma se a regra os vincula diretamente em Ormuz. Esse ponto exige consulta à lista de partes da ONU.
Críticas e limites da lente
A leitura realista é útil para entender por que Estados gastam com marinhas e disputam bases perto de passagens. Mas ela tem limites, e outras escolas os apontam.
- Leitura liberal. Dá peso às regras e à interdependência: todos os usuários perdem quando a passagem fecha, e a UNCLOS proíbe a suspensão da passagem em trânsito pelos Estados que são partes dela 5. Pelos dados da EIA, o fluxo em Ormuz caiu em 2026 3; pela Lloyd's, o tráfego não parou por completo 4. Se a regra se aplica a cada parte do conflito é questão que depende de quem ratificou a Convenção (veja acima) e que este artigo não resolve.
- Limite dos dados. Os números de 2026 são estimativas revistas, e a EIA avisa que os sinais de rastreio ficaram pouco confiáveis 3. Uma única fonte comercial, como a Lloyd's List, não substitui estatística oficial.
- Substitutos existem. O petróleo desviado por oleodutos e as rotas alternativas, como a do Cabo da Boa Esperança, reduzem, mas não eliminam, o efeito de um bloqueio 12.
O Brasil neste tabuleiro
Este artigo não mede quanto o Brasil depende de cada passagem. Não consegui abrir dados oficiais (Comex Stat, do MDIC, ou ANP) sobre as rotas e os destinos do comércio exterior brasileiro nem sobre a origem dos combustíveis e fertilizantes importados, e por isso não afirma quais gargalos pesam mais para o país nem como os preços chegam ao câmbio. Quem quiser medir isso pode filtrar o Comex Stat por via de transporte e país de destino.
O que as fontes permitem dizer é mais estreito. Primeiro, o Brasil é parte da UNCLOS desde 22 de dezembro de 1988 10. Segundo, a EIA relata que o desvio de navios de petróleo e gás para evitar o mar Vermelho levou a mais tráfego pelo Cabo da Boa Esperança, de 6,2 para 9,3 milhões de barris por dia entre 2023 e 2024 1. O Cabo fica no extremo sul da África, na borda do Atlântico Sul, o mesmo oceano que banha o Brasil. Terceiro, o episódio do Panamá mostra como uma restrição de passagem pode mexer em frete: o do GLP subiu a um recorde em 2023 e caiu em janeiro de 2024, quando as vagas aumentaram 8. Para o conceito de poder marítimo aplicado ao país, veja O realismo pensado no Brasil: de Travassos a Fiori, o país lido pelo poder e Agronegócio como trunfo geopolítico: o que é, como funciona o argumento e quais são os limites.
Perguntas frequentes
Por onde passa mais petróleo: Ormuz ou Malaca?
Em 2024, a EIA estimou cerca de 22,5 milhões de barris por dia em Malaca e cerca de 20,7 milhões em Ormuz 1. As duas ordens de grandeza são parecidas; o que muda é o destino: Ormuz concentra o petróleo e o gás saídos do Golfo, e Malaca liga o Índico ao Pacífico.
O que aconteceu com o tráfego em Suez e no mar Vermelho?
Segundo a EIA, o petróleo que passou por Suez e pelo oleoduto SUMED caiu de 8,8 milhões de barris por dia em 2023 para 4,8 em 2024, e o de Bab el-Mandeb de 9,3 para 4,1 1. No segundo trimestre de 2026, a EIA estimou 8,1 milhões em Bab el-Mandeb 3.
Um país pode fechar um estreito internacional?
Pela UNCLOS, os Estados à margem de um estreito de navegação internacional não podem suspender a passagem em trânsito 5. A regra obriga os Estados que ratificaram a Convenção 10. Em Ormuz, em 2026, o fluxo medido pela EIA caiu e a Lloyd's registra ataques e bloqueios 34. Para a leitura realista, regras como essa dependem de quem tem força para fazê-las valer; é uma interpretação dessa escola, não um dado.
Por que o canal do Panamá sofreu com a seca?
O canal depende da água do lago Gatún, que em 2023 teve o menor nível desde ao menos 1965. Por isso o número de passagens por dia foi reduzido 8.
O petróleo pode dar a volta em Ormuz?
Em parte. A EIA estimou em 2025 que cerca de 2,6 milhões de barris por dia poderiam ir por oleodutos sauditas e emiradenses, contra cerca de 20 milhões que passam pelo estreito 2.
Para fechar
Gargalos marítimos reúnem geografia, dinheiro e poder: o que passa por eles, quem os vigia e quem pode pagar por um caminho alternativo. A lente realista ajuda a entender por que os Estados disputam essas passagens, e o direito do mar lembra que há regras. Os dados de 2026 sobre Ormuz são preliminares e mudam; antes de usar qualquer número, confira a data e a fonte. Para o quadro teórico, veja Realismo nas Relações Internacionais: o que é, de onde vem e como explica a disputa entre países.
Verbetes do glossário: Petróleo Brent Frete
Fontes
- U.S. Energy Information Administration (EIA): World Oil Transit Chokepoints (atualizada em 3 de março de 2026) · consultado em 24/10/2026
- EIA, Today in Energy: Strait of Hormuz (16 de junho de 2025) · consultado em 24/10/2026
- EIA, Short-Term Energy Outlook, artigo sobre segurança energética e gargalos (página da edição de 6/10/2026; tabelas de gargalos da edição de agosto de 2026) · consultado em 24/10/2026
- Lloyd's List Intelligence: Strait of Hormuz Brief, 22 de outubro de 2026 · consultado em 24/10/2026
- Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (UNCLOS), Parte III: Estreitos usados para a navegação internacional, arts. 37, 38 e 44 · consultado em 24/10/2026
- Office of the Historian (Departamento de Estado dos EUA): The Suez Crisis, 1956 · consultado em 24/10/2026
- Office of the Historian (Departamento de Estado dos EUA): The Panama Canal Treaties, 1977-1979 · consultado em 24/10/2026
- EIA, Today in Energy: Panama Canal drought (21 de fevereiro de 2024) · consultado em 24/10/2026
- A. T. Mahan, The Influence of Sea Power Upon History, 1660-1783 (1890), cap. I, Project Gutenberg nº 13529 · consultado em 24/10/2026
- ONU, Divisão de Assuntos Oceânicos: Chronological lists of ratifications of, accessions and successions to the Convention (UNCLOS) · consultado em 24/10/2026
Para ler mais
- Alfred Thayer Mahan, The Influence of Sea Power Upon History, 1660-1783 (1890). Clássico que explica por que posições geográficas, portos e estreitos pesaram na ascensão de potências marítimas.
- Tim Marshall, Prisoners of Geography (2015). Em português: Prisioneiros da Geografia. Mostra, em linguagem de divulgação, como relevo, mares e passagens limitam as escolhas dos países.
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Escrito em 24/10/2026 · checado em 24/10/2026 · versão 3