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Poder duro, poder brando e poder econômico: o que são, de onde vêm e como se combinam

O que é

Poder, nas Relações Internacionais, é a capacidade de alterar o comportamento de outros para obter o que se quer. É assim que Joseph Nye, autor que popularizou a distinção entre poder duro e poder brando, o define 1. A partir dessa definição, ele separa duas famílias de meios.

Poder duro (hard power) é o que age por coerção ou por pagamento: a ameaça militar, a sanção, a oferta de dinheiro. Poder brando (soft power) é o que age por atração: a cultura, os valores políticos e uma política externa vista como legítima 1. Poder econômico não é uma terceira família. É um recurso que pode servir a um lado ou ao outro: a sanção coage, a riqueza também pode seduzir 1.

Os realistas, escola que vê os Estados disputando poder num sistema sem autoridade acima deles, tratam o poder como o conceito central. Para Morgenthau, o ponto de partida é o interesse definido em termos de poder. Para Waltz, a estrutura do sistema internacional é definida, entre outros elementos, pela distribuição de capacidades entre os Estados 2. Veja também Realismo nas Relações Internacionais: o que é, de onde vem e como explica a disputa entre países.

De onde vem

A ideia de que a força pesa mais que a simpatia é antiga. Maquiavel, no capítulo XVII de O Príncipe, pergunta se é melhor ser amado ou temido e responde que, se não é possível ser os dois, é bem mais seguro ser temido (tradução nossa) 4. É uma leitura do poder duro. A obra foi redigida no fim de 1513 e publicada só em 1532, depois da morte do autor 14.

No século XX, o realismo clássico fixou o poder como lente da política entre os Estados 2. Em 1945, o economista Albert Hirschman publicou National Power and the Structure of Foreign Trade, que analisa como o comércio exterior pode servir ao poder nacional, mede a concentração do comércio em poucos mercados e examina propostas de salvaguarda contra o uso do comércio como instrumento de poder 7.

O poder brando entrou no vocabulário mais tarde. Segundo Hugo Suppo, da UERJ, Nye criou o conceito ao procurar uma resposta à tese do declínio relativo dos Estados Unidos, associada a Paul Kennedy 6. O livro Soft Power: The Means to Success in World Politics saiu em 2004; nele, Nye define o poder brando como a capacidade de obter o que se quer por atração, e não por coerção 5.

Como funciona o argumento

O raciocínio tem quatro passos:

  1. Todo Estado quer que outros ajam como ele prefere. Há três caminhos: ameaçar (os "porretes" de Nye), pagar (as "cenouras") ou atrair 1.
  2. A atração depende de coisas que o governo controla só em parte. Governos podem moldar a política externa e financiar diplomacia pública, mas não controlam a cultura popular 1.
  3. A força mal calculada pode custar a atração. Nye observa que o uso desastrado do poder duro pode destruir o poder brando 1.
  4. O resultado depende da combinação. Para Nye, certos objetivos pedem poder duro; ele cita o programa nuclear da Coreia do Norte, que o poder brando não pararia 1.

Por isso a economia fica no meio. Nye adota a expressão "sticky power" (poder "pegajoso"), que ele atribui a Walter Russell Mead: o poder econômico, nessa ideia, seduz tanto quanto compele (tradução nossa) 1. Um mercado grande pode ameaçar com a perda de acesso e, ao mesmo tempo, atrair pela perspectiva de entrar nele.

Importante: poder brando não é um juízo moral. Nye diz que o conceito é uma descrição, não uma prescrição ética, e que, como qualquer forma de poder, pode ser usado para o bem ou para o mal (tradução nossa) 1.

Três casos na história

Melos (416 a.C.). Segundo a Stanford Encyclopedia of Philosophy, o "Diálogo de Melos" é de 416 a.C. 12. No décimo sexto ano da guerra do Peloponeso, Atenas enviou uma expedição à ilha de Melos, que se recusava a se submeter 3. Tucídides registra um diálogo em que os atenienses afirmam que o direito só conta entre iguais em poder, e que os fortes fazem o que podem enquanto os fracos sofrem o que devem (tradução nossa) 3. Melos acabou cercada e se rendeu; os atenienses mataram os homens adultos e escravizaram mulheres e crianças 3. É o poder duro em estado puro.

Plano Marshall (1947-1948). Em 5 de junho de 1947, o secretário de Estado americano George Marshall propôs um programa de reconstrução da Europa; o Congresso aprovou a lei em março de 1948, e o total destinado à Europa Ocidental acabou passando de US$ 12 bilhões 8. A página do Departamento de Estado menciona entre os motivos o temor da expansão comunista e o interesse em estimular a economia americana criando mercados 8. A União Soviética não participou: a página aponta a preocupação soviética com a dominação econômica americana sobre o Leste Europeu, somada à recusa de Stálin em se abrir aos ocidentais, como o que inviabilizou a ideia 8. Na leitura deste texto, o dinheiro agiu ali como pagamento e como atração, ao mesmo tempo; a fonte não faz essa classificação.

Embargo árabe de petróleo (1973-1974). Membros árabes da Opep, a organização dos países exportadores de petróleo, suspenderam o fornecimento aos Estados Unidos e a outros países que apoiavam Israel, em retaliação ao envio de ajuda militar americana 9. O preço do barril dobrou e depois quadruplicou, e o embargo foi suspenso em março de 1974 9. Na leitura deste texto, é o recurso econômico usado como coerção, sem ação militar dos exportadores; a fonte 9 descreve os fatos, não essa classificação. Sobre sanções financeiras mais recentes, veja O dólar como poder e as sanções: como uma moeda vira instrumento de política entre países.

Nye dá exemplos de poder brando que foi construído e destruído: a ajuda de socorro após o tsunami no Oceano Índico e o terremoto de 2005 no sul da Ásia teria recuperado parte da atratividade dos Estados Unidos, enquanto os abusos de Abu Ghraib, depois da invasão do Iraque, a teriam reduzido 1. Ele também sustenta que a União Soviética destruiu poder brando ao usar a força na Hungria e na Tchecoslováquia 1. São avaliações de Nye, não medidas objetivas.

Críticas e limites

O realismo é uma lente, não a única explicação do mundo. Cada uma das ideias acima recebe objeções:

  • Vagueza do poder brando. Nye admite que é difícil distinguir poder brando e poder duro, e que a linha entre eles pode se turvar 1. Isso dificulta medir o poder brando, e dificulta dizer quanto ele pesou numa decisão.
  • Dentro do realismo. O artigo de Suppo trata justamente de como o poder brando pode ser lido no paradigma realista clássico 6. Já para o neorrealismo, a economia fica subordinada à segurança: Waltz sustenta que, num sistema de autoajuda, os Estados temem que ganhos desiguais favoreçam os outros 2.
  • Liberalismo institucional. Robert Keohane afirma que cooperação econômica e instituições podem ampliar a visão que os Estados têm do próprio interesse 2. Nessa leitura, o comércio não é só arma.
  • Construtivismo. Alexander Wendt argumenta que poder e interesses são constituídos por ideias e normas 2. Numa leitura construtivista, o poder brando poderia ser visto como parte do que forma o interesse, e não como um complemento do poder material; essa é uma interpretação deste texto, não uma tese que Wendt formule nesses termos.
  • Limite prático do poder duro. Nye observa que o uso mal calculado da força pode destruir a atração 1.

O Brasil neste tabuleiro

Este texto trata aqui só do que as fontes abertas sustentam. A Agência Brasileira de Cooperação (ABC) integra o Ministério das Relações Exteriores 13. Sua página institucional mostra uma coordenação para cooperação técnica trilateral Sul-Sul com organismos internacionais 10. A página também lista projetos no Brasil e no exterior e países parceiros, mas sem data; por isso os números não entram aqui 10. Se essa cooperação conta como poder brando é uma classificação que cabe à literatura acadêmica; este texto não a faz.

No campo econômico, o dado é de mercado. Segundo a Istoé Dinheiro, que cita o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), a China foi em 2025 o principal destino das exportações brasileiras, com 28,69%, e os Estados Unidos o segundo, com 10,82% 11. A nota anual do MDIC não abriu para leitura (exige login), então a fonte primária não foi conferida. Na lógica de Hirschman, a distribuição do comércio entre poucos mercados é um dado que merece medição, porque mostra a que compradores o país está ligado 7. Este texto não faz esse cálculo e não diz que haja coerção: diz apenas que a relação existe.

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre poder duro e poder brando?

Poder duro obtém o que quer por coerção ou pagamento. Poder brando obtém por atração, com cultura, valores e uma política externa vista como legítima 1.

O poder econômico é duro ou brando?

Os dois. Segundo Nye, a sanção coage e a riqueza também pode atrair 1. Ele usa a expressão "sticky power", que atribui a Walter Russell Mead 1.

Quem criou o termo "poder brando"?

Joseph Nye. Segundo Hugo Suppo, ele o criou ao buscar resposta à tese do declínio relativo americano, associada a Paul Kennedy 6. A definição curta aparece em seu livro de 2004 5.

O poder brando dispensa o poder duro?

Não, segundo o próprio Nye. Ele diz que alguns objetivos pedem poder duro, como o programa nuclear da Coreia do Norte 1.

Para fechar

Poder duro, poder brando e poder econômico são três jeitos de levar outros a agir como se quer: por força, por atração e por dinheiro. A história mostra que os Estados raramente usam um só: Melos, o Plano Marshall e o embargo de 1973 misturam os meios em graus diferentes. O limite é a dificuldade de medir cada um e a discordância entre as escolas: realistas, liberais e construtivistas descrevem o mesmo mundo com pesos diferentes. Para o pano de fundo, veja Equilíbrio de poder: o que é, de onde vem e o que explica.

Fontes

  1. Joseph S. Nye Jr., Think Again: Soft Power, Foreign Policy, 23/02/2006 · consultado em 24/10/2026
  2. Stanford Encyclopedia of Philosophy: Realism in International Relations · consultado em 24/10/2026
  3. Tucídides, History of the Peloponnesian War, livro V, cap. XVII (trad. inglesa de Richard Crawley), Project Gutenberg, ebook 7142 · consultado em 24/10/2026
  4. Nicolau Maquiavel, The Prince, cap. XVII (trad. inglesa de W. K. Marriott), Project Gutenberg, ebook 1232 · consultado em 24/10/2026
  5. Publishers Weekly: resenha de Soft Power: The Means to Success in World Politics, de Joseph S. Nye Jr. (PublicAffairs, 2004) · consultado em 24/10/2026
  6. Hugo Rogélio Suppo, A importância do chamado soft power no paradigma realista clássico, Mural Internacional (UERJ), v. 2, n. 2, 2011, p. 47-50 (página e resumo do periódico) · consultado em 24/10/2026
  7. University of California Press: Albert O. Hirschman, National Power and the Structure of Foreign Trade (1945; reedição 2018) · consultado em 24/10/2026
  8. Office of the Historian, Departamento de Estado dos EUA: Marshall Plan, 1948 · consultado em 24/10/2026
  9. Office of the Historian, Departamento de Estado dos EUA: Oil Embargo, 1973-1974 · consultado em 24/10/2026
  10. Agência Brasileira de Cooperação (gov.br): página institucional · consultado em 24/10/2026
  11. Istoé Dinheiro: ranking dos países que mais importaram produtos do Brasil em 2025 (dados do MDIC) · consultado em 24/10/2026
  12. Stanford Encyclopedia of Philosophy: Ancient Political Philosophy (seção 2.1, Politics and Justice) · consultado em 24/10/2026
  13. Agência Brasileira de Cooperação (gov.br): Perguntas frequentes · consultado em 24/10/2026
  14. Stanford Encyclopedia of Philosophy: Niccolò Machiavelli · consultado em 24/10/2026

Para ler mais

  • Joseph S. Nye Jr., Soft Power: The Means to Success in World Politics (2004). Define o poder brando como a capacidade de obter o que se quer por atração, e não por coerção.
  • Albert O. Hirschman, National Power and the Structure of Foreign Trade (1945). Analisa como o comércio exterior pode servir ao poder nacional e mede a concentração do comércio em poucos mercados.
  • Hans J. Morgenthau, Politics Among Nations (1948). Em português: A Política entre as Nações: a luta pelo poder e pela paz. Expõe o realismo clássico, em que o interesse dos Estados é definido em termos de poder.
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Escrito em 24/10/2026 · checado em 24/10/2026 · versão 5