Hegemonia e potência regional: o que são, de onde vêm e o que explicam
O que é
Hegemonia é, como definição de trabalho deste artigo, a posição de um Estado que lidera um sistema, uma região ou uma aliança e tem peso para influir nas regras e nos comportamentos dos demais. Os autores lidos para o texto dão a esse papel sentidos diferentes: domínio por maximização de poder 1, papel de estabilizador que oferece bens públicos 4 e liderança apoiada no consentimento 2. As seções seguintes mostram cada um.
Potência regional é, também como definição de trabalho, o Estado que pesa mais que os vizinhos numa região específica, sem que isso exija influência no mundo todo. Na pesquisa sobre o Brasil, a distinção aparece como liderança de dentro e de fora da região 5. Na leitura de Mearsheimer, resumida por Mendes, o hegemon regional é o Estado que domina a própria região 9.
Os dois termos não têm definição única. Cada escola das Relações Internacionais, campo que estuda como os Estados se relacionam, usa-os de um jeito. Este artigo mostra as três leituras mais citadas e depois olha para o Brasil.
De onde vem
Uma das reflexões mais antigas sobre o tema é a de Tucídides, historiador grego do século V a.C. Segundo a Stanford Encyclopedia of Philosophy, ele atribui a Guerra do Peloponeso, travada entre Atenas e Esparta de 431 a 404 a.C., ao crescimento do poder de Atenas, que alarmou Esparta 1. No livro I, os atenienses defendem diante dos espartanos que assumiram o comando da aliança por pedido dos aliados e que o manteriam por "medo, honra e interesse" (tradução nossa) 3.
No século XX, a discussão ganhou outros rumos. Robert Gilpin, que teve Charles Kindleberger como mentor, é associado à teoria da estabilidade hegemônica: uma economia mundial liberal precisaria de um estabilizador 4. Segundo a resenha de Javier Vadell, esse papel inclui oferecer bens públicos internacionais, como ordem liberal, segurança, sistema monetário estável e credor de última instância 4.
Outro caminho vem do pensador italiano Antonio Gramsci, que escreveu seus Cadernos do Cárcere entre 1929 e 1935 2. Para ele, a hegemonia de uma classe se apoia mais no consentimento da sociedade que na força, com a coerção como reserva 2. A Stanford registra que os conceitos de Gramsci foram depois estendidos às Relações Internacionais e cita, como exemplo, a obra organizada por Stephen Gill (1993) 2.
Por fim, John Mearsheimer, em The Tragedy of Great Power Politics (2001), propôs o realismo ofensivo: os Estados poderosos procuram maximizar poder e dominar os outros 110.
Como funciona o argumento
Cada tradição explica de forma diferente como a hegemonia nasce e se sustenta.
- Pela força e pelo medo (realismo). Num sistema sem autoridade acima dos Estados, quem é mais forte tende a usar essa vantagem para garantir a segurança e a influência. Segundo o estudo de Flávio Mendes sobre o realismo ofensivo, Mearsheimer vê a hegemonia global como fora de alcance, em parte pelo efeito debilitante dos oceanos sobre a projeção de força. Por isso espera que as grandes potências tentem dominar a própria região. Quem consegue pode enviar forças a outra região para ajudar potências locais mais fracas a conter um candidato a hegemon, o que o texto chama de offshore balancing (equilíbrio a distância) 9.
- Pelos bens públicos (estabilidade hegemônica). O hegemon arca com custos, como manter o comércio aberto e uma moeda de referência, e os outros usufruem 4. O argumento é econômico, mas Gilpin o liga à política: a economia mundial precisa de sustentação política das potências mais fortes 4.
- Pelo consentimento (Gramsci). A liderança dura mais quando os liderados aceitam a ordem como legítima. A força fica de reserva 2.
- A região como escala. A noção de potência regional parte da ideia de que o poder se distribui de modo desigual pelo espaço. Pinheiro e Gaio distinguem dois tipos de liderança regional: a de dentro, que é a capacidade de definir regras e padrões de comportamento na região, e a de fora, que é levar os parceiros regionais a apoiar posições em temas globais 5.
Importante: são modelos para organizar a leitura. Nenhum deles é lei da história, e um mesmo caso pode ser lido por mais de um deles.
Exemplos na história
Atenas e a Liga de Delos (século V a.C.). Para os atenienses, no relato de Tucídides, o comando da aliança nasceu da disposição dos aliados e foi se tornando império quando a saída deixou de ser segura 3. Em 416 a.C., no episódio da ilha de Melos, o historiador põe na boca dos atenienses a frase de que "os fortes fazem o que podem e os fracos sofrem o que devem" (tradução nossa) 3. A Stanford lê o episódio como ilustração de que poder sem freio alimenta o desejo de mais poder 1. A fala é a de uma das partes, e o historiador a apresenta como discurso, não como lei.
A economia mundial depois da Guerra Fria. Na leitura de Gilpin, resumida por Vadell, uma economia liberal estável pede uma potência que a sustente. Em livro de 2000, Gilpin duvida que os Estados Unidos possam continuar sozinhos nessa função depois da Guerra Fria. Segundo a resenha, ganham força a União Europeia e o Japão, e o autor apela à cooperação entre as principais potências econômicas 4. Para as duas facetas do dólar nessa ordem, veja O dólar como poder e as sanções: como uma moeda vira instrumento de política entre países.
A hegemonia dos EUA no continente americano. Segundo Mendes, no século XIX os Estados Unidos buscaram a hegemonia regional no hemisfério ocidental. Depois teriam atuado como offshore balancer nas duas guerras mundiais, quando a Alemanha tentou a hegemonia europeia, e na Guerra Fria, para impedir que a União Soviética conquistasse a Eurásia 9. Essa é uma leitura realista. Sobre a Doutrina Monroe, que tem papel nessa história, veja Brasil, EUA e a Doutrina Monroe: o que é, de onde vem e o lugar do Brasil.
Críticas e limites
O realismo é uma lente, não a única explicação. As objeções a esses conceitos são variadas:
- Imprecisão do termo. As três leituras acima mostram sentidos diferentes: força 1, bens públicos 4 e consentimento 2. A comparação é deste artigo, não de uma das fontes, e ajuda a ver por que é difícil dizer quem "é" hegemon num dado momento.
- Anomalias na teoria realista ofensiva. Mendes chama de anomalia, para o realismo ofensivo, a presença militar americana na Europa, e lembra que o trabalho de Diniz sobre a unipolaridade exigiu adaptações significativas da teoria 9.
- A água como barreira. Mendes cita a objeção de Christopher Layne: se o poder de contenção da água é real, por que um hegemon regional se importaria com a existência de outros hegemons em outras regiões? 9
- Escolas rivais. Para o liberalismo institucional (Robert Keohane, 1989), a cooperação econômica pode ampliar a percepção que os Estados têm do próprio interesse 1. Para o construtivismo (Alexander Wendt), a anarquia é o que os Estados fazem dela 1.
- Consentimento e sua medida. A ideia gramsciana de que a hegemonia se apoia no consentimento é discutida por quem a aplica às Relações Internacionais, e a Stanford registra que os conceitos foram estendidos a esse campo por autores posteriores 2. Os textos lidos não trazem um método para medir esse consentimento entre Estados.
O Brasil neste tabuleiro
Os números. O Brasil tem território de cerca de 8,5 milhões de km², litoral de aproximadamente 7.500 km e mais de 17.000 km de fronteira terrestre com nove países e com a Guiana Francesa, segundo o texto da Política Nacional de Defesa (PND) de 2020 6. Há versão posterior da PND, aprovada pelo Senado em 11 de junho de 2025 11, que não foi lida aqui; confira os números no texto vigente. Em 2023, o PIB brasileiro era de US$ 2,19 trilhões, cerca de 32% do da América Latina e Caribe (US$ 6,91 trilhões) 7. A população era de 211,1 milhões, também cerca de 32% da regional (657,6 milhões) 8. A comparação usa a região do Banco Mundial, que inclui o México e o Caribe; não é só a América do Sul.
O que o governo brasileiro disse de si em 2020. A PND de 2020 define como área de interesse prioritário o "entorno estratégico", que inclui a América do Sul, o Atlântico Sul, os países da costa ocidental africana e a Antártica (item 2.1.6) 6. O documento diz que o Brasil deve almejar uma inserção crescente no cenário internacional e maior representatividade nas decisões (item 2.2.2) 6. No plano regional, afirma que a convergência de interesses favorece a cooperação entre sul-americanos (item 2.3.9), mas lembra que é preciso considerar a possibilidade de tensões e crises no entorno (item 2.3.10) 6. Esses itens são do texto de 2020. A versão atualizada de 2025, enviada ao Congresso como Mensagem CN 2/2024, não pôde ser aberta aqui, e a matéria do Senado não detalha o que mudou 11. Os itens acima, portanto, não devem ser lidos como a posição atual do governo.
O que a pesquisa acadêmica diz. Pinheiro e Gaio analisaram o governo Lula (2003-2010). Concluem que o Brasil exerceu liderança de dentro da região, sobretudo como "líder de desenvolvimento", por linhas de crédito do BNDES para obras de infraestrutura, muitas feitas por empresas brasileiras, e por cooperação técnica em saúde e agricultura 5. Os autores registram críticas a essas políticas: a intervenção do Estado na economia, o favorecimento de poucas empresas, os impactos sociais e ambientais e acusações de comportamento imperialista 5. A liderança de fora, porém, não veio: a Argentina não apoiou o assento permanente brasileiro no Conselho de Segurança da ONU, e o Mercosul não apoiou a candidatura à direção-geral da OMC, em 2009 5. Os autores dizem que o Brasil buscou projeção global por coalizões como IBSA, BRICS e G4, e não pela região 5. Veja O pleito por um assento permanente no Conselho de Segurança e Mercosul e a integração da América do Sul: origem, regras, impasses e o papel do Brasil.
O debate. Falar em "potência regional" para o Brasil é uma descrição aceita por alguns e contestada por outros. A análise de Pinheiro e Gaio vale para um período e um governo, e outras épocas e outros autores chegam a conclusões diferentes. Este artigo não toma partido. Para o conjunto do tema, veja A inserção do Brasil no mundo: trunfos e limites.
Perguntas frequentes
Hegemonia é o mesmo que império?
Nem sempre se distinguem. Na fala dos atenienses, em Tucídides, o comando da aliança e o império se confundem, e o texto usa a palavra "império" para ele 3. Nas leituras de Gilpin 4 e de Gramsci 2, a hegemonia envolve sustentação econômica ou consentimento, e não só domínio direto. Essa diferença é uma leitura deste artigo sobre as fontes, não uma definição consagrada.
Quem é o hegemon hoje?
Depende da definição. Pelo critério de Mearsheimer, resumido por Mendes, a hegemonia global está fora de alcance e as grandes potências buscam a regional; os EUA são lidos como hegemon regional no hemisfério ocidental 9. Outros autores discutem se a ordem liderada pelos EUA continua de pé 14. Veja A nova Guerra Fria entre EUA e China: o que é, de onde vem e o que significa para o Brasil.
O que diferencia potência regional de grande potência?
A grande potência tem alcance e capacidades que atingem várias regiões. A potência regional pesa sobretudo em sua vizinhança. Na pesquisa sobre o Brasil, a distinção aparece como liderança de dentro e de fora da região 5.
O Brasil é uma potência regional?
Segundo o trabalho de Pinheiro e Gaio, o país exerceu liderança dentro da América do Sul no governo Lula, mas sem converter isso em apoio regional a suas ambições globais 5. A resposta muda conforme o período e o critério.
A teoria da estabilidade hegemônica é aceita por todos?
Não. Ela é uma entre várias explicações. Na resenha de Vadell, o próprio Gilpin duvida que os EUA possam liderar sozinhos depois da Guerra Fria 4.
Para fechar
Hegemonia e potência regional descrevem o mesmo problema em escalas diferentes: quem lidera e por que os outros aceitam, ou não. Tucídides põe o medo e o interesse no centro; Gilpin, os bens públicos; Gramsci, o consentimento. Cada lente ilumina uma parte e deixa outra no escuro. No caso brasileiro, os dados de território, população e economia contam uma parte da história, e a pesquisa mostra que liderar a vizinhança e liderar no mundo são coisas distintas. Para a lógica das alianças, veja Equilíbrio de poder: o que é, de onde vem e o que explica.
Fontes
- Stanford Encyclopedia of Philosophy: Realism in International Relations · consultado em 24/10/2026
- Stanford Encyclopedia of Philosophy: Antonio Gramsci, seções 3 e 4 · consultado em 24/10/2026
- Tucídides, History of the Peloponnesian War (trad. inglesa de Richard Crawley), livro I, cap. III, e livro V, cap. XVII, Project Gutenberg, ebook 7142 · consultado em 24/10/2026
- Javier Alberto Vadell, resenha de O desafio do capitalismo global, de Robert Gilpin, Revista Brasileira de Política Internacional, v. 48, n. 2, 2005 · consultado em 24/10/2026
- Leticia Pinheiro e Gabrieli Gaio, Cooperation for Development, Brazilian Regional Leadership and Global Protagonism, Brazilian Political Science Review, v. 8, n. 2, 2014 · consultado em 24/10/2026
- Ministério da Defesa, Política Nacional de Defesa e Estratégia Nacional de Defesa, texto de 2020 (arquivo no site do Ministério; lidos: PND, itens 2.1.6, 2.2.2, 2.3.8 a 2.3.10). Há versão atualizada, de 2025 [11], que não foi lida · consultado em 24/10/2026
- Banco Mundial, API de dados: PIB (US$ correntes, NY.GDP.MKTP.CD), Brasil e América Latina e Caribe, 2023 (atualizado em 08/10/2026) · consultado em 24/10/2026
- Banco Mundial, API de dados: população total (SP.POP.TOTL), Brasil e América Latina e Caribe, 2023 (atualizado em 08/10/2026) · consultado em 24/10/2026
- Flávio Pedroso Mendes, The epistemology of international politics: offensive realism and the Neorealist Scientific Research Program, Revista Brasileira de Política Internacional, v. 65, n. 2, 2022 (DOI 10.1590/0034-7329202200225) · consultado em 24/10/2026
- Biblioteca da União Africana (catálogo): The tragedy of great power politics, J. J. Mearsheimer, Norton, 2001 · consultado em 24/10/2026
- Agência Senado: Senado aprova atualização da Política e da Estratégia Nacional de Defesa (11/06/2025; PDL 725/2024, Mensagem CN 2/2024) · consultado em 24/10/2026
Para ler mais
- Tucídides, Ἱστορίαι (-400). Em português: História da Guerra do Peloponeso. Relata a guerra entre Atenas e Esparta e traz os discursos em que os próprios atenienses explicam por que mantêm seu império.
- John J. Mearsheimer, The Tragedy of Great Power Politics (2001). Defende que as grandes potências buscam a hegemonia em sua própria região e tentam impedir que outras a alcancem nas suas.
- Robert Gilpin, The Challenge of Global Capitalism: The World Economy in the 21st Century (2000). Em português: O desafio do capitalismo global. Discute por que uma economia mundial aberta, na visão do autor, precisa de uma potência dominante que lhe dê sustentação política.
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Escrito em 24/10/2026 · checado em 24/10/2026 · versão 3