A nova Guerra Fria entre EUA e China: o que é, de onde vem e o que significa para o Brasil
O que é
"Nova Guerra Fria" é a expressão que muitos analistas usam para a disputa de longo prazo entre os Estados Unidos da América e a República Popular da China. A rivalidade envolve tecnologia, comércio, capacidade militar e influência sobre outros países.
A expressão é uma analogia. Ela compara o momento atual à Guerra Fria original, a disputa entre Estados Unidos e União Soviética no século XX, que a literatura realista descreve como um sistema bipolar, com dois polos de poder 1. Nem todo especialista aceita a comparação, e a seção sobre críticas mostra por quê.
Este artigo usa a lente do realismo, a corrente das Relações Internacionais para a qual os Estados disputam poder e segurança num mundo sem governo acima deles 1. O artigo Realismo nas Relações Internacionais: o que é, de onde vem e como explica a disputa entre países explica essa lente em detalhe.
De onde vem a ideia
A raiz da leitura é um texto de cerca de 2.400 anos. Tucídides, ao contar a guerra entre Atenas e Esparta, escreveu que o crescimento do poder de Atenas e o alarme que isso causou em Esparta tornaram a guerra inevitável 2.
O professor americano Graham Allison (Universidade Harvard) deu a esse padrão o nome de Armadilha de Tucídides: a tensão estrutural que surge quando uma potência em ascensão desafia a potência dominante 3. Ele expandiu a ideia no livro Destined for War (2017), publicado no Brasil em 2020 com o título A caminho da guerra 11. A literatura sobre o tema também cita Kenneth Waltz, que em 1979 via o sistema bipolar entre EUA e URSS como estável e duradouro; o fim da União Soviética mostrou que essa previsão estava errada 1.
Como funciona o argumento
O raciocínio realista pode ser montado em quatro passos.
- A distribuição de poder muda. Uma economia cresce mais rápido que outra, e a diferença entre elas encolhe. Na leitura da Armadilha de Tucídides, essa mudança cria uma tensão estrutural entre a potência que sobe e a que já domina 3.
- A potência estabelecida teme perder posição. Ela tenta equilibrar o poder do desafiante, para dissuadir uma possível agressão 1.
- A potência em ascensão quer mais espaço. Para o realismo ofensivo, de John Mearsheimer, grandes potências buscam maximizar poder 1.
- Cada gesto de defesa parece ameaça ao outro lado. Esse é o dilema de segurança, tratado em Anarquia internacional e autoajuda: o que são, de onde vêm e o que explicam.
As frentes da disputa, hoje, são quatro:
- Comércio e tarifas. Cada lado taxa produtos do outro. Em setembro de 2026, os dois anunciaram redução recíproca de tarifas sobre cerca de US$ 30 bilhões de bens cada, voltada a produtos considerados não sensíveis 6.
- Tecnologia. Controles de exportação, terras raras e inteligência artificial seguem na pauta. Segundo a imprensa, restrições tecnológicas ficaram para novas rodadas de negociação, e os presidentes concordaram em criar um canal de comunicação sobre incidentes de IA com risco à segurança 7.
- Força militar. Em 2025, segundo o SIPRI, os EUA gastaram cerca de US$ 954 bilhões, 33% do total mundial, com queda de 7,5% sobre 2024; a China gastou cerca de US$ 336 bilhões (estimativa), 12% do total, com alta de 7,4% 4. O gasto mede o que se destina à defesa, não o poder efetivo de cada país.
- Influência política. Taiwan segue sem solução, e Xi Jinping pediu "prudência" ao tratar do tema, segundo a imprensa 7.
Exemplos na história
Atenas e Esparta (431 a.C.). É o caso original. Tucídides liga a guerra ao crescimento de Atenas e ao medo de Esparta 2.
A Guerra Fria EUA–URSS (século XX). Waltz via dois polos e previa estabilidade duradoura; a União Soviética acabou antes do que o modelo previa 1. O caso mostra que modelos de estrutura ajudam a ler a disputa, mas não adivinham o desfecho.
Os 16 casos de Allison. O projeto do Belfer Center reuniu 16 casos de potência em ascensão contra potência dominante nos últimos 500 anos. A guerra ocorreu em 12 3. O próprio centro registra que, em 4 casos, o confronto armado não aconteceu 3. Os casos são os escolhidos pelo projeto de Allison; outro recorte poderia dar outra proporção.
O comércio de 2025 e a trégua de 2026. EUA e China trocaram cerca de US$ 415 bilhões em bens em 2025, segundo reportagem 8. Em setembro de 2026, anunciaram cortes de tarifas e prorrogaram a trégua comercial até 10 de janeiro de 2027, sem prazo definido para aplicar o acordo 67. Para o Bloomberg Economics, o efeito macroeconômico do corte é desprezível 8. Os exemplos mostram uma disputa em que cooperação e competição andam juntas.
Críticas e limites
O realismo é uma lente, não a única verdade. As principais objeções:
- Liberalismo. Robert Keohane e Joseph Nye propuseram a ideia de "interdependência complexa": comércio e instituições mudam a percepção do que é interesse próprio 1. Os US$ 415 bilhões em comércio de bens entre os dois países são o tipo de dado que liberais citam 8.
- Construtivismo. Alexander Wendt sustenta que a autoajuda não decorre logicamente da anarquia; ideias e identidades pesam 1.
- O limite da analogia. Em 4 dos 16 casos de Allison, não houve guerra 3. A Guerra Fria original foi uma disputa entre dois polos 1; a atual se dá entre duas economias que comerciam muito entre si 8, o que faz o rótulo esconder diferenças.
- Críticas ao próprio neorrealismo. A Stanford Encyclopedia registra que muitos críticos o veem como pouco apto a explicar mudanças, como o fim da ordem bipolar 1.
Allison, vale dizer, não afirma que a guerra é inevitável: o livro discute como evitá-la 11.
O Brasil neste tabuleiro
Em 2025, o Brasil exportou US$ 100,02 bilhões para a China, alta de 6,0% sobre 2024, o equivalente a cerca de 28,7% do total de US$ 348,7 bilhões (percentual calculado por nós). Para os Estados Unidos foram US$ 37,72 bilhões, queda de 6,6% (cerca de 10,8% do total) 5. Os números vêm de reportagem que reproduz a divulgação do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC); a série oficial completa, com o ranking de todos os destinos, está no Comex Stat.
Um estudo acadêmico de 2024 parte da hipótese de que a ascensão chinesa mudou a dinâmica econômica global e fez da China o principal parceiro comercial do Brasil. Os autores indicam que a cooperação sino-brasileira avança em comércio e em ciência e tecnologia, e que os dois países buscam equilibrar interesses num cenário competitivo 9.
A diplomacia brasileira tem uma ideia própria para esse tipo de situação: a autonomia, projeto de modernizar o país de modo compatível com o sistema capitalista internacional, formulado desde meados da década de 1950 por acadêmicos, políticos e diplomatas, segundo uma tese da UFSCar 10. A autonomia não é um conceito realista em si, mas conversa com temas realistas, como soberania e inserção internacional.
O acordo de setembro de 2026 toca produtos que o Brasil também vende: o acordo prevê reduzir tarifas chinesas sobre grãos, carnes e laticínios americanos, e a China manteve o compromisso de comprar 25 milhões de toneladas anuais de soja dos EUA até 2028 8. Este artigo não calcula o efeito disso sobre o Brasil.
Perguntas frequentes
Estados Unidos e China estão em guerra?
Não no sentido militar. A disputa se dá por tarifas, controles de exportação, tecnologia e influência. Em setembro de 2026 os dois governos anunciaram cortes de tarifas e um canal de comunicação sobre IA, além de negociar um memorando para melhorar a comunicação entre as Forças Armadas 7.
O que é a Armadilha de Tucídides?
É o padrão em que a ascensão de uma potência assusta a dominante e aumenta o risco de guerra 3. Dos 16 casos reunidos por Allison, 12 terminaram em guerra e 4 não 3.
A China já superou os Estados Unidos?
Depende do critério. Em gasto militar de 2025, os EUA somaram cerca de US$ 954 bilhões e a China, cerca de US$ 336 bilhões (estimativa) 4. Outros indicadores dão resultados diferentes, e este artigo não os compara.
Por que o Brasil vende mais para a China que para os Estados Unidos?
Em 2025, as exportações para a China somaram US$ 100,02 bilhões, contra US$ 37,72 bilhões para os Estados Unidos 5. O artigo não analisa as causas.
Para fechar
A "nova Guerra Fria" é uma lente que pergunta quem ganha poder, quem teme quem e o que cada Estado quer proteger. Seu limite é que EUA e China são, ao mesmo tempo, rivais e parceiros comerciais gigantes, e que a história oferece desfechos pacíficos e violentos. Para o Brasil, a questão prática é a convivência com as duas potências. Veja também Realismo nas Relações Internacionais: o que é, de onde vem e como explica a disputa entre países e O realismo pensado no Brasil: de Travassos a Fiori, o país lido pelo poder.
Fontes
- Stanford Encyclopedia of Philosophy: Realism in International Relations · consultado em 24/10/2026
- Tucídides, The History of the Peloponnesian War (trad. Richard Crawley), Project Gutenberg nº 7142, Livro I, § 23 (I.23, numeração moderna) · consultado em 24/10/2026
- Belfer Center (Harvard Kennedy School): Overview of the Thucydides Trap · consultado em 24/10/2026
- SIPRI Fact Sheet: Trends in World Military Expenditure, 2025 (abril de 2026) · consultado em 24/10/2026
- Poder360: Balança comercial atinge superávit de US$ 68,3 bi em 2025 (06/01/2026; dados divulgados pela Secretaria de Comércio Exterior do MDIC) · consultado em 24/10/2026
- Agência Brasil (Radioagência Nacional): Acordo entre EUA e China deve reduzir US$ 60 bilhões em tarifas (28/09/2026) · consultado em 24/10/2026
- Gazeta do Povo: EUA e China cortam tarifas e ampliam acordo sobre I.A. (26/09/2026) · consultado em 24/10/2026
- Bloomberg Línea: Trump e Xi aliviam guerra comercial com corte de tarifas sobre US$ 60 bi em produtos (28/09/2026) · consultado em 24/10/2026
- Sperancete, Gadelha e Racy, "A tradição diplomática brasileira e a relação estratégica entre Brasil e China à luz da obra de Samuel Pinheiro Guimarães", Oikos, v. 23, n. 1, 2024 · consultado em 24/10/2026
- André Luis Silva Eiras, Dinâmica da política externa brasileira: uma análise do conceito de autonomia (tese de doutorado, UFSCar, 2023) · consultado em 24/10/2026
- Mural Internacional (UERJ): resenha de A caminho da guerra, de Graham Allison (Intrínseca, 2020) · consultado em 24/10/2026
- Companhia das Letras: Sobre a China, de Henry Kissinger (Objetiva, 2011) · consultado em 24/10/2026
Para ler mais
- Tucídides, História da Guerra do Peloponeso (c. 400 a.C.). Em português: História da Guerra do Peloponeso (tradução de Mário da Gama Kury, Editora Universidade de Brasília, 1982). Narra o conflito entre Atenas e Esparta, ponto de partida da ideia de que a ascensão de um poder assusta o outro.
- Graham Allison, Destined for War: Can America and China Escape Thucydides's Trap? (2017). Em português: A caminho da guerra: Os Estados Unidos e a China conseguirão escapar da Armadilha de Tucídides? (Intrínseca, 2020). Compara a ascensão da China com casos históricos de potências em ascensão e examina cenários, sem afirmar que a guerra é inevitável.
- Henry Kissinger, On China (2011). Em português: Sobre a China (Objetiva, 2011). Relata a história da diplomacia chinesa e dos contatos do autor com líderes do país, de Nixon às reformas de Deng Xiaoping.
- John J. Mearsheimer, The Tragedy of Great Power Politics (2001). Apresenta o realismo ofensivo, segundo o qual grandes potências buscam maximizar seu poder; a edição atualizada (2014) discute a ascensão da China.
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Escrito em 24/10/2026 · checado em 24/10/2026 · versão 3