Stablecoins: o que são, como funcionam e quais os riscos
O que é
Stablecoin é um criptoativo desenhado para manter o valor atrelado a outro ativo, como uma moeda, uma mercadoria ou outro criptoativo. O nome junta "stable" (estável) e "coin" (moeda). A ideia é oferecer a tecnologia dos criptoativos, com registro em rede e transferência rápida, sem a oscilação de preço de um bitcoin 4. Se o termo bitcoin é novo para você, veja o verbete sobre Bitcoin e cripto.
Os exemplos mais conhecidos, como o USDT e o USDC, são atrelados ao dólar americano 4. Cada unidade busca valer perto de US$ 1. Quem detém o ativo pode, em teoria, trocá-lo ("resgatá-lo") pelo ativo de referência 4.
"Stablecoin" é um nome criado pelo mercado, sem definição consensual no meio acadêmico ou jurídico 4. No Brasil, a Resolução BCB 520 usa o termo para um ativo virtual lastreado em ativos de reserva, criado para manter o valor vinculado a uma referência 2.
Como funciona
O mecanismo mais comum é o da stablecoin lastreada em moeda. Uma empresa emissora recebe dólares, guarda reservas e emite o mesmo número de unidades. Em geral, ela se compromete a resgatar cada unidade na proporção de 1 para 1 4.
O caminho tem quatro passos:
- O cliente entrega dinheiro ao emissor ou a uma plataforma que atua em nome dele.
- O emissor cria as unidades digitais e as registra numa rede.
- As unidades circulam: são trocadas, enviadas e guardadas em carteiras digitais.
- No resgate, o emissor recebe as unidades de volta, as retira de circulação e devolve o valor de referência.
O risco principal, nesse modelo, é a confiança no emissor. A estrutura depende de uma entidade centralizada que mantém as reservas e honra o resgate 4.
Tipos de stablecoin
O trabalho jurídico publicado no site do Banco Central descreve três formatos 4:
- Lastreadas em moeda ou ativos equivalentes: o emissor mantém reservas, como as atreladas ao dólar descritas acima. O risco central é o da contraparte, isto é, o emissor.
- Algorítmicas: não há reserva equivalente. Um programa de computador emite ou retira unidades conforme a procura, para tentar manter a paridade. O risco central é o funcionamento da tecnologia e dos incentivos.
- Privadas ou institucionais: emitidas por empresas ou bancos para uso dentro de uma mesma rede, como a movimentação de fundos entre clientes.
O mesmo trabalho cita o colapso do TerraUSD/LUNA e a falência da FTX como crises recentes que mostraram a necessidade de regulação e supervisão sobre a paridade 4.
Na prática: o que a reserva de 1 para 1 significa
Uma conta mostra a lógica da cobertura. Os números abaixo são hipotéticos, não são dados de nenhum emissor.
Suponha que um emissor tenha 1.000.000 de unidades em circulação.
- Se ele mantém US$ 1.000.000 em reservas, a cobertura é 1.000.000 ÷ 1.000.000 = 100%. Em tese, todas as unidades podem ser resgatadas a US$ 1.
- Se as reservas caíssem para US$ 950.000, a cobertura seria 950.000 ÷ 1.000.000 = 95%. Se todos pedissem resgate ao mesmo tempo, faltariam US$ 50.000, e o valor de cada unidade ficaria, em média, abaixo de US$ 1.
Esse efeito explica por que a composição e a liquidez da reserva importam tanto. Um trabalho do FMI, citado em 4, aponta o risco de liquidez e de descasamento da paridade, com possibilidade de "corrida" ao emissor, como destaque entre os riscos.
Para o investidor brasileiro, soma-se o câmbio. Uma stablecoin atrelada ao dólar acompanha a cotação do dólar em reais. Se o dólar vale R$ 5,00 (valor hipotético), 100 unidades equivalem a R$ 500,00; se subir para R$ 5,20, equivalem a R$ 520,00, e se cair para R$ 4,80, a R$ 480,00. O exemplo é uma ilustração, não projeção.
Stablecoin, bitcoin e real digital: o que muda
| Característica | Stablecoin lastreada em moeda | Bitcoin | Moeda digital de banco central (CBDC) |
|---|---|---|---|
| Quem emite | Empresa privada 4 | Rede descentralizada, sem emissor central 4 | Banco central 4 |
| Valor | Busca ficar perto do ativo de referência 4 | Varia conforme a oferta e a procura | Fixado pela moeda do país emissor 4 |
| Risco principal | Emissor, reserva e resgate 4 | Variação de preço | Depende do desenho de cada país |
Em termos jurídicos, o trabalho consultado afirma que criptomoedas não são "moeda" no Brasil, porque o único meio com poder liberatório é o real 4. Stablecoin, portanto, não substitui o dinheiro em reais para pagar obrigações.
Riscos e limitações
Aspectos citados como vantagens de uso (e seus limites):
- Transferência rápida: a tecnologia permite trocas quase instantâneas e custo menor em pagamentos entre países 4. O limite é a complexidade: o trabalho consultado descreve a tecnologia como pouco amigável ao usuário 4.
- Menor oscilação que outros criptoativos: a paridade com uma referência torna o ativo, em princípio, menos volátil que o bitcoin 4. Menos volátil não é sem risco: a paridade pode se romper.
Riscos:
- Perda da paridade: o preço pode se afastar da referência se a reserva for insuficiente ou se o resgate travar 4. Pode haver perda de capital.
- Risco do emissor: nos modelos centralizados, tudo depende de quem mantém a reserva 4.
- Risco de fraude e de falha operacional: o trabalho cita fraudes, falhas das infraestruturas de tecnologia e vulnerabilidade de consumidores e investidores 4.
- Risco cambial: o valor em reais muda com a cotação do dólar, como no exemplo acima.
- Risco regulatório: as regras mudaram em 2025 e 2026 e podem mudar de novo.
Regras no Brasil e quem fiscaliza
Lei 14.478/2022. A lei definiu ativo virtual como a representação digital de valor que pode ser negociada ou transferida por meios eletrônicos e usada para pagamentos ou com propósito de investimento, com exceções como moeda nacional e estrangeira e valores mobiliários (art. 3º) 4. Ativos que sejam valores mobiliários seguem sob a competência da CVM (Comissão de Valores Mobiliários) 4. O Parecer de Orientação CVM 40, de 2022, cita as stablecoins como exemplo de token referenciado em ativo e diz que, conforme as características, elas podem caber em mais de uma categoria; só se for valor mobiliário a CVM regula 4.
Banco Central, serviços de ativos virtuais. A Resolução BCB 520 disciplina as sociedades prestadoras de serviços de ativos virtuais, como intermediação e custódia, e exige autorização do Banco Central para iniciar os serviços 2. A norma entrou em vigor em 2 de fevereiro de 2026 2. Quem já operava tinha até 270 dias, em geral até 30 de outubro de 2026, para pedir autorização; quem não pedisse deveria encerrar o serviço em até 30 dias depois 2.
Banco Central, câmbio. A Resolução BCB 521 inclui no mercado de câmbio quatro atividades com ativos virtuais 1:
- pagamento ou transferência internacional com ativos virtuais;
- transferência de ativo virtual para cumprir obrigação de uso internacional de cartão ou outro meio de pagamento;
- transferência de ou para carteira autocustodiada, nos casos que a norma lista;
- compra, venda ou troca de ativos virtuais referenciados em moeda fiduciária (a moeda oficial de um país), que é o caso das stablecoins atreladas ao dólar 1.
A norma também veda a compra ou venda de ativos virtuais com pagamento ou recebimento em moeda estrangeira (art. 76-A, § 2º) 1. Para sociedades prestadoras, há limite de US$ 100 mil por operação quando a contraparte não é instituição autorizada a operar em câmbio 1. Os dispositivos valem desde 2 de fevereiro de 2026, com envio mensal de informações ao Banco Central a partir de 4 de maio de 2026 1. Para o que é câmbio, veja Câmbio (dólar).
Receita Federal. A Instrução Normativa RFB 2.291/2025 criou a Declaração de Criptoativos (DeCripto) e revoga a IN RFB 1.888/2019 a partir de 1º de julho de 2026 5. Prestadoras brasileiras informam as operações; pessoas físicas informam as operações feitas fora delas quando passam de R$ 35.000,00 por mês 5.
IOF e Imposto de Renda. Classificar uma operação como câmbio não define sozinho o imposto. As alíquotas do IOF estão em decreto (veja IOF: o que é, quando incide e quanto custa em crédito, câmbio e resgates). Em 24 de outubro de 2026, não confirmei em fonte oficial uma norma que fixe IOF específico para stablecoins. A regra em vigor depende de decreto; consulte o texto atual antes de concluir qualquer coisa. O tratamento do Imposto de Renda sobre ganhos com criptoativos também deve ser conferido na Receita Federal.
O que não é garantido. As resoluções 520 e 521 regulam quem presta o serviço e como a operação é registrada. O texto lido não cria seguro nem garantia pública sobre o valor ou o resgate de uma stablecoin 12.
Referência internacional. Nos Estados Unidos, o GENIUS Act, sancionado em 18 de julho de 2025, exige reservas de pelo menos 1 para 1, política pública de resgate e divulgação mensal da composição das reservas, e limita quem pode emitir stablecoins de pagamento 3. É lei americana e não vale no Brasil.
Perguntas frequentes
Stablecoin é o mesmo que real digital?
Não. A moeda digital de banco central é emitida pelo banco central e é lastreada na moeda do país 4. A stablecoin é, em regra, emitida por empresa privada e busca manter o valor de uma referência 4.
Comprar stablecoin no Brasil é operação de câmbio?
Segundo a Resolução BCB 521, a compra, venda ou troca de ativos virtuais referenciados em moeda fiduciária entra no mercado de câmbio, desde 2 de fevereiro de 2026 1. O efeito tributário depende de decreto e deve ser conferido à parte.
O que acontece se a stablecoin perde a paridade?
Cada unidade passa a valer menos que a referência, o que causa perda para quem a detém. Em modelos centralizados, a causa típica é reserva insuficiente ou falha no resgate 4. Nas crises citadas, como TerraUSD/LUNA, a falha atingiu a paridade 4.
Stablecoin precisa ser declarada à Receita?
A IN RFB 2.291/2025 prevê que prestadoras brasileiras informem as operações e que pessoas físicas informem operações fora delas acima de R$ 35.000,00 por mês 5. O texto lido não trata a stablecoin separadamente; confira a norma e o programa da Receita.
Para fechar
Stablecoin é a tentativa de unir a tecnologia dos criptoativos à estabilidade de uma moeda. A estabilidade, porém, não vem da tecnologia: vem da reserva, do emissor e das regras. No Brasil, o Banco Central passou a tratar as stablecoins atreladas a moeda estrangeira dentro do câmbio, e as regras seguem em mudança. Para entender melhor o mercado de câmbio, veja Câmbio (dólar) e IOF: o que é, quando incide e quanto custa em crédito, câmbio e resgates.
Verbetes do glossário: Bitcoin e cripto Câmbio (dólar)
Fontes
- Banco Central do Brasil: Resolução BCB nº 521, de 10 de novembro de 2025 (altera as regras de câmbio, Res. BCB 277/2022) · consultado em 24/10/2026
- Banco Central do Brasil: Resolução BCB nº 520, de 10 de novembro de 2025 (sociedades prestadoras de serviços de ativos virtuais) · consultado em 24/10/2026
- Estados Unidos: Public Law 119-27, GENIUS Act (govinfo.gov) · consultado em 24/10/2026
- MELLO, J. L. H.; CEITLIN, L. F.; MESQUITA, F. Stablecoins: uma análise jurídico-regulatória a partir das suas funcionalidades (trabalho publicado no site do Banco Central, eixo Tokenização; citação da Lei 14.478/2022, art. 3º, e do Parecer CVM 40) · consultado em 24/10/2026
- Receita Federal: Instrução Normativa RFB nº 2.291, de 14 de novembro de 2025 (DeCripto), texto reproduzido por Lex · consultado em 24/10/2026
Receba o Brief Brasil todo dia às 7h
O resumo do dia, com a fonte de cada informação. Você confirma o e-mail e pode sair quando quiser.
Como este artigo é feito
Os artigos da Enciclopédia são escritos a partir de fontes oficiais brasileiras (CVM, B3, Banco Central, Tesouro Nacional, Receita Federal) e de livros-texto abertos. Cada número, data, regra e imposto é conferido contra essas fontes antes da publicação. Dados que mudam com o tempo trazem a data. Achou um erro? Escreva para o contato do site.
Conteúdo educativo. Não é recomendação de investimento, nem oferta de compra ou venda de qualquer ativo.
Escrito em 24/10/2026 · checado em 24/10/2026 · versão 1