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Rússia e a guerra na Ucrânia: origens, atores e o que o realismo e seus críticos dizem

O que é

A guerra na Ucrânia é o conflito armado entre a Federação Russa e a Ucrânia. O ponto de virada foi 24 de fevereiro de 2022, quando o presidente russo, Vladimir Putin, anunciou em discurso televisionado uma "operação militar especial" e as forças russas entraram na Ucrânia 67. A Assembleia Geral da ONU deu ao ato outro nome: a resolução ES-11/1 tem o título oficial "Aggression against Ukraine" (agressão contra a Ucrânia) 9.

Os nomes já mostram que há disputa sobre os fatos e sobre o direito. Este artigo descreve o que cada lado afirma, o que os órgãos da ONU decidiram e como a lente do realismo explica o caso. O realismo é a corrente das Relações Internacionais para a qual os Estados disputam poder e segurança num sistema sem governo acima deles 1. A lente está explicada em Realismo nas Relações Internacionais: o que é, de onde vem e como explica a disputa entre países.

O texto não toma partido de país nem de governo. Usa os nomes oficiais dos Estados e atribui cada versão a quem a sustenta.

De onde vem

A guerra tem raízes anteriores a 2022. Quatro marcos ajudam a ordenar a história.

1994: o Memorando de Budapeste. Em 5 de dezembro de 1994, Rússia, Estados Unidos e Reino Unido reafirmaram o compromisso de "respect the independence and sovereignty and the existing borders of Ukraine" e de não ameaçar nem usar a força contra a integridade territorial ucraniana 3. O memorando também previu consultas caso surgisse dúvida sobre esses compromissos 3.

2008: a cúpula de Bucareste. Em 3 de abril de 2008, a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte, aliança militar liderada pelos EUA) declarou: "these countries will become members of NATO", referindo-se a Ucrânia e Geórgia. Os dois países receberam apoio ao pedido de um Plano de Ação para a Adesão, etapa preparatória, a ser avaliada pelos ministros do exterior em dezembro de 2008 4.

2014: Crimeia. Em 27 de março de 2014, a Assembleia Geral da ONU aprovou a resolução 68/262, que reafirmou a integridade territorial da Ucrânia e declarou inválido o referendo da Crimeia 5. A resolução não é vinculante 5. O placar dessa votação não é dado aqui porque o registro oficial da ONU não pôde ser aberto na hora da redação.

2022: a escalada. Em 24 de fevereiro de 2022, Putin citou como razões a expansão da OTAN para o leste, a proteção da população do Donbas e o reconhecimento das repúblicas separatistas de Donetsk e Luhansk. Disse que buscaria "demilitarise and denazify Ukraine" e invocou o artigo 51 da Carta da ONU, que trata de legítima defesa 67.

Como funciona o argumento

O argumento realista parte de três premissas: não há autoridade acima dos Estados, os Estados desconfiam das intenções uns dos outros e a segurança vem do próprio poder 1. Daí vem o dilema de segurança: o que um Estado faz para se defender parece ameaça para o vizinho, que reage e piora a insegurança de todos. O tema é tratado em Dilema de segurança: o que é, de onde vem e como funciona e Anarquia internacional e autoajuda: o que são, de onde vêm e o que explicam.

Aplicada à Ucrânia, a leitura realista mais conhecida segue estes passos:

  1. A Rússia vê um Estado vizinho, grande e na sua fronteira, como zona de segurança própria.
  2. A perspectiva de a Ucrânia entrar na OTAN, reconhecida em 2008 4, seria vista em Moscou como ameaça.
  3. Por isso, o uso da força seria uma reação a uma ameaça, e não um desejo de expansão.

Essa é uma leitura realista, associada ao professor americano John Mearsheimer, cuja teoria, o realismo ofensivo, sustenta que grandes potências buscam o máximo de poder 1. Smith e Dawson analisam a guerra a partir dessa teoria e discutem seus limites 11. Vale como uma leitura, não como consenso.

Dois pontos de método: o argumento explica o incentivo de um Estado, não decide quem tem razão no plano jurídico; e a Carta da ONU manda os membros evitarem "a ameaça ou o uso da força" contra a integridade territorial de outro Estado (art. 2, § 4; tradução nossa do trecho) 2.

Exemplos na história

O Memorando de Budapeste (1994). O texto prometia respeito às fronteiras ucranianas, mas o texto não prevê obrigação de defesa militar. Previa consultas e, em caso de agressão ou ameaça de agressão com armas nucleares, a busca de ação no Conselho de Segurança da ONU 3. O caso mostra a distância entre promessa política e garantia.

Crimeia e Donbas (2014). A resolução 68/262 mostra que a Assembleia Geral tratou o referendo da Crimeia como inválido, mas, sendo uma recomendação, não obrigou ninguém 5.

A votação de março de 2022. Em 2 de março de 2022, a Assembleia Geral aprovou a resolução ES-11/1 com 141 votos a favor, 5 contra e 35 abstenções 9. Votaram contra Belarus, Eritreia, Coreia do Norte, Rússia e Síria 9. O texto exigiu que a Rússia cesse imediatamente o uso da força e retire todas as suas forças do território ucraniano 917. O presidente da Assembleia, em fala no mesmo dia, reiterou o apelo a um cessar-fogo imediato e ao acesso humanitário 8. A resolução também exigiu que a Rússia revertesse sua decisão de 21 de fevereiro sobre o status de áreas das regiões de Donetsk e Luhansk 9.

Críticas e limites

O realismo é uma lente, não a única verdade. Os debates principais:

  • Dentro do próprio realismo. Smith e Dawson sustentam que o realismo ofensivo é só uma das teorias realistas capazes de explicar a guerra e que o realismo clássico e o neoclássico dão explicações mais matizadas sobre a decisão de Putin, ao incorporar ideias como civilização e segurança ontológica (a necessidade de um Estado de manter uma identidade estável) 11.
  • Liberalismo. Keohane e Nye propuseram a interdependência complexa; em trabalhos posteriores, Keohane diz que a cooperação e as instituições ampliam a percepção do interesse próprio dos Estados 1. Para essa escola, as normas e as instituições importam para o comportamento dos Estados, ao lado do poder.
  • Construtivismo. Alexander Wendt afirma que a autoajuda não decorre logicamente da anarquia e que identidades e ideias pesam 1. Isso abre espaço para estudar como russos e ucranianos entendem a si mesmos e à história.
  • A versão do governo russo e as respostas a ela. Moscou apresenta a ação como defesa diante da OTAN e proteção do Donbas 6. Os críticos respondem com três pontos. A Ucrânia não era membro da OTAN: em 2008 a aliança dizia que ela "se tornaria" membro, no futuro 4. O artigo 51 da Carta protege o direito de legítima defesa de um Estado-membro que sofre ataque armado 18, e juristas citados em 7 contestam que ele se aplique ao caso. Quanto ao genocídio alegado por Moscou, a Corte Internacional de Justiça (CIJ) disse, em ordem de 16 de março de 2022, não ter provas que o sustentassem naquela etapa do processo, e mandou a Rússia suspender as operações militares, por 13 votos a 2 19. A ordem é uma medida provisória e não decide o mérito do caso.
  • Limite do método. Nenhuma teoria prevê o desfecho. Em 1979, Waltz julgou a ordem bipolar provável de persistir, e isso não ocorreu 1.

O Brasil neste tabuleiro

O Brasil votou a favor da resolução de março de 2022; na ocasião, seu embaixador na ONU disse que soluções duradouras só virão pela negociação 17. A tradição diplomática brasileira de autonomia diante das potências está no artigo A tradição do Itamaraty: pragmatismo e não alinhamento; este texto não avalia a posição do governo brasileiro depois de 2022.

Há também um vínculo econômico. De janeiro a outubro de 2025, a China enviou 9,76 milhões de toneladas de fertilizantes ao Brasil e a Rússia, 9,72 milhões, segundo o boletim da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) 13. O boletim não informa a fonte primária dos números, e a série oficial está no Comex Stat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. O assunto se liga a Agronegócio como trunfo geopolítico: o que é, como funciona o argumento e quais são os limites.

O estado da guerra e dos gastos

Em abril de 2026, o SIPRI (instituto sueco de pesquisa sobre paz) estimou o gasto militar da Rússia em 2025 em US$ 190 bilhões, alta de 5,9%, ou 7,5% do PIB (Produto Interno Bruto). Para a Ucrânia, estimou US$ 84,1 bilhões, alta de 20%, o equivalente a 40% do PIB e 63% do gasto do governo 10. A Europa somou US$ 864 bilhões, alta de 14% 10. Em 2025, a Ucrânia recebeu US$ 52,2 bilhões em apoio de parceiros 10.

Em 23 de outubro de 2026, o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, informou que negociações diretas, mediadas pelos EUA, estavam previstas para a primeira quinzena de novembro, em Abu Dhabi. As conversas estavam paralisadas desde o início do ano. Putin afirmou que o objetivo deve ser um acordo definitivo, e não uma pausa curta. Os dois lados seguiam realizando ataques 12. Datas e posições podem mudar; confira a fonte.

Perguntas frequentes

Quando começou a guerra na Ucrânia?

Em larga escala, em 24 de fevereiro de 2022 67. Antes disso, em 27 de março de 2014, a Assembleia Geral da ONU declarou inválido o referendo da Crimeia e reafirmou a integridade territorial da Ucrânia (contexto em 5).

O que a ONU decidiu sobre a guerra?

Em 2 de março de 2022, a Assembleia Geral aprovou a resolução ES-11/1 por 141 votos a 5, com 35 abstenções 9. Ela exige que a Rússia cesse o uso da força e retire suas forças 917. Resoluções da Assembleia Geral não são vinculantes 5.

A expansão da OTAN causou a guerra?

Há leituras diferentes. A realista, associada a Mearsheimer, dá peso à perspectiva de adesão ucraniana à aliança 411. Outros autores realistas apontam fatores como identidade e civilização 11; Edinger destaca o receio de Putin com a estabilidade do próprio regime, um fator interno 16. Críticos lembram que a Ucrânia não era membro da aliança em 2022 4. Este artigo não escolhe uma.

O Brasil tem posição na guerra?

Votou a favor da resolução da ONU de 2022 17. A Rússia é grande fornecedora de fertilizantes ao Brasil 13.

Há negociações de paz em curso?

Em 23 de outubro de 2026, o Kremlin anunciou conversas para a primeira quinzena de novembro, em Abu Dhabi, mediadas pelos EUA. Putin afirmou que o objetivo deve ser um acordo definitivo, Zelensky apoiou a iniciativa e os ataques continuavam 12.

Para fechar

A guerra na Ucrânia combina disputa de poder, memória histórica e direito internacional, e cada lente enfatiza uma parte. O realismo ajuda a perguntar quem teme quem; seus críticos lembram que os Estados também são movidos por identidade, normas e escolhas internas. Para o Brasil, a questão prática é como conviver com os dois lados. Veja também Equilíbrio de poder: o que é, de onde vem e o que explica e Brzezinski e o grande tabuleiro de xadrez: o que é, de onde vem e quais são seus limites.

Fontes

  1. Stanford Encyclopedia of Philosophy: Realism in International Relations · consultado em 24/10/2026
  2. Organização das Nações Unidas, Carta da ONU, Capítulo I (art. 2, § 4) · consultado em 24/10/2026
  3. Memorando de Budapeste sobre garantias de segurança, 5 de dezembro de 1994 (texto no Wikisource) · consultado em 24/10/2026
  4. OTAN: Declaração da Cúpula de Bucareste, 3 de abril de 2008 · consultado em 24/10/2026
  5. Wikipédia: United Nations General Assembly Resolution 68/262 (apenas contexto; sem números de votação) · consultado em 24/10/2026
  6. Wikisource: Address by the President of the Russian Federation on conducting a special military operation (discurso de 24/02/2022) · consultado em 24/10/2026
  7. Wikipédia: Putin's invasion of Ukraine speech (contexto e contestações do discurso) · consultado em 24/10/2026
  8. ONU, Assembleia Geral: briefing do porta-voz de 2 de março de 2022 (resolução ES-11/1) · consultado em 24/10/2026
  9. ONU, comunicado de imprensa GA/12407: Assembleia Geral adota resolução ES-11/1 "Aggression against Ukraine" (2 de março de 2022) · consultado em 24/10/2026
  10. SIPRI Fact Sheet: Trends in World Military Expenditure, 2025 (abril de 2026) · consultado em 24/10/2026
  11. Nicholas Ross Smith e Grant Dawson, "Mearsheimer, Realism, and the Ukraine War", Analyse & Kritik, v. 44, n. 2, 2022, p. 175-200, DOI 10.1515/auk-2022-2023 (resumo) · consultado em 24/10/2026
  12. O Tempo (AFP): Rússia prevê negociações com a Ucrânia mediadas pelos EUA em novembro (23/10/2026) · consultado em 24/10/2026
  13. CNA: Boletim Insumos aponta China na liderança de vendas de fertilizantes para o Brasil (02/12/2025) · consultado em 24/10/2026
  14. Biblioteca da União Africana (catálogo): The tragedy of great power politics, J. J. Mearsheimer, Norton, 2001 · consultado em 24/10/2026
  15. Open Library: Russo-Ukrainian War: The Return of History (W. W. Norton, 2023, ISBN 9781324051190); autor e título conferidos em Publishers Weekly · consultado em 24/10/2026
  16. Harald Edinger, "Offensive ideas: structural realism, classical realism and Putin's war on Ukraine", International Affairs, v. 98, n. 6, 2022 · consultado em 24/10/2026
  17. UNRIC (Centro Regional de Informação da ONU): Assembleia Geral repudia ofensiva militar da Rússia à Ucrânia (2022) · consultado em 24/10/2026
  18. ONU, Carta da ONU, Capítulo VII (art. 51) · consultado em 24/10/2026
  19. ASIL Insights: ICJ Delivers Order in Ukraine v. Russia Case (ordem de 16 de março de 2022, Corte Internacional de Justiça; a ordem em si não abriu por erro 403) · consultado em 24/10/2026
  20. Global Thucydides, Ca' Foscari (catálogo): Tucídides, História da Guerra do Peloponeso, trad. Mário da Gama Kury, Brasília, Editora Universidade de Brasília, 1982 · consultado em 24/10/2026
  21. Rede de bibliotecas (catálogo RIBAC): A guerra russo-ucraniana, Serhii Plokhy, Presença, 2023, ISBN 9789722372121 · consultado em 24/10/2026

Para ler mais

  • John J. Mearsheimer, The Tragedy of Great Power Politics (2001). Expõe o realismo ofensivo, a teoria em que grandes potências buscam o máximo de poder.
  • Serhii Plokhy, The Russo-Ukrainian War: The Return of History (2023). Em português: A guerra russo-ucraniana (edição portuguesa, Presença, 2023). Conta a guerra e suas raízes históricas.
  • Tucídides, História da Guerra do Peloponeso (c. 400 a.C.). Em português: História da Guerra do Peloponeso (tradução de Mário da Gama Kury, Editora Universidade de Brasília, 1982). Narra o conflito entre Atenas e Esparta, referência clássica para pensar o medo, a honra e o interesse como causas de guerra.
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Escrito em 24/10/2026 · checado em 24/10/2026 · versão 4