Soja: como e por que o Brasil começou a plantar
O que é
A soja (Glycine max) é uma leguminosa que serve de alimento para pessoas, em geral na forma de produtos industrializados, e de ração para animais 4. Hoje é uma commodity: um produto básico negociado em grande escala, com preço mundial. Na safra 2025/26, a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) estimou a produção brasileira em 180,4 milhões de toneladas, a maior da série histórica do órgão 7.
Esse volume contrasta com o ponto de partida. A soja chegou ao Brasil em 1882 e ficou quase esquecida por cerca de 70 anos, até 1950 2. Este artigo conta o caminho entre uma coisa e outra: de onde a planta veio, por que o Brasil passou a plantá-la em cada fase, o que a pesquisa pública mudou e como a lavoura saiu do Sul para o Cerrado. Como se planta e se colhe é tema de Soja: como se planta e se colhe no Brasil, do solo à colheita; onde se produz e quem compra, de Soja: onde se produz, quem compra e o que vira.
De onde vem a soja
Segundo a Embrapa Soja, a soja ancestral era uma planta rasteira da costa leste da Ásia, sobretudo ao longo do rio Yangtse, na China. As primeiras citações datadas ficam entre 2883 e 2838 a.C. A produção ficou restrita à China até cerca de 1894 1.
Na Europa, a mesma fonte diz que a planta chegou no final do século XV, como curiosidade de jardins botânicos. O interesse da indústria pelo óleo e pela proteína do grão só veio no início do século XX, a partir dos anos 1910 1. Uma pesquisa acadêmica gaúcha conta outra história: situa a origem na Manchúria, fala em pelo menos 5 mil anos de uso e coloca a chegada à Europa no século XVIII 4. Outra reportagem, sobre material da Embrapa, fala em domesticação na China há quatro mil anos 3. As fontes divergem, e o artigo não escolhe entre elas.
1882 a 1950: um experimento que ficou à margem
O primeiro teste brasileiro foi na Bahia, em 1882. O germoplasma (o material genético) veio dos Estados Unidos e não se adaptou à latitude de cerca de 12°S: não deu certo 2. A pesquisa de Márcio Comin acrescenta que a literatura aponta como figura central o engenheiro agrônomo Gustavo Dutra, da Escola Agronômica Baiana 4.
Uma década depois, em 1891, novos materiais foram testados em São Paulo, a 23°S, com relativo êxito na produção de feno e de grãos 2. Comin situa esse teste no Instituto Agronômico de Campinas 4. No Rio Grande do Sul, onde a latitude vai de 28°S a 34°S e o clima lembra o do sul dos Estados Unidos, de onde vinham as sementes, Dall'Agnol diz que o teste de 1900 deu certo 2.
Aqui as fontes se separam. Comin registra que não há consenso sobre a introdução no Rio Grande do Sul. Ele cita um relato de plantio de 1901 em Dom Pedrito, o marco de 1914 (estudos de um professor norte-americano, F. C. Craig, que distribuiu sementes a unidades experimentais) e o pastor norte-americano Albert Lehenbauer, que levou sementes de soja amarela a Santa Rosa; a esposa dele, em carta, registrou que o casal chegou a Santa Rosa em 12 de novembro de 1923 4. A Embrapa, segundo a reportagem da Revista Cultivar, fala em teste no estado em 1914 e plantios comerciais a partir de 1924 3. Dall'Agnol, por sua vez, cita como primeira referência de produção comercial o ano de 1941: 640 hectares, 450 toneladas e 700 kg/ha 2.
Nessa fase, o grão não era negócio. As primeiras cultivares foram estudadas mais como forragem do que como grão para farelo e óleo 2. Nas pequenas propriedades do Rio Grande do Sul, a produção servia de alimento para bovinos ou de grão para engordar porcos 2. Comin descreve uma disseminação por troca de sementes entre vizinhos e parentes, sem comércio de sementes constituído 4.
O Brasil aparece nas estatísticas internacionais de produção em 1949, segundo Dall'Agnol 2. Comin, citando outra obra do mesmo autor, fala em 1947, com 25.881 toneladas 4. Mais uma divergência de data.
Anos 1950 e 1960: por que o Sul passou a plantar
A soja se firmou como lavoura economicamente importante na década de 1960. A produção foi de 206 mil toneladas em 1960 para 1,06 milhão em 1969, e cerca de 98% dela vinha dos três estados do Sul, em áreas com trigo no inverno e soja no verão 2. A Embrapa informa que, no fim dos anos 1960, a soja passou a ser tratada como produto comercial: o trigo dominava as lavouras do Sul no inverno, e a soja entrou como cultura de verão, plantada depois dele. A procura por farelo para alimentar suínos e aves ajudou a empurrar o plantio 1.
Dall'Agnol reúne dez causas para o êxito no Sul. Agrupadas por tema, são estas 2:
- Clima e técnica: o Sul brasileiro se parece com o sul dos Estados Unidos, de onde vieram as cultivares, e isso facilitou trazer variedades e métodos de cultivo. A lavoura também se prestava bem à mecanização.
- Política pública: a Operação Tatu, programa de governo de meados dos anos 1960, corrigiu e adubou os solos ácidos e pobres do Rio Grande do Sul. Os incentivos fiscais ao trigo, nos anos 1950, 1960 e 1970, também alcançaram a soja, que de verão dividia terra, máquinas e trabalhadores com o trigo de inverno.
- Mercado: os preços internacionais estavam em alta, e óleos vegetais e margarinas passaram a ocupar o lugar de banha e manteiga.
- Estrutura: surgiram indústrias de processamento, fábricas de máquinas e de insumos, cooperativas e uma rede de pesquisa federal e estadual, financiada em parte pela indústria privada, além de estradas, portos e comunicações melhores.
Comin acrescenta o contexto da política agrícola: o Serviço Nacional de Crédito Rural foi criado em 1963, e o Estado financiou e subsidiou o que chamou de modernização da agricultura, com estímulo a culturas de exportação, entre elas a soja 4. Ele também cita pesquisadores segundo os quais o trigo entrou em decadência entre 1956 e 1967, abrindo espaço para a soja, que reaproveitou as máquinas 4.
Um caso local: Soledade (RS)
A pesquisa de Comin usa os censos agropecuários do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) para um município do norte gaúcho. Em 1960, a soja ocupava 84 hectares em Soledade. Em 1970, eram 6.978 hectares; em 1975, 27.957; em 1980, 38.155 4. Segundo o autor, só em 1975 a soja passou a ser a principal cultura do município em área e produção. A cooperativa agrícola local, criada em 1969, foi o principal centro dinamizador 4. O autor também registra erosão e a saída do campo de quem não acompanhou a modernização 4.
Anos 1970: preço alto, embargo e a corrida por área
Na década de 1970, a produção passou de 1,5 milhão de toneladas, em 1970, para mais de 15 milhões, em 1979. A área foi de 1,3 milhão para 8,8 milhões de hectares, e a produtividade de 1.140 para 1.730 kg/ha 2. No fim da década, mais de 80% da soja ainda estava nos três estados do Sul 2.
Dall'Agnol liga a alta do mercado, sobretudo em meados dos anos 1970, a colheitas de grãos que fracassaram na antiga União Soviética e na China e à pesca peruana de anchova, que rendeu menos: o farelo desse peixe entrava nas rações, e os fabricantes passaram a usar farelo de soja no lugar 2. A Embrapa diz que a alta de preço estimulou agricultores e governo, e que a safra brasileira escoa na entressafra americana, quando os preços são mais altos 1.
Pesquisadores da Universidade de Illinois lembram um episódio externo. Em junho de 1973, os Estados Unidos suspenderam exportações de soja; a suspensão acabou até 1º de outubro. O país respondia por cerca de 70% da produção mundial e o Japão dependia de importações para 97% da soja de que precisava e dos agricultores americanos para 90% 5. Os autores contam que o Japão passou a tratar a dependência como problema de segurança alimentar e que, em 1974, criou a agência JICA, que investiu no Cerrado brasileiro por meio do Prodecer 5. Esse nexo é leitura dos autores; as demais fontes consultadas não citam o embargo.
A pesquisa pública e a soja que cabe no trópico
Até o fim dos anos 1970, a produção comercial de soja no mundo se concentrava em latitudes próximas ou superiores a 30°, e os produtores brasileiros dependiam de cultivares importadas dos Estados Unidos, adaptadas só ao Sul do país, segundo a Embrapa 3. Era o problema que já havia derrubado o teste baiano de 1882, a 12°S 2.
A Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) foi criada em 26 de abril de 1973, segundo a Wikipédia, e a data de 1973 também aparece em Comin 48; a Embrapa Soja completou 50 anos em 2025 e desenvolveu cerca de 440 cultivares 3. A própria Embrapa diz que liderou a adaptação da cultura às condições brasileiras e que essa adaptação ao trópico, que a Embrapa chama de tropicalização, abriu a faixa entre o Trópico de Capricórnio e o Equador ao cultivo. O efeito apareceu no mercado a partir do fim dos anos 1980 e, sobretudo, nos anos 1990 1.
A linha do tempo de cultivares apresentada pela Embrapa em 2025 mostra a sequência 3:
| Época | Cultivar | O que a Embrapa destacou |
|---|---|---|
| Anos 1950 | Pelicano | Introduzida dos Estados Unidos; semeada até meados dos anos 1960 |
| 1966 | Santa Rosa | Apresentada como a primeira cultivar genuinamente brasileira de importância comercial |
| Anos 1970 | UFV-1 e FT Cristalina | Impulsionaram a expansão no Centro-Norte (UFV-1 é da Universidade Federal de Viçosa; FT Cristalina, da FT Sementes) |
| 1980 | Doko | Primeira cultivar da Embrapa para o Brasil Central |
| Anos 1980 | BR 9 (Savana) | Adaptada à Bahia, Tocantins, Maranhão e Piauí |
A pesquisa não foi só da Embrapa: a lista inclui uma universidade federal e uma empresa privada de sementes 3. E a cultivar adaptada não explica tudo: Dall'Agnol a põe ao lado de outras nove causas do avanço no Cerrado 2.
A ida ao Cerrado: razões e programas
Dall'Agnol afirma que, a partir dos anos 1980, a soja se firmou na região central do país, e atribui o avanço a dez causas. Em resumo 2:
- Terra e custo: a terra de Cerrado era barata perto da do Sul entre as décadas de 1960 e 1980, e os incentivos fiscais cobriam a abertura de áreas, as máquinas, os silos, os armazéns e as agroindústrias.
- Território: a nova capital, Brasília, trouxe estradas, comunicações e urbanização; o relevo plano e os solos profundos e bem drenados facilitavam as máquinas grandes.
- Clima: a chuva era mais regular do que no Sul, onde os "veranicos" atingem a lavoura, sobretudo no Rio Grande do Sul.
- Tecnologia e gente: havia um conjunto de técnicas para soja em zonas tropicais, com cultivares adaptadas a baixas latitudes, e os produtores, em sua maioria vindos do Sul, já conheciam a cultura.
Segundo o autor, produtores do Sul foram para o Cerrado em busca de terras amplas e baratas, e povoados que nasceram ali viraram cidades 2.
Há também o programa nipo-brasileiro. O JICA-RI, instituto de pesquisa da agência japonesa, informa que o Prodecer começou em 1979 como programa de recuperação de terras conduzido por cooperativas em sete estados do Cerrado, por meio da empresa conjunta CAMPO, com financiamento de 68,4 bilhões de ienes, bancado pelos dois governos, ao longo de cerca de 20 anos. A mesma página aponta a soja como principal motor do desenvolvimento agrícola do Cerrado e afirma que a produção da região, inexistente nos anos 1970, chegou a 29 milhões de toneladas em 2002, o que equivalia a 58% da produção brasileira e a 13% do volume mundial 6. As duas cifras não coincidem: Dall'Agnol registra 500 mil toneladas no "Brasil central" já em 1970 2, e o JICA-RI diz que a produção do Cerrado era inexistente nos anos 1970 6. As fontes usam recortes geográficos diferentes, Brasil central e Cerrado, e nenhuma explica a diferença.
O debate sobre o que a ocupação de novas áreas significou para o meio ambiente e para a terra tem dados e posições próprios; ele é tratado em Como o Brasil passou a produzir tanto: Embrapa, Cerrado e a agricultura tropical e Terra rural: preço, arrendamento, Código Florestal e CAR.
Para onde a lavoura se deslocou
Dall'Agnol mede o deslocamento pela fatia do Brasil central na produção nacional: menos de 2% em 1970, 20% em 1980, mais de 40% em 1990 e 60% em 2011 2. O Mato Grosso saiu de zero tonelada, em 1970, para 20,4 milhões de toneladas, em 2011, e se tornou o estado líder 2. Entre 1970 e 2011, a área de soja passou de 1,3 para 24,2 milhões de hectares 2. Pesquisadores da Universidade de Illinois, citando a Conab, escrevem em 2025 que mais de 60% da produção brasileira está no Cerrado 5.
Em setembro de 2026, a Conab estimava a safra 2025/26 em 48.608,6 mil hectares, com produtividade de 3.711 kg/ha e produção de 180.406,6 mil toneladas, a maior da série histórica do órgão. A safra 2019/20 teve 37.361,6 mil hectares e 126.373,8 mil toneladas 7. É um exemplo datado: estimativas da Conab mudam a cada levantamento.
Perguntas frequentes
Quando a soja chegou ao Brasil?
As fontes concordam em 1882, na Bahia, mas esse teste não teve êxito 23. A divergência é sobre o início do cultivo comercial: a Embrapa, segundo a Revista Cultivar, fala em plantios comerciais a partir de 1924 no Rio Grande do Sul 3; Dall'Agnol dá 1941 como a primeira referência de produção comercial 2.
A soja é uma planta nativa do Brasil?
Não. A Embrapa descreve a origem na costa leste da Ásia, na China 1, e as primeiras sementes testadas no Brasil vieram dos Estados Unidos 2.
Por que a soja demorou a se firmar no Brasil?
Os primeiros materiais, trazidos de latitude mais alta, não se adaptaram ao clima baiano 2, e por muito tempo a lavoura foi pequena, com uso como forragem ou ração 2. Segundo Dall'Agnol, o crescimento sem paralelo começou na década de 1960 2.
A Embrapa criou a soja brasileira?
A Embrapa liderou a adaptação da cultura às condições brasileiras e desenvolveu cerca de 440 cultivares em 50 anos 13. Outras instituições também aparecem na história das cultivares, como uma universidade federal e uma empresa de sementes 3.
Para fechar
A soja brasileira não nasceu de um fato único. Foi um experimento que não vingou na Bahia, uma lavoura de pequena escala no Sul, uma cultura de verão que aproveitou o trigo, o produto que subiu de preço nos anos 1970 e, por fim, uma planta que a pesquisa adaptou ao trópico e que a terra barata levou ao Cerrado 12. As fontes divergem em datas e causas, e os números de safra mudam a cada levantamento.
Verbetes do glossário: Commodities
Fontes
- Embrapa Soja, História da soja (Sistemas de produção da soja) · consultado em 24/10/2026
- Amélio Dall'Agnol (Embrapa Soja), A soja no Brasil: evolução, causas, impactos e perspectivas, 2011 (texto de 4 páginas no repositório Alice da Embrapa) · consultado em 24/10/2026
- Revista Cultivar, Embrapa conta trajetória da soja no Brasil Central (Lebna Landgraf, 04/04/2025; reportagem sobre a linha do tempo de cultivares apresentada pela Embrapa no Tecnoshow Comigo, serve para dizer o que a Embrapa apresentou) · consultado em 24/10/2026
- Márcio Comin, A difusão da soja em Soledade/RS entre 1960 e 1985, Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, n. 161, p. 169-186, dezembro de 2021 · consultado em 24/10/2026
- Colussi, Coppess, Paulson e Schnitkey, Trade Conflicts and Long-Term Consequences: Are Soybeans Doomed to Repeat History?, farmdoc daily 15(90), Universidade de Illinois, 15/05/2025 · consultado em 24/10/2026
- JICA Ogata Research Institute, Transformed Brazil as a Large Agricultural Country (página de 08/02/2011 sobre o Prodecer) · consultado em 24/10/2026
- Conab, Acompanhamento da safra brasileira de grãos, v. 13, safra 2025/26, 12º levantamento, setembro de 2026 (soja: Tabela 15 e texto da análise da cultura) · consultado em 24/10/2026
- Wikipédia, Embrapa (usada só para a data de criação; a página não cita a lei) · consultado em 24/10/2026
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Escrito em 24/10/2026 · checado em 24/10/2026 · versão 2