Tabuleiro TropicalSala de situação do Brasil

BRICS e o "Sul Global": o que são, de onde vêm e onde o Brasil entra

O que é

BRICS é o nome de um agrupamento de países emergentes que se reúnem em cúpulas anuais para coordenar posições sobre economia, política e reforma de instituições internacionais. A sigla vem das iniciais de Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, os cinco primeiros membros 1.

Ele não é uma organização com tratado. Segundo o Ipea, o BRICS não tem documento constitutivo, secretariado fixo nem fundos próprios; o que o sustenta é a vontade política dos membros 1. A declaração de 2025 lista o consenso entre os valores do grupo 2, e a cúpula de Nova Délhi mostrou o efeito prático: o consenso foi mantido com linguagem geral 6. Quem espera dele o que se espera de uma aliança militar ou de um bloco comercial, como a União Europeia, confunde o tipo de coisa que ele é.

Sul Global é a expressão que o grupo usa para dizer em nome de quem fala. A declaração de 2025 tem o tema "Fortalecendo a Cooperação do Sul Global" e afirma que os países do BRICS continuam a desempenhar um papel central na expressão das preocupações e prioridades do Sul Global 2. A expressão tem história e críticos, e as seções seguintes tratam dos dois.

Este artigo usa a lente do realismo, para a qual os Estados disputam poder e segurança num sistema sem autoridade acima deles 11. Veja Realismo nas Relações Internacionais: o que é, de onde vem e como explica a disputa entre países. É uma lente, não a única leitura possível.

De onde vêm o grupo e a expressão

A sigla nasceu no mercado financeiro, não na diplomacia. Em 2001, Jim O'Neil, do Goldman Sachs, publicou um estudo que juntava Brasil, Rússia, Índia e China sob o nome BRICs 1. Em 2006, os chanceleres dos quatro países se reuniram à margem da 61ª Assembleia Geral da ONU, o que o Ipea chama de primeiro passo para agirem coletivamente 1. Desde junho de 2009, com a cúpula de Ecaterimburgo, na Rússia, a interação passou ao nível de chefes de Estado; a África do Sul entrou em 2011, na cúpula de Sanya, e o "s" minúsculo virou maiúsculo 1.

A expressão "Sul Global" é mais difusa. Segundo Martins da Costa e Duarte, não existe uma obra clássica que marque o surgimento do termo, e nenhuma definição venceu na academia de Relações Internacionais. O "mito fundador" é um artigo de 1969 do escritor americano Carl Oglesby sobre a Guerra do Vietnã 3. Os autores sustentam que "Sul" reformula conceitos anteriores: "Terceiro Mundo", cunhado por Alfred Sauvy em 1952, e "países em desenvolvimento". O primeiro perdeu espaço por anacronismo no pós-Guerra Fria; o segundo, pela conotação hierárquica e ocidental 3. O uso de "Sul Global" cresceu em publicações acadêmicas em inglês apenas desde 2004 3.

O termo também é político. Quando Dilma Rousseff tomou posse na presidência do Novo Banco de Desenvolvimento, em 13 de abril de 2023, ela falou do "Sul Global" como o sul que quer emergir, que inclui também países do Norte e que defende o multilateralismo (tradução de Martins da Costa e Duarte) 3.

Como o grupo funciona e o que ele quer

O argumento do grupo, tal como aparece em seus documentos, tem quatro passos.

  1. A ordem internacional não reflete o mundo atual. Os líderes pedem reforma das instituições de Bretton Woods (FMI e Banco Mundial), para que a voz dos países emergentes acompanhe o peso deles na economia global 2.
  2. A reforma do Conselho de Segurança da ONU é parte disso. A declaração de 2025 diz que ela visa a ampliar a voz do Sul Global e registra que China e Rússia, membros permanentes do Conselho, apoiam as aspirações do Brasil e da Índia a um papel mais relevante 2. O texto fala em "papel mais relevante" e não menciona vaga permanente.
  3. Contra medidas unilaterais. O texto expressa sérias preocupações com tarifas e medidas não tarifárias unilaterais que distorcem o comércio (§13) e condena sanções econômicas unilaterais e secundárias (§14) 2.
  4. Mundo multipolar. O grupo afirma que a multipolaridade pode ampliar as oportunidades dos países em desenvolvimento 2.

Na prática, há instituições concretas. A principal é o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), cujo acordo de criação foi assinado em 2014, na cúpula de Fortaleza, e que tem sede permanente em Xangai desde 2021 5.

Quem está no grupo e quanto pesa cada um

Em julho de 2025, a Declaração do Rio saudou a Indonésia como membro e dez países como parceiros: Belarus, Bolívia, Cazaquistão, Cuba, Nigéria, Malásia, Tailândia, Vietnã, Uganda e Uzbequistão 2. Parceiro é uma categoria distinta da de membro; o texto da declaração não detalha seus direitos 2.

A contagem de membros varia. Reportagens de 2026 falam em 11 membros, incluindo a Arábia Saudita 6. Mas, em fevereiro de 2025, a Arábia Saudita era descrita como país que participa das reuniões sem ter formalizado a adesão 8. Por isso, este artigo evita fixar um número único.

A tabela mostra o PIB nominal de 2025 de dez membros (os cinco fundadores, Egito, Etiópia, Irã, Emirados Árabes Unidos e Indonésia, sem a Arábia Saudita), segundo o FMI, em US$ bilhões 9. A lista de membros vem da imprensa de 2026 6:

PaísPIB nominal em 2025
China19.626
Índia3.909
Rússia2.572
Brasil2.280
Indonésia1.446
Emirados Árabes Unidos614
África do Sul427
Irã371
Egito365
Etiópia126

Para comparar, o PIB nominal dos Estados Unidos em 2025 aparece como US$ 30.861 bilhões na mesma base 9. Somando os dez países da tabela, o resultado é cerca de US$ 31.737 bilhões, e a China responde por cerca de 62% dele (contas nossas a partir dos valores acima). O PIB da China é cerca de 8,6 vezes o do Brasil (conta nossa). Esse desequilíbrio pesa em qualquer leitura de "quem fala pelo grupo".

Atenção: os valores de 2025 são os da base do FMI consultada em 24 de outubro de 2026, podem ser estimativas e podem ser revisados.

Exemplos na história

2006 a 2011: de sigla a grupo. Um nome criado para investidores virou um mecanismo diplomático. O encontro de chanceleres de 2006 chegou ao nível de líderes em 2009, e em 2011 o grupo recebeu a África do Sul 1. A identidade do grupo foi construída depois da sigla, por escolha política.

2014 e 2015: o banco. Os cinco países assinaram, em Fortaleza, o acordo que criou o NDB; a primeira reunião do Conselho de Governadores foi em 7 de julho de 2015 5. Depois, entraram sócios como Bangladesh, Egito, Emirados Árabes Unidos e Uruguai (2021), Argélia (2024) e Colômbia (2025) 5. O banco é o exemplo mais concreto de cooperação institucional, e a lista de sócios não coincide com a de membros do BRICS.

Julho de 2025: o Rio de Janeiro. Sob presidência brasileira, a cúpula saudou a Indonésia e os dez parceiros e reafirmou a defesa do multilateralismo 2. A declaração diz que os membros "não impõem nem apoiam sanções não autorizadas" pelo Conselho de Segurança da ONU 2.

Setembro de 2026: Nova Délhi. A 18ª cúpula, realizada em Nova Délhi, pediu o máximo de contenção no Oriente Médio sem condenar nominalmente nenhum lado, e criticou tarifas unilaterais sem citar os Estados Unidos 6. Os chanceleres haviam fechado maio de 2026 sem comunicado conjunto, com Irã e Emirados Árabes Unidos em lados opostos do conflito 6. A Al Jazeera cita a ex-diplomata indiana Nirupama Menon Rao, para quem o consenso só foi possível com linguagem bem geral; ainda assim, ela avalia a declaração como um sucesso diplomático relevante 6. A declaração dá apoio pleno à China para a presidência de 2027 e para a 19ª cúpula 7. Na leitura que ela faz, a regra do consenso tem um custo: texto mais genérico quando o grupo é heterogêneo 6.

Críticas e limites

O realismo é uma lente, não a única verdade. Ele ajuda a ver o grupo como instrumento de países que querem mais peso numa ordem que não definiram sozinhos. Mas o BRICS não é uma aliança de defesa, e a própria entrada da Stanford diz que o realismo, quando dogmático, deve ser complementado por normas e multilateralismo 11.

As críticas e os debates mais citados são estes:

  • O termo "Sul Global" é largo demais. Para Stewart Patrick e Alexandra Huggins, do Carnegie Endowment, o rótulo agrupa cerca de 130 países com rendas, regimes políticos e posições geopolíticas muito diferentes. Em paridade de poder de compra, a renda per capita da Malásia é de cerca de US$ 28 mil e a da Zâmbia, de cerca de US$ 3,3 mil; a Índia fica toda no Hemisfério Norte 4. Eles defendem que o termo seja abandonado ou, ao menos, usado com muita cautela 4. O Carnegie é um centro de pesquisa; essa é a opinião dele.
  • A alternativa acadêmica. Martins da Costa e Duarte, do Rio de Janeiro, discutem os limites do conceito e propõem outro, o de "Sul Geopolítico" 3. A crítica também vem de pesquisadores brasileiros.
  • Uso político do termo. Segundo esses autores, quem decide usa a expressão para refletir posições e preferências de países ou de grupos de Estados em relações bilaterais e em organizações multilaterais 3.
  • Divisões internas. A Al Jazeera aponta a guerra na Ucrânia como outra fonte de tensão no grupo, porque a Rússia é membro fundador 6. Irã e Emirados Árabes Unidos estiveram em lados opostos no conflito do Oriente Médio em 2026 6.
  • O peso da China. Como mostra a tabela, uma economia responde por cerca de 62% da soma do PIB dos dez membros listados 9. Quem enxerga o grupo como veículo do Sul Global e quem o enxerga como veículo de um polo específico divergem justamente aqui.

O Brasil neste tabuleiro

O Brasil é membro fundador, presidiu o grupo em 2025 e sediou a cúpula do Rio em julho daquele ano 28. Em 2023, uma ex-presidente brasileira, Dilma Rousseff, passou a presidir o NDB 3. O país também tem uma aspiração concreta: o apoio de China e Rússia ao papel do Brasil na ONU, citado na declaração de 2025 2.

Em comércio, a relação mais pesada é com um único sócio do bloco. Em 2025, o Brasil exportou US$ 100,02 bilhões para a China, de um total de US$ 348,7 bilhões 10. A nova Guerra Fria entre EUA e China, tratada em A nova Guerra Fria entre EUA e China: o que é, de onde vem e o que significa para o Brasil, e o comércio de bens, tratado em Brasil e China: o maior parceiro comercial, ajudam a ler esse número. Este artigo não calcula quanto do comércio brasileiro passa pelo conjunto do BRICS.

Há também um debate sobre até onde ampliar o grupo. Celso Amorim, da Assessoria Especial da Presidência da República, disse, segundo reportagem de fevereiro de 2025, que o bloco não pode se expandir indefinidamente e precisa manter certa coesão para agir de forma concreta 8. A tradição brasileira de buscar autonomia diante das grandes potências aparece em O realismo pensado no Brasil: de Travassos a Fiori, o país lido pelo poder.

Perguntas frequentes

O BRICS é uma organização internacional?

Não no sentido jurídico. Segundo o Ipea, ele não tem documento constitutivo, secretariado fixo nem fundos próprios 1. Existem instituições ligadas a ele, como o Novo Banco de Desenvolvimento, que tem acordo próprio de criação e sede permanente em Xangai 5.

Quais países fazem parte do BRICS hoje?

A resposta depende da fonte e da data. Em julho de 2025, a Declaração do Rio saudou a Indonésia como membro e listou dez parceiros 2. Em 2026, a imprensa cita 11 membros, incluindo a Arábia Saudita 6, mas em 2025 a adesão saudita não estava formalizada 8. Confira a lista da presidência do ano.

O que significa "Sul Global"?

É uma expressão política e acadêmica sem definição única. Segundo Martins da Costa e Duarte, ela reformula termos como "Terceiro Mundo" e "países em desenvolvimento" e cresceu em publicações acadêmicas em inglês a partir de 2004 3. Críticos dizem que ela agrupa países demais, com situações muito diferentes 4.

O Brasil terá vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU por ser do BRICS?

Não há nada nesse sentido nos documentos. A declaração de 2025 diz que China e Rússia, membros permanentes, apoiam as aspirações de Brasil e Índia a um papel mais relevante na ONU, incluindo o Conselho de Segurança 2.

Para fechar

O BRICS é um grupo informal que reúne países com interesses próprios, unidos pela vontade de pesar mais numa ordem internacional que consideram pouco representativa. "Sul Global" é o nome político dessa coalizão e, ao mesmo tempo, um rótulo que pesquisadores questionam. O limite está na heterogeneidade: um grupo com uma economia gigante, membros em lados opostos de conflitos e decisões por consenso, que, na leitura de analistas como Nirupama Menon Rao, só chega a textos de linguagem geral 6. Para o Brasil, ele é um canal de projeção, ao lado de uma relação comercial muito concentrada na China. Veja também Realismo nas Relações Internacionais: o que é, de onde vem e como explica a disputa entre países.

Verbetes do glossário: BRICS

Fontes

  1. Ipea, Fórum BRICS: Conheça os BRICS · consultado em 24/10/2026
  2. Declaração de Líderes do BRICS, Rio de Janeiro, 6 de julho de 2025 (§§ 1, 2, 3, 5, 6, 8, 10, 13 e 14; cópia em PDF hospedada pelo Poder360, sem texto oficial aberto no site do Itamaraty) · consultado em 24/10/2026
  3. Martins da Costa e Duarte, "Global South versus Geopolitical South: a debate on the analytical relevance of the concepts", Austral: Brazilian Journal of Strategy & International Relations, v. 12, n. 24, 2023, p. 13-35 · consultado em 24/10/2026
  4. Stewart Patrick e Alexandra Huggins, Carnegie Endowment for International Peace: The Term "Global South" Is Surging. It Should Be Retired (15/08/2023) · consultado em 24/10/2026
  5. Novo Banco de Desenvolvimento (NDB): história · consultado em 24/10/2026
  6. Al Jazeera: BRICS summit 2026: What are the key takeaways? (13/09/2026) · consultado em 24/10/2026
  7. Governo da China (english.www.gov.cn): BRICS leaders adopt joint declaration at summit in New Delhi (setembro de 2026) · consultado em 24/10/2026
  8. Folha de Pernambuco (Estadão Conteúdo): Arábia Saudita se mantém no Brics mesmo sem formalização (25/02/2025) · consultado em 24/10/2026
  9. FMI, DataMapper (API): PIB nominal (NGDPD), valores de 2025 em bilhões de dólares · consultado em 24/10/2026
  10. Poder360: Balança comercial atinge superávit de US$ 68,3 bi em 2025 (06/01/2026; dados do MDIC) · consultado em 24/10/2026
  11. Stanford Encyclopedia of Philosophy: Realism in International Relations · consultado em 24/10/2026
  12. Companhia das Letras: O mundo pós-ocidental, de Oliver Stuenkel (Zahar, 2018) · consultado em 24/10/2026
  13. Oliver Stuenkel (site do autor): Second edition available (The BRICS and the Future of Global Order, Lexington Books, 2020) · consultado em 24/10/2026
  14. Open Library: Post-Western World: How Emerging Powers Are Remaking Global Order, Oliver Stuenkel (Polity Press, 2016, ISBN 9781509504572) · consultado em 24/10/2026
  15. Oliver Stuenkel (site do autor): Post-Western World: how emerging powers are remaking global order (28/09/2016) · consultado em 24/10/2026

Para ler mais

  • Oliver Stuenkel, The BRICS and the Future of Global Order (2020). Acompanha o BRICS de sigla de investidores a grupo político e pergunta o que isso muda na ordem mundial (2ª edição).
  • Oliver Stuenkel, Post-Western World: How Emerging Powers Are Remaking Global Order (2016). Em português: O mundo pós-ocidental: potências emergentes e a nova ordem global (Zahar, 2018). Argumenta que potências emergentes, sobretudo a China, montam instituições à parte, sem romper com as atuais, e que isso as torna mais independentes.
Brief Brasil

Receba o Brief Brasil todo dia às 7h

O resumo do dia, com a fonte de cada informação. Você confirma o e-mail e pode sair quando quiser.

Como este artigo é feito

Os artigos da Enciclopédia são escritos a partir de fontes oficiais brasileiras (CVM, B3, Banco Central, Tesouro Nacional, Receita Federal) e de livros-texto abertos. Cada número, data, regra e imposto é conferido contra essas fontes antes da publicação. Dados que mudam com o tempo trazem a data. Achou um erro? Escreva para o contato do site.

Conteúdo educativo. Não é recomendação de investimento, nem oferta de compra ou venda de qualquer ativo.

Escrito em 24/10/2026 · checado em 24/10/2026 · versão 9