Tecnologia e semicondutores: por que os chips viraram tema de poder entre os países
O que é
Semicondutor é um material, como o silício, que conduz eletricidade de um jeito controlável: ora deixa a corrente passar, ora bloqueia. Chip é o circuito minúsculo feito sobre esse material, com bilhões de interruptores. Chips executam cálculos (processadores), guardam dados (memórias) e controlam energia.
Estão em celulares, carros, aparelhos médicos, redes de telecomunicação e sistemas militares. Por isso, os governos tratam a capacidade de projetar e fabricar chips como assunto de segurança e de poder, e não só de indústria. O governo dos Estados Unidos da América, por exemplo, justificou em 2022 suas restrições à China citando usos militares desses itens 2.
Este artigo usa a lente do realismo, a corrente das Relações Internacionais para a qual os Estados disputam segurança e poder num mundo sem governo acima deles 3. O artigo Realismo nas Relações Internacionais: o que é, de onde vem e como explica a disputa entre países explica essa lente.
De onde vem a ideia
Ligar a força militar de um Estado à sua base econômica é uma ideia com história. Em The Influence of Sea Power upon History (1890), o oficial naval americano Alfred Thayer Mahan sustenta que o poder naval inclui não só a frota de guerra, mas também o comércio e a navegação pacíficos de onde, segundo ele, a frota nasce e em que se apoia (capítulo I, "Discussion of the Elements of Sea Power") 11. Mahan não escreveu sobre chips; o ponto é que a base produtiva faz parte do poder.
No século XX, Kenneth Waltz, em Theory of International Politics (1979), deu forma à versão estrutural do realismo. Segundo a Stanford Encyclopedia of Philosophy, Waltz afirma que, sob anarquia, os Estados temem que os ganhos de uma cooperação beneficiem mais o outro, e que a segurança tende a pesar mais que o ganho econômico 3. A enciclopédia também registra a frase de Waltz de que os Estados "não se colocam de bom grado em situações de maior dependência" (tradução nossa) 3.
A aplicação desse raciocínio aos chips é uma leitura nossa, que se apoia nos fatos das seções seguintes. A entrada da enciclopédia sobre realismo não trata de tecnologia 3.
Como funciona o argumento realista
O argumento tem quatro passos, todos descritos por Waltz segundo a Stanford Encyclopedia 3:
- Anarquia. Não há autoridade acima dos Estados que garanta a segurança de cada um.
- Autoajuda. Cada Estado cuida da própria sobrevivência, e os Estados se distinguem sobretudo pelo que são capazes de fazer.
- Ganhos desiguais. A cooperação é limitada porque cada lado teme que o outro lucre mais.
- Segurança acima do ganho econômico. Em caso de conflito, o interesse político e de segurança tende a se sobrepor ao lucro.
Aplicada aos chips, a pergunta é: se um país depende de outro para obter um componente de que precisa para a economia e para as Forças Armadas, o fornecedor tem poder sobre ele? Na leitura realista, a resposta tende a ser sim, e por isso os Estados buscariam reduzir a dependência. É uma leitura, não um fato medido; a seção de críticas mostra o outro lado.
Como funciona a cadeia dos chips
A fabricação de um chip passa por etapas, e cada uma tende a se concentrar em países diferentes. Segundo o relatório R47558 do Congressional Research Service (CRS, órgão de pesquisa do Congresso dos EUA), de 2023, descreve etapas como 1:
- Projeto. Muitas empresas americanas só projetam os chips e contratam fábricas de terceiros, em geral na Ásia Oriental 1.
- Materiais e equipamentos. O Japão tinha cerca de 35% dos equipamentos e cerca de 50% dos materiais de semicondutores. A empresa ASML, dos Países Baixos, era a única produtora das máquinas de litografia ultravioleta extrema, usadas nos chips mais avançados 1.
- Fabricação. Taiwan concentrava quase 90% da produção de chips semicondutores de ponta em grande escala, e o relatório a descreve como principal fonte dos EUA para chips lógicos de ponta. A Coreia do Sul era a principal fonte de memórias de ponta 1.
- Montagem, encapsulamento e teste. Malásia e Singapura são descritas como um centro global dessa etapa 1.
O mesmo relatório diz que os EUA tinham apenas uma pequena parcela da capacidade de fabricação mais avançada 1. A Europa respondia por cerca de 10% das vendas mundiais de semicondutores 1. Um artigo acadêmico português de 2024 destaca que as cadeias globais de valor são centrais para a produção de semicondutores 10.
Número: em 2023, segundo o CRS, quase 90% da produção de chips semicondutores de ponta em grande escala estava em Taiwan 1. É dado de 2023; a distribuição muda com novas fábricas.
Exemplos na história recente
Os controles dos EUA (outubro de 2022). Em 7 de outubro de 2022, o Departamento de Comércio dos EUA anunciou restrições à exportação para a China de chips avançados de computação, de equipamentos para fabricar semicondutores e do apoio de cidadãos americanos a certas fábricas chinesas 2. Os limites técnicos incluíam lógica de 16/14 nanômetros ou menos, memória DRAM de 18 nm ou menos e memória NAND de 128 camadas ou mais 2. A justificativa declarada foi proteger a segurança nacional, com o argumento de que os itens podem servir a sistemas militares avançados 2. Esse é o motivo que o governo americano deu; o artigo não o avalia.
O subsídio americano (2022). A lei CHIPS and Science, de 2022, destinou US$ 52,7 bilhões entre os anos fiscais de 2022 e 2027, para incentivos à produção, pesquisa e outros fundos 1. Na leitura realista, é a tentativa de um Estado de reduzir a dependência de um fornecedor estrangeiro, coerente com a ideia de Waltz de que os Estados não buscam de bom grado maior dependência 3. A leitura rival está na seção de críticas.
O acordo de setembro de 2026. Segundo a imprensa, EUA e China anunciaram em 26 de setembro de 2026 um corte de tarifas sobre cerca de US$ 30 bilhões em mercadorias, em geral não sensíveis. Tarifas, compras chinesas, terras raras e restrições tecnológicas ficaram para novas rodadas, e a trégua comercial foi prorrogada por dois meses além de novembro 7. A reportagem não cita chips ao falar das restrições tecnológicas 7. A China, que tinha imposto controles à exportação de terras raras (minerais usados na indústria) em resposta às tarifas americanas, e os EUA seguem negociando o nível dos embarques 7. A reportagem não detalha as regras sobre chips.
Críticas e limites
O realismo é uma lente, não a única explicação. As objeções principais:
- Liberalismo. Robert Keohane e Joseph Nye propuseram o conceito de "interdependência complexa". Keohane (1989) argumenta que a cooperação econômica e as instituições podem ampliar a percepção que os Estados têm do próprio interesse 3. A cadeia dos chips ilustra esse ponto, porque cada etapa depende de outras, em vários países 1.
- Construtivismo. Alexander Wendt sustenta que a autoajuda (cada Estado cuidar de si) não decorre logicamente da anarquia, mas é construída socialmente 3. Nessa leitura, a "disputa por chips" depende também de como os governos se enxergam.
- Limites do modelo. A distribuição da produção muda com decisões de empresas e governos. O número de 2023 do CRS não diz como será a divisão em 2030 1.
- Custos e dúvidas. Subsídios e restrições têm custo e efeitos incertos. Este artigo não os mede, e as fontes abertas consultadas não permitem concluir se as restrições atingiram seu objetivo.
O Brasil neste tabuleiro
O Brasil não aparece entre os grandes polos da cadeia descrita pelo CRS 1. Uma reportagem de fevereiro de 2026 diz que o país não tem a etapa de fabricação dos chips (front-end), concentrada em Taiwan, Coreia do Sul, China e outros, e que a indústria nacional encapsula cerca de 200 milhões de chips por ano 6.
Incentivo fiscal. A Lei 11.484/2007 criou o Programa de Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico da Indústria de Semicondutores (Padis) 4. A empresa precisa investir em pesquisa e desenvolvimento e ser habilitada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação 4. Entre os benefícios, estão alíquota zero de PIS/Cofins, IPI, Imposto de Importação e AFRMM (adicional ao frete da marinha mercante) em operações previstas na lei, e redução de 100% do IRPJ sobre o lucro da venda dos dispositivos cobertos, com condições previstas na lei, como contabilidade separada e reserva de capital (art. 4º) 4. Em troca, a empresa investe em pesquisa e desenvolvimento o equivalente a 5% do faturamento incentivado; o Executivo pode alterar esse percentual, com mínimo de 2% (art. 6º, § 4º) 4. A Lei 14.968/2024 reformulou o regime, em vigor desde 1º de janeiro de 2025 4. O texto da lei muda; confira a versão atualizada na fonte.
A estatal Ceitec. O Ceitec, estatal federal com sede em Porto Alegre, foi criado em 2008 6. Segundo a reportagem de 2026, desenhava chips e os enviava para fabricação no exterior, e nunca chegou a fabricá-los de verdade 6. Em dezembro de 2024, o governo federal anunciou R$ 220 milhões, em três parcelas, para produzir em escala chips de carbeto de silício, usados em painéis solares e veículos elétricos 5. Segundo a reportagem de 2026, o Ceitec projetava chips, mandava fabricá-los no exterior e os importava para encapsular; a produção de carbeto de silício estava prevista para o segundo semestre de 2026, e uma estimativa citada pela reportagem põe em US$ 200 milhões o investimento em carbeto de silício e em US$ 2 bilhões o de atualizar a fábrica para silício 6. Não achei fonte oficial aberta que confirme se a linha de carbeto de silício já está em operação em outubro de 2026.
Perguntas frequentes
O que é um semicondutor?
É um material, como o silício, que conduz eletricidade de forma controlável. Chips são circuitos feitos com ele. O CRS descreve a cadeia dos chips em etapas de projeto, materiais, fabricação e teste 1.
Quem fabrica os chips mais avançados?
Em 2023, segundo o CRS, quase 90% da produção em grande escala de chips semicondutores de ponta estava em Taiwan 1. Essa distribuição pode mudar com novas fábricas.
O que os EUA restringiram à China em 2022?
O Departamento de Comércio limitou a exportação de chips avançados, de equipamentos de fabricação e do apoio de cidadãos americanos a certas fábricas chinesas, citando segurança nacional 2.
O Brasil fabrica chips?
Segundo reportagem de fevereiro de 2026, o Brasil não tem a etapa de fabricação (front-end), mas encapsula chips, cerca de 200 milhões por ano 6. O Ceitec planejava iniciar a produção de chips de carbeto de silício no segundo semestre de 2026 6.
O que é o Padis?
É o programa criado pela Lei 11.484/2007, com incentivos fiscais para empresas que investem em pesquisa e desenvolvimento e atuam em semicondutores e outras áreas previstas na lei 4.
Para fechar
A disputa por chips mostra como tecnologia, comércio e segurança se misturam: a cadeia é dividida entre países 1, e, na leitura realista, quem controla uma etapa teria influência sobre as demais. O limite da leitura realista é que a mesma cadeia obriga a cooperar, e os fatos mudam rápido, como mostra o acordo de setembro de 2026, que deixou as restrições tecnológicas para novas rodadas, sem que a reportagem cite chips 7. Para o Brasil, a pergunta é que lugar ocupar numa cadeia em que hoje atua sobretudo no encapsulamento 6. Veja também A nova Guerra Fria entre EUA e China: o que é, de onde vem e o que significa para o Brasil e Realismo nas Relações Internacionais: o que é, de onde vem e como explica a disputa entre países.
Fontes
- Congressional Research Service (CRS), Semiconductors and the CHIPS Act: The Global Context, relatório R47558, 28/09/2023 (cópia no EveryCRSReport) · consultado em 24/10/2026
- Bureau of Industry and Security (Departamento de Comércio dos EUA): Commerce Implements New Export Controls on Advanced Computing and Semiconductor Manufacturing Items to the PRC (07/10/2022) · consultado em 24/10/2026
- Stanford Encyclopedia of Philosophy: Realism in International Relations · consultado em 24/10/2026
- Lei nº 11.484, de 31 de maio de 2007 (texto atualizado), Câmara dos Deputados: Legislação Informatizada · consultado em 24/10/2026
- Extra Classe: Única fabricante de microchips do país, Ceitec terá investimentos de R$ 220 milhões (06/12/2024) · consultado em 24/10/2026
- Diário do Comércio (Folhapress, Patrícia Campos Mello): Esperança do Brasil de ser primeiro fabricante de chips na América Latina nunca se concretizou (14/02/2026) · consultado em 24/10/2026
- Gazeta do Povo: EUA e China cortam tarifas e ampliam acordo sobre I.A. (26/09/2026) · consultado em 24/10/2026
- Martins Fontes Paulista: A guerra dos chips, de Chris Miller (Globo Livros, 2023), ficha do livro · consultado em 24/10/2026
- Mural Internacional (UERJ): resenha de A caminho da guerra, de Graham Allison (Intrínseca, 2020) · consultado em 24/10/2026
- Pedro Miguel Beirão Pereira, Desafios Geopolíticos da Indústria de Semicondutores, Nação e Defesa, n. 167 (2024), resumo; página publicada em 07/02/2025 · consultado em 24/10/2026
- Alfred Thayer Mahan, The Influence of Sea Power upon History, 1660-1783 (1890), capítulo I, "Discussion of the Elements of Sea Power" (domínio público; cópia local em data/fontes-geopolitica) · consultado em 24/10/2026
- Belfer Center (Harvard Kennedy School): Destined for War: Can America and China Escape Thucydides's Trap? (Houghton Mifflin Harcourt, 30/05/2017), ficha e resumo do livro · consultado em 24/10/2026
- Google Livros: Chip War: The Fight for the World's Most Critical Technology, de Chris Miller (Simon and Schuster/Scribner, 04/10/2022), ficha e sinopse · consultado em 24/10/2026
Para ler mais
- Chris Miller, Chip War: The Fight for the World's Most Critical Technology (2022). Em português: A guerra dos chips: A batalha pela tecnologia que move o mundo. Na edição da Globo Livros (2023), narra a disputa de décadas pelo controle dos chips e como a produção se deslocou para Taiwan, Coreia do Sul e Europa.
- Graham Allison, Destined for War: Can America and China Escape Thucydides's Trap? (2017). Em português: A caminho da guerra: Os Estados Unidos e a China conseguirão escapar da Armadilha de Tucídides?. Na edição da Intrínseca (2020), examina a rivalidade entre EUA e China com casos históricos de potências em ascensão, e defende que a guerra não é inevitável.
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Escrito em 24/10/2026 · checado em 24/10/2026 · versão 4