Tabuleiro TropicalSala de situação do Brasil

Como se mede a safra: calendário agrícola, safrinha e as estimativas da Conab e do IBGE

O que é

Safra é a colheita de um ciclo agrícola, ou o volume colhido nele. O ano-safra, também chamado de ano agrícola, é o período que cada órgão usa para fechar essa conta. Não existe um único período valendo para todo mundo.

A Conab (Companhia Nacional de Abastecimento, ligada ao Ministério da Agricultura e Pecuária) conta o ano agrícola de setembro a agosto 34. Por isso, a "safra 2025/26" do boletim da Conab foi iniciada em setembro de 2025 1. O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) descreve o Levantamento Sistemático da Produção Agrícola, o LSPA, como pesquisa mensal de acompanhamento das safras "no ano civil" 5.

Quando uma lavoura atravessa a virada do ano, o IBGE conta tudo no ano em que cai a maior parte da colheita; o exemplo da nota técnica é o trigo do Sul, colhido de outubro a meados de janeiro 8. A soja que o IBGE chama de safra de 2025 teve semeadura atrasada em setembro de 2024 9, o que a aproxima da 2024/25 da Conab. Essa equivalência é leitura das descrições, não tabela publicada pelos órgãos.

Primeira, segunda e terceira safra, safrinha e entressafra

Numerar as safras é uma convenção por cultura e por região, não um calendário nacional único. A Conab dá o exemplo do feijão, com três épocas de semeadura: a primeira safra, de agosto a dezembro; a segunda, de janeiro a abril; e a terceira, de maio a julho 1. O IBGE usa nomes de uso no campo: no Centro-Sul, "das águas" designa a primeira safra, "da seca" a segunda e "de inverno" a terceira 8.

A safrinha é o milho de segunda safra, semeado depois da colheita de outra lavoura, em geral a soja. O boletim da Conab dá um caso de 2026: no sul do Maranhão, o milho safrinha foi semeado em fevereiro e março, depois da soja, e colhido de junho a início de agosto 1. O IBGE também chama de 2ª safra a safrinha do milho 8. A terceira safra de milho aparece, no boletim da Conab, no Nordeste, com problemas de chuva em Sergipe, Alagoas e Bahia em 2026 1.

Em setembro de 2026, a Conab publicou o milho em três safras 1; o IBGE, em duas 4. O total do milho é comparável, as linhas não.

A entressafra é o intervalo em que determinado produto não está sendo colhido numa região. A Embrapa Soja usa o termo ao dizer que a safra brasileira escoa na entressafra americana 10.

O calendário agrícola

Pela Conab, o território extenso do país permite até três ciclos de grãos dentro de um ano agrícola, e a colheita se espalha por quase todos os meses 3. O calendário agrícola mostra, por região, os meses de semeadura e de colheita de cada cultura. Também ajuda o analista a saber que parcela da área foi semeada fora da época ideal, definida pelo zoneamento agrícola, e fica mais exposta ao clima desfavorável 3. O zoneamento é tema de clima e lavoura zoneamento agricola. A edição consultada é a de 2022.

Em 2026, parte do milho safrinha do Maranhão foi plantada fora da janela ideal de plantio, por atraso na soja, e a área estimada ficou em 223,7 mil hectares, 25,2% a menos que no ano anterior 1.

Os ciclos se sobrepõem. No boletim de setembro de 2026, as últimas áreas de soja da safra 2025/26 ainda eram colhidas em Tocantins, Roraima e Alagoas, enquanto o plantio da 2026/27 já havia começado no Paraná e em Mato Grosso 1. Como se planta e se colhe cada cultura está em Soja: como se planta e se colhe no Brasil, do solo à colheita e milho como se planta e se colhe.

Quem mede, primeira parte: a Conab

Segundo o calendário da própria companhia, a Lei Agrícola (Lei 8.171/1991, art. 30) obriga o governo federal a ter um sistema de informações agrícolas, que inclui previsão de safras, área, produção e produtividade, e essa tarefa foi delegada à Conab 3.

Seu produto central é o boletim mensal "Acompanhamento da Safra Brasileira de Grãos", que cobre 15 culturas, entre elas soja, milho, trigo, arroz e feijão 2. Em 2026, os levantamentos saíram em 14 de julho (10º), 13 de agosto (11º) e 15 de setembro (12º); o primeiro da safra 2026/27 estava marcado para 15 de outubro 2.

O método, descrito na introdução do boletim, tem etapas 1:

  • Modelos estatísticos: a produtividade de cada cultura em cada estado parte de um modelo baseado no histórico, que considera cenários favoráveis e desfavoráveis e os pacotes tecnológicos mais comuns. Passam de 540 os dados de área e de produtividade analisados.
  • Satélite e clima: chuva, temperatura e o índice de vegetação NDVI, que acompanha o vigor das plantas ao longo do ciclo.
  • Campo: questionários mensais a agentes colaboradores (mais de 4.000 informações no país), verificações diretas nas lavouras e mapeamento de áreas.

Os três números são atualizados todo mês. Segundo a Conab, a estimativa reflete a expectativa do mês anterior ao da publicação, com o clima esperado até o fim do cultivo 1. O 12º levantamento teve pesquisa de campo na última semana de agosto de 2026 1.

Quem mede, segunda parte: o IBGE

O IBGE tem três instrumentos agrícolas. Segundo apresentação do coordenador-substituto de estatísticas agropecuárias do órgão em 2023, o LSPA é um indicador de curto prazo, atualizado todo mês; a Produção Agrícola Municipal (PAM) é anual e informa a produção por produto e por município, para 64 lavouras; e o Censo Agropecuário, a cada dez anos, descreve cada estabelecimento rural 7. Na edição de 2025, a PAM media 70 produtos e incluiu novos, como gergelim e canola 9. O censo aparece em agricultura familiar e empresarial censo agro.

A apresentação de 2023 descreve o método do LSPA e da PAM como subjetivo, usado em vários países há décadas 7. O IBGE consulta integrantes da cadeia produtiva (extensão rural, secretarias de agricultura, cooperativas, sindicatos, bancos e instituições como a própria Conab). Com base nos dados anteriores e na leitura da conjuntura, como clima, doenças e cenário econômico, estima a variação de área e de rendimento de cada cultura. O município é a unidade em que se estima; os valores municipais são somados até chegar ao estado e ao país. O método não traz medidas de precisão nem consulta produtores individualmente 7.

A nota técnica da PAM de 2011 descreve a coleta de outro modo: um questionário por município, respondido pelo agente de coleta do instituto com base em contatos com técnicos e produtores e do conhecimento local, só para produtos a partir de um hectare de área e uma tonelada de produção no município 8. A de 2011 cita contato com produtores; a de 2023 diz que eles não são consultados individualmente. Este artigo não resolve a diferença. Para os produtos que o LSPA acompanha mês a mês, a nota de 2011 diz que a PAM traz as estimativas finais, apuradas por município 8.

Por que os números diferem

As publicações dos dois órgãos não explicam, cultura por cultura, de onde vem cada diferença. O que se pode listar são os pontos em que os métodos descritos nelas não coincidem.

  • Período: setembro a agosto na Conab 3; ano civil no IBGE 5.
  • Método: modelos, satélite e campo na Conab 1; consulta à cadeia produtiva, por município, no IBGE 7.
  • Conceito de área: a Conab fala em área cultivada, comparada à semeada na safra anterior 1. O IBGE separa a área plantada da colhida ou a ser colhida, e a área de suas manchetes é a segunda 4.
  • Data de corte: a estimativa de "setembro" da Conab saiu em 15 de setembro, com pesquisa feita no fim de agosto 12. A de setembro do IBGE saiu em 15 de outubro de 2026 4.
  • Recortes de produto: o milho aparece em três safras na Conab e em duas no IBGE 14.

O IBGE informa que as pesquisas de grãos foram feitas em parceria estreita com a Conab, dentro de um processo de harmonização das estimativas oficiais que começou em outubro de 2007 4. Mesmo assim, os números não coincidem, como mostra o exemplo mais adiante.

Também há diferenças dentro de um órgão. No boletim de setembro de 2026, a produção da segunda safra de milho de 2024/25 aparece com 113.228,4 mil toneladas na tabela comparativa e 113.271,4 mil na série histórica, sem que o texto explique a diferença 1.

Estimativa e resultado final

Na Conab, o 12º levantamento fecha o ciclo, mas a própria companhia avisa que as lavouras de terceira safra e as de inverno continuam em campo e poderão ser revistas 1. Entre agosto e setembro de 2026, a produção total subiu 0,3% (967,5 mil toneladas), principalmente por produtividades maiores no milho de segunda safra 1. A soja passou de 180.463,5 mil para 180.406,6 mil toneladas, e a terceira safra de milho caiu de 2.438,0 mil para 2.390,9 mil 1.

No IBGE, o primeiro prognóstico para 2026 está na edição de outubro de 2025 do LSPA, divulgada em 13 de novembro de 2025: 332,7 milhões de toneladas de grãos, 167,7 milhões delas de soja 511. Na edição de junho de 2026 (divulgada em 14 de julho), a estimativa foi de 347,4 milhões, o primeiro declínio em relação ao mês anterior, segundo o IBGE (em maio, eram 350,4 milhões), por causa do milho de segunda safra em Goiás 612. Em setembro, chegou a 354,5 milhões, 1.566.223 toneladas acima de agosto 4: cerca de 21,8 milhões a mais que no primeiro prognóstico.

Resultado anual. O resultado mais próximo de final do IBGE é a PAM, que para 2025 registrou 345,4 milhões de toneladas de grãos 9. O LSPA de setembro de 2026 traz 346,1 milhões como base de comparação de 2025 4. Para a soja de 2025 (a 2024/25 da Conab) há três valores: 171,5 milhões de toneladas na série da Conab em setembro de 2026 1, 166,1 milhões na base do LSPA 4 e 165,3 milhões na PAM 9. Mesmo o dado anual muda conforme o órgão.

Como ler um boletim

Todo boletim traz três números:

  • Área, em hectares. A Conab publica em mil hectares; o IBGE, em hectares.
  • Produtividade (ou rendimento médio), em quilos por hectare (kg/ha). O IBGE define o rendimento médio como a produção dividida pela área colhida 8.
  • Produção, em toneladas. A Conab publica em mil toneladas; o IBGE, em toneladas.

A produção é a área vezes a produtividade. Na soja da Conab, 48.608,6 mil hectares vezes 3.711 kg/ha dão cerca de 180.387 mil toneladas, e o boletim traz 180.406,6 mil 1. A diferença vem do arredondamento da produtividade. Em relação a 2024/25, a área subiu 2,7%, a produtividade 2,5% e a produção 5,2% 1.

Alguns cuidados de leitura:

  • Qual levantamento? O boletim traz a nota "estimativa em setembro/2026" e, nas séries, linhas separadas para agosto e setembro 1. Misturar meses é misturar estimativas diferentes.
  • Comparação com o quê? As variações da Conab comparam com a safra anterior, e os negativos vêm entre parênteses; as do IBGE separam variação anual e mensal 14.
  • Qual área? Nas tabelas do IBGE, "Área I" é a plantada e "Área II" a colhida ou a ser colhida 4.

Na prática: a safra 2025/26 em setembro de 2026

Os números abaixo são fotos de datas específicas, não indicam o que virá. Pareamos a safra de 2026 do IBGE com a 2025/26 da Conab por leitura das descrições de cada órgão; nenhum dos dois publica tabela de equivalência. Para a soja, a Conab (estimativa de setembro de 2026, divulgada em 15 de setembro) e o IBGE (LSPA de setembro de 2026, publicado em 15 de outubro) mostram o seguinte 14:

SojaÁreaProdutividadeProdução
Conab, safra 2025/2648.608,6 mil ha3.711 kg/ha180.406,6 mil t
IBGE, safra de 202648.347,1 mil ha (colhida ou a colher)3.619 kg/ha174.983,8 mil t

A diferença de produção é de cerca de 5.423 mil toneladas, ou 3,1% sobre o número do IBGE. A conta, feita a partir das tabelas, mostra que a maior parte vem da produtividade (92 kg/ha, 2,5%) e menos da área (261,5 mil hectares, 0,5%). Os dois órgãos dizem que é a maior produção de soja da série própria de cada um 14.

Para outros produtos e para o total, a produção estimada em setembro de 2026 foi esta, em mil toneladas 14:

ProdutoConab (2025/26)IBGE (2026)
Soja180.406,6174.983,8
Milho (total)144.009,6143.348,7
Sorgo7.348,05.991,7
Arroz11.076,211.215,0
Trigo5.739,75.933,4
Total de grãos361.717,5354.508,6

Nenhum órgão é sempre o maior: a Conab ficou acima do IBGE na soja, no total do milho e no sorgo, e abaixo no arroz e no trigo. No total, a Conab estimou 7,2 milhões de toneladas a mais (cerca de 2,0%), com diferença pequena de área: 83,45 milhões de hectares contra 83,21 milhões 14.

Perguntas frequentes

Safra e safrinha são a mesma coisa?

Não. Safra é o ciclo de colheita e seu volume. Safrinha é o nome usado para o milho de segunda safra, semeado depois de outra lavoura, em geral a soja 18.

Quando começa e quando termina a safra no Brasil?

Depende de quem conta. Para a Conab, o ano agrícola vai de setembro a agosto 3; para o IBGE, o período de referência é o ano civil 58.

Por que a Conab e o IBGE divulgam números diferentes para safras que se sobrepõem?

O pareamento entre a safra 2025/26 da Conab e a de 2026 do IBGE é leitura nossa, sem tabela de equivalência publicada. Os métodos, os períodos, os conceitos de área e as datas de corte não são os mesmos, e cada estimativa é revista todo mês 147. Em setembro de 2026, a soja somou 180,4 milhões de toneladas na Conab e 175,0 milhões no IBGE 14.

O último levantamento do ano-safra é o número final?

Não necessariamente. No 12º levantamento, a Conab ainda previa novas revisões para a terceira safra e para as culturas de inverno 1. O IBGE tem a PAM como resultado anual, mas ele também difere das estimativas anteriores 49.

Para fechar

Ler um número de safra pede três perguntas: de que ciclo ele fala, quem o estimou e em que mês. Conab e IBGE seguem calendários e métodos distintos, e seus números estimados ainda mudarão até a colheita fechar e a PAM consolidar o ano. Para a soja, a história dessa cultura está em Soja: como e por que o Brasil começou a plantar e os números de produção, em Soja: onde se produz, quem compra e o que vira.

Fontes

  1. Conab, Acompanhamento da safra brasileira de grãos, v. 13, safra 2025/26, 12º levantamento, setembro de 2026 (Resumo executivo, Introdução, Tabela 1, Tabela 2 e capítulos de milho e soja) · consultado em 24/10/2026
  2. Conab, página Safra de grãos (Acompanhamento da Safra Brasileira de Grãos e calendário de divulgação dos levantamentos) · consultado em 24/10/2026
  3. Conab, Calendário de Plantio e Colheita de Grãos no Brasil, edição de 2022 (Introdução e Calendário agrícola, p. 6 a 9) · consultado em 24/10/2026
  4. IBGE, Indicadores IBGE: Levantamento Sistemático da Produção Agrícola, setembro de 2026 (publicado em 15/10/2026) · consultado em 24/10/2026
  5. IBGE, LSPA de outubro de 2025 (apresentação do 1º prognóstico da safra de 2026) · consultado em 24/10/2026
  6. IBGE, LSPA de junho de 2026 (apresentação do levantamento mensal) · consultado em 24/10/2026
  7. Julio Cesar Perruso (IBGE, Coordenação de Estatísticas Agropecuárias), apresentação à Comissão de Agricultura da Câmara dos Deputados, setembro de 2023 · consultado em 24/10/2026
  8. IBGE, Produção Agrícola Municipal 2011, Notas técnicas (v. 38; descrição da metodologia da coleta, de 2011) · consultado em 24/10/2026
  9. IBGE, Produção Agrícola Municipal 2025, informativo (v. 52, © IBGE, 2026) · consultado em 24/10/2026
  10. Embrapa Soja, História da soja (Sistemas de produção da soja) · consultado em 24/10/2026
  11. IBGE, Indicadores IBGE: Levantamento Sistemático da Produção Agrícola, outubro de 2025 (capa: publicado em 13/11/2025; 1º prognóstico da safra de 2026) · consultado em 24/10/2026
  12. IBGE, Indicadores IBGE: Levantamento Sistemático da Produção Agrícola, junho de 2026 (capa: publicado em 14/07/2026) · consultado em 24/10/2026
Brief Brasil

Receba o Brief Brasil todo dia às 7h

O resumo do dia, com a fonte de cada informação. Você confirma o e-mail e pode sair quando quiser.

Como este artigo é feito

Os artigos da Enciclopédia são escritos a partir de fontes oficiais brasileiras (CVM, B3, Banco Central, Tesouro Nacional, Receita Federal) e de livros-texto abertos. Cada número, data, regra e imposto é conferido contra essas fontes antes da publicação. Dados que mudam com o tempo trazem a data. Achou um erro? Escreva para o contato do site.

Conteúdo educativo. Não é recomendação de investimento, nem oferta de compra ou venda de qualquer ativo.

Escrito em 24/10/2026 · checado em 24/10/2026 · versão 2