Alimentos como poder: segurança alimentar, exportadores e dependência de importação
O que é
Alimentos como poder é a ideia de que comida, como o petróleo ou as armas, pode dar a um país influência sobre outros. O país que vende em grande escala tem algo de que o comprador precisa. O comprador, por sua vez, tenta reduzir a dependência, seja plantando mais, seja diversificando fornecedores.
O conceito central do lado de quem compra é a segurança alimentar. Na Cúpula Mundial da Alimentação, em Roma, em 13 de novembro de 1996, a FAO adotou uma definição que virou referência: há segurança alimentar quando todas as pessoas, o tempo todo, têm acesso físico e econômico a alimento suficiente, seguro e nutritivo para suas necessidades e preferências 1 (tradução nossa). Repare que a definição fala em acesso, e não apenas em produção.
Este artigo usa a lente do realismo nas Relações Internacionais, para a qual os Estados são os atores principais, não existe autoridade acima deles e o poder molda seu comportamento 11. É uma lente entre outras, e a seção de críticas mostra o que dizem as rivais.
De onde vem a ideia
Dois marcos aparecem neste artigo. Em junho de 1973, os Estados Unidos suspenderam exportações de soja, e o episódio expôs compradores como o Japão ao risco de depender de um só vendedor 8. Em 13 de novembro de 1996, a Cúpula Mundial da Alimentação adotou a definição de segurança alimentar citada acima 1. O debate gira em torno de duas perguntas: quem vende tem alavanca sobre quem compra? E quem compra pode se proteger?
Como funciona o argumento
O raciocínio tem quatro passos. Os dois primeiros são premissas do argumento, não conclusões dos dados deste artigo.
- Premissa: o excedente está concentrado. O argumento supõe que a comida que cruza fronteiras sai de poucos vendedores. Os números da seção seguinte mostram o peso do alimento na pauta de cada país, mas não medem essa concentração.
- Premissa: importar cria dependência. Quem não produz o suficiente compra de fora, e, quanto menos fornecedores tem, mais depende deles. Para o realismo, depender de outro Estado é um risco em si 11.
- Dependência cria alavanca. O vendedor pode atrasar, encarecer, condicionar ou suspender a venda. O poder também corre no sentido contrário: rotas e portos podem ser bloqueados, como nos portos ucranianos em 2022 4.
- A alavanca tem custo. Quem suspende vendas deixa de receber por elas, e o argumento prevê que compradores possam buscar outras origens. Em 1980, o discurso de Carter já tratava de reduzir o impacto da medida sobre o agricultor americano 9.
Para o realismo, o ponto de atenção é a dependência. Segundo a Stanford Encyclopedia, Kenneth Waltz sustenta que a anarquia limita a cooperação porque cada Estado teme que ganhos desiguais deixem outro mais forte e porque teme depender dele 11. Aplicada à comida: um país tende a querer produzir o que considera essencial, mesmo que importar fosse mais barato.
Importante: volume exportado não mede capacidade de pressão. Esse poder depende de preço, clima, contratos, estoques e de quantos outros países podem vender o mesmo produto.
Exportadores e importadores em números
O Banco Mundial mede quanto da pauta de comércio de cada país é alimento. Em 2025, alimentos foram 50,15% das exportações de mercadorias da Argentina, 40,73% das do Brasil, 21,58% das do Egito e 8,98% das dos Estados Unidos 3. Na Ucrânia, foram 58,69% em 2024, último ano com dado publicado 3.
Do lado das compras, alimentos foram 19,05% das importações de mercadorias do Egito em 2025, 12,31% das da Arábia Saudita, 9,79% das do Japão, 8,01% das da China e 5,53% das do Brasil 2.
Duas ressalvas. Primeiro, a porcentagem sobre o total de importações não é o mesmo que dependência de um produto específico: o Egito importa muitos outros bens, e a fatia da comida no total depende também do que o país gasta com o resto. Segundo, o conceito de "alimentos" do Banco Mundial pode diferir do de "agronegócio" usado por ministérios, de modo que as cifras não se comparam diretamente com as de outras fontes. O artigo Agronegócio como trunfo geopolítico: o que é, como funciona o argumento e quais são os limites trata dessa pauta com mais detalhe.
Exemplos na história
1973: a suspensão americana da soja. Em junho de 1973, os Estados Unidos suspenderam exportações de soja e de caroço de algodão, medida que terminou até 1º de outubro, quando a safra se mostrou maior que o esperado. Na época, o país respondia por cerca de 70% da oferta mundial de soja, e o Japão importava 97% da soja que consumia, 90% vinda dos Estados Unidos 8. Em 1974, o Japão criou a agência de cooperação JICA, que apoiou investimentos no Cerrado brasileiro 8. Os autores do estudo notam que a área plantada de soja no Brasil foi de 19 milhões de acres, em 1977, para 117 milhões na safra mais recente 8. Segundo os autores, a resposta japonesa, com a JICA e investimentos no Cerrado, ajudou a abrir caminho para a expansão agrícola do Brasil 8. O estudo mostra os números de área, mas não atribui a diferença ao embargo.
1980: o embargo de grãos à União Soviética. Em 4 de janeiro de 1980, depois da invasão soviética do Afeganistão, o presidente Jimmy Carter anunciou que as 17 milhões de toneladas de grãos encomendadas pela União Soviética, além do que já estava contratado, não seriam entregues 9. O presidente disse que o governo retiraria esse grão do mercado por armazenagem, sustentação de preços e compras. Em medidas separadas, ampliaria o grão destinado a aliviar a fome em países pobres e o uso de grãos na produção de gasohol. Carter afirmou querer minimizar o impacto sobre o agricultor americano 9. O discurso mostra a preocupação do governo com o custo da medida para o agricultor americano.
2022-2023: o corredor de grãos do Mar Negro. A Ucrânia fornece normalmente cerca de 45 milhões de toneladas de grãos ao mercado mundial por ano 4. Com a guerra, os portos ucranianos ficaram bloqueados. Em 22 de julho de 2022, em Istambul, a Federação Russa, a Ucrânia, a Turquia e a ONU assinaram a Iniciativa de Grãos do Mar Negro, que abriu os portos de Chornomorsk, Odesa e Yuzhny/Pivdennyi, com prazo inicial de 120 dias; os embarques começaram em 1º de agosto 4. Até 15 de julho de 2023, foram exportadas 32,8 milhões de toneladas de alimentos, em 1.003 viagens, para 45 países 7; segundo a ONU, cerca de 51% eram milho e 27% trigo 5. O Programa Mundial de Alimentos (PMA) enviou 725 mil toneladas de trigo para destinos como Afeganistão, Etiópia, Somália, Sudão e Iêmen 7. A iniciativa não foi renovada depois do fim do seu terceiro prazo, em 17 de julho de 2023 6. Sobre os motivos e responsabilidades, as partes divergem, e este artigo não arbitra.
Críticas e limites
O realismo é uma lente, não a única explicação.
- Liberais. Robert Keohane e Joseph Nye destacam a interdependência complexa, na qual cooperação traz benefícios mútuos, e Keohane argumenta que instituições internacionais podem ampliar a percepção que os Estados têm de seus interesses 11. O acordo do Mar Negro, intermediado pela ONU e pela Turquia, foi um caso de cooperação entre partes em guerra 4, embora não tenha sido renovado depois de julho de 2023 6.
- Construtivistas. Alexander Wendt defende que a autoajuda é construída socialmente e que ideias e normas formam os interesses dos Estados 11.
- A fome nem sempre é falta de comida. No artigo de 1981, Amartya Sen afirma que fomes costumam ocorrer com disponibilidade média ou boa de alimento, sem queda importante da oferta per capita, e propõe olhar para a capacidade de as pessoas obterem comida por meios legais, como trabalho, comércio e direitos perante o Estado. Ele aplica a tese às fomes de Bengala (1943), Wollo, na Etiópia (1973), e Bangladesh (1974) 12. Isso limita a leitura em que o exportador "controla" a fome de quem compra.
- Suspender tem custo para quem suspende. Em 1980, o governo americano anunciou medidas para amortecer o efeito do embargo sobre os agricultores do país 9. Se isso muda o comportamento dos compradores no longo prazo é uma questão em aberto, que este artigo não decide.
O Brasil neste tabuleiro
Exportador. Alimentos foram 40,73% das exportações brasileiras de mercadorias em 2025, segundo o Banco Mundial 3. A produção total de grãos da safra 2025/26 foi estimada pela Conab em 361,7 milhões de toneladas, em 15 de setembro de 2026 10. Os destinos e a concentração por produto estão no artigo Agronegócio como trunfo geopolítico: o que é, como funciona o argumento e quais são os limites; a relação com o maior comprador, em Brasil e China: o maior parceiro comercial.
Importador. O país exportador também compra comida de fora. Alimentos foram 5,53% das importações brasileiras em 2025 2. No trigo, a Conab estima, na safra 2025/26, produção de 5,74 milhões de toneladas, queda de 27,1% sobre o ciclo anterior, e importações de 7,06 milhões de toneladas 10. Ser grande exportador de grãos, portanto, não faz do Brasil autossuficiente em todos os alimentos.
Insumos. A comida depende também de adubo e energia, temas tratados em Energia, petróleo, gás e transição: como a energia vira poder entre os países.
A leitura do que isso significa para a autonomia brasileira é disputada: uns veem poder de barganha, outros veem vulnerabilidade a preço e a poucos compradores. As duas leituras usam os mesmos números.
Perguntas frequentes
O que é segurança alimentar?
É a situação em que todas as pessoas, o tempo todo, têm acesso físico e econômico a alimento suficiente, seguro e nutritivo, segundo a definição adotada na Cúpula Mundial da Alimentação de 1996 1.
Alimento já foi usado como arma?
Há registros de uso como instrumento de pressão, como o embargo de grãos à União Soviética, anunciado em 4 de janeiro de 1980 9. Os efeitos e a justificativa de cada caso são debatidos.
O Brasil importa alimentos?
Sim. Em 2025, alimentos foram 5,53% das importações brasileiras de mercadorias 2, e a Conab estima importação de 7,06 milhões de toneladas de trigo na safra 2025/26 10.
O que foi a Iniciativa de Grãos do Mar Negro?
Foi um acordo assinado em 22 de julho de 2022 entre a Federação Russa, a Ucrânia, a Turquia e a ONU para reabrir três portos ucranianos à exportação de grãos 4. Até 15 de julho de 2023, saíram 32,8 milhões de toneladas por esses portos 7. O acordo não foi renovado após 17 de julho de 2023 6.
Fome é sempre falta de comida?
Não necessariamente. Para Amartya Sen, fomes coletivas podem ocorrer sem queda importante da oferta de alimentos, quando muda a capacidade de grupos de obter comida 12.
Para fechar
Comida dá influência a quem vende e vulnerabilidade a quem depende de importar, mas a relação funciona nos dois sentidos: o vendedor tem custos ao suspender, e o comprador pode buscar outras origens. O realismo lê isso como disputa de poder e de dependência; liberais, construtivistas e estudiosos da fome acrescentam cooperação, ideias e acesso. O Brasil está dos dois lados, com forte presença exportadora e importação de trigo. Para a lente teórica, veja Realismo nas Relações Internacionais: o que é, de onde vem e como explica a disputa entre países.
Fontes
- FAO, Rome Declaration on World Food Security and World Food Summit Plan of Action, Roma, 13 de novembro de 1996 · consultado em 24/10/2026
- Banco Mundial, API: Food imports (% of merchandise imports), TM.VAL.FOOD.ZS.UN, Brasil, China, Egito, Japão e Arábia Saudita (atualizado em 08/10/2026) · consultado em 24/10/2026
- Banco Mundial, API: Food exports (% of merchandise exports), TX.VAL.FOOD.ZS.UN, Argentina, Brasil, Egito, Ucrânia e Estados Unidos (atualizado em 08/10/2026) · consultado em 24/10/2026
- ONU News, The Black Sea Grain Initiative: What it is, and why it's important for the world, 16/09/2022 · consultado em 24/10/2026
- ONU News, One year of the Black Sea Initiative: Key facts and figures, 10/07/2023 · consultado em 24/10/2026
- Nações Unidas, Black Sea Grain Initiative (página oficial) · consultado em 24/10/2026
- ONU Genebra, Operational update from the Office of the UN Coordinator for the Black Sea Grain Initiative, 15/07/2023 · consultado em 24/10/2026
- Colussi, Coppess, Paulson e Schnitkey, Trade Conflicts and Long-Term Consequences: Are Soybeans Doomed to Repeat History?, farmdoc daily 15(90), Universidade de Illinois, 15/05/2025 · consultado em 24/10/2026
- Jimmy Carter, Address to the Nation on the Soviet Invasion of Afghanistan, 4 de janeiro de 1980 (The American Presidency Project) · consultado em 24/10/2026
- Conab, Conab estima produção de 361,7 milhões de toneladas de grãos na safra 2025/26, 15/09/2026 · consultado em 24/10/2026
- Stanford Encyclopedia of Philosophy, Realism in International Relations · consultado em 24/10/2026
- Amartya Sen, Ingredients of Famine Analysis: Availability and Entitlements, The Quarterly Journal of Economics, v. 96, n. 3, 1981, p. 433-464 (registro e resumo no IDEAS/RePEc) · consultado em 24/10/2026
Para ler mais
- Jennifer Clapp, Food (2020). Explica como comércio, grandes empresas, Estados e mercados financeiros moldam a produção e a distribuição de alimentos no mundo (3ª edição, Polity).
- Amartya Sen, Poverty and Famines: An Essay on Entitlement and Deprivation (1981). Em português: Pobreza e fomes: um ensaio sobre direitos e privações. Defende que fomes coletivas dependem de quem consegue ou não obter comida, e não só da quantidade de comida disponível.
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Escrito em 24/10/2026 · checado em 24/10/2026 · versão 4