Tabuleiro TropicalSala de situação do Brasil

Território e geografia como poder: o que é, de onde vem e o que explica

O que é

Geografia como poder é a tese de que a localização e a forma do território de um Estado pesam na sua força e nas suas escolhas. Entram nessa conta a posição no mapa, o tamanho, o litoral, o relevo, o clima, os rios, as fronteiras e o controle de passagens obrigatórias, como estreitos e canais.

A tese pertence à tradição da geopolítica, que lê a política entre os Estados a partir do espaço. Ela convive com o realismo, escola das Relações Internacionais que enxerga os Estados disputando poder num sistema sem autoridade acima deles (veja Realismo nas Relações Internacionais: o que é, de onde vem e como explica a disputa entre países). Mas nem todo realista dá à geografia o mesmo peso. A Stanford Encyclopedia of Philosophy, por exemplo, trata a geografia só de passagem em seu verbete sobre o realismo 8.

Geografia não é destino. Ela dá o terreno do jogo: o que é fácil, o que é caro, o que é quase impossível. O que cada governo faz com isso depende de decisões, de recursos e de tecnologia.

De onde vem

A preocupação com o espaço é antiga, mas a formulação moderna é do fim do século XIX e do começo do XX.

Em 1890, Alfred Thayer Mahan, oficial naval americano, publicou The Influence of Sea Power upon History. No capítulo I, ele lista seis condições que afetam o poder marítimo de uma nação: posição geográfica; conformação física (que inclui produções naturais e clima); extensão do território; número da população; caráter do povo; e caráter do governo 1. Três das seis são de geografia.

Em 25 de janeiro de 1904, o geógrafo britânico Halford Mackinder leu na Royal Geographical Society o texto "The Geographical Pivot of History", impresso em abril daquele ano na The Geographical Journal 2. Ele argumentava que o centro da Eurásia, onde os rios não levam a mar aberto, era uma "área pivô" da política mundial 2.

Depois veio Nicholas Spykman, que propôs a teoria do Rimland, a faixa costeira da Eurásia, como complemento à de Mackinder, pensando na política externa dos Estados Unidos, segundo o resumo de um trabalho acadêmico da Unesp 3. Os livros dele e de Mackinder estão em "Para ler mais".

Como funciona o argumento

O raciocínio tem quatro passos:

  1. A geografia é estável. Governos mudam em anos; montanhas, rios e estreitos mudam em milênios.
  2. Ela distribui custos. Um país com fronteira terrestre aberta precisa de exército para se defender. Um país cercado de mar pode concentrar recursos na frota. Mahan escreve que quem não é obrigado a se defender por terra nem tentado a se expandir por terra tem, por isso, uma vantagem sobre quem tem fronteira continental 1.
  3. Ela cria pontos de estrangulamento. Quem controla ou ameaça uma passagem obrigatória influencia o comércio de terceiros. Mahan observa que o comércio da Holanda, da Suécia, da Rússia e da Dinamarca tinha de passar pelo Canal da Mancha, junto à costa inglesa, porque os veleiros costeavam a Inglaterra 1.
  4. A tecnologia reescreve o mapa. Mackinder escreveu que o interior da Eurásia, sem rios que levem ao oceano, favorecia a mobilidade de cavaleiros e camelos, que a descoberta do caminho marítimo ao redor da África deu vantagem às potências do mar e que as ferrovias passavam a favorecer de novo o poder terrestre. Ele notava que as ferrovias russas tinham um trecho contínuo de cerca de 6.000 milhas (Wirballen a Vladivostok) 2.

Importante: são hipóteses sobre o que a geografia torna provável, não leis. Cada caso depende também de economia, de política interna e de escolhas de governo.

Exemplos na história

Inglaterra e o Canal da Mancha (século XVII ao XVIII). Mahan atribui parte da força naval inglesa à posição: ilha, sem fronteira terrestre a defender, com a Holanda e as potências do norte de um lado, a França e o Atlântico do outro, e com o comércio do norte passando pela sua porta. A França, ao contrário, dividia a atenção entre terra e mar, e a Espanha perdeu em Gibraltar o controle do estreito 1. É a leitura de um oficial naval americano de 1890, e outros autores explicam o caso com mais peso para economia e instituições.

O fechamento do Escalda (1648). Mahan cita um caso em que a geografia virou instrumento de paz: como condição de paz, os holandeses exigiram em 1648 que o rio Escalda fosse fechado ao comércio marítimo. Isso fechou o porto de Antuérpia e transferiu o comércio marítimo da Bélgica para a Holanda 1.

O pivô de Mackinder (1904). O autor descreveu a Eurásia central como uma região fechada a navios, com rios que desaguam em lagos salgados ou no Ártico gelado. Em volta, via um "crescente interior" (Alemanha, Áustria, Turquia, Índia e China) e um "crescente exterior" (Grã-Bretanha, África do Sul, Austrália, Estados Unidos, Canadá e Japão) 2. Ele também afirmava que os cerca de 400 anos desde Colombo se encerravam por volta de 1900, porque quase todo o território já tinha dono, e que um choque num ponto passaria a repercutir no mundo todo 2.

O Canal de Suez (1956). Em 26 de julho de 1956, o presidente do Egito, Gamal Abdel Nasser, nacionalizou a Companhia do Canal de Suez, empresa anglo-francesa que operava o canal desde 1869 5. Em 29 de outubro, Israel atacou o Sinai, e dias depois tropas britânicas e francesas desembarcaram. Os Estados Unidos pressionaram por um cessar-fogo, marcado para 6 de novembro, e o primeiro-ministro britânico, Anthony Eden, renunciou em janeiro de 1957 5.

O Estreito de Ormuz (hoje). Segundo a Energy Information Administration (EIA), agência de estatística de energia dos Estados Unidos, cerca de 20 milhões de barris de petróleo por dia passaram pelo Estreito de Ormuz em 2024, perto de 20% do consumo mundial de líquidos de petróleo 4. A EIA estimava, em junho de 2025, que só cerca de 2,6 milhões de barris por dia poderiam seguir por oleodutos que contornam o estreito, em caso de interrupção 4. Para a relação entre energia e poder, veja Pré-sal e poder energético: o que é, como funciona e o que pesa no tabuleiro do Brasil.

Críticas e limites

A leitura geográfica tem defensores e críticos de peso parecido. Os pontos principais:

  • A tecnologia relativiza o espaço. O próprio Mackinder mostrou que ferrovias mudaram o valor do interior 2. Aviões, mísseis, satélites e redes de dados, que ele não conhecia, alteram de novo o que significa distância.
  • Instituições e interdependência. Robert Keohane, em 1989, defendeu que a cooperação econômica e as instituições internacionais podem ampliar o modo como os Estados definem o próprio interesse. Keohane e Joseph Nye falaram em "interdependência complexa" 8. Para esses autores, comércio e regras podem reduzir o peso da posição no mapa.
  • Construtivismo. Alexander Wendt sustenta que a lógica da anarquia é construída pelas práticas dos Estados, não dada. Se for assim, o que torna uma fronteira "ameaça" é também uma percepção 8.
  • O risco do determinismo. Explicar tudo pelo mapa ignora escolhas, instituições e acaso. Países com geografia parecida tiveram trajetórias bem diferentes.
  • Os defensores. A Stanford descreve o realismo como corretivo a visões otimistas de cooperação 8; os geopolíticos respondem que o espaço continua a impor custos reais, como os que Mahan e Mackinder descreveram.

O Brasil neste tabuleiro

Segundo o IBGE, o Brasil tem fronteira terrestre de cerca de 16,9 mil km e litoral de cerca de 10,9 mil km, em dados divulgados em 6 de julho de 2021 6. A fronteira liga o país a dez vizinhos, nove países mais a Guiana Francesa, território da França: Suriname, Guiana, Venezuela, Colômbia, Peru, Bolívia, Paraguai, Argentina e Uruguai. No litoral, 279 municípios, em 17 estados, são defrontantes com o mar 6.

Pela lente de Mahan, o Brasil tem situação mista: não é uma ilha, e tem muitos vizinhos, mas também uma longa costa atlântica 16. O artigo não faz juízo sobre o que isso significa em termos de força, porque a fonte de Mahan trata de 1890 e de nações europeias.

Há um exemplo de geografia no direito do mar. Em 17 de maio de 2004, o Brasil apresentou à Comissão de Limites da Plataforma Continental da ONU sua proposta de limites externos da plataforma continental, e a Comissão adotou recomendações em 4 de abril de 2007 7. A plataforma continental define até onde um Estado pode explorar o leito marinho e o subsolo; a página da ONU não detalha o conteúdo das recomendações, e este artigo não afirma o tamanho da área envolvida.

Para o papel de recursos naturais e produção como trunfo, veja Agronegócio como trunfo geopolítico: o que é, como funciona o argumento e quais são os limites.

Perguntas frequentes

Geografia determina o destino de um país?

Não há consenso nesse sentido. Mahan e Mackinder dão peso grande ao espaço, mas o próprio Mackinder mostrou que a tecnologia muda o valor de cada posição 12. Liberais e construtivistas acrescentam instituições e ideias 8.

O que é geopolítica?

É a leitura da política entre Estados a partir do espaço: posição, recursos, rotas e fronteiras. Mahan, em 1890, e Mackinder, em 1904, estão entre os autores que deram forma a essa leitura 12.

O que é a "área pivô" de Mackinder?

É o centro da Eurásia, região de planícies fechada a navios, sem rios que levem ao mar aberto, onde cavaleiros se moviam com facilidade. Mackinder a descreveu em 1904 2.

Por que se fala tanto em estreitos e canais?

Porque são passagens obrigatórias para o comércio. Em 2024, cerca de 20 milhões de barris de petróleo por dia passaram por Ormuz, segundo a EIA 4. A crise de Suez de 1956 mostrou a importância política de um canal 5.

Para fechar

Território e geografia pesam na força dos Estados porque definem custos de defesa, rotas de comércio e pontos de estrangulamento, como mostram a Inglaterra de Mahan, o pivô de Mackinder, Suez em 1956 e Ormuz em 2024. O limite está na tecnologia, que muda o valor de cada posição, e nas escolas que dão peso a instituições e ideias. Para o conceito vizinho, veja Equilíbrio de poder: o que é, de onde vem e o que explica.

Fontes

  1. Alfred Thayer Mahan, The Influence of Sea Power upon History, 1660-1783 (1890), cap. I, Project Gutenberg, ebook 13529 · consultado em 24/10/2026
  2. Halford J. Mackinder, The Geographical Pivot of History, The Geographical Journal, v. 23, n. 4, abril de 1904 (texto integral, pp. 421-437, cópia em PDF do artigo hospedada pelo Dipartimento di Scienze Politiche da Sapienza, Roma) · consultado em 24/10/2026
  3. Luiz Felipe de Léo Spadim, A influência das teorias geopolíticas na política externa dos Estados Unidos e no controle da OTAN, TCC de Geografia, Unesp Rio Claro, 2023 (página e resumo do repositório) · consultado em 24/10/2026
  4. U.S. Energy Information Administration (EIA): Strait of Hormuz, Today in Energy, 16/06/2025 · consultado em 24/10/2026
  5. Office of the Historian, Departamento de Estado dos EUA: Suez Crisis, 1956 · consultado em 24/10/2026
  6. Agência Brasil: IBGE atualiza municípios de fronteira e de frente ao mar, 06/07/2021 (reproduz dados do IBGE; a página original do IBGE respondeu 403) · consultado em 24/10/2026
  7. Organização das Nações Unidas, Divisão de Assuntos Oceânicos: Comissão de Limites da Plataforma Continental, submissão do Brasil · consultado em 24/10/2026
  8. Stanford Encyclopedia of Philosophy: Realism in International Relations · consultado em 24/10/2026

Para ler mais

  • Alfred Thayer Mahan, The Influence of Sea Power upon History, 1660-1783 (1890). Lista as condições que, para o autor, fazem de um país uma potência marítima, da posição geográfica ao litoral e ao clima.
  • Halford J. Mackinder, Democratic Ideals and Reality (1919). Desenvolve, depois da Primeira Guerra Mundial, a leitura do poder a partir do interior da Eurásia que ele lançara em 1904.
  • Nicholas J. Spykman, The Geography of the Peace (1944). Propõe olhar a faixa costeira da Eurásia, e não só o seu interior, como peça central da política mundial.
Brief Brasil

Receba o Brief Brasil todo dia às 7h

O resumo do dia, com a fonte de cada informação. Você confirma o e-mail e pode sair quando quiser.

Como este artigo é feito

Os artigos da Enciclopédia são escritos a partir de fontes oficiais brasileiras (CVM, B3, Banco Central, Tesouro Nacional, Receita Federal) e de livros-texto abertos. Cada número, data, regra e imposto é conferido contra essas fontes antes da publicação. Dados que mudam com o tempo trazem a data. Achou um erro? Escreva para o contato do site.

Conteúdo educativo. Não é recomendação de investimento, nem oferta de compra ou venda de qualquer ativo.

Escrito em 24/10/2026 · checado em 24/10/2026 · versão 2